terça-feira, março 29, 2011

Estás aí, Manuel?!

Estás aí?!

Pergunto eu baixinho com medo de acordar a lua e precipitar a resposta. Conheço bem o eco da minha voz no silêncio da noite. Abro as portas da varanda em par e repito a pergunta numa teimosia que serve apenas para manter viva a esperança da resposta...


Estás aí?!

Sussurro, articulo as palavras sem deixar sair o som, não quero assustar as estrelas. Sei da cumplicidade da noite e é nela que me envolvo enquanto a minha voz, em silêncio, percorre as ruas até chegar ao Tejo. As luzes reflectem-me nas águas que se agitam em pequenas ondulações e espalham a pergunta até à outra margem.


Estás aí?!... Estás aí?!...

Desde as esquinas apertadas de Alfama até às muralhas altas do Castelo, a brisa embala a minha voz e semeia nas pedras da calçada a pergunta feita em silêncio. O eco de uma árvore acorda as estrelas no escuro da noite e, cúmplices também, replicam em código Morse pelos céus...


Estás aí?!

Encosto-me na varanda banhada pelo luar e escuto a cidade que te chama comigo. Em todas as ruas os candeeiros esforçam-se por iluminar a esperança, e as árvores abanam os seus ramos enquanto perguntam às flores dos canteiros se sabem de ti. A madrugada acalma o silêncio em que a cidade cantava encoberta pela noite e, aos poucos, as águas do Tejo pintam-se de azul em sinal de um novo dia que nasce.


Na varanda, espreguiço-me e acordo de um sonho agitado. Volto para dentro e, enquanto fecho as portas de vidro, avisto na outra margem uma gaivota que parece perguntar...


Estás aí?!

Liliana Jan/2009


"Há muito tempo

era uma vez

um homem que se perdeu

da sua amada

e vagueou

por entre as nuvens do céu.

Perguntou

à mais pequenina

se a tinha visto ao passar

depois à nuvem

mais carregada

nenhuma o podia ajudar.

E assim passou tanto tempo

tecendo mil planos

em fios de algodão

que se desvaneciam

em nuvens no seu coração.

Todas as nuvens

da sua rua

foram à sua janela

escureceu, adormeceu

ficou a sonhar com ela.

E o mau tempo passou

o sol despontou

numa festa de cor

de manhã todas as flores

sabiam de cor

onde estava o seu amor."


"Pelas Nuvens" de Manuel Paulo

(interpretado por Graça Reis, no álbum Assobio da Cobra)

segunda-feira, março 28, 2011

Anda ver o mar...

Abrem-se as janelas e o oceano inteiro derrete, alagando todos os quartos e salas, separando cada um dos outros, criando um abismo líquido entre mim e todos. Apresso-me a fechar as persianas lutando com a força das lágrimas que teimam em cair e encharcar o meu barco que, de repente, se vê à deriva sem terra à vista ou olhos de consolação.

Na verdade, sempre que finalmente ganho coragem e abro o baú, mais cedo ou mais tarde a água enche as janelas, galga os diques e afasta quem me rodeia. Não há nada pior que um oceano alheio que molha as nossas ideias, inunda a dispensa e põe em causa os nossas seguranças.

Mas também é verdade que, no mar que tenho em mim, vivem peixes e corais e conchas e areia molhada onde construir castelos e um mundo inteiro de oportunidades para descobrir, se mergulhando alguém perder o medo.

Sabes lá tu, que me lês nestes pequenos salpicos que deixo pingar, o quanto mar tenho ainda por navegar. E se, ao olhares para o texto te parecer ver apenas um poço, não estranhes, dentro dele está toda a água do mundo, falta-me apenas perceber como chegar a ela...

Liliana

sexta-feira, março 25, 2011

Depois...

Depois... há pequenas flores que despontam aqui e ali pelo deserto árido.
Há um sorriso que se abre ao fundo, ao mesmo tempo que o um fio de sol raia.

Depois... há uma criança a brincar na areia molhada.
Uma rua envolta em árvores altas recortando um enorme arco.

Depois... há uma mão que toca e diz "está tudo bem".
Há uma borboleta colorida que esvoassa por entre as papoilas vermelho-vivo dos campos.

Depois... há uma canção que embala a dor reencontra a paz dum colo esquecido.
Um baloiço que dança entre o sonho e o futuro.

Depois há a certeza que amanhã o sol nascerá de novo e depois se seguirá a lua...

Liliana

quarta-feira, março 23, 2011

Dias maus...

Nos dias maus luto comigo própria dentro duma arena que só eu vejo sinto e conheço. Luto contra mim enquanto visto os miúdos, no balcão enquanto tomo café, ao telefone, ao volante do carro até ao escritório. Luto por mim, por algo que desconheço mas que se me adivinha mais tranquilo, mais calmo e mais feliz. E arrasto este campo de batalha como uma granada prestes a explodir.

Nos dias maus, perco-me neste cenário interno e, por vezes, espelho-o para fora. Ocupo o espaço vazio com esta guerrilha encoberta, que me deixa esgotada e insegura. Ocupo o espaço vago, o meu, o teu, o nosso. Esgoto o tempo livre com os meus medos, os meus fantasmas, as guerras que são só minhas mas que deixo sair pelas rachas e brechas das paredes enquanto, sem me dar conta, asfixias sem ar e sem espaço...

Espero conseguir parar esta luta que se debate no mais fundo de mim.

Espero conter os estrondos internos que não conseguir parar.

Espero saber soltar o tempo e desocupar o espaço que precisas para respirar.

Espero aprender a viver nesse espaço e com esse tempo, mesmo nos dias maus, sem medo de... viver.

Liliana

terça-feira, março 22, 2011

Empresta-me os teus olhos...


De onde vem esta solidão que invade a rua em hora de ponta como uma sombra que se vai espalhando e apagando todos os que me rodeiam?
Porque me enche o peito esta mágoa que aparece sem aviso e, num segundo, me embrulha o coração num papel feito de medos que me afastam do mundo e dos outros?
De onde vem esta inquietação marcada a fogo na carne que não me deixa encostar a cabeça e, simplesmente apreciar as estrelas no céu?
Porque não consigo atirar-me do baloiço quando me chamas de braços abertos, pronto para me agarrar?
De onde aparecem estes fantasmas, formas disformes que me perseguem pelo corredor quando apago as luzes?
Porque não consigo apenas viver, saltitar pelos campos, dançar na areia ou cantar com o mar?
Porque não consigo apenas olhar o mundo com os teus olhos de rir e chorar, mas sempre de amar?...
Liliana


segunda-feira, março 21, 2011

Ó mar salgado....

Diz ao mar que pare de balançar o barco
Pede às ondas que não me desequilibrem no caminho
Convence o vento a soprar de mansinho
Que a minha rota é marítima e é difícil dobrar, da boa esperança, o cabo


A maré que me ameaça não vem da lua nem do sol
vem com a força da inquietação que em mim se faz onda e rebentação
Ah! Soubera eu acalmar esta corrente e, juro, nadaria até à beira-mar
correria pela areia e brincaria nas pequenas ondas da maré vazia


Diz ao mar que me embale o meu canto
Pede às ondas que me afaguem o cabelo
Convence o vento a enrolar-me, dançando
Que nesta rota marítima é em ti que me encanto


Sopram, decididos, os medos do vento norte
Eu, parada, não grito ao mar... nunca lhe soube falar
E o barco agita-se, desce e sobe por entre vagas de amor e morte
enquanto canto à lua para que, em sonhos, me venhas salvar


Diz ao mar que acalme estes medos
Pede às ondas que não espalhem meus segredos
Convence o vento às minhas velas soprar
para esta rota marítima em teu porto atracar

Liliana


domingo, março 20, 2011

Pelo que esperas Chico?


Há uma hora em que os ponteiros deixam de contar o tempo do meu tempo. Sais, e contigo saem as horas, os dias, os minutos, que te seguem até ser tempo de voltares.

Todas as vidas têm tempos distintos. Tempo de sonhar, tempo de avançar, tempo de mudar, tempo de esperar. Eu espero o tempo em que o relógio das marés recomeça a andar. A lua força as ondas para que rebentem ora tímidas ora estrondosas na areia que vai escorrendo pela ampulheta até chegar o último grão. Tempo que me foge pelas mão por muito que o tente agarrar.

Há uma hora em que, podia jurar, todos os relógios do mundo se recusam a seguir viagem. O tempo pára quando te afastas. A lua, enregela e deixa de chamar o mar que pára a corrente, transformando o oceano num enorme mar morto.

Todas as vidas têm tempos diferentes, cíclicos, que se sucedem com o passar dos dias. Eu espero pelo tempo em que o mar se balança num suspiro e se espalha, dançando, enquanto se mistura com a areia...
Liliana


"Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
Pedro pedreiro fica assim pensando

Assim pensando o tempo passa e a gente vai ficando prá trás
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol esperando o trem, esperando aumento desde o ano passado para o mês que vem

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
Pedro pedreiro espera o carnaval

E a sorte grande do bilhete pela federal todo mês
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
Esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem
Esperando a festa, esperando a sorte
E a mulher de Pedro, esperando um filho prá esperar também

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém

Pedro pedreiro tá esperando a morte
Ou esperando o dia de voltar pro Norte
Pedro não sabe mas talvez no fundo espere alguma coisa mais linda que o mundo
Maior do que o mar, mas prá que sonhar se dá o desespero de esperar demais
Pedro pedreiro quer voltar atrás, quer ser pedreiro pobre e nada mais, sem ficar
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
Esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem
Esperando um filho prá esperar também
Esperando a festa, esperando a sorte, esperando a morte, esperando o Norte
Esperando o dia de esperar ninguém, esperando enfim, nada mais além
Da esperança aflita, bendita, infinita do apito de um trem
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando o trem
Que já vem...
Que já vem
Que já vem
Que já vem
Que já vem
Que já vem"

"Pedro pedreiro" de Chico Buarque

sábado, março 19, 2011

Fala-me do teu pai, Franz...


Posso sempre dizer que foi bom ter-te.

Sim, apesar dos pesares, posso dizer que me deste o amor pelos livros, a paixão pelo cinema e o desejo infindável pela música.

Posso dizer-me que foi contigo que conheci os "Cinco" que me maravilhei com o "Dune" ou que descobri o António Pinho Vargas... não estarei a mentir-me nem a colorir a história.

Aliás, posso dizer-me que foi contigo que aprendi o que são histórias, lidas vistas ou ouvidas (só muito mais tarde percebi que podiam ser contadas).

É também verdade que foi contigo que conheci pesadelos que inundam o quarto enquanto dormes, com tal força que não dão tempo para nadar e sair pela janela, afogando-te no sonho e levando-te para outro hemisfério tão absurdo como longínquo.

Mas posso dizer-me que foste tu que me ensinaste a escrever com os textos que publicavas no jornal e em relação aos quais fazias questão que eu lesse e, claro, opinasse.

Posso mesmo dizer-me que foste tu quem me ensinou que as opiniões podem ser diversas e que discuti-las pode ser um processo de aprendizagem para todos (embora sempre desconfiasse que pouco aprendias nessas tertúlias).

Foi contigo, posso dizê-lo igualmente, que me habituei a reparar nas incoerências das histórias, nas falhas das gravações, nos defeitos das projecções, no desequilíbrio sonoro dos equalizadores e colunas... foi contigo, portanto, que me descobri ser exigente com o que leio, oiço e vejo.

É também verdade, que foi contigo que aprendi uma certa forma de abandono pelo silêncio pela despreocupação pelo afastamento pela desatenção, no fundo, pelo absurdo.

Mas, há sempre um arco-íris que brilha algures no mundo. E, posso dizer, foi contigo que vi as várias versões de uma das histórias que mais me marcou e me acompanha desde sempre...
Soubera eu onde estão os sapatinhos vermelhos e, quem sabe num dia de pesadelos, entrava no teu quarto, batia os calcanhares e trazia-te de volta a casa. Até porque, como reza a história: "there's no place like home" (seja isso o que for...).
Liliana

"Claro que não quero dizer que aquilo que sou se deve apenas à tua influência. Seria um grande exagero (e eu até tenho tendência para estes exageros) (...)se tivesse crescido completamente fora da tua influência (...)ter-me-ia tornado um ser completamente diferente daquilo que sou(...)"

"Carta ao pai" de Franz Kafka

quarta-feira, março 16, 2011

Vamos ao sonoro, Teodoro!

Sala escura, cadeiras corridas
Um fio de luz que se desdobra em imagens.
A vida num fio de luz.
Diálogos e sons e música numa dança coordenada.

Escuro na sala
E uma imensa luz no ecrã.
Toda a vida na luz, projectada em imagens e palavras e movimento e música e sentimentos e expressões e...
Sonhos!!!

Sala escura, cadeiras corridas
Tantos mundos
Tantas possibilidades
Tantas emoções
Tantas histórias...
Uma realidade vivida em mil feixes de luz.
Liliana


"(...)
O meu sistema com o mudo não se dá
Só o sonoro me diz tudo quanto há
Porque o sonoro além de mais alegre
Tem outro estilo e ouvi-lo só faz bem

Teodoro não vás ao sonoro
Teodoro não sejas ruim
Teodoro repara que eu choro
Se fores ao sonoro não gostas de mim

Teodoro não vás ao sonoro
Teodoro não vás mas eu vou
Porque adoro na vida o sonoro
E há-de ser Teodoro, quem chorar, chorou

Teodoro não vás ao sonoro
Teodoro não vás mas eu vou
(...)"
letra de: Almeida Amaral
e Xavier de Magalhães

segunda-feira, março 14, 2011

Para os dias que ainda estão por vir....

Para os dias que ainda estão por vir, quero embrulhar um sonho. Possível, impossível? Quem quer saber das estatísticas quando sonha?

Para os dias que ainda estão por vir, quero nunca desaprender esta força que nasce bem fundo e me impele a seguir o caminho, ainda que apenas sonhando consiga entender o mapa.

Para os dias que ainda estão por vir, quero ter forças para gritar a mim própria que, um dia (ainda não vindo) vou sorrir para dentro como o faço no palco dos dias, todos os dias.

Para os dias que ainda estão por vir, quero cantar as alegrias que não encomendo, mas que crio, barro moldado na margem do tempo que corre fora dos sonhos.

Para os dias que ainda estão por vir, quero deitar a cabeça na almofada ao teu lado, inspirar devagar e deixar-me adormecer entre as noites sonhadas e os dias intercalados.

Para os dias que ainda estão por vir, quero conhecer as cores que brilham nos céus quando o sol beija as núvens cheias, e a água se transforma em pequenas borboletas coloridas.

Para os dias que ainda estão por vir, quero saber-me segura na barra e pronta para dar o salto mortal em frente.

Para os dias que ainda estão por vir, quero os meus filhos a rir num carrossel encantado.

Para os dias que ainda estão por vir, quero abrir um livro e deixar sair a história, dar-lhe cores, vida e voz e depois contá-la e deixá-la voar, livre.

Para os dias que ainda estão por vir, quero saber-nos perto, mesmo que longe, partilhando a vontade, o desejo e a verdade dorida de não sabermos quando estão para vir os dias que ainda estão por vir...

Liliana




domingo, março 13, 2011

Vamos cantar no deserto...

Há um tempo que respira no meio dos riscos por onde os ponteiros do relógio saltam e jogam à macaca.
Há um espaço que vive entre o agora e o aqui onde as árvores descalças dançam a valsa com o vento norte.
Há um salto no escuro, para chegar a esse palco onde os personagens são as próprias palavras que ganham vida e se expressam em mil línguas.
Há um abismo imenso no qual se jogam os sonhos e as fantasias com apostas imaginárias em tabuleiros de xadrez.
Há um silencioso caos onde aprendemos a semear estrelas e pendurar luas, para que a noite não seja apenas a repetição da espera dos dias, mas um ninho de esperança que se renova a cada nascer do sol.
Há um segredo que se repete em silêncio entre cada dor, entre cada ferida. Repete-se como uma cantiga de embalar enquanto nos enrolamos em nós mesmos e cantamos "está tudo bem"...
Há um deserto que atravessa os dias, os maus e os menos maus, percorre o horizonte e deixa um rasto de areia pelo caminho que serve apenas para nos lembrarmos que ali está.

Há um tempo e um espaço que flutuam por entre desertos surdos e palavras silenciosas, onde alguns segredos curam feridas, as luas se transformam em sois e as esperas, essas, convertem-se em esperança enquanto as dores nos embalam, devagar, cantando no areal do horizonte.
Liliana


sexta-feira, março 11, 2011

Vou ver o Sol chegar...

"Vá, não vejas só a chuva, olha o céu e, através das nuvens vê o Sol que brilha. Porque ele brilha mesmo quando não o vês, por isso levanta os olhos... e sorri!"

Tentei... olhei.
Concentrei-me.
Esforcei-me por ver o que não via.
Desiludi-me... chovi.

Sentei-me no muro de pedra baixo e torto e olhei novamente o céu, pergunta gritada ao silêncio da cidade.
Deixei-me molhar pela água límpida das nuvens escuras, quieta, procurando um sol que devia brilhar algures... mas que se escondia, longe de mim.
Os dias de chuva deixam-me assim, afastada do mundo por detrás de um manto escuro de nuvens.

Levantei os olhos e, por entre as nuvens escuras, brilhava um pequeno, mas bem demarcado arco-íris.
Pendurado, estendido
numa corda invisível, gritava a resposta no silêncio da cidade.

Não vi raios de sol rompendo o cinzento do céu.
Não vi uma luz brilhante afastando as nuvens e secando a chuva.
Vi apenas a marca silenciosa da aliança.
Levantei bem os olhos, deixei cair a água límpida pela cara, e sorri!

Liliana

quinta-feira, março 10, 2011

Dá-me a mão, Clarice...

Conta-me o que é feito dos nossos risos que ecoavam pelos olhos bem abertos e as mãos com vontade de se apertar.
Diz-me onde está a ansiedade que brincava às escondidas por entre as almofadas nas noites brancas de verão?
Sabes onde guardámos a tranquilidade das tardes de sábado com que barrávamos o pão torrado, alegremente sentadas no chão?

Procura os dias claros em que o mundo, parado, se instalava nas nossas mãos e o tempo corria connosco e não contra nós.
Ajuda-me a desenterrar a esperança com que corremos dia-após-dia, num rodopio de partilhas coloridas pelos sonhos.

Tens contigo o meu sorriso?
Procuro a tua gargalhada nos meus bolsos...
Encontraste os meus beijos na gaveta?
Abro um livro à procura dum carinho...

Conta-me, onde se perderam os nossos risos no passar das luas?
Diz-me, onde está a ansiedade que arrefeceu com o inverno?
Quero saber da tranquilidade, porque tarefas ou afazeres a trocámos?

Diz ao tempo que devolva os dias em que sonhávamos juntas!
Manda o sorriso entrar e aquecer o carinho escondido na gaveta!
Pede às gargalhadas que de novo habitem os beijos!

Liliana



"Estou tão assustada que só poderei aceitar que me perdi se imaginar que alguém me está dando a mão.

Dar a mão a alguém sempre foi o que esperei da alegria. Muitas vezes antes de adormecer (...), antes de ter coragem de ir para a grandeza do sono, finjo que alguém está me dando a mão e então vou, vou para a enorme ausência de forma que é o sono."

in A paixão segundo G.H.
de Clarice Lispector


segunda-feira, março 07, 2011

Vem!

Aqui o silêncio é escuro e a noite é fria.
Aqui as árvores são altas e os ramos magoam.
Aqui, aqui à beira deste rio onde molhamos os pés como crianças.

Espero pela lua, que ilumina os caminhos que te trazem até mim.
Espero pela barca que vem na corrente e te devolve ao meu cais.
Espero, aqui onde te sentaste ao meu lado num dia de sol.

Temo o vento que me enregela as veias.
Temo os fantasmas que se confundem com as sombras.
Temo o eco das minhas palavras gritadas ao silêncio.

Procuro-me na água que me embala os sonhos.
Procuro-te nos sonhos que me aquecem a alma.
Procuro-nos na noite em que a lua se escondeu no pó.

Perdi-me neste sonho - Grita!
Perdi-nos no dia que corre - Sonha!
Perdi-te numa lua que não vi - Vem!

Ouve-me! Espero encontrar-nos de volta à beira deste rio.
Fala-me! Espero ter-te de novo aquecendo o meu corpo.
Vê-me! Espero sonhar-te outra vez com o sol a brilhar.

Liliana

domingo, março 06, 2011

Porquê este vazio, Jóse?!

Sabes de que tamanho é o vazio que me espreita de hora-a-hora? É maior que eu, esconde-se no fundo de mim, finge que não existe, mas está lá, sempre, à espreita.
Quero sair e não consigo, mas lanço sempre a mão à procura da corda...

Sabes o que é ter o vazio dentro de ti? É procurar continuamente a nascente dia-a-dia e encontrar o poço seco, todas as noites.
Luto por me manter completa, cheia, luto para não me esvaziar num sentimento que me amordaça, luto por manter a minha voz viva.

Sabes como é olhar para o espelho e não não ver imagem alguma do outro lado? É sentir este enorme vazio que não me engole, mas me persegue e me abafa sem me deixar espaço para ser, falar, sonhar.
Tento lembrar-me de mim, procurar-me por entre as memórias e refazer-me do nada.

Sabes o que é ter um peso no peito, querer respirar fundo e sentir-me apertada num espartilho de varas, sem forças para andar?
Procuro manter a esperança viva, manter o equilíbrio, de pé, na corda bamba.

Tenho um enorme vazio dentro de mim, que tento encher com as mais variadas coisas, mas ao qual não consigo fugir.
Continuo sempre a sorrir, à falta das lágrimas secas no deserto, e sei que tenho de avançar, tenho sempre de continuar...
Liliana



"(...)
Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
(...)"

"Inquietação" de José Mário Branco

sexta-feira, março 04, 2011

Silêncios...

Uma porta aberta em par, com a corrente, num longo arrastar se fecha, rangendo baixinho, gemido dorido da verdade.

Uma janela para a sala onde o silencio é livre de gritar, um navio que parte ao fundo, no mar, e te rouba aos poucos pela ondulação enquanto te vejo, ao longe, a cantar.

Uma flor que o sol aquece e, para ele, se abre em mil pétalas e logo percebe que a hora da lua chegou e, ela, de flor nunca passou.

Aquele rio que tranquilamente corre, numa manhã fria de sol, ainda ontem me sorria e hoje, apenas ao fundo me acena, já não com o mesmo calor, juraria.

O horizonte que consegui vislumbrar, logo na noite se escondeu, mascarou-se de verdade e, nela, o meu sonho adormeceu.

Terei força para não deixar a porta bater, o navio partir, as pétalas conter, o rio acalentar e o sonho acordar?!

Quererá a porta aberta ficar, o navio no meu porto atracar, as pétalas em em flôr abrir, o rio para mim correr e o sonho, finalmente, sorrir?!
Liliana


quarta-feira, março 02, 2011

Vês o ritmo que balança no ar, Tom?!

Há um ritmo diferente na margem do meu caminho.
Descobri-o no meio da tralha, entulho dos dias, que acumulo sem me dar conta por entre os lençóis os sofás atrás das panelas na mala do carro na carteira nos bolsos...

Há um ritmo que me altera a pulsação e me faz respirar à margem do meu compasso.
Tropecei nele num dia frio de nevoeiro e chuva e, aos poucos, dei-me conta que o trouxera comigo.

Há um ritmo diferente que balança à margem dos barulhos do dia-a-dia da cidade.
As pessoas os carros as crianças todos parecem alheios a ele, ritmo desigual a que o meu corpo já se habituou e, naturalmente, segue.

Toca um ritmo diferente à margem das músicas da rádio e dos MP3 e dos CD's, e é esse o ritmo que danço, é esse o ritmo que canto, é esse o ritmo que marca o meu conto...

Liliana


"Olha que coisa mais linda
Mais cheia de graça
É ela menina
Que vem e que passa
Seu doce balanço, a caminho do mar

Moça do corpo dourado
Do sol de Ipanema
O seu balançado é mais que um poema
É a coisa mais linda que eu já vi passar

Ah, porque estou tão sozinho
Ah, porque tudo é tão triste
Ah, a beleza que existe
A beleza que não é só minha
Que também passa sozinha

Ah, se ela soubesse
Que quando ela passa
O mundo inteirinho se enche de graça
E fica mais lindo
Por causa do amor"

"Garota de Ipanema" de Tom Jobim