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segunda-feira, janeiro 02, 2012

Saudades... das palavras, Almada?!

Tenho saudades das palavras que me acordam e pedem para serem escritas. Sinto falta da fina rede feita de letras por onde são filtradas as emoções que se encavalitam para compor o fio condutor do texto que espelhará a minha sombra.

Tenho saudades das linhas que se vão enchendo à força das ideias que desafiam os ponteiros e se degladiam para se fixar na história que ecoa pelas salas e quartos e ruas e espelhos e jardins e comboios, por onde quer que andemos...

Tenho saudades do teclado que, sem me dar conta, toca "une valse a mil temps" enquanto o enredo se adensa, letra a letra num jogo de palavras, emoções, ideias e sentimentos que se tornam vivos e dançam à minha volta.

Não sou eu quem encontro os textos e os faço histórias, frases ou poemas minimamente legíveis. São eles que brincam comigo pelas horas dos dias, jogam às escondidas entre as conversas mais prosaicas, fingem-se despercebidas no meio dos papeis, fazem-me tropeçar neles até lhes pegar, acarinhar, acolher, alegrar e, por fim, escrever...

Liliana





"O preço de uma pessôa vê-se na maneira como gosta de usar as palavras. Lê-se nos olhos das pessôas . As palavras dançam nos olhos das pessôas conforme o palco dos olhos de cada um."
'As Palvras' (pág.19)
in "A invenção do dia claro" Almada Negreiros


Post Scriptum:
"Quando copiei pela ultima vez a Invenção do Dia Claro, sobejou uma frase que não me recordo a que alturas pertence. A frase é esta:
Ha systemas para todas as coisas que nos ajudam a saber amar, só não ha systemas para saber amar!"
'Uma frase que sobejou'
(Pág.44)
in "A invenção do dia claro" Almada Negreiros

terça-feira, dezembro 09, 2008

"A verdade" segundo Almada Negreiros...

Estavam dois homens, aparentemente amigos, sentados numa mesa de café. Daqueles cafés lisboetas com história de Tertúlias Literárias que, se escutarmos com atenção ao fundo, atrás do barulho da máquina que mói o café, das vozes que entram e saem, das chávenas que se arrumam no balcão, podemos ainda sentir o som das palavras, a força da poesia, a verdade das convicções.


Estavam então dois homens, aparentemente amigos, sentados na segunda mesa, à esquerda quando se entra, com dois cafés já bebidos, uma água das pedras quase cheia e um cálice que tanto podia ser de vinho do Porto como de ginjinha meio vazio. A um canto da mesa, amontoados e sem qualquer ordem aparente, cinco ou seis livros de autores e géneros tão diferentes que podiam ter sido escolhidos ao acaso numa qualquer livraria da moda.


O homem mais velho, alto, magro, com um farto bigode e roupa algo fora de moda, parecia enervado e, rompeu o silêncio energicamente:


-Mas afinal, explique-me lá o que fez com os meus livros?! Diga-me homem! Não espera, com certeza, que depois de lhe confiar a minha colecção das obras de Fernando Pessoa, aceite este monte livros mal amanhados que, além de não serem meus, nada têm em comum com os que lhe emprestei... Vamos homem, explique-se!

O outro homem, mais novo, atarracado e gordinho, com uns óculos quadrados e um certo ar de cientista louco, respondeu ponderada e calmamente, como se alheio ao nervosismo do outro:

-Já lhe disse, a minha filha que tem três anos, encontrou os seus livros na minha mesa-de-cabeceira e, além de os riscar por completo, arrancou quase metade das folhas a cada um. Não se pode culpar uma criança por um erro inocente, mas como o tenho em grande consideração e sei que os seus livros eram peças quase únicas, resolvi repor o mesmo número de livros que me emprestou.

-Mas... estes livros não são nem parecidos com os meus... Não, desculpe mas não acredito em nada do que disse. Por favor, diga-me a verdade!

O homem do bigode estava notoriamente zangado e a sua postura confirmava-o, virava-se de um lado para o outro sem se conseguir aquietar. Por outro lado, o homem dos óculos quadrados mantinha a calma e acabou por responder:

-Pede-me a verdade, assim o farei. A minha mulher encontrou os seus livros em cima da minha mesa-de-cabeceira, como é muito arrumada e não suporta coisas fora dos sítios, ficou desnorteada com a situação e, ao pegar nos livros para os arrumar numa qualquer prateleira, entornou o copo de água que, infelizmente também estava, desarrumado, na mesa-de-cabeceira... ora os livros ficaram completamente encharcados. Como o tenho em grande estima e sei que os seus livros eram peças quase únicas, embora totalmente inocente do acontecido, decidi repor o mesmo número de livros que me emprestou.

O homem do farto bigode, cada vez mais exaltado levantou a voz e disse:

-Eu quero saber exactamente o que aconteceu com os livros que lhe confiei. Diga-me a verdade!

Mantendo o aparente alheamento, o homem com ar de cientista louco respondeu suspirando:

-A verdade, diz? Pois bem, então a verdade é que lhe pedi os livros emprestados para cair nas sua boas graças. Fiquei comovido por me ter emprestado exemplares raros das obras de Fernando Pessoa, mas nunca os cheguei sequer a ler. Na verdade, e infelizmente, a minha filha que tem três anos e a minha mulher que é muito arrumada...


LL 12-Abril-2006

"Eu tinha chegado à escola. O mestre quiz por força, saber porquê. E eu tive de dizer: Mestre! quando sahi de casatomei um carro para vir mais depressa mas, por infelicidade, deante do carro cahiu um cavalo com um ataque que durou muito tempo.

O mestre zangou-se comigo: Não minta! diga a verdade!

E eu tive de dizer: Mestre! quando sahi de casa... a minha mãe tinha um irmão no extrangeiro e, por infelicidade, morreu hontem de repente e nós ficámos de luto carregado.

O mestre ainda se zangou mais comigo: Não minta! diga a verdade!!

E eu tive de dizer: Mestre!quando sahi de casa... estava a pensar no irmão de minha mãe que está no extrangeiro ha tantos annos sem escrever. Ora isso é peor do que se elle tivesse morrido de repente porque nós não sabemos se estamos de lucto carregado ou não.

Então o mestre perdeu a cabeça comigo: Não minta, ouviu? diga a verdade, já lh'o disse!

Fiquei muito tempo calado, de repente, não sei o que me passou pela cabeça que acreditei que o mestre queria effectivamente que lhe dissesse a verdade. E, creança como eu era, puz todo o pezo do corpo em cima das pontas dos pés, e com o coração á solta confessei a verdade: Mestre! antes de chegar á Escola ha uma casa que vende bonecas. Na montra estava uma boneca vestida côr-de-rosa! A boneca tinha pelle de céra. Como as meninas! A boneca tinha olhos de vidro. Como as meninas! A boneca tinha tranças cahidas. Como as meninas! A boneca tinha dedos finos. Como as meninas! Mestre! A boneca tinha dedos finos..."


A Verdade - Almada Negreiros in A Invenção do Dia Claro

(versão original)

sexta-feira, outubro 27, 2006

Mãe vem ouvir - Almada Negreiros

Amor de mãe - Gerson Lima

Mãe!

Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue verdadeiro, encarnado!

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!

Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me ao teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.

Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero Ter um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!

Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!

Almada Negreiros in A Invenção do dia claro

sexta-feira, outubro 06, 2006

Embalar os sonhos - Pessoa versus Almada Negreiros

Maternidade - Almada Negreiros

“Não se deve falar demasiado... A vida espreita-nos sempre... Toda a hora é materna para os sonhos, mas é preciso não o saber... Quando falo demais começo a separar-me de mim própria e a ouvir-me falar. Isso faz com que me compadeça de mim própria e sinta demasiadamente o coração. Tenho então uma vontade lacrimosa de o ter nos braços para o embalar como a um filho...”

Fernando Pessoa – O Marinheiro

quarta-feira, setembro 20, 2006

A flor - Almada Negreiros



Pede-se a uma criança: Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.

Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção , outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase que não resistiu.

Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era de mais.

Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: uma flor!

As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!

Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!

Almada Negreiros - A invenção do dia claro

A caminho das 'Palvras Andarilhas' em Beja, que outra magia podia levar comigo se não a da curva das letras de Almada Negreiros?

quinta-feira, julho 27, 2006

A verdade - Almada Negreiros

"A Verdade

Eu tinha chegado tarde á escola. O mestre quiz, por força, saber porquê. E eu tive de dizer: Mestre! Quando sahi de casa tomei um carro para vir mais depressa mas, por infelicidade, deante do carro cahiu um cavalo com um ataque que durou muito tempo.

O mestre zangou-se comigo: Não minta! Diga a verdade!

E eu tive de dizer: Mestre! Quando sahi de casa... minha mãe tinha um irmão no extrangeiro e, por infelicidade, morreu hontem de repente e nós ficámos de lucto carregado.

O mestre ainda se zangou mais comigo: Não minta! Diga a verdade!!

E eu tive de dizer: Mestre! Quando sahi de casa... estava a pensar no irmão de minha mãe que está no estrangeiro há tantos annos sem escrever. Ora isto ainda é peor do que se elle tivesse morrido de repente porque nós não sabemos se estamos de lucto carregado ou não.

Então o mestre perdeu a cabeça comigo: Não minta, ouviu? Diga a verdade, já lh’o disse!

Fiquei muito tempo calado. De repente, não sei o que me passou pela cabeça que acreditei que o mestre queria effectivamente que lhe dissesse a verdade. E, creança como era, puz todo o pezo do corpo em cima das pontas dos pés, e com o coração á solta confessei a verdade: Mestre! Antes de chegar á Escola há uma casa que vende bonecas. Na montra estava uma boneca vestida de côr-de-rosa! A boneca tinha a pele de cêra. Como as meninas! A boneca tinha olhos de vidro. Como as meninas! A boneca tinha tranças cahidas. Como as meninas! A boneca tinha dedos finos. Como as meninas! Mestre! A boneca tinha os dedos finos... "

Almada Negreiros