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segunda-feira, setembro 30, 2019

Crónicas duma separação consumada V

Conheces aquele aperto no estômago e a vontade de fugir e a sensação de que tudo está muito mais lento do que o teu tempo interno, que antecede uma discussão anunciada?

Respiras fundo e, durante aquele breve instante, fazes conjecturas, ensaias respostas e imaginas acusações.

No momento seguinte apercebes-te que já comprometeste a promessa de não os envolver. Porque o mal-estar te levou a querer atalhar e perceber em primeira mão a onda prestes a cair sobre ti. Ou simplesmente porque, na verdade, é mesmo mais fácil perguntar.

Depois tentas compor a situação com pensos-rápidos e os "não te preocupes" vêm acompanhados dos "está tudo bem", mesmo quando não está.

E o aperto que não desaperta até saberes exactamente o que se está/vai passar que te continua a atordoar. 

Feitas as contas, o importante é mesmo o como não te deixares imergir neste estado que leva ao incumprimento dum acordo feito de ti para ti. Ou assim o devia ser. E para isso, o que se passará, ou não passará a seguir, não deve ser o epicentro da atenção interna.

Conheces aquele aperto no estômago que antecede uma discussão anunciada e, sem quereres (ou querendo, apenas para o aliviar) acabas por fazer, mais uma vez, aquela pergunta que devia estar bloqueada?

Um dia...

Um dia algures na tua, ou na tua, ou na tua vida, vão sentir, pressentir, ou em última (e pior) análise fazer sentir, esse aperto.

Nessa altura concentrem-se nos pensos-rápidos (tentando que sejam cada vez mais lentos) e desviem o futuro da vossa atenção. 

Peçam desculpa (é verdade, as desculpas podem evitar-se mas, mais cedo ou mais tarde, devem ser pedidas sem vergonhas) e concentrem todas as forças para o aqui e o agora. Mais tarde terão tempo, por muito que tenham vontade de fugir, de lidar com a crónica que se segue.

Por agora, desculpa. Tentarei mudar o penso não muito rapidamente.


Com muito amor,
Mãe


  
  



sábado, setembro 28, 2019

Crónicas duma separação consumada IV

As semanas em que não estão, são feitas de dias normais. Dias que nascem e põem-se ligeiramente mais para a esquerda, que vão ficando mais húmidos e frios e, de acordo com a dança do Sol em volta da Terra, são cada vez mais pequenos. Mas essas diferenças só se notam depois de passadas algumas semanas.

Na verdade, nas semanas em que não estão, alguns dias são programados com afazeres que conjugam melhor com a vossa ausência, trabalhos, deslocações, almoços ou jantares a que torceriam o nariz e a que não quereriam ir. Depois há os outros, em que "o rio corre, bem ou mal, sem edição original"(*).

Na verdade, nas semanas em que não estão, em cada dia há uma ausência que me acompanha, desde que o Sol nasce até que se põe. Que viaja comigo, que escreve comigo, que come comigo, que respira comigo, que sorri, conversa e abraça comigo. Dias há, em que só eu própria vejo esse silêncio de luz. Noutros, mostra-se sem timidez a quem está ao meu lado.

Na verdade, acho que posso dizer que essa ausência nasce dentro de mim, e que de dentro mim parece sair, como alguém que "tem tempo, não tem pressa"(*) e vai pintando as minhas horas cada vez mais claras até todo o relógio estar cinzento.

Na verdade, há dias, nas semanas em que não estão, que correm ao sabor da "brisa ... tão naturalmente matinal"(*) que os deixa alegres, tranquilos e felizes. Como é de esperar. Como é natural. 

Na verdade, há dias, nas semanas em que estão, que nascem no caos dos minutos que seguem mais rápidos que os segundos, nas manhãs que se tornam madrugadas e nas almofadas que, comigo, vêm e vão ora ocupadas convosco ora à espera de vós.

Na verdade, nas semanas em que estão, há lanche ao sair da escola, pizza como jantar obrigatório de pelo menos um dia, filme que se divide por vários serões para ninguém se deitar tarde e beijinhos de boas noites.
  
As semanas em que não estão, são feitas de dias bons e dias menos bons, como as outras. A meteorologia depende de forças que nos são completamente alheias. Os acasos atropelam-se sem qualquer intervenção da nossa parte. E as obrigações são tão obrigatórias como em qualquer outra altura.

Mesmo assim. As semanas em que não estão (ainda) custam um bocadinho mais a passar do que as outras.

Com muito amor,
Mãe


(*)in Liberdade
de Fernando Pessoa
Poesias, Ática 1996


sexta-feira, setembro 27, 2019

Crónicas duma separação consumada III

E quando acordamos para o facto de estarmos a ser/fazer grande parte das coisas que tão convicta e repetidamente dissemos, noutras ocasiões e representando outras personagens, para os nossos amigos não fazerem... 

Comunicar com o que, de um dia para o outro, parece ter-se transformado no "outro lado da barricada", não é fácil. E pouco se pode fazer para mudar. Resta-nos a esperança que o tempo, a seu tempo, lime as arestas e deixe correr o ar. 

Do alto da minha alta janela, a vontade que sinto crescer dentro de mim, é de escrever pequenos papéis coloridos, enrolar cada frase e lançá-las ao vento. E não ter, tão cedo, que confrontar esse conflito latente que (ainda) não se pode amainar. 

E o mais engraçado é que acredito mesmo que, pelo menos algumas das frases, chegariam, ao destino. Amachucadas claro, mas menos confusas e quem sabe menos sujas das interpretações e subjectividades de cada um, tanto emissor como receptor. 

Sei também que te tiraria a responsabilidade de acartar com o peso que cada recado acarreta. E te tiraria do meio deste diálogo mudo, onde o teu e os vossos personagens devem ser o mais omissos possível. 

Não te aceno com uma perfeição que sei não conseguir encontrar dentro de mim. Mas prometo que tentarei arranjar a forma certa, ou pelo menos a mais eficaz, de comunicar com "esse lado" que durante tantos anos foi também o "meu" lado. E que, por acaso do destino, hoje é onde tu estás. 

Se acaso algum dia me esquecer e tentar, fugindo ao confronto, entregar-te correspondência alheia, devolve sem medos ou hesitações, ao remetente. E lembra-me o que te contei: "as palavras estão gastas"(*). 

Com muito amor, 
Mãe 



(*) "Adeus" 
de Eugénio de Andrade
In Poesia e Prosa

quarta-feira, setembro 25, 2019

Crónicas duma separação consumada II

Não sei se tenho de vos pedir desculpa por não ser "só" vossa, por completamente impossível que seja deixar de ser.
Não pedirei, com certeza, por decidir seguir o caminho que me leva de volta a mim (e por consequência a vocês).

Talvez devesse, a seu tempo, ter pedido desculpa, a cada um. Por não seres único. Por não seres o mais novo. Por não seres para sempre bebé. 
Não pedirei, com certeza, por vos saber meus desde que vos soube parte de mim, por dentro mesmo, a crescer.

Não sei se vos devia pedir perdão pelos meus dias de lua nova que, por muito que não queira, acabam por encobrir os vossos céus. 
Não pedirei, com certeza, pela natureza que se me entranha, ora Primavera com os sonhos brotando em flor, ora Inverno com cheias e tremores de terra.

Não sei se preciso pedir desculpa pelo espaço, mais escasso, menos largo, que tenho comigo para partilhar. 
Não pedirei, com certeza, pelas tentativas e erros da vontade de o tornar mais nosso. 

Ainda assim, continuo sem saber se devo esperar algum tipo de resposta, mesmo que embrulhada num qualquer "maqueique" depois dos meus 'bons dias' a piscar nos visores dos telemóveis.
Não espero, com certeza, grandes conversas sobre lágrimas que nem deixo que vos humedeçam os dedos. 

Sei, por pouco que seja, que tudo farei para não vos cobrar nem culpabilizar das curvas apertadas do caminho. E que não posso, tão pouco, deixar martirizar-me pelas geadas das manhãs.

Mas... Será que posso pedir que não fechem o mundo em dois universos infinitamente paralelos, onde vivo de acordo com as semanas, alternando entre o estar e o vazio?
Fica a ideia no ar...

Com muito amor, 
Mãe 



terça-feira, setembro 24, 2019

Crónicas duma separação consumada I

Sei-vos meus, sabendo-vos de tantos outros. De muitas maneiras e de inúmeras intensidades. 
Mas como meus que são, foram e serão, tenho a certeza que o são no singular.

Sei que o amor não se mede em dias, e que o tempo tudo esclarece (a não ser quando piora e teima em transformar aguaceiros em tempestades). 
Mas há dias em que o tempo parece rarear e o amor decide chegar atrasado.

Sei dos manuais, dos conselhos e do senso-comum que tem sempre mais de comum do que de senso. E prefiro os académicos aos que nunca se escusam de dar, conselhos. 
Mas aqui, no dia-a-dia, na realidade nua e crua, e bruta (como o é igualmente a verdade), a vontade nem sempre parece querer seguir as técnicas comprovadas há anos de terapias e análises. 

Sei da mágoa, da raiva escondida por baixo da roupa suja, que salta mesmo antes de abrirmos o cesto, pese embora o número incontável de vezes que a tapámos e escondemos debaixo das meias e dos calções de ginástica. E sei o quanto nos arrependemos por não poder arrepiar caminho depois de lançadas as palavras ao vento. 
Mas, dizem, quem não sente não é filho de boa gente e nem sempre conseguimos calar o que cá dentro tanto grita. 

Sei do caminho e dos anos e das histórias, que nos fazem ser quem, e como, somos. E sei que não sou só eu a sabê-lo. 
Mas "por vezes num segundo se evolam tantos anos"(*)...


Com muito amor, 
Mãe 



(*) David Mourão Ferreira 
in "E por vezes" 

quarta-feira, julho 31, 2019

hoRas

Sei que me espreitas a cada movimento de rotação em que, sobre os pés descalços, equilibro a paz com o caos.

Sei que me amparas, num abraço elíptico, suavizando cada cambalhota (que nunca soube dar).

Tenho certeza que me falas, em muitas línguas. Que me acolhes, em "muitas casas". 

Percebo o Teu sorriso no arrepio repentino e sinto-Te na lágrima teimosa, quando Te encontro no canto dos anjos. 

Sei que hoje me chegas nestas vozes que me trespassam, nesta sala escura onde a luz brinca com a cor e escreve o Teu nome dentro (e fora) do meu coração. 

E, por isso, sei-Te em mim em todas as horas de todos os relógios em todos os cantos do mundo. 


Liliana Lima 


quinta-feira, junho 27, 2019

vENTRE

É tão grande e profundo Este Mar
É tão azul e ao mesmo tempo transparente, ondulando aqui à minha beira 
Brilha com tanta força que multiplica o Sol por mil luzes que se estendem sobre ele
É tão largo o abraço com que me aconchega 
Este Mar
É tão diferente do rio que corre na minha aldeia

Esta Ilha cabe na palma da minha mão 
Esta Ilha 
Este bocado de Terra escondido no oceano
Perdida e fechada dentro de água 
Esta Ilha onde me aprendo e prendo numa liberdade feita azul que me leva daqui até ao fim do Mundo 
O Mundo inteiro que cabe na palma da minha mão e que vai tão para lá do rio que corre na minha aldeia
O Mundo todo nesta Ilha 

E um azul profundo que se espalha pelo Espaço
Este Espaço 
Que nos distancia do imenso desconhecido
Que está fora do alcance de todos os barcos que já voam no Espaço 
Este Espaço que une Ilhas 

Esta e todas as Ilhas que somos, unidos por tanto Mar tão azul e transparente, ondulando aqui, mesmo à minha beira 

este Mar
esta Ilha 
este Mundo 
este Espaço 
esta Arca
este Ventre
esta Mão 


Liliana Lima 
Praia da Vitória







sexta-feira, junho 21, 2019

hiATO A.zul

Onde está o chão quando o azul escorre e cobre o horizonte? 
De que lado ponho o pé se tudo o que vejo são ilhas de nuvens semi-transparentes?

Onde está o norte se perdi o céu? 

Enrosco-me numa almofada branca e tento, sem sucesso, encontrar Terra.

Como andar se não tenho o que pisar? 

Quando o azul do céu escorre e apaga o horizonte, o tempo desaparece com o chão.
Há um hiato feito nuvens que nos permite sentir sem tocar, amar sem desgastar, ser sem falhar.

O azul que me envolve não é todo igual. As tonalidades distinguem os sonhos perfeitos, impossíveis, das incertezas com que sonhamos acordados.

Estou direita ou do avesso? 

O Sol, que reflecte no tapete branco que compõe o céu, cega-me e deixo de ter qualquer ponto de referência.

Estarei lá em baixo, onde nunca sei bem onde assentar as ideias? Ou estou por cima das nuvens, onde tudo é filtrado pela condensação da água pura, branca?

Trago na mochila o peso das mil culpas que destilo ao fim de cada dia. Os receios, as mágoas. 
Aqui, neste hiato de nuvens feito, posso largar a mochila. Aqui não há peso, nem gravidade a classificar os pecados, as falhas, as dores.

São horas de descer, dizem. 

Eu continuo num contínuo azul. Neste ar frio, rarefeito. 

Gosto do branco que nasce dos azuis vários e da luz intensa do Sol, que me permitem ver mais além deste céu sem hora nem beira.

Vamos descer, pousar na Terra, ficar com os pés bem assentes no chão.

Talvez me enrosque numa nuvem branca e nem procure Terra à vista.
Talvez me deixe cegar pelo Sol e não mais veja os sonhos impossíveis ou inatingiveis.
Talvez deixe que me descaia "o meu pé de catraia" e me encontre no mar azul que escorre do céu em diferentes tonalidades que apagam o tempo. 
Talvez. 

Podemos viver sem horizonte? 


Liliana Lima 


terça-feira, junho 18, 2019

esta OUTRA margem

Sentei-me na MARGEM, esgotada, enervada e sem forças para continuar. 
Todo o mundo me parecia estar na OUTRA MARGEM. 
Mesmo tu, que sentia tocar-me, estavas lá do OUTRO lado.
As vozes chegavam de longe e a cidade parecia desaparecida.

Com o Tejo a desaguar em mim, ouvi a tua voz.
Com a Lua Nova a esconder-se comigo, senti a tua mão. 
Com o corpo a tremer num turbilhão de sentimentos, reconheci o teu calor.

Levantei-me, esgotada, dESTA MARGEM. 
Olhei à volta e decidi atravessar a ponte para o OUTRO lado e, num só passo, anular as MARGENS.

Liliana Lima 



sábado, junho 15, 2019

SAPI(paci)ÊNCIA

Só sei explicar o que sinto através do ritmo com que, nas entrelinhas, escrevo. 
Sou sempre inteira, mas nem sempre me traduzo completamente para a linguagem corrente.
Não que não queira ser lida. 
Não que me importe aparecer transparente. 
Não que queira ser altiva ou, propositadamente, diferente. 
Pelo contrário. 
A batalha comigo trava-se dentro mim própria e o leito onde jazem os argumentos derrotados é um ringue de difícil saída. 
É que é nas gavetas, que se escondem por dentro daquelas portas de vidro que guardam o comum e vulgar dos dias, que se sentam os meus fantasmas, tão educados e persistentemente presentes. 
E é precisamente nos dias banais que, como um carro mal arrumado ou uma nota fora do tom, saem dos seus aposentos e se apresentam, em formação, marchando sobre o meu corpo. 
É então que procuro guarida na escrita e passo outro dia completo a estudar táticas e movimentos, na esperança de ganhar a guerra que, resguardadamente, se debate em e sobre mim. 
Um dia, ou dois, ou três, conforme a sapi(paci)ência dos outros de ler o tanto que, nas entrelinhas, escrevo. 
É que, só mesmo assim me sei explicar. 

Lili








quinta-feira, maio 16, 2019

MEMÓRIAS... do futuro

Lembras-te que os caminhos 
que hoje escolhemos 
amarelos e seguros amanhã se continuam a desenhar?

Lembras-te de cada beijo 
que as nossas bocas já têm 
para dar?

Lembras-te das mãos 
que ontem aprendiam a silhueta um do outro 
e já nos afagam nas noites que vão chegar?

Lembras-te das manhãs
que vamos acordar?

Lembras-te como o teu corpo
húmido e cansado de trocar de corpo um com o meu 
se enrosca em mim nos lençóis que vamos comprar?

Lembras-te das palavras 
que em todas as conversas que partilhamos
já repetes de hoje em diante?

Lembras-te de cada zanga 
que trocamos amiúde
por carícias futuras?

Lembras-te das velas
que vamos acender?

Lembras-te dos brincos
a condizer com o anel
que me vais oferecer?

Lembras-te das canções
que vais compor com os poemas 
que vou escrever?

Lembras-te das lágrimas 
que no teu ombro
novamente vou secar?

Lembras-te das noites
que vamos embalar?

Lembras-te dos sorrisos
que um com o outro
vamos trocar?

Lembras-te dos tantos concertos, filmes, peças
que de mãos dadas
vamos partilhar?

Lembras-te dos caminhos
sempre amarelos e seguros
que vamos calcorrear?

Lembras-te dos dias e das noites
que vamos viver?

Lembras-te de te lembrares
das memórias conjuntas
que vamos construir?

Liliana Lima





sexta-feira, maio 10, 2019

A(qu)Í

Estou aqui
À tua espera
Se calhar à minha 

Como se espera alguém
Sem se saber de onde vem?

Podes chegar à hora marcada
(Aqui estou eu) 
Mas marcada por quem? 
Se todas as horas são uma hora 
Mais tarde?
(E eu aqui sentada)

Seria de perguntar
De onde vens? 
Para perceber 
Onde irias chegar
(Podia jurar que perguntei) 

Como se chega assim
Sem saber se alguém nos espera? 

Não sei de onde vens
Nem quando chegas 
Mas sei que estás aí 
(E eu continuo aqui)

Lili







sábado, abril 13, 2019

MARgens

É cá dentro que continuas a dizer-me bom dia
É cá dentro que me acompanhas na eterna correria
É cá dentro que me visto de ti para me construir a mim

Querias ficar no Tejo, disseste-me um dia
Querias ficar nas águas que tantos anos te banharam
Querias ficar ali

Podem as margens conter-te de uma só vez?
Podem as águas embalar o teu sono de vez?
Posso largar-te sem quebrar os laços que nos juntaram?
E, por consequência, perder-me nas lágrimas que se afundaram?

Quantas vezes choramos um adeus?

Queria deixar-te no Tejo, como pediste um dia
Deixar-te em paz nas águas que tão bem conhecias
Queria deixar-te ali

Se é cá dentro que continuas a florir
Nas receitas
Nas feições
Nos dizeres
Nas graças
Nas roupas
Nos gostos
Nas escolhas
Nas canções
Nos caminhos
Porque pesavas tanto, quando te deixei cair?

Podem as margens conter-te de uma só vez?
Podem as águas embalar o teu sono de vez?
Posso largar-te sem quebrar os laços que nos juntaram?
E, por consequência, perder-me nas lágrimas que se afundaram?

Quantas vezes choramos um adeus?


Liliana Lima




sábado, fevereiro 09, 2019

estOU AQUI

Existo de verdade
Sim
Do lado de cá do espelho, 
onde te vejo olhar para mim
e para ti 

Estou no reflexo que aparece apenas 
quando te aproximas
de mão dada a mim

E é por existires de verdade deste lado 
onde nos olhamos 
sem nos vermos espelhados,
que eu estou aqui 

Existo de verdade
Sim
Para cá dos arco-íris que procuro
no céu como um sinal
que me levará(ou)
até ti

Entre as cores que escorrem
por todas as ruas da cidade
"em que te procuro",
colorida, estou
aqui

E mesmo quando não vejo os arcos 
que sei nascer a cada momento,
estou na linha onde se deita
o teu mar
no meu céu

Existo de verdade
Sim
Do lado de cá do arco-íris
e por entre as cores do (teu)
espelho


Liliana Lima




segunda-feira, fevereiro 04, 2019

TEjo

Quantos pôres-do-Sol te vi beijar 
Quantos fins-de-tarde passeei ao teu lado 

Hoje não acordo contigo
Como muitos anos, há muitos anos

Hoje vejo-te o nascer do Sol pintar as águas
E com ele aprendo a reconstruir os abraços 
Semi-cerro os olhos e revejo a esperança 
Sorrio-te e renovo as palavras
Doces


Liliana Lima 



quarta-feira, janeiro 02, 2019

aNO NOVO

E como ontem, o dia nasce
e vemo-lo passar diante nós
Traz no azul do céu a cor dos sonhos que trazemos nos olhos
Na brisa a suavidade das manhãs grávidas de esperança
No branco das nuvens a pureza do acordar dos amantes
E no Sol a força da utopia

E como ontem, a tarde cai
e sentimo-la descer sobre nós
Carrega no colo os sonhos, os novos e os de sempre
Embala a esperança que se tornou vontade
Faz crescer o amor na pureza dos gestos
E transforma a utopia em horizonte

E como ontem, a noite nasce
e, do alto do luar, olha-nos
Encobre os medos dos sonhos desfeitos
Apaga a inércia e a invontade de quem não crê
Ilumina os lençóis das camas dos amantes
E dentro da lua cheia faz renascer a utopia

E como ontem, o ano começa...


Liliana Lima


quinta-feira, dezembro 27, 2018

O sim foi dado há muito tempo, Haden?

O sim já foi dado há muito tempo

O sim já foi dado há tanto tempo
e nem precisou de anel

O sim, já foi dado, faz muito tempo
Não veio embrulhado num anel
mas sim na tomada de consciência

O sim foi dado há muito tempo
E, mesmo sem a companhia do anel,
trouxe consigo a perfeita consciência
dum tratado cumplicemente firmado

O sim, já foi dado, faz muito tempo
Ainda sem certeza?
Nem precisou de anel
Ainda sem o conhecimento completo?
Com a perfeita consciência
Ainda sem o correr do tempo?
Cumplicemente firmado
Ainda sem toda a certeza?
Debaixo da pele de cada um

O sim já foi dado há muito tempo...
Já com toda a certeza?
Não veio embrulhado num anel
Já com o todo o conhecimento?
Trouxe a perfeita consciência
Já com tempo suficiente?
Um tratado cumplicemente firmado
Já toda a certeza?
Debaixo da pele de cada um
Com a certeza absoluta?
Para todos os embrulhos futuros

Porque... o sim...
O sim, já foi dado
há muito tempo.


Liliana Lima



sábado, dezembro 15, 2018

cruzAMEnto

Não há receitas.

Há que estar 
no cruzamento 
certo, 
à hora 
certa.

Depois é preciso 
que o olhar
se cruze
o.l.h.o.s.
n.o.s.
o.l.h.o.s.

Mas é só com
os corações abertos 
que se cria 
ESPAÇO
para a 
NARRAtiva.

E sem NARRAtivas
por muito que nos
cruzemos

olhemos,
não há ESPAÇO 
para o 
novo
para a 
tentativa
para a 
curiosidade
para o 
impulso de saltar.

Só de corações abertos 
podemos 
sentir a vontade 
de nos darmos
n.ú.s.
das camadas de tinta
com que nos pintamos.

Não há receitas.

É estar no cruzamento
certo na hora
certa
e olhar
c.o.r.a.ç.ã.o.
a.
c.o.r.a.ç.ã.o. 
e deixar 
que a NARRAtiva 
se instale e
escreva a história
p.o.r. 
s.i.
m.e.s.m.a.

Não há receitas.


Liliana Lima


sábado, novembro 10, 2018

quase SEMPRE, ou quase NUNCA, Fernando?!

Quase sempre ao fundo do sonho a vida espreita
Quase nunca o horizonte é direito ao fundo do mar
Quase sempre uma gaivota, ainda que ao longe, pinta o céu
Quase nunca as tempestades anunciadas ficam para jantar
Quase sempre as ondas se acalmam no coração
Quase nunca a espuma branca permanece na areia
Quase sempre o vento nos canta até percebermos
Que quase nunca o alinhamento programado é, afinal aquele que escolhemos

Liliana Lima 



Os argumentos são, quase sempre, mais verdadeiros do que os factos. A lógica é o nosso critério de verdade, e é nos argumentos, e não nos factos, que pode haver lógica.

Fernando Pessoa 
in Ideias Políticas 

terça-feira, outubro 30, 2018

Dançamos, Chico?...

Os corpos encontram-se no sofá num abraço longo que se estende com a sombra do Sol, que se retira
As mãos encontram-se a meio caminho do quarto onde as ondas já esperam, aconchegando os lençóis
Os olhos fecham-se para ver melhor tudo o que só se consegue ver fora do grande écran

E os lábios levando no beijo toda a carga dos sentimentos que cantam, desde a praia até ao alto da cidade
Os sentidos (con)fudem-se numa mistura de odores húmidos que se concentram nas quatro paredes sem pudor do espelho
E a respiração, ignorando o compasso, deixa-se levar pelas marés vivas que cobrem a praia e escondem a areia

O tempo pára. De verdade. E na rua todos se recolhem, respeitando o amor que ali se vive

Os corpos mantêm-se juntos, sem pressa, enquanto as ondas acalmam e se abafam na areia e a agulha chega ao fim do disco e o tempo retoma onde tinha parado
O Sol despede-se num longo abraço laranja e a cidade adormece em paz

Liliana Lima






Um dia ele chegou tão diferente
Do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente
Do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto
Quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto
Pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar
E então ela se fez bonita
Como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado
Cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços
Como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça
Foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança
Que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade
Que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu em paz
Composição: Chico Buarque / Vinícius de Moraes