É no fundo do mar
que me escondo de mim
e nas conchas procuro a paz
para me encontrar por ti
Sei do canto estridente das gaivotas
e do embalo sedutor das sereias
Sei do areal desnudado pela maré baixa
porque nele me enrosco em mim mesma
Conheço todas as conchas coloridas
que colecciono para te oferecer
É a elas que pergunto por mim
enquanto, escondida, falo de ti
Nado em círculos para te chamar
Mas carregando todo o oceano, receio
que em maré alta transborde
e o teu pé tão catraio, à beira-mar, se suje
Queria conhecer todos os barcos
e inventar uma vela que enfunasse
à força do meu suspiro
e, seca, ao teu lado me deixasse
Mas sempre que, em tornado te tornas
e a mesa reviras e as ideias me baralhas
É no fundo do mar que me escondo
para não desaguar em ti
E sem poderes saber
provocas a maré, que se agita dentro de mim
E sem conseguires entender
chamas a noite que se debate sobre mim
É no fundo do mar
que me escondo de mim
e me embalo na maré
que, espero, me leve a ti
Lili
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quarta-feira, março 27, 2019
mAR
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quinta-feira, agosto 30, 2018
REdoMA
Estou presa numa redoma que tinge o mundo dum tom esverdeado
Estou dentro duma casa que se vira do avesso como uma onda que embate no paredão e muda os sentidos e me deixa em contra mão
Sinto uma força de ciclone que me arranca de onde estou e me abandona num mundo sem coração com um colete apertado de lata e um monte de palha no avental
Estou presa numa órbita muito para além da Lua, que me aproxima ou afasta duma terra onde não encontro lugar
Baloiço na corda que me devia equilibrar, mas que não pára e nunca me deixa levantar
Vou de barco sem mastro nem velas nem estrelas para me guiar, vou apesar do medo de nunca saber se, algum dia vou chegar
Tenho a chuva toda da Terra agarrada aos olhos que, cansados, me pedem para simplesmente a soltar
Construí um muro feito de legos para me proteger do sismo que sinto cá dentro e que, só pode vir de fora, seja do ontem ou do agora
Decidi que não posso pedir desculpa a cada hora por actos ou omissões que me vejo fazer como uma marioneta nas mãos de um qualquer alguém
Estou presa numa redoma que, com a água da chuva, tinge o mundo dum tom esverdeado
Vivo numa casa ao contrário que me enjoa e desalinha
Aperto com força, tanta força, este tornado que vive em mim e que acredito capaz de destruir até a muralha mais longa
Vejo a Lua numa dança elíptica e com ela aprendo a nascer e a morrer em volta da mesma terra
Não me ponho em pé com medo dos solavancos com que a vida me embala
Navego pelos oceanos num barco de papel feito das muitas linhas que escrevo e acabo por riscar
Construo castelos de areia, mil e uma vezes levados pelo mar
E peço desculpa por tudo o que digo mesmo depois de avisar que o guião que se me cola à pele, poderia magoar
Estou presa numa redoma
Estrou presa dentro de mim
Liliana Lima
Estou dentro duma casa que se vira do avesso como uma onda que embate no paredão e muda os sentidos e me deixa em contra mão
Sinto uma força de ciclone que me arranca de onde estou e me abandona num mundo sem coração com um colete apertado de lata e um monte de palha no avental
Estou presa numa órbita muito para além da Lua, que me aproxima ou afasta duma terra onde não encontro lugar
Baloiço na corda que me devia equilibrar, mas que não pára e nunca me deixa levantar
Vou de barco sem mastro nem velas nem estrelas para me guiar, vou apesar do medo de nunca saber se, algum dia vou chegar
Tenho a chuva toda da Terra agarrada aos olhos que, cansados, me pedem para simplesmente a soltar
Construí um muro feito de legos para me proteger do sismo que sinto cá dentro e que, só pode vir de fora, seja do ontem ou do agora
Decidi que não posso pedir desculpa a cada hora por actos ou omissões que me vejo fazer como uma marioneta nas mãos de um qualquer alguém
Estou presa numa redoma que, com a água da chuva, tinge o mundo dum tom esverdeado
Vivo numa casa ao contrário que me enjoa e desalinha
Aperto com força, tanta força, este tornado que vive em mim e que acredito capaz de destruir até a muralha mais longa
Vejo a Lua numa dança elíptica e com ela aprendo a nascer e a morrer em volta da mesma terra
Não me ponho em pé com medo dos solavancos com que a vida me embala
Navego pelos oceanos num barco de papel feito das muitas linhas que escrevo e acabo por riscar
Construo castelos de areia, mil e uma vezes levados pelo mar
E peço desculpa por tudo o que digo mesmo depois de avisar que o guião que se me cola à pele, poderia magoar
Estou presa numa redoma
Estrou presa dentro de mim
Liliana Lima
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sábado, março 31, 2018
PAR.is
Ela chamou-o para jantar
Abriu um abraço de par em par
e disse tudo o que há muito ele esperava ouvir
No seu corpo, há tanto tempo sedento do dela, aceitou,
num beijo doce em que se permitiu fugir,
e na manta de retalhos, por fim, se entregou
Ela chegou num remoinho
e abanou o seu coração
Falou do futuro, alegre,
olhando um postal de Paris
e cantou feliz, gravando, a sua canção
Rasgou-se-lhe o peito e o céu choveu noites sem fim
Ele deu-lhe a mão e tentou acender flores
Abriu um abraço e deu-se como queria, por fim
Mas sem nunca lhe conseguir afastar as dores
Ela chegou com o passado atrás de si
Ele fechou os olhos, e fingiu,
embalando-os, que não o viu
As noites frias acenderam fagulhas
e arranharam-lhe bem fundo muitas palavras cruas
Ela pediu-lhe espaço, tempo e paz
com um tom grave e frio na voz
Ele tentou entender o que fazer,
mas perdeu-se no escuro que o silêncio faz
E esperou que novamente ela o decidisse querer
Chegou decidida depois do tempo que passou
Abriu-lhe um abraço onde ele se entregou
Deu-se e recebeu-a em corpo e poesia
E, despido do mundo, ao seu lado se deitou
numa calma e meiga suspirada melodia
Ele sentiu o vento norte nas suas velas soprar
e as palavras, ainda a arranhar
e o passado sempre a avisar
na maresia salgada das lágrimas que choveu
nos tantos anos que sem ela viveu
Ela chegou depois do tempo
Com o corpo dele dela sedento
mas sem calor suficiente para a acalmar
nem tempo, nem paz, para a abraçar
Apesar de hoje e sempre a continuar a amar
Liliana Lima
Abriu um abraço de par em par
e disse tudo o que há muito ele esperava ouvir
No seu corpo, há tanto tempo sedento do dela, aceitou,
num beijo doce em que se permitiu fugir,
e na manta de retalhos, por fim, se entregou
Ela chegou num remoinho
e abanou o seu coração
Falou do futuro, alegre,
olhando um postal de Paris
e cantou feliz, gravando, a sua canção
Rasgou-se-lhe o peito e o céu choveu noites sem fim
Ele deu-lhe a mão e tentou acender flores
Abriu um abraço e deu-se como queria, por fim
Mas sem nunca lhe conseguir afastar as dores
Ela chegou com o passado atrás de si
Ele fechou os olhos, e fingiu,
embalando-os, que não o viu
As noites frias acenderam fagulhas
e arranharam-lhe bem fundo muitas palavras cruas
Ela pediu-lhe espaço, tempo e paz
com um tom grave e frio na voz
Ele tentou entender o que fazer,
mas perdeu-se no escuro que o silêncio faz
E esperou que novamente ela o decidisse querer
Chegou decidida depois do tempo que passou
Abriu-lhe um abraço onde ele se entregou
Deu-se e recebeu-a em corpo e poesia
E, despido do mundo, ao seu lado se deitou
numa calma e meiga suspirada melodia
Ele sentiu o vento norte nas suas velas soprar
e as palavras, ainda a arranhar
e o passado sempre a avisar
na maresia salgada das lágrimas que choveu
nos tantos anos que sem ela viveu
Ela chegou depois do tempo
Com o corpo dele dela sedento
mas sem calor suficiente para a acalmar
nem tempo, nem paz, para a abraçar
Apesar de hoje e sempre a continuar a amar
Liliana Lima
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quarta-feira, agosto 23, 2017
as VELHAS da praia
Sei que voltas. Mas ainda agora saíste e já algo de nós ficou. Um nó, uma rede, que caiu no porão com o embate das tuas malas.
Sei que voltas. Mas os minutos estendem-se para além das horas. E lá fora podia jurar que "as velhas da praia" a gritar... Mas, "São loucas! São loucas?"
Sei que voltas. Mas dói esta presença ausente que me faz esperar junto à janela desta lua que me/te ilumina como que numa promessa velada.
Sei que voltas. Mas não posso continuar a pedir às gaivotas que me guardem, "perfeito, o meu coração".
Sei que voltas. Mas tenho de me proteger, e ainda que 'tudo em meu redor me diga que estás sempre comigo', não te vejo, não te oiço, não te sei.
Sei que voltas. Mas quem és quando aqui não estás, não é quem por cá se instalou de pedra e cal 'dentro do meu coração'.
Sei que voltas. Mas pergunto ao luar como se volta depois deste afastar.
Sei que voltas. Mas sei também da surpresa, da interrogação, da não compreensão. E sei o quanto marcam a ferro e fogo o fundo do meu coração.
Sei que voltas. Sei até que já tentaste encurtar o caminho desenhado por ti a lápis azul no mapa astral dos planetas e constelações.
Sei que voltaste.
Mas como aquecer o vazio se "acordei tremendo deitada na areia"?
Sei que voltaste.
"Como sempre, como antes". Como se o tempo aqui tivesse congelado à espera do teu olá.
Sei que voltaste.
E foi no momento em que pegaste nas malas que me apercebi que quem fica não tem uma redoma onde pára os ponteiros e abafa os sentimentos.
Sei que voltaste.
Diz-me, então, que faço eu agora com a bagagem que nestas noites carreguei?...
Liliana Lima
Sei que voltas. Mas os minutos estendem-se para além das horas. E lá fora podia jurar que "as velhas da praia" a gritar... Mas, "São loucas! São loucas?"
Sei que voltas. Mas dói esta presença ausente que me faz esperar junto à janela desta lua que me/te ilumina como que numa promessa velada.
Sei que voltas. Mas não posso continuar a pedir às gaivotas que me guardem, "perfeito, o meu coração".
Sei que voltas. Mas tenho de me proteger, e ainda que 'tudo em meu redor me diga que estás sempre comigo', não te vejo, não te oiço, não te sei.
Sei que voltas. Mas quem és quando aqui não estás, não é quem por cá se instalou de pedra e cal 'dentro do meu coração'.
Sei que voltas. Mas pergunto ao luar como se volta depois deste afastar.
Sei que voltas. Mas sei também da surpresa, da interrogação, da não compreensão. E sei o quanto marcam a ferro e fogo o fundo do meu coração.
Sei que voltas. Sei até que já tentaste encurtar o caminho desenhado por ti a lápis azul no mapa astral dos planetas e constelações.
Sei que voltaste.
Mas como aquecer o vazio se "acordei tremendo deitada na areia"?
Sei que voltaste.
"Como sempre, como antes". Como se o tempo aqui tivesse congelado à espera do teu olá.
Sei que voltaste.
E foi no momento em que pegaste nas malas que me apercebi que quem fica não tem uma redoma onde pára os ponteiros e abafa os sentimentos.
Sei que voltaste.
Diz-me, então, que faço eu agora com a bagagem que nestas noites carreguei?...
Liliana Lima
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segunda-feira, março 20, 2017
_ti
Passam os dias pela minha janela sem olhar para mim. Pergunto-lhes para onde vão, dizem-me que apenas sabem que não param aqui, onde, em frente ao espelho, me arranjo para ti.
Rolam os sonhos por sobre a minha almofada sem, contudo, me tocarem na noite que custa a passar. Peço-lhes que se aninhem a mim, respondem-me que não se deitam ali, onde, no escuro, procuro por ti.
Correm as horas e as datas e o desejos que a eles se colam. Chamo-os para o meu lado, abro-lhes um abraço, contam-me que não têm espaço ali, onde, sozinha, espero por ti.
Liliana Lima
Rolam os sonhos por sobre a minha almofada sem, contudo, me tocarem na noite que custa a passar. Peço-lhes que se aninhem a mim, respondem-me que não se deitam ali, onde, no escuro, procuro por ti.
Correm as horas e as datas e o desejos que a eles se colam. Chamo-os para o meu lado, abro-lhes um abraço, contam-me que não têm espaço ali, onde, sozinha, espero por ti.
Liliana Lima
segunda-feira, agosto 15, 2016
Pra ia
Escorre-me a areia por entre os dedos ao sabor do vento
E no entanto podia jurar que ainda agora a tua mão na minha
O Sol consome todo o horizonte com o virar da ampulheta
São corpos recortados no prateado intenso que invadem a praia
Figuras indistintas que não consigo nomear
Semi-cerro os olhos doridos com a força da luz para te procurar
E no entanto ainda agora podia jurar que te estava a abraçar
Liliana Lima
quarta-feira, agosto 03, 2016
LiBerDaDe
Procuro o caminho desenhado na areia por um puzzle de quadrados de madeira, pintada dum azul que denuncia os muitos Verões que por eles já passaram em busca do mar.
Descalço-me e, em vez de seguir pelos quadrados, decido recortar eu própria um carreiro. Quantas vezes me perdi por não construir uma nova estrada para mim.
Avanço por entre o mato, contornando os arbustos e descobrindo outros trilhos rasgados, antes de mim, na areia. Ando sem medos nem receios e desaguo no limiar da falésia.
Em baixo apenas as escarpas amarelas da arriba fóssil que se desfazem em areia que descolora até, branca, entrar no mar. E o céu, azul, este forte e vivo, que mergulha no mar e não deixa encontrar a linha do horizonte.
Aqui, no cimo da falésia, onde finco os pés na terra e abro os braços ao vento, sou livre. Não trago o peso dos dias nem os ecos das noites.
Aqui, no alto da arriba, sou. Apenas eu. Estou. Apenas o momento. Sinto. Apenas o vento. Saboreio. Apenas a maresia. Vejo. Apenas o mar. Quero. Apenas tudo!
Olho para trás e vejo o caminho de madeira, pintada de azul há muitos Verões, e o trilho que acabei de abrir.
Inspiro fundo e desço as muitas escadas cravadas na areia. Aqui em baixo não há tempo nem espaço, faço parte da praia e a praia sou eu.
Procuro um caminho marcado na areia em busca do amanhã. O mar balança e numa onda dançada diz-me, sorrindo, que tenho em mim todos os caminhos do mundo…
Liliana Lima
segunda-feira, maio 09, 2016
Aí/qui
Agora que me deito sobre as mágoas e me tapo com as inquietações
Agora que a noite ilumina os medos que apenas mostro ao luar
Agora que deixo de lutar contra as lágrimas que, todo o dia, prendi
Agora que procuro a calma que me falha, num frasco de berlindes arredondados
Agora que me viro de lado e tento pensar apenas em não pensar
Agora que fecho os olhos o oiço dentro de mim todos os sons que pintaram o dia
Agora que me permito zangar e resmungar e até praguejar
Agora que a lua me sussurra que as horas avançam e me pede para a embalar
Agora que não sei como começar o amanhã
Agora que sinto, tanto, tudo o há para sentir
Agora que não vejo como sair daqui
Agora que toda a cidade dorme embalada pela dança do Tejo
Agora que não sei de ti
Agora que me perco em mim
Agora que procuro por nós
Agora
Deitada no Tejo e embalada pelos medos
Pergunto à Lua se sabe de ti
Confesso à cidade que preciso de nós
E penso em voz alta porque estou aqui
Agora
Diz-me a noite que estás aí/qui
Asseguram-me os berlindes que me esperas aí/qui
Prometem-me as mágoas que me queres aí/qui
Liliana Lima
Agora que a noite ilumina os medos que apenas mostro ao luar
Agora que deixo de lutar contra as lágrimas que, todo o dia, prendi
Agora que procuro a calma que me falha, num frasco de berlindes arredondados
Agora que me viro de lado e tento pensar apenas em não pensar
Agora que fecho os olhos o oiço dentro de mim todos os sons que pintaram o dia
Agora que me permito zangar e resmungar e até praguejar
Agora que a lua me sussurra que as horas avançam e me pede para a embalar
Agora que não sei como começar o amanhã
Agora que sinto, tanto, tudo o há para sentir
Agora que não vejo como sair daqui
Agora que toda a cidade dorme embalada pela dança do Tejo
Agora que não sei de ti
Agora que me perco em mim
Agora que procuro por nós
Agora
Deitada no Tejo e embalada pelos medos
Pergunto à Lua se sabe de ti
Confesso à cidade que preciso de nós
E penso em voz alta porque estou aqui
Agora
Diz-me a noite que estás aí/qui
Asseguram-me os berlindes que me esperas aí/qui
Prometem-me as mágoas que me queres aí/qui
Liliana Lima
domingo, março 06, 2016
tornEIRA
Não abras a torneira que estou a suster a água dentro do peito.
Não acendas a luz que o espelho olha fixamente para os olhos que não mostro a ninguém para esquecer que os tenho.
Não respondas que falo somente para me ouvir, pintando a verdade de aguarelas que escorrem pelo ralo e não tarda se juntam ao rio.
Não me dês a mão que ela só sabe amparar, e nunca foi amparada.
Que sabor amargo é este que se me cola à garganta e se recusa a ser diluído, pelos mil argumentos, que junto no guarda-joias para os dias de tempestade?
Que tremor é este que me impede até de falar, me embarga a voz e me aperta o peito?
Que tontura dança em mim, rodopiando os meus pensamentos, em volta da sala, do quarto, até mesmo da cama?
Que mágoa é esta que abre rachas mais antigas que o nascer dos tempos, e se confunde com as dores de ontem e multiplica as de hoje?
Que solidão é esta que se senta ao meu lado, por muito que me confortem em abraços ocos do calor de quem sabe ler as entrelinhas?
Que vazio é este que me consome, e devora cada nova alvorada?
Abre a torneira que me afogo na água que trago no peito...
Acende a luz que preciso encontrar no espelho os olhos que a ninguém mostro...
Responde-me que preciso ouvir a verdade para além da que pinto com aguarelas no rio...
Dá-me a mão, devagar, como quem é amparado, para que não perceba que é a tua que me ampara...
Liliana
quinta-feira, março 03, 2016
Chuva
Deixo cair uma pinga de chuva em cima do cetim rosa que coso em forma de envelope, onde penso guardar o meu livro.
Nos ouvidos dizem-me "why worry.. and all the rest is by the way". É de noite e a paz que não consigo agarradar, espalha-se pelos quartos dos miúdos e espelha-se nas suas respirações. É tão bom conseguir deitar a cabeça na almofada e ir, sem fantasmas, nem medos, nem inquietações.
Arrumo-me na escrivaninha antiga de madeira escura e volto para os tecidos e as agulhas e as linhas coloridas. Sinto um arrepio dentro do corpo, nos ossos, nos músculos. O frio que sinto por dentro consegue tomar conta de todo o quarto.
E mais um gota de chuva que molha o cetim rosa. Largo as agulhas e procuro o calor de alguém que não está.
Visto tão profundamente as personagens que crio, que já ninguém me reconhece.
A lua, indiferente a mim e à chuva que vai manchando os tecidos, diz-me que estou presa à minha máscara. E nos ouvidos "anoiteceu no neu olhar de feiticeira de estrela do mar".
Não consigo ir deitar-me e não me interessa já a bolsa para o livro.
Não, aqui onde estou, não está ninguém e provavelmente ninguém cá chega.
Deixo cair uma pinga de chuva na mão e encosto a cabeça na escrivaninha antiga de madeira escura.
Está frio, cá dentro.
Estou só, cá fora.
Liliana
quarta-feira, fevereiro 03, 2016
Saber.às?!
Do silêncio que grita,
do esforço,
da inquietação,
do aperto
Da mordaça fria,
do esforço,
da inquietação,
do aperto
Da distância sombria,
do esforço,
da inquietação,
do aperto
Da ausência que me agita,
do esforço,
da inquietação,
do aperto
Liliana Lima
do esforço,
da inquietação,
do aperto
Da mordaça fria,
do esforço,
da inquietação,
do aperto
Da distância sombria,
do esforço,
da inquietação,
do aperto
Da ausência que me agita,
do esforço,
da inquietação,
do aperto
Liliana Lima
quinta-feira, agosto 07, 2014
praia
Não me lembro de algum dia ter ido à praia sozinha, tirando esta tarde de Agosto envergonhado em que decidi, à falta de companhia, dar-me esse tempo só para mim.
O caminhar ao sol sem ninguém que salta à minha volta, o percorrer do trilho de madeira até ao cimo da arriba sem tropeções nem escorregadelas, o descer as escadas por entre as dunas de areia amarela sem zangas nem gritos nem a palavra "MÃE" gasta rebolando até à beira-mar...
Pensamentos e imagens que me acompanharam à praia e com os quais conversei até aceitar, não só a sensatez como a legitimidade de usar comigo este tempo.
Olho à minha volta e não oiço nada para além do mar que em segredo me chama, na espuma que dança o tango com as ondas e se deleita na areia para, com elas, voltar ao turbilhão da corrente.
Sou eu só, ali na areia quente para quem não tenho de me esconder nem aprimorar nem mascarar. Sensação esquisita esta de ser por completo. Pergunto-me se algum dia me sentirei assim, livre, entre as dunas das pessoas. E, com o vento a bater na minha toalha a bater em mim, vem-me à memória um outro mundo também de mares e de colinas e de ondas em espuma e de corpos deitados sobre a toalha-lençol, onde também aí dispo as máscaras e convenções, saio do esconderijo perco o medo e, sim, sou eu somente que me entrego.
Deito-me neste colchão de areia que espera por mim. Abro o livro, companheiros fieis de todas as caminhadas, e converso com Cesariny. Conversa difícil de iniciar, referências não muito distantes mas estilos longínquos e palavras desconexas que me baralham,
não percebo que queres dizer...
e ele altivo divertido distraído
não percebes? Nem eu mas também não faz mal
a salvação dos homens cães não passa por aí.
Ou passará?
Talvez tenha passado
no eléctrico que avisa a manhã.
Mas não, os homens cães estripados, apodrecidos
nas bermas sujas desta
cidade imunda navio
podre sem carga a borrar o cais com as porcarias
obscenas dos senhores foices
Mas tu, meu amor, para sempre bela...
Passo as apresentações mais abstractas e aqui e ali começo a perceber o fio à meada que tem nós e avanços e recuos mas nos liga (diria que a todos) naquilo que é a essência da arte poética "ter pessoas dentro" (roubei a um amigo, se ele se queixar logo se muda).
Cansa-me no entanto a conversa, onde só eu pareço esforçar-me para manter um certo fio condutor de lucidez. Despeço-me, voltarei a ti mais tarde, e troco o livro pelo horizonte límpido azul brilhante fresco do mar, que tento tocar numa carícia feita abraço feita olhar feita mergulho. Dura pouco no entanto este embalo.
O vento chama lá de cima da encosta e as horas, inquietas, segredam-me que os papeis deixados em banho-maria precisam de ser novamente inventados e recriados para o pôr-do-Sol. Visto a saia preta que se levanta com o vento e a blusa branca com um coração, arrumo no cesto Cesariny e o livro e a toalha e estas duas horas sozinha na praia. A subida é íngreme e comprida até ao trilho de madeira que ainda me leva ao caminho até casa.
Vejo o mar a encolher e a areia marela ao fundo e vejo-me a mim também, subindo a arriba. Muito devagar vou vestindo os tropeções as escorregaldelas as zangas e os gritos. Dobrada com muito cuidado em cima do banco já de cimento já na estrada, a palavra "MÃE" que leio devagar e com todo o carinho de mãe até interiorizar o seu infinito significado.
Não me lembro de algum dia ter ido à praia sozinha, mas não faz mal. Quantos de vós já teve o privilégio de conversar descontraidamente na toalha de praia abanada pelo vento durante duas horas banhadas pelo cheiro e canto do mar com Cesariny?!?!
Liliana
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