"Trago-te ao espaço da janela.
Deito-me na areia molhada, húmida ainda, de um mar aparentemente tão afastado que chego a duvidar se algum dia aqui chegou. Deito-me na areia e fixo o sol, também ele deitado no mar, deixando-se embalar. Deito-me para não me perder, para não avançar por onde me posso magoar. E deito-me na areia para descansar dum voo que acabou de começar.
Fecho os olhos para ouvir melhor o mar, que se afasta, que me foge por entre as lembranças que vejo marcadas na areia. Fecho os olhos, perdida, cheia de medo de me afogar numa onda que eu própria(?) criei e que não vejo à praia chegar.
Deixo-me levar pelo vento, pelo mar, pela areia e voo, num voar interno. Já não me perco. Já não tenho medo. Já não vejo a maré alta. Voo dentro mim e vou para onde quiser. Voo sem me levantar, voo de olhos fechados, voo a sonhar, perdida na areia...
Liliana

"Graça Perdida" de João Mendonça
Interpretado por Dulce Pontes
"Tenho livros e papeis espalhados pelo chão
A poeira de uma vida deve ter algum sentido
Uma pista, um sinal de qualquer recordação
Uma frase onde te encontre e me deixe comovido
Guardo na palma da mão o calor dos objectos
Com as datas e locais. Porque brincas, porque ris.
E depois o arrepio: a memória dos afectos
Que me deixa mais feliz
Deixa-te ficar na minha casa
Há janelas que tu não abriste
O luar espera por ti quando for a maré-vasa
Ainda tens que me dizer porque é que nunca partiste
Está na mesma esse jardim com vista sobre a cidade
Onde fazia de conta que escapava do presente
Qualquer coisa que ficou, que é da nossa eternidade
Afinal, eternamente.
Deixa-te ficar na minha casa
Há janelas que tu não abriste
O luar espera por ti quando for a maré-vasa
Ainda tens que me dizer porque é que nunca partiste"
"Deixa-te ficar na minha casa" - João Monge

Todos os dias, nas férias de Natal, ele vinha de mansinho, sorrateiro, pelo comprido corredor que separava a cozinha da minha avó do quarto onde eu, ensonada, rebolava ainda no quentinho dos lençóis.
Todos os dias, nas férias de Natal, ele entrava pelo quarto dentro, decidido, sem pedir licença e, saltitando, enchia a escura divisão com a sua alegria e boa disposição, como que a dizer "levanta-te dorminhoca".
Todos os dias, nas férias de Natal, eu ainda na cama, ronronava "só mais um bocadinho, está frio...", mas a sua agitação e energia acabavam por me contagiar.
Todos os dias, nas férias de Natal, seguindo o seu compasso, como que maquinalmente rodopiava pelo corredor fora, enquanto vestia o roupão, calçava as pantufas e, com as mãos arranjava os cabelos que, teimosamente, voltavam à posição inicial de eriçados e despenteados.
Todos os dias, nas férias de Natal, à porta da cozinha eu abrandava e, mesmo à entrada parava para observar os movimentos coordenados com que a minha avó a preparava a mesa do pequeno-almoço.
Todos os dias, nas férias de Natal, ele enroscava-se debaixo da mesa da cozinha, enquanto a minha avó, pontual, arranjava a mesa como se de um banquete se tratasse.
Todos os dias, nas férias do Natal, na mesa do pequeno-almoço, com a toalha que ela própria bordara, nada faltava, desde o pão ainda quente, à compota de ginja na tigela, ao leite já quente a fumegar em pequenas fumarolas nas canecas...
Todos os dias, nas férias de Natal, com a mesa do pequeno-almoço já posta, o café invadia a casa e, em completo desdém para com os outros aromas, numa dança de cheiros chamava os que, ensonados, não tivessem percebido que a hora de ir para mesa chegara.
Todos os dias, nas férias do Natal, eu sentada na mesa do pequeno-almoço e ele enrolado aos meus pés, com um festim de cheiros e sabores... são como um carimbo branco que marca subtilmente o papel de embrulho das recordações...
LL Nov/2005
"Uma noite escrevi o teu nome
num café
a cafeteira adormece breve
mesmo ao pé
O mar que passa
pela vidraça
senta-se à mesa
cheira a café
Não me enjeites quando te escrevo
o que à memória me vem
contas contadas, contas da história
que a ninguém devo, a ninguém
Já não vejo razão para calar
as múrmures águas na areia
sobre a praia a maré cheia
enche toda antes de vazar
A noite dura para além da tarde
cerveja com levedura
vaga de espuma entre o meio dia
calma a garganta que arde
O tesouro no ventre do mar
não será para quem mareia
como é bom dormir, acordar
preguiçar em branca açoteia
O sentido que eu tive da vida
num café
o que foi certo para mim um dia
já não o é
O mar que passa
pela vidraça
senta-se à mesa
cheira a café
Cão vadio, cão sem raça
pela rua a vaguear
candeeiro de luz baça
café moído a exalar
À noite os casais devassam
os enigmas duma luz mansa
os sonhos idos de criança
como farrapos soltos que passam."
Cheiro a café – João Afonso Lima
Não procures a "chave que abre a porta do castelo de Chuchurrumel"(1)
ela não te vai abrir o sentido da vida...
Levanta o tapete debaixo do qual guardas os tesouros de cada dia
é no pó que se espalha a cada suspiro que respira o sentido de tudo o que em ti vive.
"À porta do mundo" - João Afonso Lima
(cantado por Filipa Pais no CD - A porta do Mundo)
(1) O castelo de Chuchurrumel - Lenga-lenga tradicional