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quinta-feira, julho 26, 2012

De que cor são os teus olhos, Jobim?...

Saio de casa atrasada, qual coelho da Alice correndo atrás dos ponteiros irrequietos do relógio. O dia está triste, o sol espreita mas não consegue derreter o muro de nuvens espalhadas pelo céu.
Desço a avenida, com um sapato calçado e outro ainda na mão, saltitando ao pé coxinho até o calçar. Ao fundo o Tejo acompanha a minha correria, em pequenas ondulações que o despenteiam e agitam. Paro para o cumprimentar.
 
As nuvens abafam a luz e cor das águas mergulha indecisa, entre o cinza e o azul. Esqueço-me dos ponteiros que giram ao som dos carros, e olho demoradamente as águas procurando a cor azul dos olhos do meu avô. Alternam-se o cinzento e o azul das águas com o passar da brisa e da corrente que as faz dançar.
 
Todos diziam que os teus olhos eram cinzentos, mas são azuis. São azuis da cor das manhãs de primavera! São azuis da cor do cheiro do verão e do mar! São azuis da cor dos sonhos impossíveis!
 
Sabes? Tenho saudades do azul dos teus olhos, por muito que todos digam que eram cinzentos, para mim eram azuis, de um azul vivo, alegre.
 
Seria o azul dos teus olhos somente para mim? Gostava de pensar que o guardavas só para mim, escondido entre o cinzento que mostravas ao resto do mundo!
 
E, no entanto, aqui estão eles, alternando entre o cinzento e o azul, como as águas do Tejo que dança com a brisa e a corrente...
 
Mostra-me o azul do teus olhos só meu!
Não tenho pressa, posso esperar...
Esperemos os dois pela hora certa, enquanto os carros de um lado para outro atrás dos ponteiros irrequietos como o coelho da Alice...
Tenho tempo.
Para ti, para o teu azul meu, azul dos teus olhos.
Fico aqui, sentada à beira-rio, esperando que o sol me devolva o azul do Tejo dos meus olhos do meu avô.

Liliana
02/Fev/2009


"Esse teu olhar
Quando encontra o meu
Fala de umas coisas que eu não posso acreditar...
Doce é sonhar, é pensar que você,
Gosta de mim, como eu de você...
Mas a ilusão,
Quando se desfaz,
Dói no coração de quem sonhou,
Sonhou demais...
Ah, se eu pudesse entender,
O que dizem os seus olhos."
Tom Jobim
 

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Imagina Tom...

Imagina...
Sim tu.
Imagina comigo que a cidade não nos volta as costas nas noites de lua nova.
Imagina... faz este exercício comigo e tenta visualizar as mãos que se dão, corpo e alma num abraço que se partilha.

Vamos, imagina.
Imagina que é possível.

Imagina que o amor pode, de facto, voar como balões coloridos enchendo o céu num jardim primaveril.
Imagina, que tu, que eu, nos podemos dar, sem medos nem assombros nem pudores do outro que passa ao nosso lado, porque o outro - eu, tu - também se dá, em verdade.

Agora imagina, que à nossa volta outros que também sabem imaginar.

E então imagina...
Sim, tu.
Imagina a força que teremos ao permitirmo-nos sonhar...

Liliana






"Imagina
Imagina
Hoje à noite
A gente se peder
Imagina
Imagina
Hoje à noite
A lua se apagar
Quem já viu a lua cris
Quando a lua começa a murchar
Lua cris
É preciso gritar e correr, socorrer o luar
Meu amor
Abre a porta pra noite passar
E olha o sol
Da manhã
Olha a chuva
Olha a chuva, olha o sol, olha o dia a lançar
Serpentinas
Serpentinas pelo céu
Sete fitas
Coloridas
Sete vias
Sete vidas
Avenidas
Pra qualquer lugar
Imagina
Imagina

Sabe que o menino que passar debaixo do arco-íris vira moça, vira
A menina que cruzar de volta o arco-íris rapidinho vira volta a ser rapaz
A menina que passou no arco era o
Menino que passou no arco
E vai virar menina
Imagina
Imagina
Imagina

Imagina
Imagina
Hoje à noite
A gente se perder
Imagina
Imagina
Hoje à noite
A lua se apagar"
"Imagina" de Tom Jobim