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quarta-feira, julho 31, 2019

hoRas

Sei que me espreitas a cada movimento de rotação em que, sobre os pés descalços, equilibro a paz com o caos.

Sei que me amparas, num abraço elíptico, suavizando cada cambalhota (que nunca soube dar).

Tenho certeza que me falas, em muitas línguas. Que me acolhes, em "muitas casas". 

Percebo o Teu sorriso no arrepio repentino e sinto-Te na lágrima teimosa, quando Te encontro no canto dos anjos. 

Sei que hoje me chegas nestas vozes que me trespassam, nesta sala escura onde a luz brinca com a cor e escreve o Teu nome dentro (e fora) do meu coração. 

E, por isso, sei-Te em mim em todas as horas de todos os relógios em todos os cantos do mundo. 


Liliana Lima 


quinta-feira, junho 27, 2019

vENTRE

É tão grande e profundo Este Mar
É tão azul e ao mesmo tempo transparente, ondulando aqui à minha beira 
Brilha com tanta força que multiplica o Sol por mil luzes que se estendem sobre ele
É tão largo o abraço com que me aconchega 
Este Mar
É tão diferente do rio que corre na minha aldeia

Esta Ilha cabe na palma da minha mão 
Esta Ilha 
Este bocado de Terra escondido no oceano
Perdida e fechada dentro de água 
Esta Ilha onde me aprendo e prendo numa liberdade feita azul que me leva daqui até ao fim do Mundo 
O Mundo inteiro que cabe na palma da minha mão e que vai tão para lá do rio que corre na minha aldeia
O Mundo todo nesta Ilha 

E um azul profundo que se espalha pelo Espaço
Este Espaço 
Que nos distancia do imenso desconhecido
Que está fora do alcance de todos os barcos que já voam no Espaço 
Este Espaço que une Ilhas 

Esta e todas as Ilhas que somos, unidos por tanto Mar tão azul e transparente, ondulando aqui, mesmo à minha beira 

este Mar
esta Ilha 
este Mundo 
este Espaço 
esta Arca
este Ventre
esta Mão 


Liliana Lima 
Praia da Vitória







sexta-feira, junho 21, 2019

hiATO A.zul

Onde está o chão quando o azul escorre e cobre o horizonte? 
De que lado ponho o pé se tudo o que vejo são ilhas de nuvens semi-transparentes?

Onde está o norte se perdi o céu? 

Enrosco-me numa almofada branca e tento, sem sucesso, encontrar Terra.

Como andar se não tenho o que pisar? 

Quando o azul do céu escorre e apaga o horizonte, o tempo desaparece com o chão.
Há um hiato feito nuvens que nos permite sentir sem tocar, amar sem desgastar, ser sem falhar.

O azul que me envolve não é todo igual. As tonalidades distinguem os sonhos perfeitos, impossíveis, das incertezas com que sonhamos acordados.

Estou direita ou do avesso? 

O Sol, que reflecte no tapete branco que compõe o céu, cega-me e deixo de ter qualquer ponto de referência.

Estarei lá em baixo, onde nunca sei bem onde assentar as ideias? Ou estou por cima das nuvens, onde tudo é filtrado pela condensação da água pura, branca?

Trago na mochila o peso das mil culpas que destilo ao fim de cada dia. Os receios, as mágoas. 
Aqui, neste hiato de nuvens feito, posso largar a mochila. Aqui não há peso, nem gravidade a classificar os pecados, as falhas, as dores.

São horas de descer, dizem. 

Eu continuo num contínuo azul. Neste ar frio, rarefeito. 

Gosto do branco que nasce dos azuis vários e da luz intensa do Sol, que me permitem ver mais além deste céu sem hora nem beira.

Vamos descer, pousar na Terra, ficar com os pés bem assentes no chão.

Talvez me enrosque numa nuvem branca e nem procure Terra à vista.
Talvez me deixe cegar pelo Sol e não mais veja os sonhos impossíveis ou inatingiveis.
Talvez deixe que me descaia "o meu pé de catraia" e me encontre no mar azul que escorre do céu em diferentes tonalidades que apagam o tempo. 
Talvez. 

Podemos viver sem horizonte? 


Liliana Lima 


terça-feira, junho 18, 2019

esta OUTRA margem

Sentei-me na MARGEM, esgotada, enervada e sem forças para continuar. 
Todo o mundo me parecia estar na OUTRA MARGEM. 
Mesmo tu, que sentia tocar-me, estavas lá do OUTRO lado.
As vozes chegavam de longe e a cidade parecia desaparecida.

Com o Tejo a desaguar em mim, ouvi a tua voz.
Com a Lua Nova a esconder-se comigo, senti a tua mão. 
Com o corpo a tremer num turbilhão de sentimentos, reconheci o teu calor.

Levantei-me, esgotada, dESTA MARGEM. 
Olhei à volta e decidi atravessar a ponte para o OUTRO lado e, num só passo, anular as MARGENS.

Liliana Lima 



sábado, junho 15, 2019

SAPI(paci)ÊNCIA

Só sei explicar o que sinto através do ritmo com que, nas entrelinhas, escrevo. 
Sou sempre inteira, mas nem sempre me traduzo completamente para a linguagem corrente.
Não que não queira ser lida. 
Não que me importe aparecer transparente. 
Não que queira ser altiva ou, propositadamente, diferente. 
Pelo contrário. 
A batalha comigo trava-se dentro mim própria e o leito onde jazem os argumentos derrotados é um ringue de difícil saída. 
É que é nas gavetas, que se escondem por dentro daquelas portas de vidro que guardam o comum e vulgar dos dias, que se sentam os meus fantasmas, tão educados e persistentemente presentes. 
E é precisamente nos dias banais que, como um carro mal arrumado ou uma nota fora do tom, saem dos seus aposentos e se apresentam, em formação, marchando sobre o meu corpo. 
É então que procuro guarida na escrita e passo outro dia completo a estudar táticas e movimentos, na esperança de ganhar a guerra que, resguardadamente, se debate em e sobre mim. 
Um dia, ou dois, ou três, conforme a sapi(paci)ência dos outros de ler o tanto que, nas entrelinhas, escrevo. 
É que, só mesmo assim me sei explicar. 

Lili








quinta-feira, maio 16, 2019

MEMÓRIAS... do futuro

Lembras-te que os caminhos 
que hoje escolhemos 
amarelos e seguros amanhã se continuam a desenhar?

Lembras-te de cada beijo 
que as nossas bocas já têm 
para dar?

Lembras-te das mãos 
que ontem aprendiam a silhueta um do outro 
e já nos afagam nas noites que vão chegar?

Lembras-te das manhãs
que vamos acordar?

Lembras-te como o teu corpo
húmido e cansado de trocar de corpo um com o meu 
se enrosca em mim nos lençóis que vamos comprar?

Lembras-te das palavras 
que em todas as conversas que partilhamos
já repetes de hoje em diante?

Lembras-te de cada zanga 
que trocamos amiúde
por carícias futuras?

Lembras-te das velas
que vamos acender?

Lembras-te dos brincos
a condizer com o anel
que me vais oferecer?

Lembras-te das canções
que vais compor com os poemas 
que vou escrever?

Lembras-te das lágrimas 
que no teu ombro
novamente vou secar?

Lembras-te das noites
que vamos embalar?

Lembras-te dos sorrisos
que um com o outro
vamos trocar?

Lembras-te dos tantos concertos, filmes, peças
que de mãos dadas
vamos partilhar?

Lembras-te dos caminhos
sempre amarelos e seguros
que vamos calcorrear?

Lembras-te dos dias e das noites
que vamos viver?

Lembras-te de te lembrares
das memórias conjuntas
que vamos construir?

Liliana Lima





sexta-feira, maio 10, 2019

A(qu)Í

Estou aqui
À tua espera
Se calhar à minha 

Como se espera alguém
Sem se saber de onde vem?

Podes chegar à hora marcada
(Aqui estou eu) 
Mas marcada por quem? 
Se todas as horas são uma hora 
Mais tarde?
(E eu aqui sentada)

Seria de perguntar
De onde vens? 
Para perceber 
Onde irias chegar
(Podia jurar que perguntei) 

Como se chega assim
Sem saber se alguém nos espera? 

Não sei de onde vens
Nem quando chegas 
Mas sei que estás aí 
(E eu continuo aqui)

Lili







sábado, abril 13, 2019

MARgens

É cá dentro que continuas a dizer-me bom dia
É cá dentro que me acompanhas na eterna correria
É cá dentro que me visto de ti para me construir a mim

Querias ficar no Tejo, disseste-me um dia
Querias ficar nas águas que tantos anos te banharam
Querias ficar ali

Podem as margens conter-te de uma só vez?
Podem as águas embalar o teu sono de vez?
Posso largar-te sem quebrar os laços que nos juntaram?
E, por consequência, perder-me nas lágrimas que se afundaram?

Quantas vezes choramos um adeus?

Queria deixar-te no Tejo, como pediste um dia
Deixar-te em paz nas águas que tão bem conhecias
Queria deixar-te ali

Se é cá dentro que continuas a florir
Nas receitas
Nas feições
Nos dizeres
Nas graças
Nas roupas
Nos gostos
Nas escolhas
Nas canções
Nos caminhos
Porque pesavas tanto, quando te deixei cair?

Podem as margens conter-te de uma só vez?
Podem as águas embalar o teu sono de vez?
Posso largar-te sem quebrar os laços que nos juntaram?
E, por consequência, perder-me nas lágrimas que se afundaram?

Quantas vezes choramos um adeus?


Liliana Lima




sábado, fevereiro 09, 2019

estOU AQUI

Existo de verdade
Sim
Do lado de cá do espelho, 
onde te vejo olhar para mim
e para ti 

Estou no reflexo que aparece apenas 
quando te aproximas
de mão dada a mim

E é por existires de verdade deste lado 
onde nos olhamos 
sem nos vermos espelhados,
que eu estou aqui 

Existo de verdade
Sim
Para cá dos arco-íris que procuro
no céu como um sinal
que me levará(ou)
até ti

Entre as cores que escorrem
por todas as ruas da cidade
"em que te procuro",
colorida, estou
aqui

E mesmo quando não vejo os arcos 
que sei nascer a cada momento,
estou na linha onde se deita
o teu mar
no meu céu

Existo de verdade
Sim
Do lado de cá do arco-íris
e por entre as cores do (teu)
espelho


Liliana Lima




segunda-feira, fevereiro 04, 2019

TEjo

Quantos pôres-do-Sol te vi beijar 
Quantos fins-de-tarde passeei ao teu lado 

Hoje não acordo contigo
Como muitos anos, há muitos anos

Hoje vejo-te o nascer do Sol pintar as águas
E com ele aprendo a reconstruir os abraços 
Semi-cerro os olhos e revejo a esperança 
Sorrio-te e renovo as palavras
Doces


Liliana Lima 



quarta-feira, janeiro 02, 2019

aNO NOVO

E como ontem, o dia nasce
e vemo-lo passar diante nós
Traz no azul do céu a cor dos sonhos que trazemos nos olhos
Na brisa a suavidade das manhãs grávidas de esperança
No branco das nuvens a pureza do acordar dos amantes
E no Sol a força da utopia

E como ontem, a tarde cai
e sentimo-la descer sobre nós
Carrega no colo os sonhos, os novos e os de sempre
Embala a esperança que se tornou vontade
Faz crescer o amor na pureza dos gestos
E transforma a utopia em horizonte

E como ontem, a noite nasce
e, do alto do luar, olha-nos
Encobre os medos dos sonhos desfeitos
Apaga a inércia e a invontade de quem não crê
Ilumina os lençóis das camas dos amantes
E dentro da lua cheia faz renascer a utopia

E como ontem, o ano começa...


Liliana Lima


quinta-feira, dezembro 27, 2018

O sim foi dado há muito tempo, Haden?

O sim já foi dado há muito tempo

O sim já foi dado há tanto tempo
e nem precisou de anel

O sim, já foi dado, faz muito tempo
Não veio embrulhado num anel
mas sim na tomada de consciência

O sim foi dado há muito tempo
E, mesmo sem a companhia do anel,
trouxe consigo a perfeita consciência
dum tratado cumplicemente firmado

O sim, já foi dado, faz muito tempo
Ainda sem certeza?
Nem precisou de anel
Ainda sem o conhecimento completo?
Com a perfeita consciência
Ainda sem o correr do tempo?
Cumplicemente firmado
Ainda sem toda a certeza?
Debaixo da pele de cada um

O sim já foi dado há muito tempo...
Já com toda a certeza?
Não veio embrulhado num anel
Já com o todo o conhecimento?
Trouxe a perfeita consciência
Já com tempo suficiente?
Um tratado cumplicemente firmado
Já toda a certeza?
Debaixo da pele de cada um
Com a certeza absoluta?
Para todos os embrulhos futuros

Porque... o sim...
O sim, já foi dado
há muito tempo.


Liliana Lima



sábado, dezembro 15, 2018

cruzAMEnto

Não há receitas.

Há que estar 
no cruzamento 
certo, 
à hora 
certa.

Depois é preciso 
que o olhar
se cruze
o.l.h.o.s.
n.o.s.
o.l.h.o.s.

Mas é só com
os corações abertos 
que se cria 
ESPAÇO
para a 
NARRAtiva.

E sem NARRAtivas
por muito que nos
cruzemos

olhemos,
não há ESPAÇO 
para o 
novo
para a 
tentativa
para a 
curiosidade
para o 
impulso de saltar.

Só de corações abertos 
podemos 
sentir a vontade 
de nos darmos
n.ú.s.
das camadas de tinta
com que nos pintamos.

Não há receitas.

É estar no cruzamento
certo na hora
certa
e olhar
c.o.r.a.ç.ã.o.
a.
c.o.r.a.ç.ã.o. 
e deixar 
que a NARRAtiva 
se instale e
escreva a história
p.o.r. 
s.i.
m.e.s.m.a.

Não há receitas.


Liliana Lima


sábado, novembro 10, 2018

quase SEMPRE, ou quase NUNCA, Fernando?!

Quase sempre ao fundo do sonho a vida espreita
Quase nunca o horizonte é direito ao fundo do mar
Quase sempre uma gaivota, ainda que ao longe, pinta o céu
Quase nunca as tempestades anunciadas ficam para jantar
Quase sempre as ondas se acalmam no coração
Quase nunca a espuma branca permanece na areia
Quase sempre o vento nos canta até percebermos
Que quase nunca o alinhamento programado é, afinal aquele que escolhemos

Liliana Lima 



Os argumentos são, quase sempre, mais verdadeiros do que os factos. A lógica é o nosso critério de verdade, e é nos argumentos, e não nos factos, que pode haver lógica.

Fernando Pessoa 
in Ideias Políticas 

terça-feira, outubro 30, 2018

Dançamos, Chico?...

Os corpos encontram-se no sofá num abraço longo que se estende com a sombra do Sol, que se retira
As mãos encontram-se a meio caminho do quarto onde as ondas já esperam, aconchegando os lençóis
Os olhos fecham-se para ver melhor tudo o que só se consegue ver fora do grande écran

E os lábios levando no beijo toda a carga dos sentimentos que cantam, desde a praia até ao alto da cidade
Os sentidos (con)fudem-se numa mistura de odores húmidos que se concentram nas quatro paredes sem pudor do espelho
E a respiração, ignorando o compasso, deixa-se levar pelas marés vivas que cobrem a praia e escondem a areia

O tempo pára. De verdade. E na rua todos se recolhem, respeitando o amor que ali se vive

Os corpos mantêm-se juntos, sem pressa, enquanto as ondas acalmam e se abafam na areia e a agulha chega ao fim do disco e o tempo retoma onde tinha parado
O Sol despede-se num longo abraço laranja e a cidade adormece em paz

Liliana Lima






Um dia ele chegou tão diferente
Do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente
Do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto
Quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto
Pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar
E então ela se fez bonita
Como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado
Cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços
Como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça
Foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança
Que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade
Que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu em paz
Composição: Chico Buarque / Vinícius de Moraes

sexta-feira, outubro 26, 2018

vem VER o horiZONTE, Judy

Há um sítio, mágico, onde o mar mergulha no céu. E as nuvens se espalham para deixar passar o azul.

Há um sítio, mágico, onde o sal se dilui nas manhãs. E as ondas se afastam para recortar o horizonte.

Há um sítio, mágico, onde o vento desenha sonhos. E cada vontade se transforma numa branca gravura no firmamento.

Há um sítio, mágico, na minha janela...


Liliana Lima



When all the world is a hopeless jumble
And the raindrops tumble all around
Heaven opens a magic lane


When all the clouds darken up the sky way
There's a rainbow highway to be found
Leading from your windowpane to a place behind the sun
Just a step beyond the rain


Somewhere over the rainbow way up high

There's a land that I heard of once in a lullaby

Somewhere over the rainbow skies are blue
And the dreams that you dare to dream really do come true


Some day I'll wish upon a star and
Wake up where the clouds are far behind me
Where troubles melt like lemon drops
Away above the chimney tops
That's where you'll find me


Somewhere over the rainbow bluebirds fly
Birds fly over the rai
nbow, why then, oh why can't I?

Judy Garland 

terça-feira, outubro 23, 2018

E.stás A.trás da PORTA, Eugénio?

Saber a paz tão perto, ali já, atrás da porta
Sentir o mar, lá ao fundo, a cantar cá dentro
Descobrir o sorriso, sempre novo, a cada dia
Aprender a tranquilidade no final de cada espera

E... saber-te na paz de estar, aqui mesmo, atrás da porta

Deixar cair as barreiras, uma a uma, aproveitando todos os espaços novos para suspirar
Acreditar que o castelo de areia se desfaz, apenas para se refazer a cada madrugada
Encontrar a surpresa duma harmonia que respira, viva, em mim

E... saber-me na paz de deixar a inquietação, enfim, atrás da porta

Liliana



Urgentemente

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
é urgente destruir certas palavras.
odio, solidão e crueldade,
alguns lamentos
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade 

quinta-feira, outubro 18, 2018

que NÃO

Que não penses que, por não falar, não sinto
                                       por não dizer, não questiono
                                       por não escrever, não temo

Encosta-te, mas lembra-te de não esquecer
Que não deixa de ler quem cala

Abraça-me, mas não esqueças de te lembrar
Que não deixa de ouvir quem não escreve


Liliana Lima



sábado, outubro 06, 2018

Do La.Do esquerdo

às vezes confundo o lado esquerdo com o direito
diria mesmo que mudam de lado, num segundo incompleto
baralhando o lado em que estou e caindo a pique para o outro, tão imperfeito

às vezes confundo o lado em que bate, tranquilo, o meu coração
com o lado em que me enrosco para sentir o teu corpo 
respirando, profundamente coordenados com o bater da ondulação 

às vezes procuro-te no lado ao lado da vida que espera
num jardim que se encanta com tudo o que se canta
e expõe lado a lado, a vida, florida, em plena Primavera

às vezes o meu lado direito passa a ser esquerdo
diria mesmo que se fundem, num beijo quase perfeito
quando os corpos, abraçados, fazem do meu peito o teu lado direito

Liliana Lima



sexta-feira, setembro 28, 2018

TEMpo

Meto a mão na mala à procura dos minutos que tinha (tenho quase a certeza) guardado para te oferecer. 

Este caos que vive comigo teima em se instalar por entre as chaves que não abrem a porta de casa, os lápis e os batôns meio-secos de tão pouco os usar, os cadernos pretos pequeninos sempre prontos para me deixar escrever as palavras que pedem para ser contadas, e os lenços e as toalhitas e o desodorizante e o leque florido e os cartões e... as chaves que nem a porta de casa abrem.
Encontro tudo, menos o tempo que queria para nós...

Tiro a agenda e peço-lhe, baixinho, que me deixe falar aos dias, contar às horas, pedir ao tempo que se aquiete e nos abra o espaço para sermos nós (não tu e eu, mas nós).
Nunca estou certa das suas respostas, conheço bem o seu mau-feitio e inconstância. Mas, pelo sim pelo não, espreito por sobre os sábados e procuro dentro das quartas-feiras e... às vezes dou por mim num dia-sim, outras encontro apenas nãos.

Mas, entre cada nascer e pôr-do-Sol, vou guardando carinhosamente na minha mala, todos os momentos que consigo libertar para juntar ao nosso tempo (não meu e teu, mas nosso).

Meto a mão no cesto, debroado a azul que trago hoje a consizer com a saia comprida e a blusa branca. Podia jurar que lá dentro pelo menos umas horas estavam guardadas para nós. 
Mas o caos que teima em viver comigo diz-me que hoje não é o dia certo.

Suspiro e olho em frente com a certeza de que, mais dia menos noite, vamos encontrar O nosso tempo.

Liliana Lima