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sexta-feira, janeiro 04, 2013

Porque fechamos janelas, João?!

Porque é que fechamos as janelas em par e nos barricamos dentro de uma bola de sabão que distorce a realidade? Qual é o mecanismo que nos afasta do outro e nos impele a criar personagens de acordo com a história que pensamos viver?

Diz-me, tu que me lês nestas letras em curva, de quantas máscaras é feita a tua capa? Quantas vezes te escondes atrás de palavras vagas e opacas, como quem se defende ainda antes de ser atacado? Também te acontece dar contigo em conversas evasivas, mascarando tudo o que é sentimento e filtrando qualquer réstia de impulso de partilha? Alguma vez te aconteceu olhares o espelho de manhã e, por momentos, pensares estar em frente a outro alguém?

Às vezes penso que andamos todos às costas do que pensamos que os outros pensam de nós, que os outros esperam de nós, que os outros sentem por nós... enfim, quase esperamos que os outros sejam por nós.

Sim, eu sei que também já sofreste por, em tempos, te despires de tantos papeis. Sim, eu sei que quanto mais abrimos as janelas, mais água entra quando começa a tempestade. Sim, eu sei que também eu me escondo atrás destas verdades sempre tão verdadeiras. Sim, eu sei... mas que queres? Há dias em que me apetecia tanto ser apenas eu.

Será que se te disser, assim sem mais nada, que fiquei magoada, ou que tenho saudades, ou que me fazes falta, não me vou arrepender? Será que se eu te disser, assim sem mais nada, do que gosto, o que me faz sorrir, o que me assusta, o que me faz chorar, não vou ficar com a sensação de me ter despido enquanto te afastas de casaco, sobretudo e cachecol?

Porque é que fechamos as janelas em par e nos barricamos dentro de uma bola de sabão que distorce a realidade? Talvez porque um dia ousámos sair, abrir portas e janelas e inspirar o ar puro sem filtros nem maquilhagem mas o frio da rua desprotegida congelou-nos os pulmões, e a luz forte reflectida no rio fez-nos cerrar os olhos, e as portadas bateram e voltaram a fechar-se à força do vento.

Talvez... Mas talvez se não nos dermos espaço para sermos assumidamente nós próprios e rirmos apenas porque o sol nos pregou uma partida, ou abraçarmos quem se atravessa no nosso caminho, ou partilharmos o que sentimos com quem assim nos faz sentir... Talvez então, um dia, eventualmente um fim de tarde de outono quando as tardes esfriam e o sol, tímido, se esquece de esperar por nós... Talvez um dia, acabemos por esquecer quem éramos verdadeiramente atrás das janelas fechadas...

Posso contar-te um segredo? A ti que me lês nestas letras em curva? Hoje passou-me pela cabeça que, se calhar, a única forma de rebentar a bola de sabão sem cair redonda no chão, é mesmo abrir as janelas em par e ousar espreitar o mundo pelos meus olhos, sem máscaras ou enfeites ou papeis para decorar, apenas eu, tu e o mundo despido de janelas fechadas.

Assim de repente, parece-me que por muito que arrisque, e ainda que a chuva entre pela janela, ao menos ganho uma história para contar! E ou muito me engano, ou é isso mesmo que, atrás de cada janela fechada e dentro de cada bola de sabão que distorce a realidade, alguém sonha e espera, um dia, ganhar coragem para se vestir de si próprio e ousar viver...

Liliana Lima
13-07-2009



"Trago-te ao espaço da janela.
De novo surgiram deste lado da rua.
Em voz baixa disse «uma alucinação». A
única resposta foi entrar em casa
subir ao quarto mudar de roupa
ser jovem com quem soube bem ser jovem
sábio com quem quiseste ser sábio
velho com os velhos.
Trago-te para perto da janela
o rio vê-se daqui.
A cor da terra circula.
«Talvez seja a morte» «não»
«se for a morte o coração baterá mais ou menos forte».
O corpo não tem grande lugar."

"Trago-te ao Espaço da Janela" de João Miguel Fernandes Jorge
in "Meridional"

terça-feira, dezembro 04, 2012

Como foi a tua noite, João?

Ele voltou tarde para casa, estava cansado e a única coisa que lhe apetecia era tomar um duche, comer qualquer coisa e deitar-se sem grandes sobressaltos pelo caminho.

Ela esperava-o embrulhada em rendas e laços vermelhos em cima da cama, o quarto estava enfeitado com velas e flores, como numa série que tinha visto há uns dias, e no corredor setas feitas de chocolate indicavam o caminho até ela.

Há muito que não se encontravam na cumplicidade dos lençóis, antes cruzavam-se entre os horários dele e o despertador dela, sem tempo nem disponibilidade para mais do que dois dedos de "conversa de ervanária". Naquele dia, e depois de se ter inspirado no óptimo resultado da noite romântica da série que seguia religiosamente, ela decidira que estava na altura de reacender a chama dos tempos de namoro.

Ele abriu a porta distraído, nem viu os bombons até tropeçar neles (por momentos achou que se tinha enganado na porta) foi a voz dela, lá do fundo do corredor, que o fez perceber os planos para aquela noite. Parou na entrada, hesitou e suspirou fundo antes de avançar pelo corredor.

Ela ouviu-o entrar e chamou-o pelo diminutivo que usava quando namoravam, não estranhou a demora dele, nem o ar sério com que se aproximou. Estava entusiasmada e tinha a certeza de que tudo o que o seu casamento precisava para reanimar estava ali, naquela surpresa embrulhada em rendas e laços vermelhos. Quando casaram ela estava tão apaixonada por ele que o coração parecia saltar-lhe do peito cada vez que estavam juntos, depois os anos passaram, os empregos tomaram a dianteira nas prioridades de cada um e a rotina instalara-se mesmo antes que ela percebesse. Na verdade só há pouco tempo, com o divorcio de uns amigos, ela se apercebera o quão distantes estavam.

O rádio da mesa de cabeceira dela tocava, um pouco mais alto do que o normal, os estores estavam corridos, por todo o lado velas coloridas brilhavam e a jarra da cómoda estava repleta de pequenas flores brancas e rosas vermelhas. Ela estava deitada em cima da cama com uma lingerie sexy e olhava para ele como uma gata que ronrona baixinho.

Há quanto tempo ele esperava por um sinal de vida da parte dela... Na verdade, fazia tanto tempo que ele já nem se lembrava da última vez que a vira olhar assim para ele. Tanto tempo... Tempo em que ele tentara aproximar-se... tempo em que ele se sentira perdido e sozinho... Tempo em que ele por fim desistira e aceitara um casamento morno, de faz de conta... Tempo em que ele se cruzara com alguém que o fez sentir, de novo, o coração a saltar do peito...

Ele olhou para ela num misto de carinho e tristeza. Ela tinha tido tanto trabalho a embrulhar aquela noite! E ele esperara tanto tempo por uma noite assim! E no entanto, nada parecia bater certo, tudo estava fora do lugar como se os sapatos que calçava não fossem seus e as roupas que vestia fossem dois números acima do dele. E ela entendeu, aquele olhar disse-lhe tanta coisa que ela, por fim, entendeu.

Naquela noite, apesar de tudo estar fora dos lugares, ou talvez porque tudo estava fora dos lugares, apesar de saberem que a marca do tempo não se pode apagar, ou precisamente porque a marca do tempo não se pode apagar, apesar de terem entendido que o arco-íris já não lhes coloria um caminho conjunto, apesar dos pesares... naquela noite embrulhada em rendas e laços vermelhos, ela ronronou baixinho como uma gata e ele sorriu-lhe como há muito não fazia...




Com a canção "Há dias" de João Monje no ouvido 
(e aqui num post antigo do Curvas).

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

Estou perdida na areia, João...


Voo num voar tão baixo como me é possível. Voo rasteira ao chão, à areia da praia, ao mar que rebenta em pequenas ondas. Voo para não me perder. Voo em círculos sem conhecer a rota. Voo para não me deixar ver, sem me querer intrometer numa praia que não sei minha. E voo, sem eira nem beira, apenas para continuar, apenas para não me deixar parar.

Deito-me na areia molhada, húmida ainda, de um mar aparentemente tão afastado que chego a duvidar se algum dia aqui chegou. Deito-me na areia e fixo o sol, também ele deitado no mar, deixando-se embalar. Deito-me para não me perder, para não avançar por onde me posso magoar. E deito-me na areia para descansar dum voo que acabou de começar.

Fecho os olhos para ouvir melhor o mar, que se afasta, que me foge por entre as lembranças que vejo marcadas na areia. Fecho os olhos, perdida, cheia de medo de me afogar numa onda que eu própria(?) criei e que não vejo à praia chegar.

Deixo-me levar pelo vento, pelo mar, pela areia e voo, num voar interno. Já não me perco. Já não tenho medo. Já não vejo a maré alta. Voo dentro mim e vou para onde quiser. Voo sem me levantar, voo de olhos fechados, voo a sonhar, perdida na areia...

Liliana





"Anoiteceu
no meu olhar de feiticeira,
de estrela do mar, de céu, de lua cheia,
de garça perdida na areia.

Anoiteceu no meu olhar,
perdi as penas, não posso voar,
deixei filhos e ninhos,
cuidados, carinhos, no mar...

Só sei voar dentro de mim
neste sonho de abraçar
o céu sem fim, o mar, a terra inteira!
E trago o mar dentro de mim,
com o céu vivo a sonhar e vou sonhar até ao fim,
até não mais acordar...

E então, voltarei a cruzar este céu e este mar,
voarei, voarei sem parar á volta da terra inteira!
Ninhos faria de lua cheia e depois,
dormiria na areia..."

"Graça Perdida" de João Mendonça
Interpretado por Dulce Pontes

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Dá-ma a mão, João...


Eles deram as mãos, ligaram a aparelhagem com aquele LP já cheio de rugas, e deixaram-se embalar pela brisa morna das imagens que dançavam ao ritmo das noites passadas. A porta estava trancada, as janelas fechadas e o mundo inteiro ficara suspenso por entre a chuva que teimava em bater nos vidros.

O mar não entrou pela sala, deitando abaixo as paredes e criando um rio no meio deles. A terra não tremeu, abrindo frestas pelo chão e afastando um do outro. Nem as horas se atreveram a interromper a tranquilidade que o gira-discos cantava. E a vida, essa, limitou-se a suspirar enquanto eles, de mãos dadas, se espantaram com o admirável mundo que continuou a girar sem eles. Olharam um para o outro sorrindo e aprenderam a, apenas estar, sentir, acolher, respirar... viver!
Liliana



"Tenho livros e papeis espalhados pelo chão
A poeira de uma vida deve ter algum sentido
Uma pista, um sinal de qualquer recordação
Uma frase onde te encontre e me deixe comovido

Guardo na palma da mão o calor dos objectos
Com as datas e locais. Porque brincas, porque ris.
E depois o arrepio: a memória dos afectos
Que me deixa mais feliz

Deixa-te ficar na minha casa
Há janelas que tu não abriste
O luar espera por ti quando for a maré-vasa
Ainda tens que me dizer porque é que nunca partiste

Está na mesma esse jardim com vista sobre a cidade
Onde fazia de conta que escapava do presente
Qualquer coisa que ficou, que é da nossa eternidade
Afinal, eternamente.

Deixa-te ficar na minha casa
Há janelas que tu não abriste
O luar espera por ti quando for a maré-vasa
Ainda tens que me dizer porque é que nunca partiste"

"Deixa-te ficar na minha casa" - João Monge

segunda-feira, julho 13, 2009

Porque fechamos janelas, João?

Porque é que fechamos as janelas em par e nos barricamos dentro de uma bola de sabão que distorce a realidade? Qual é o mecanismo que nos afasta do outro e nos impele a criar personagens de acordo com a história que pensamos viver?

Diz-me, tu que me lês nestas letras em curva, de quantas máscaras é feita a tua capa? Quantas vezes te escondes atrás de palavras vagas e opacas, como quem se defende ainda antes de ser atacado? Também te acontece dar contigo em conversas evasivas, mascarando tudo o que é sentimento e filtrando qualquer réstia de impulso de partilha? Alguma vez te aconteceu olhares o espelho de manhã e, por momentos, pensares estar em frente a outro alguém?

Às vezes penso que andamos todos às costas do que pensamos que os outros pensam de nós, que os outros esperam de nós, que os outros sentem por nós... enfim, quase esperamos que os outros sejam por nós.

Sim, eu sei que também já sofreste por, em tempos, te despires de tantos papeis. Sim, eu sei que quanto mais abrimos as janelas, mais água entra quando começa a tempestade. Sim, eu sei que também eu me escondo atrás destas verdades sempre tão verdadeiras. Sim, eu sei... mas que queres? Há dias em que me apetecia tanto ser apenas eu.

Será que se te disser, assim sem mais nada, que fiquei magoada, ou que tenho saudades, ou que me fazes falta, não me vou arrepender? Será que se eu te disser, assim sem mais nada, do que gosto, o que me faz sorrir, o que me assusta, o que me faz chorar, não vou ficar com a sensação de me ter despido enquanto te afastas de casaco, sobretudo e cachecol?

Porque é que fechamos as janelas em par e nos barricamos dentro de uma bola de sabão que distorce a realidade? Talvez porque um dia ousámos sair, abrir portas e janelas e inspirar o ar puro sem filtros nem maquilhagem mas o frio da rua desprotegida congelou-nos os pulmões, e a luz forte reflectida no rio fez-nos cerrar os olhos, e as portadas bateram e voltaram a fechar-se à força do vento.

Talvez... Mas talvez se não nos dermos espaço para sermos assumidamente nós próprios e rirmos apenas porque o sol nos pregou uma partida, ou abraçarmos quem se atravessa no nosso caminho, ou partilharmos o que sentimos com quem assim nos faz sentir... Talvez então, um dia, eventualmente um fim de tarde de outono quando as tardes esfriam e o sol, tímido, se esquece de esperar por nós... Talvez um dia, acabemos por esquecer quem éramos verdadeiramente atrás das janelas fechadas...

Posso contar-te um segredo? A ti que me lês nestas letras em curva? Hoje passou-me pela cabeça que, se calhar, a única forma de rebentar a bola de sabão sem cair redonda no chão, é mesmo abrir as janelas em par e ousar espreitar o mundo pelos meus olhos, sem máscaras ou enfeites ou papeis para decorar, apenas eu, tu e o mundo despido de janelas fechadas.

Assim de repente, parece-me que por muito que arrisque, e ainda que a chuva entre pela janela, ao menos ganho uma história para contar! E ou muito me engano, ou é isso mesmo que, atrás de cada janela fechada e dentro de cada bola de sabão que distorce a realidade, alguém sonha e espera, um dia, ganhar coragem para se vestir de si próprio e ousar viver...

Liliana Lima




"Trago-te ao espaço da janela.
De novo surgiram deste lado da rua.
Em voz baixa disse «uma alucinação». A
única resposta foi entrar em casa
subir ao quarto mudar de roupa
ser jovem com quem soube bem ser jovem
sábio com quem quiseste ser sábio
velho com os velhos.
Trago-te para perto da janela
o rio vê-se daqui.
A cor da terra circula.
«Talvez seja a morte» «não»
«se for a morte o coração baterá mais ou menos forte».
O corpo não tem grande lugar."

"Trago-te ao Espaço da Janela" de João Miguel Fernandes Jorge
in "Meridional"
*(Foto) Janela de Gaudi - Barcelona

quinta-feira, junho 25, 2009

Deixa-me contar-te um segredo, João...

Vou-te contar um segredo. Tenho saudades de passear contigo à beira mar, naqueles dias que sorriam, despreocupados com as horas que correm e não param. Tenho saudades das torradas no aquecedor da sala, que levávamos para a cozinha e transformávamos em torradeira de primeira qualidade. Tenho saudades das tardes vagarosas e sem televisão, em que as histórias dançavam ao ritmo dos "parudiantes" e apenas se calavam à hora do "jornal da tarde" que o rádio se esforçava por sintonizar.

Vou-te contar um segredo. Tenho saudades dos dias maus em que nos sentávamos numa esplanada e desfrutávamos das delícias da vida em forma de "ducheses" e "babás" até ficarmos enjoadas. Tenho saudades acampar dentro de uma carrinha em que as noites eram tortas e um pouco doridas e os dias quentes e abafados.

Vou-te contar um segredo. Tenho saudades da última sessão procedida de uma análise completa à mensagem que o realizador quis passar, ao desempenho dos actores, aos diálogos entre os personagens e até à fotografia e qualidade de projecção, enquanto apanhávamos o comboio a caminho de casa. Tenho saudades das bolachas de água e sal, redondas, barradas com o doce de tomate num frasco sem etiqueta, que me parecia sempre de morango e que eu detestava.

Vou-te contar um segredo. Tenho saudades das manhãs dos banhos grandes e demorados em que, pelo meio de esfregadelas e ralhetes pela água que escorria e molhava o chão, me perguntavas a tabuada, sempre zangada por já não saber quanto é oito vezes seis. Tenho saudades dos passeios até Algés, sem apanhar o eléctrico "para fazer a digestão", enquanto espreitávamos as poucas montras do caminho.

Vou-te contar um segredo. Tenho saudades do azul do rio que me sorria no teu olhar. Tenho saudades do jardim que nos encobria os medos, dúvidas e ansiedades, jogando às escondidas com os nossos sentimentos e deixando-nos passar por brincadores. Tenho saudades dos sorrisos que me roubavas com a inocência infantil de quem ri de tudo e de nada.

Vou-te contar um segredo, é bom ter saudades. Olhar para trás, suspirar, e com a tranquilidade de quem sabe que o tempo gira sempre na mesma direcção, sorrir em vez de chorar.
Liliana Lima






"Tenho livros e papeis espalhados pelo chão.
A poeira duma vida deve ter algum sentido:
Uma pista, um sinal de qualquer recordação,
Uma frase onde te encontre e me deixe comovido.

Guardo na palma da mão o calor dos objectos
Com as datas e locais, por que brincas, por que ris
E depois o arrepio, a memória dos afectos
Que me deixa mais feliz.

Está na mesma esse jardim com vista sobre a cidade
Onde fazia de conta que escapava do presente,
Qualquer coisa que ficou que é da nossa eternidade.
Afinal, eternamente.

Deixa-te ficar na minha casa.
Há janelas que tu não abriste.

O luar espera por ti
Quando for a maré vasa.
E ainda tens que me dizer
Porque é que nunca partiste..."


"Deixa-te ficar na minha casa" de João Gil
(no CD Filarmónica Gil)

terça-feira, março 31, 2009

Como foi a tua noite, João?

Ele voltou tarde para casa, estava cansado e a única coisa que lhe apetecia era tomar um duche, comer qualquer coisa e deitar-se sem grandes sobressaltos pelo caminho.

Ela esperava-o embrulhada em rendas e laços vermelhos em cima da cama, o quarto estava enfeitado com velas e flores, como numa série que tinha visto há uns dias, e no corredor setas feitas de chocolate indicavam o caminho até ela.

Há muito que não se encontravam na cumplicidade dos lençóis, antes cruzavam-se entre os horários dele e o despertador dela, sem tempo nem disponibilidade para mais do que dois dedos de "conversa de ervanária". Naquele dia, e depois de se ter inspirado no óptimo resultado da noite romântica da série que seguia religiosamente, ela decidira que estava na altura de reacender a chama dos tempos de namoro.

Ele abriu a porta distraído, nem viu os bombons até tropeçar neles (por momentos achou que se tinha enganado na porta) foi a voz dela, lá do fundo do corredor, que o fez perceber os planos para aquela noite. Parou na entrada, hesitou e suspirou fundo antes de avançar pelo corredor.

Ela ouviu-o entrar e chamou-o pelo diminutivo que usava quando namoravam, não estranhou a demora dele, nem o ar sério com que se aproximou. Estava entusiasmada e tinha a certeza de que tudo o que o seu casamento precisava para reanimar estava ali, naquela surpresa embrulhada em rendas e laços vermelhos. Quando casaram ela estava tão apaixonada por ele que o coração parecia saltar-lhe do peito cada vez que estavam juntos, depois os anos passaram, os empregos tomaram a dianteira nas prioridades de cada um e a rotina instalara-se mesmo antes que ela percebesse. Na verdade só há pouco tempo, com o divorcio de uns amigos, ela se apercebera o quão distantes estavam.

O rádio da mesa de cabeceira dela tocava, um pouco mais alto do que o normal, os estores estavam corridos, por todo o lado velas coloridas brilhavam e a jarra da cómoda estava repleta de pequenas flores brancas e rosas vermelhas. Ela estava deitada em cima da cama com uma lingerie sexy e olhava para ele como uma gata que ronrona baixinho.

Há quanto tempo ele esperava por um sinal de vida da parte dela... Na verdade, fazia tanto tempo que ele já nem se lembrava da última vez que a vira olhar assim para ele. Tanto tempo... Tempo em que ele tentara aproximar-se... tempo em que ele se sentira perdido e sozinho... Tempo em que ele por fim desistira e aceitara um casamento morno, de faz de conta... Tempo em que ele se cruzara com alguém que o fez sentir, de novo, o coração a saltar do peito...

Ele olhou para ela num misto de carinho e tristeza. Ela tinha tido tanto trabalho a embrulhar aquela noite! E ele esperara tanto tempo por uma noite assim! E no entanto, nada parecia bater certo, tudo estava fora do lugar como se os sapatos que calçava não fossem seus e as roupas que vestia fossem dois números acima do dele. E ela entendeu, aquele olhar disse-lhe tanta coisa que ela, por fim, entendeu.

Naquela noite, apesar de tudo estar fora dos lugares, ou talvez porque tudo estava fora dos lugares, apesar de saberem que a marca do tempo não se pode apagar, ou precisamente porque a marca do tempo não se pode apagar, apesar de terem entendido que o arco-íris já não lhes coloria um caminho conjunto, apesar dos pesares... naquela noite embrulhada em rendas e laços vermelhos, ela ronronou baixinho como uma gata e ele sorriu-lhe como há muito não fazia...

Liliana Lima



Com a canção "Há dias" de João Monje no ouvido (e aqui num post antigo do Curvas).

sábado, dezembro 27, 2008

O Natal cheira a café, João?

Todos os dias, nas férias de Natal, ele vinha de mansinho, sorrateiro, pelo comprido corredor que separava a cozinha da minha avó do quarto onde eu, ensonada, rebolava ainda no quentinho dos lençóis.

Todos os dias, nas férias de Natal, ele entrava pelo quarto dentro, decidido, sem pedir licença e, saltitando, enchia a escura divisão com a sua alegria e boa disposição, como que a dizer "levanta-te dorminhoca".

Todos os dias, nas férias de Natal, eu ainda na cama, ronronava "só mais um bocadinho, está frio...", mas a sua agitação e energia acabavam por me contagiar.

Todos os dias, nas férias de Natal, seguindo o seu compasso, como que maquinalmente rodopiava pelo corredor fora, enquanto vestia o roupão, calçava as pantufas e, com as mãos arranjava os cabelos que, teimosamente, voltavam à posição inicial de eriçados e despenteados.

Todos os dias, nas férias de Natal, à porta da cozinha eu abrandava e, mesmo à entrada parava para observar os movimentos coordenados com que a minha avó a preparava a mesa do pequeno-almoço.

Todos os dias, nas férias de Natal, ele enroscava-se debaixo da mesa da cozinha, enquanto a minha avó, pontual, arranjava a mesa como se de um banquete se tratasse.

Todos os dias, nas férias do Natal, na mesa do pequeno-almoço, com a toalha que ela própria bordara, nada faltava, desde o pão ainda quente, à compota de ginja na tigela, ao leite já quente a fumegar em pequenas fumarolas nas canecas...

Todos os dias, nas férias de Natal, com a mesa do pequeno-almoço já posta, o café invadia a casa e, em completo desdém para com os outros aromas, numa dança de cheiros chamava os que, ensonados, não tivessem percebido que a hora de ir para mesa chegara.

Todos os dias, nas férias do Natal, eu sentada na mesa do pequeno-almoço e ele enrolado aos meus pés, com um festim de cheiros e sabores... são como um carimbo branco que marca subtilmente o papel de embrulho das recordações...

LL Nov/2005


"Uma noite escrevi o teu nome
num café
a cafeteira adormece breve
mesmo ao pé

O mar que passa
pela vidraça
senta-se à mesa
cheira a café

Não me enjeites quando te escrevo
o que à memória me vem
contas contadas, contas da história
que a ninguém devo, a ninguém

Já não vejo razão para calar
as múrmures águas na areia
sobre a praia a maré cheia
enche toda antes de vazar

A noite dura para além da tarde
cerveja com levedura
vaga de espuma entre o meio dia
calma a garganta que arde

O tesouro no ventre do mar
não será para quem mareia
como é bom dormir, acordar
preguiçar em branca açoteia

O sentido que eu tive da vida
num café
o que foi certo para mim um dia
já não o é

O mar que passa
pela vidraça
senta-se à mesa
cheira a café

Cão vadio, cão sem raça
pela rua a vaguear
candeeiro de luz baça
café moído a exalar

À noite os casais devassam
os enigmas duma luz mansa
os sonhos idos de criança
como farrapos soltos que passam."


Cheiro a café – João Afonso Lima

quinta-feira, novembro 27, 2008

um sentido p'rá vida...

Não procures a "chave que abre a porta do castelo de Chuchurrumel"(1)

ela não te vai abrir o sentido da vida...

Levanta o tapete debaixo do qual guardas os tesouros de cada dia

é no pó que se espalha a cada suspiro que respira o sentido de tudo o que em ti vive.

"Ó lua faz-me uma trança
P'ra de dia desmanchar
Guarda-me a última dança
Quando o fio se acabar

Gosto de ver o teu rosto
Que a mil caminhos se presta
Para uma noite desgosto
Por uma noite de festa

Voltaria à tua terra
Por um mergulho de mar
Entre a cidade e a serra
Fica algures o meu lugar

Este mundo não tem porta
Nem uma chave escondida
Por trás de tudo o que importa
Vem um sentido p'rá vida

Se te fizeres ao caminho
Em horas de arrebol
P'ra fermentar o meu vinho
Traz-me um pedaço de sol

Vamos escrever uma história
Rever um filme a passar
Logo virá à memória
O que eu te queria dar

Será verdade ou mentira
Como um segredo roubado
Sou como a lua que gira
Hei-de dançar ao teu lado

Este mundo não tem porta
Nem uma chave escondida
Por trás de tudo o que importa
Vem um sentido p'rá vida"

"À porta do mundo" - João Afonso Lima

(cantado por Filipa Pais no CD - A porta do Mundo)

(1) O castelo de Chuchurrumel - Lenga-lenga tradicional

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Casa inacabada com baloiço na janela

Moro numa casa inacabada
Feita de terra molhada
Com o céu às cavalitas
Entra, mas desculpa a confusão;
Anda tudo pelo chão,
Não contava com visitas

Comigo mora gente tão diferente
Que às vezes, pontualmente,
Só falamos por sinais;
Cada um tem na sua bagagem
Um bilhete de passagem
Pelos pontos cardeais

Na sala, uma velha cartomante
Lê ao cavaleiro errante
Um destino vencedor;
As cartas falam de perdas e danos
Para, no correr dos panos,
Encontrar o seu amor

Ao fundo, dorme um soldado sisudo
Com umas botas de faz-tudo
E uma paixão de aluguer;
O bêbado que está no quarto ao lado
Chora sempre em tom de fado
O amor de uma mulher

Aquela que tem o corpo na esquina
Diz que também foi menina
Há-de um dia ser feliz
O homem que a usou pelos quintais,
Como é norma entre iguais,
Compreende o que ela diz

Em cima fica o quarto dos amantes,
Dos poetas, viajantes
E dos loucos sem lugar;
Pintaram um baloiço na janela
Com a luz de uma aguarela
Para a lua baloiçar

Assim somos vizinhos de outras crenças,
De outros livros e sentenças
Outras formas de oração;

Mas quando a noite traz os seus momentos
Escapa destes aposentos
Um bater de coração

Revela-se a verdade nua e crua:
Chove mais do que na rua
Trago o fato ensopado
Aqui qualquer um é vagabundo,
Esta casa é todo o mundo
Falta só pôr o telhado


João Monge

(Música de Manuel Paulo http://www.manuelpaulo.net/)