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terça-feira, janeiro 18, 2011

De que cor é a tua palavra, Carlos?


Recorto o tecido azul escuro, ligeiramente ondulado, com a forma de um ovo de... talvez pata, talvez peru (sou filha de Lisboa, o meu contacto com os animais é reduzido). Enfio a linha amarelo-vivo na agulha e coso com pontos largos, contrastando com as calças, o tecido-ovo na perna direita das calças. Seguem-se as gangas, mais espessas e difíceis de coser (nunca aprendi a trabalhar com máquinas, para desgosto das tias e bisavó).

Depois vêm os bibes, com os nomes anteriores e as manchas que já não saem, e os bolsos descosidos. Agora procuro os tecidos de cores vivas e texturas macias, corto-lhes balões, lápis, pincéis e coso um pouco por todo o lado. Os joelhos sorriem, os bibes animam, e os cotovelos inovam.

Pergunto-me se, quando o sol nascer, eles vão querer vestir ou esconder no fundo do armário branco do quarto de dormir.

Procuro outras calças, mais camisolas, bibes, casacos, vestidos, recorto olhos, peixes, balões, nuvens... mas já não tenho onde coser.
Um burburinho obriga-me a continuar a avançar mesmo quando toda a roupa está tratada. Então procuro palavras, junto-lhes as cores e os tecidos que recortei, enfio a linha na agulha e... escrevo.

Escrevo para não me ouvir, a televisão ao fundo é apenas um cenário que me (des)enquadra. Toda a casa, os silêncios do quarto das crianças, o escuro dos corredores, o ressonar no quarto, afasta-se aos poucos para me dar o espaço onde as palavras se encaixam naturalmente, sem esforço.

Às vezes as linhas entrelaçam-se e misturam os sentidos das frases, mas outras são tão lineares que nada mais há a acrescentar, está lá tudo (é só ler).
As cores fazem parte de mim, já não sei ao certo de qual gosto mais, em qual me revejo, com qual me pareço. Então olho para o ecran e sinto as palavras que esvoaçam à minha volta, misturando o azul com o rosa com laranja com o verde e o vermelho, envolvendo as calças e os bibes e os sonos, mais ou menos, silenciosos e os corredores apagados...

Espalhados pelo chão, os tecidos chamam-me para a cama, prometendo uma noite tranquila. Não fujo mais. Coso uma escada com linha castanha-clara e desço por ela até à almofada, esperando adormecer enroscada na palavra sono.
Liliana



"Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.

Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra."

"A palavra Mágica" de Carlos Drummond de Andrade
in 'Discurso da Primavera'

domingo, outubro 24, 2010

Confias em mim, Carlos?!

Disse mesmo o que penso, ou será que fui eu que me enganei e conjuguei as palavras duma forma absurda? Não procuro essa resposta, terá sido a minha pergunta mal elaborada?
Recomeço.

Espere. Não me olhe assim, não me quero reflectida nesse olhar. Há aqui um engano, não o olhei desse prisma, nem tenciono vê-lo aí. Não me está a entender, devo-me ter explicado mal, peço desculpa.
Recomeço.

Não entendo esse sorriso, não é de alegria nem de amizade... Estou engana. Só posso. Conheço-o há tantos anos...
Recomeço mais uma vez, baralhada.

Não quero ouvir essas palavras que ecoam a azedo, e me ferem tanto como o olhar que choca com o meu e me faz embater na mão que está pousada no meu ombro. Não conjugo os verbos, nem equaciono as consequências. Afasto-me apenas, sem a coragem de me debater, impor ou sequer reconhecer que sei.

Engano-me.
Afasto-me, mas mais minuto menos minuto tudo há-de cair em cima de mim, como uma chuva repentina. Afasto-me para fugir, mas na verdade trago comigo as palavras, os olhares, as insinuações coladas ao corpo. Apago as memórias tapando com a mesma areia que atiro aos meus olhos.

Engano-me a mim própria.
Recomeço sem ter, verdadeiramente, acabado. Avanço com a urgência de não ficar aqui, abandonada neste limbo.

Liliana




"Todos nasceram velhos — desconfio.
Em casas mais velhas que a velhice,
em ruas que existiram sempre — sempre
assim como estão hoje
e não deixarão nunca de estar:
soturnas e paradas e indeléveis
mesmo no desmoronar do Juízo Final.
Os mais velhos têm 100, 200 anos
e lá se perde a conta.
Os mais novos dos novos,
não menos de 50 — enorm'idade.
Nenhum olha para mim.
A velhice o proíbe. Quem autorizou
existirem meninos neste largo municipal?
Quem infrigiu a lei da eternidade
que não permite recomeçar a vida?
Ignoram-me. Não sou. Tenho vontade
de ser também um velho desde sempre.
Assim conversarão
comigo sobre coisas
seladas em cofre de subentendidos
a conversa infindável de monossílabos, resmungos,
tosse conclusiva.
Nem me vêem passar. Não me dão confiança.
Confiança! Confiança!
Dádiva impensável
nos semblantes fechados,
nos felpudos redingotes,
nos chapéus autoritários,
nas barbas de milénios.
Sigo, seco e só, atravessando
a floresta de velhos."

"Os velhos" de Carlos Drummond de Andrade
in 'Boitempo'

sexta-feira, abril 30, 2010

Que música toca o teu rádio, Carlos?

Há um homem que todos os dias percorre Campo de Ourique numa bicicleta ferrugenta, que um dia terá sido talvez cinzenta, com um cesto de plástico encaixado no guiador onde, amarrado com corda, leva um rádio de pilhas que, apesar de mal sintonizado, tem o propósito de se fazer ouvir por todo o bairro.

Confesso, que nos primeiros tempos de moradora, era algo que me fazia confusão, e até me incomodava aquela personagem bizarra que todos conhecem e que, faça chuva ou faça sol, nos obriga a ouvir a sua estação preferida gritada a plenos pulmões por um rádio daqueles compactos, enormes, muito datados, que ficaram conhecidos como "tijolos", enquanto pedala alegremente no seu enferrujado veículo.

Aos poucos, como acredito se terá passado com os meus vizinhos de bairro, aquela "sanfona estridente" passou a fazer parte da minha vivência diária. Assim que o sol cansado se espreguiça e se encosta lentamente ao Tejo as ruas, que quase todas se cruzam em ângulo recto, enchem-se da música mais diversa e inesperada que se possa imaginar, num equilíbrio sonoro que depende da proximidade da dita bicicleta.

Ao passar, este personagem excêntrico sorri, e segue feliz, como quem cumpre a sua missão de alegrar o mundo, ou pelo menos a pequena parte dele que consegue percorrer a cada tarde que passa. A criançada, habituada ao protocolo, acompanha-o correndo um ou dois quarteirões e depois, enquanto assaltam o chafariz do jardim molhando tudo à sua volta, aguardam pelo regresso da última ronda musical.

Há um homem que todos os dias percorre Campo de Ourique numa bicicleta estridente com um rádio ferrugento e partilha música com quem por ali passa, como quem oferece um bolo a uma criança. Ele é feliz, independentemente do que pensam, dizem ou acham dele. Que me lembre, e já por aqui estou há uns anitos, o rádio enferrujado na bicicleta estridente, raramente se atrasam ou faltam ao compromisso.

A verdade é que todos ouvimos a música que, alegremente, nos oferece dia após dia após dia. E sem pedir nada em troca, quando a noite acorda e decide escurecer o céu, volta para casa com a promessa de amanhã estar novamente pedalando pelas ruas de Campo de Ourique com a felicidade estridente duma sanfona antiga.

Liliana Lima




Vem descendo a avenida
O negro do rádio de pilhas
Todo contente da vida
Porque não chove e o sol brilha

Patilha comprida e carapinha
Com um visual garrido
Dançando enquanto caminha
Rádio colado ao ouvido

Sei de quem tem hi-fis
E lê enciclopédia
Mas este negro curte mais
Mesmo só com a onda média

Filho da savana
Primo de um coqueiro
Deus deu-lhe a devoção
Mas deu-lhe o ritmo primeiro

Quando o negro vai ao baile
Fica o logo o centro
Tal como no rádio
A música vem lá de dentro

No domingo vi o negro desgostoso
O quiosque estava fechado
E o velho rádio fanhoso
Sem pilhas estava calado

"O negro do rádio de pilhas" de Carlos Tê e Rui Veloso

segunda-feira, julho 27, 2009

Vem conversar comigo, Carlos...

Vem conversar comigo para que eu me oiça enquanto falamos e me entenda nas palavras que de mim saem.

Senta-te aqui bem pertinho, deixa-me embalar e ganhar confiança para me lançar. Depois conversa comigo, devagar, dando espaço para que eu me oiça bem.

Vem conversar comigo mas não fiques aí, espectador de um monólogo, ajuda-me a fazer as perguntas certas para que oiça as respostas que a mim mesma dou.

Senta-te aqui ao meu lado e fala tu agora, fala para que te oiças, pausadamente e com calma para que nenhuma palavra te fuja.

Vem conversar comigo que eu quero ouvir-te e na volta de cada frase perguntar-te o que perguntarias se contigo falasses.

Senta-te pertinho de mim para que consiga acolher cada palavra tua como se minha fosse, embalá-la e olhá-la de perto que "quem não vê olhos, não vê corações".

Vem conversar comigo para que, dando espaço às minhas palavras, abras caminho às tuas e, em conjunto, as vejamos voar e, por fim, oiçamos o que afinal nos querem dizer.

Senta-te ao meu lado e partilhemos palavras que é isso que os amigos fazem. Aprendamos um com outro a arte de repartir os silêncios certos, onde as palavras de cada um ecoam e se mostram despidas das entrelinhas que no barulho das luzes as deixam desfiguradas.

Liliana Lima




"Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida a senha do mundo.
Vou procurá-la.
Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.
Procuro sempre,
e minha procura
ficará sendo minha palavra."
"A Palavra Mágica" de Carlos Drummond de Andrade
in 'Discurso da Primavera'