Mostrar mensagens com a etiqueta encruzilhada. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta encruzilhada. Mostrar todas as mensagens

sábado, dezembro 15, 2018

cruzAMEnto

Não há receitas.

Há que estar 
no cruzamento 
certo, 
à hora 
certa.

Depois é preciso 
que o olhar
se cruze
o.l.h.o.s.
n.o.s.
o.l.h.o.s.

Mas é só com
os corações abertos 
que se cria 
ESPAÇO
para a 
NARRAtiva.

E sem NARRAtivas
por muito que nos
cruzemos

olhemos,
não há ESPAÇO 
para o 
novo
para a 
tentativa
para a 
curiosidade
para o 
impulso de saltar.

Só de corações abertos 
podemos 
sentir a vontade 
de nos darmos
n.ú.s.
das camadas de tinta
com que nos pintamos.

Não há receitas.

É estar no cruzamento
certo na hora
certa
e olhar
c.o.r.a.ç.ã.o.
a.
c.o.r.a.ç.ã.o. 
e deixar 
que a NARRAtiva 
se instale e
escreva a história
p.o.r. 
s.i.
m.e.s.m.a.

Não há receitas.


Liliana Lima


sábado, agosto 13, 2016

sOU eu

Não é tua esta sombra que assombra o meu dia, meu amor.
Não é tua.
Guardo em mim a caixa de Pandora que abro a cada nascer do Sol. E dela tiro a ponta dos fios coloridos de algodão com que teço as teias por onde filtro as imagens do dia. 

Não é teu este medo que eleva as ondas do meu mar, meu amor.
Não é teu.
Todas as noites de Lua nova rasgo o lençol com que não nos tapamos e coso uma nova vela com que, repetidamente, tento navegar até "lá para os lados do oriente".

Não é teu este mapa rasgado onde me perco, meu amor.
Não é teu.
Acredito na estrada de tijolos amarelos que me levará de regresso a casa. Mas nem sempre a consigo encontrar nas encruzilhadas da vida.

Não é teu este poema que diz o que não diz, meu amor.
Não é teu.
Desenho as palavras com que construo uma narrativa em caracol, que gira em roda de si própria fazendo-me perder e reencontrar numa tempestade de sentidos.

Não és tu, meu amor.
Sou eu.


Liliana


quarta-feira, agosto 03, 2016

LiBerDaDe

Procuro o caminho desenhado na areia por um puzzle de quadrados de madeira, pintada dum azul que denuncia os muitos Verões que por eles já passaram em busca do mar.



Descalço-me e, em vez de seguir pelos quadrados, decido recortar eu própria um carreiro. Quantas vezes me perdi por não construir uma nova estrada para mim.

Avanço por entre o mato, contornando os arbustos e descobrindo outros trilhos rasgados, antes de mim, na areia. Ando sem medos nem receios e desaguo no limiar da falésia.

Em baixo apenas as escarpas amarelas da arriba fóssil que se desfazem em areia que descolora até, branca, entrar no mar. E o céu, azul, este forte e vivo, que mergulha no mar e não deixa encontrar a linha do horizonte.

Aqui, no cimo da falésia, onde finco os pés na terra e abro os braços ao vento, sou livre. Não trago o peso dos dias nem os ecos das noites.

Aqui, no alto da arriba, sou. Apenas eu. Estou. Apenas o momento. Sinto. Apenas o vento. Saboreio. Apenas a maresia. Vejo. Apenas o mar. Quero. Apenas tudo!



Olho para trás e vejo o caminho de madeira, pintada de azul há muitos Verões, e o trilho que acabei de abrir.

Inspiro fundo e desço as muitas escadas cravadas na areia. Aqui em baixo não há tempo nem espaço, faço parte da praia e a praia sou eu.



Procuro um caminho marcado na areia em busca do amanhã. O mar balança e numa onda dançada diz-me, sorrindo, que tenho em mim todos os caminhos do mundo…



Liliana Lima

segunda-feira, janeiro 18, 2016

cAOs

Sento-me no chão da cozinha com a água para a massa a ferver em cacho e a frigideira com o azeite quente à espera da carne. Cá fora nem uma onda a mais no Tejo, nenhum carro a derrapar junto à passadeira, nem uma só criança a chorar pela mãe. Lá dentro um furacão capaz de arasar a cidade e engolir o rio dum só trago.

Sentada no chão da cozinha, com o jantar a chamar por mim, sinto-me perdida entre o que sinto e o que acho que devo sentir. Levanto-me e jogo à apanhada com tudo o que sei que não devia fazer, com todas as palavras que, acho, não devia dizer. Um passo para a frente, um salto para trás e o mundo ao contrário numa sucessão de sentimentos que não consigo controlar e que se espalham à minha volta, na água que ferve e na frigideira quente.

Levanto-me guardando a tempestade num aperto de coração, o mundo cá fora não vê o caos lá dentro. Hesito entre apagar o lume e pôr a massa a cozer, mas o espectáculo não pode parar e os ventos são contidos num novo aperto. Uma leve tontura lembra-me tudo em que, agora, não posso pensar e solta o bater do coração que segue o ritmo frenético interior.

O jantar está pronto e o ritual é cumprido como se um bailado, onde os receios e as inquietações e a dúvida dançam comigo à volta da mesa onde não consigo jantar. Sinto-me perdida entre o ritmo acelerado do coração e a calma aparente com que arrumo a loiça. 

Sento-me no chão da cozinha com os talheres na mão e os pratos arrumados. Cá fora a noite avança tranquilamente com os pijamas e os sacos de água quente e as escovas de dentes. Lá dentro um rufar de tambores descompassados .

O tempo segue o seu rumo, indiferente às minhas dúvidas, e de novo uma tontura que me pede para soltar as emoções que não sei dizer. Procuro as palavras para descrever o que sinto sem espelhar os destroços do marmorto. Não sei o que fazer, mas sei que não posso soltar os ventos que aperto lá dentro, sob pena de deitar por terra as construções que erguemos cá fora.

Sentada no chão da cozinha, com o silêncio do luar que entra pela janela, meço os adjectivos e conto os verbos. Sinto-me perdida entre o que sou lá dentro e o que acho que devo ser cá fora. Digo-me com muito cuidado e espero que me acolhas com todo o carinho.


Liliana


sexta-feira, janeiro 30, 2015

ris.cos

Eu sei que há riscos que cruzam a ardósia, ecoando pelos corredores o som amargo e agudo das palavras que te digo.
Eu sei.

Opto, quase sempre, pelas fotografias do álbum que não abres.
Pergunto, repetidamente, porque desenhas sempre a aguarela.
Desconfio da bússola com que orientas o mapa dos teus caminhos.
Confronto-te com o espelho, quando sorri apesar da tua mágoa, e quando te mostra o que te esforças por não ver.
Peço-te para soletrar cada palavra, para que lhe conheças o mais íntimo significado.
Esforço-me por te despir a máscara, que já nem sentes de tão bem interpretada.
Defendo até o que não defendo, apenas para provocar as tuas certezas.
Mostro-te a projeção de imagens do que ainda está para vir, enchendo a parede de possibilidades mesmo que impossíveis.

Serei bruta (?)
Serei fria (?)
Serei desagradável (?)
Serei chata (?)
Serei repetitiva (?)
Serei previsível (?)
Serei amiga (?)
Será em vão (?)

Eu sei que há riscos que marcam o chão, e que por não se apagarem tapamos com o tapete colorido, e fingimos que lá não estão.
Eu sei.

Estendo-te a mão, mesmo quando sei que não te consigo alcançar.
Abro os braços para ti, ainda que não te deixes abraçar.
Acolho as zangas, que às vezes deixas sair, e que, sei, não são para mim.
Brindo aos meios (e inteiros) sorrisos tantas vezes forçados.
Velo o teu sono na esperança de te saber a sonhar.
Aconchego o cansaço permanente que trazes para desaguar.

Serei previsível (?)
Serei utópica (?)
Serei necessária (?)
Serei excêntrica (?)
Serei indiferente (?)
Serei amiga (?)
Será em vão (?)

Eu sei que há riscos tão profundos que obrigam a agulha a saltar e voltar atrás e saltar e voltar atrás, até que o disco, estragado, acaba esquecido.
Eu sei.

Serei amiga (?)
Será em vão (?)


Liliana



domingo, dezembro 28, 2014

D.I.A.

Eu sei que há riscos que cruzam a ardósia, ecoando pelos corredores o som amargo e agudo das palavras que te digo.
Eu sei.

Opto, quase sempre, pelas fotografias do álbum que não abres.
Pergunto, repetidamente, porque desenhas sempre a aguarela.
Desconfio da bússola com que orientas o mapa dos teus caminhos.
Confronto-te com o espelho, quando sorri apesar da tua mágoa, e quando te mostra o que te esforças por não ver.
Peço-te para soletrar cada palavra, para que lhe conheças o mais íntimo significado.
Esforço-me por te despir a máscara, que já nem sentes de tão bem interpretada.
Defendo até o que não defendo, apenas para provocar as tuas certezas.
Mostro-te a projeção de imagens do que ainda está para vir, enchendo a parede de possibilidades mesmo que impossíveis.

Serei bruta (?)
Serei fria (?)
Serei desagradável (?)
Serei chata (?)
Serei repetitiva (?)
Serei previsível (?)
Serei amiga (?)
Será em vão (?)

Eu sei que há riscos que marcam o chão, e que por não se apagarem tapamos com o tapete colorido, e fingimos que lá não estão.
Eu sei.

Estendo-te a mão, mesmo quando sei que não te consigo alcançar.
Abro os braços para ti, ainda que não te deixes abraçar.
Acolho as zangas, que às vezes deixas sair, e que, sei, não são para mim.
Brindo aos meios (e inteiros) sorrisos tantas vezes forçados.
Velo o teu sono na esperança de te saber a sonhar.
Aconchego o cansaço permanente que trazes para desaguar.

Serei previsível (?)
Serei utópica (?)
Serei necessária (?)
Serei excêntrica (?)
Serei indiferente (?)
Serei amiga (?)
Será em vão (?)

Eu sei que há riscos tão profundos que obrigam a agulha a saltar e voltar atrás e saltar e voltar atrás, até que o disco, estragado, acaba esquecido.
Eu sei.

Serei amiga (?)
Será em vão (?)


Liliana



sexta-feira, outubro 05, 2012

Caminhos

Cansada de procurar bifurcações no decurso da estrada, 
sento-me na beira e recuso-me a avançar.

Não vou, 
mas não fujo para dentro da sala em forma de concha com o mar a embalar os sonhos.
Não vou, 
mas não conto a história de pernas para o ar para agitar o chão e mudar o caminho.
Não vou, 
mas não minto a mim própria, olho para a frente e sei que caminhas longe das estradas, por entre as dunas, onde o vento te sussurra e o sol te aquece.

Cansada de tropeçar nas bifurcações da estrada,
olho para o caminho que fiz.

A cada passo uma curva.
A cada passo um desvio.
A cada passo um precipício.

Sento-me à beira da estrada cansada,
e olho o vazio que se me apresenta.

Procuro no bolso as migalhas dos sonhos impossíveis com que vou marcando no chão o caminho de regresso.

Para se um dia conseguir voltar.


Liliana