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sexta-feira, maio 10, 2019

A(qu)Í

Estou aqui
À tua espera
Se calhar à minha 

Como se espera alguém
Sem se saber de onde vem?

Podes chegar à hora marcada
(Aqui estou eu) 
Mas marcada por quem? 
Se todas as horas são uma hora 
Mais tarde?
(E eu aqui sentada)

Seria de perguntar
De onde vens? 
Para perceber 
Onde irias chegar
(Podia jurar que perguntei) 

Como se chega assim
Sem saber se alguém nos espera? 

Não sei de onde vens
Nem quando chegas 
Mas sei que estás aí 
(E eu continuo aqui)

Lili







sábado, fevereiro 23, 2019

(des)CONSTRUÇÃO

Do tanto que fomos e construímos
Levo os vestidos, dos dias claros junto ao Tejo
Levo os sonhos, três vezes saídos de mim e embalados a dois
Levo os sapatos, os vermelhos com que bati os calcanhares
E deixo as lágrimas, deixo os pilares que mantêm a casa, que construímos

Do tanto que fomos e construímos
Levo os casacos, de Inverno que lá fora está frio
Levo todos e cada sorriso que partilhámos, à mesa da cozinha
Levo os livros, partes de mim de que não consigo separar-me
E deixo as angústias, deixo arrumada a casa, que construímos

Do tanto que fomos e construímos
Levo o blush, o baton e o rímel preto
Levo a cumplicidade, partilhada numa troca de olhares 
Levo os CD's, da música que se canta dentro e fora de mim
E deixo o silêncio, deixo o desencanto intruso nesta casa, que construímos

Do tanto que fomos e construímos
Levo as plantas que aprendi a cuidar
Levo o carinho servido num tabuleiro, numa manhã de domingo
Levo as malas, umas dentro das outras, as grande e as pequenas
E deixo as discussões, deixo as palavras amargas que ecoam na casa, que construímos

E deixo os quadros e as panelas 
Deixo os sofás e os candeeiros 
Deixo as televisões e os pratos
Deixo as estantes e as fotos nas paredes

Agora que abro a porta para sair
Guardo as noites e os beijos
Guardo os jantares e almoços a dois
Guardo os cheiros e os sabores 
Guardo os recortes e as memórias
Dum amor que nasceu, cresceu e deu frutos 
E, gradual e compassadamente, saiu pelas janelas e desaguou no Tejo 
Que o levou nas suas águas e, tenho a certeza que agora
Agora que abro a porta para saír
"o mar / tem mais peixinhos a nadar"

Liliana Lima



sexta-feira, setembro 21, 2018

grito MUDO

Há um desespero, tão fundo, tão profundo, que desaba em mim sem pedir licença
Há uma porta que se abre à minha frente, por muito que tente virar numa rua qualquer, longe da minha
Há um vazio que, de repente, preenche os dias cobrindo o rio e a ponte e toda a cidade  
Há uma solidão tão antiga que canta uma cantiga que não consigo abafar
Há uma inquietação que me fere o peito e se instala sem me deixar respirar

E há um grito dado no alto do mais longo silêncio 
E há uma mão que não deixo acenar
E há uma máscara pintada no espelho

E há um mar a pedir para nascer
E um enjoo pouco nítido no olhar
E há uma palavra que quer ser dita
E uma força que me faz calar

Há desespero e vazio e solidão
E tu, sem me saberes ouvir no barulho da distância
Há máscaras e silêncio onde grito
E tu, sem me conseguires ver no nevoeiro da manhã

E aquela inquietação que tudo turva
E não se diz, e não se vê
que só se canta

Há um silêncio onde grito tudo o que não te digo
E a minha mão, que procuro, para me aquietar


Liliana Lima

  

sábado, setembro 08, 2018

s.AÍ.ste

Vais sair

Ou melhor já saiste
Para dentro daquele tempo
onde não há espaço
Para mim

Saíste novamente
sem avisar que irias entrar
nesse espaço onde não há tempo
Para mim

Vais sair e eu devia perceber
que deixei de estar
Dentro de ti

Devia saber que ao sair te queres
inteiro, vazio, com a possibilidade única
De ti

Vais sair
ou melhor, já saiste

E eu entrei, aqui


Liliana Lima


sábado, junho 30, 2018

hoRas

Nem todos os dias a maré sobe e me beija os pés
Nem todas as noites a lua brilha no leito do rio

Há horas que se demoram
No sabor acre da tua ausência
No tocar áspero do teu silêncio
Na impensável ideia da tua indiferença

Nem todos os dias o meu rumo me leva ao Tejo
Nem todas as noites me descalço e entro no seu leito

Há horas que se demoram nos caminhos das marés


Liliana Lima


domingo, maio 20, 2018

pa.REDE

Qualquer dia vou pendurar um jardim na parede. Quero flores lilás em cima para lembrar o céu e muitas folhas verdes a descer numa cascata salpicada de botões amarelos até desaguar num manto branco que lembrará nuvens, sentadas na terra. E sim, também vos quero lá, papoilas de mim, desenhando a vermelho o caminho concêntrico onde te perco e me encontro. 

Quando eu tiver um jardim na parede, ficará logo à entrada, para todos o verem e por ele passearem. É que uma parede assim, cheia de vida, olha-nos olhos-nos-olhos a cada encontro e diz-nos tudo o que a vida não diz ou esconde debaixo da terra.

Quando tiver um jardim pendurado, convido-te para um chá. E logo à entrada, antes de qualquer palavra, ficarás a saber tudo o que não te sei contar. É que um jardim assim, com o céu colado ao tecto, alto que é, e uma manta branca a tocar o chão, deixa à vista o sangue que escondemos de cada ferida que se fez cicatriz e que, juntas, desenham o caminho concêntrico onde me perco e te encontro. 

Qualquer dia, quando eu tiver um jardim na parede da entrada, deixará de haver entre-linhas, ausências ou silêncios confusos. Porque as flores tudo mostram nas suas pétalas e nada escondem por entre as folhas. E então conseguirei ver, desenhado a vermelho, o caminho concêntrico onde não me perderei e, com certeza, te encontrarei. Quando eu tiver um jardim pendurado na parede...

Lili