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sábado, novembro 10, 2018

quase SEMPRE, ou quase NUNCA, Fernando?!

Quase sempre ao fundo do sonho a vida espreita
Quase nunca o horizonte é direito ao fundo do mar
Quase sempre uma gaivota, ainda que ao longe, pinta o céu
Quase nunca as tempestades anunciadas ficam para jantar
Quase sempre as ondas se acalmam no coração
Quase nunca a espuma branca permanece na areia
Quase sempre o vento nos canta até percebermos
Que quase nunca o alinhamento programado é, afinal aquele que escolhemos

Liliana Lima 



Os argumentos são, quase sempre, mais verdadeiros do que os factos. A lógica é o nosso critério de verdade, e é nos argumentos, e não nos factos, que pode haver lógica.

Fernando Pessoa 
in Ideias Políticas 

terça-feira, junho 02, 2015

Como é uma "Pessoa" tranquila, Fernando?!

(Há coisas que não mudam...)




Não, não me peças tranquilidade como quem pede um copo de água. Não nasci com o dom da calma.

Como gostava de ser uma rapariga tranquila! Procuro, vasculho a mala à procura da calma prometida num fraquinho de berlindes. Não encontro. Tento a todo o custo manter o controlo, paro de falar, inspiro, simulo uma calma falsa diminuindo drasticamente a velocidade dos meus gestos.

Sento-me no cadeirão de verga virado para a janela e procuro o azul do Tejo. O dia está cinzento, carregado, ao fundo avisto o arco-íris esbatido nas nuvens escuras. Mordo a língua com vontade de gritar e em vez disso repito baixinho, pausadamente:
"Não me peças tranquilidade como quem pede um copo de água."

Olhas-me de raspão, procuro entender o que dizem os teus olhos mas foges-me. A sala estica-se e eu cada vez mais afastada de ti. Como gostava de ser uma rapariga tranquila!

O bebé trepa por mim sem se importar com os remoinhos que atravessam o meu corpo. Não tenho calor para lhe dar, "não me peças colo", digo em silêncio. E a sala a alongar mais e mais enquanto afasto o bebé e os teus olhos e o teu silêncio e a ti encostado à porta com as mãos nos bolsos sem saberes o que fazer (de mim). Como gostava de ser uma rapariga tranquila!

Desvio o olhar para o rio e as listas de aguarela escorreram e tingiram as águas que se baloiçam, e se misturam num arco-íris líquido que beija a cidade. Procuro a tua mão, os teus olhos, estás longe, não me ouves lá ao fundo. Vejo a mala, levanto-me e procuro novamente os berlindes que prometem tranquilidade, estou tão perto... será que não me ouves? Como gostava de ser uma rapariga tranquila!

Olhas para mim sem expressão, sei que procuras acalmar-me com o teu silêncio. Tento chamar-te, contar-te o quanto preciso que me toques, que me abraces, que me dês a mão. E a sala a alongar, a aumentar a distância entre nós, quilómetros e quilómetros de água colorida que entra pela janela. Eu em silêncio a chamar-te e tu em silêncio para me acalmares.

O bebé corre entre os dois, divertido com os brinquedos espalhados pelo chão. Não te vejo e sinto-me sozinha. Como gostava de ser uma rapariga tranquila!




Liliana Lima
26-01-2009



Aprendendo a florescer/ Agnes-Cecile


"Ela ia, tranquila pastorinha,
Pela estrada da minha imperfeição.
Segui-a, como um gesto de perdão,
O seu rebanho, a saudade minha...

'Em longes terras hás de ser rainha'
Um dia lhe disseram, mas em vão...
Seu vulto perde-se na escuridão...
Só sua sombra ante meus pés caminha...

Deus te dê lírios em vez desta hora,
E em terras longe do que eu hoje sinto
Serás, rainha não, mas só pastora

Só sempre a mesma pastorinha a ir,
E eu serei teu regresso, esse indistinto
Abismo entre o meu sonho e o meu porvir... "



"Ela ia, tranquila pastorinha" - Fernando Pessoa

terça-feira, junho 14, 2011

Bora lá ser livres, Fernando...

E se, assim, sem mais, pudéssemos voar por sobre os oceanos sem marés nem ventos a respeitar?
Se amanhã, ao acordar, nos déssemos conta, eu e tu, que podíamos virar por onde nos apetecesse apesar dos sinais vermelhos ou dos sentidos proibidos?
Ah! Se cada um de nós pudesse, realmente, experimentar a liberdade de ser, por um só dia...
De que serviriam as convenções os pré-conceitos ou as devoções num movimento impulsivo, num gesto sentido, em vez de reflectido?

E se, assim, sem mais, me fosse permitido por uma hora olhar-me ao espelho sem o reflexo de todos os outros por trás?
Se amanhã, ao acordar, me levantasse e me visse inteira, real e verdadeira?
Ah! Se ao teu lado me permitisse avançar sem a pressão da atmosfera que comprime e aborta os movimentos?
De que serviriam as palavras num tempo de sentimentos e sensações?


Liliana





"Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
...Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca..."




Fernando Pessoa

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

De quem é este coração, Fernando?!

Sabes aquela caixa pequena, de cartão castanho com uma fita rosa que enrolava em volta e fechava num lacinho? Preciso dela.

Traz-ma num instante que tenho de conter esta onda que me invade dum silêncio que não sei ler.
Traz-ma depressa que o frio espalha-se pelo corpo e me tremem as pernas com o aproximar deste vazio que me atormenta.
Pego na caixa com a fita pendurada e embrulho o meu coração neste pequeno mundo castanho onde nada o abala.

Se ao menos a fita fechasse a caixa, o coração salvo dos abalos e das ventanias.
Se ao menos a caixa vedasse o som, o coração desconhecia o barulho ensurdecedor do silêncio que me obriga a tapar os ouvidos e enxaguar os olhos.
Se ao menos a caixa confortável, o coração não se sentia apertado, contorcido entre os avanços e recuos da vida.

Sabes da caixa pequena de cartão castanho e fita cor-de-rosa que usavas quando eras pequena para afastar os pesadelos, para reconhecer a realidade no meio dum ciclone, para te reconhecer por entre as várias imagens reflectidas no espelho?
Lembras-te como apertavas o coração na mãos até o encaixar lá dentro, depois com muito cuidado, enlaçavas a fita cor-de-rosa e, num instante, te sentias tranquila, segura e destemida. Lembras-te?

Traz-ma depressa para que os sonhos não acordem e sobressaltem a realidade.

Liliana



"Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento,
Minha alma não tem alma.

Se existo é um erro eu o saber. Se acordo
Parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero nem tenho nem recordo.
Não tenho ser nem lei.

Lapso da consciência entre ilusões,
Fantasmas me limitam e me contêm.
Dorme insciente de alheios corações,
Coração de ninguém."

"Sonho. Não sei quem sou" de Fernando Pessoa

in "Cancioneiro"

quarta-feira, setembro 23, 2009

Não chegues tarde Fernando...

Cheguei tarde, mas ainda fui a tempo de não perder espectáculo. Sentei-me numa sala em anfiteatro com uma espécie de palco iluminado ao centro, o efeito das luzes fazia com que tudo o que não estava debaixo do foco se misturasse numa neblina escura onde não se distinguiam as formas de cada um. Subi alguns degraus com dificuldade e acabei por me sentar na cadeira vaga mais próxima. Os pontuais, aqueles que já estavam sentados, deixaram-me passar provocando uma onda à medida que eu avançava em direcção ao meu lugar.

Sentei-me e logo que me encostei pareceu-me ter ficado sozinha na grande sala. O escuro à minha volta como que apagava o rasto de qualquer vida. Respirei fundo e esperei pelo início da acção que tardou. Sem nada para ver para além dum palco vazio e um vazio escuro, perdi-me no meio das palavras que saltitavam no meu pensamento sem me demorar em nenhuma. Flutuei pelo dia que passara, pela semana que ia a meio, pelo mês que acabava de começar, dei um salto aos dias que se avizinhavam cada vez mais próximos e acabei por me perder nos corredores da minha história.

Sentada também sozinha no meio de um pátio estava uma menina de grandes tranças escuras, brincava com outros alguéns que imaginava para se entreter enquanto a banda sonora tocava os fabulosos Yes com um fundo de amargura e desentendimento. Uma figura alta e esguia andava em círculos à volta da menina lendo passagens de livros ao acaso que ia atirando pelo ar como se bolas fossem. Enquanto a menina o seguia divertida, o cenário em que andavam mudava de acordo com o livro que era lido. Ruas desertas em cidades inexistentes e grandes moinhos que se transformavam em baleias que frequentavam colégios internos para onde se ia apenas de balão para seguir até ao espaço e por fim tudo não ser mais do que uma horrível barata deitada numa cama de um pequeno quarto.

No meio do círculo onde a menina, de repente rapariga e novamente sozinha acompanhada de outros alguéns que imaginava para se entreter, continuava desenhando círculos, uma estrada amarela nascia e, em espiral, parecia segui-la. Os passos que dava avançavam e abrandavam ao ritmo da banda sonora, sempre com o fundo de amargura, que cantava agora palavras de ordem e hinos à medida que ela crescia. E crescia avançando à frente da estrada que a seguia. Pequenos arco-íris brilhavam de cada vez que ela se baixava como quem apanha flores invisíveis e as sopra espalhando fagulhas coloridas no ar.

A sala iluminou-se bruscamente e à minha volta as cadeiras e as formas e as pessoas que me rodeavam, como que nasciam envoltas numa nuvem de fumo saída de um cachimbo antigo, de uma garrafa esquecida, de uma fogueira ancestral, onde todos os sonhos se misturam com as memórias e dançam à volta do fogo.

"Já acabou?" Perguntei ainda atordoada com as luzes a uma das pessoas que se levantavam a caminho da saída. "Queria mais? Já foi muito para uma estreia! Na próxima semana traga uma música mais tranquila, pode ser?..."


Liliana Lima



"(...)
O maestro sacode a batuta,
E lânguida e triste a música rompe...
Lembra-me a minha infância, aquele dia
Em que eu brincava ao pé de um muro de quintal
Atirando-lhe com uma bola que tinha dum lado
O deslizar dum cão verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo...
Prossegue a música, e eis na minha infância
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora um cão verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo...
Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância
Está em todos os lugares, e a bola vem a tocar música,
Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão tornando-se jockey amarelo...
(Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos...)
Atiro-a de encontro à minha infância e ela
Atravessa o teatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarelo e um cão verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal...
E a música atira com bolas
À minha infância...
E o muro do quintal é feito de gestos
De batuta e rotações confusas de cães verdes
E cavalos azuis e jockeys amarelos...
Todo o teatro é um muro branco de música
Por onde um cão verde corre atrás de minha saudade
Da minha infância, cavalo azul com um jockey amarelo...
E dum lado para o outro, da direita para a esquerda,
Donde há arvores e entre os ramos ao pé da copa
Com orquestras a tocar música,
Para onde há filas de bolas na loja onde comprei
E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância...
E a música cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto,
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,
Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo... "

"Chuva Oblíqua" de Fernando Pessoa

terça-feira, julho 07, 2009

Sabes quem sou, Fernando?!

Ela acordou cedo. O dia estava alegre e a luz saltitava pelo quarto, brincando com os cortinados entre-abertos. Espreguiçou-se antes de se levantar e acendeu o rádio enquanto iniciava a delicada tarefa de escolher a indumentaria para o dia que ainda mal começara. Poderia ser um dia igual a tantos outros, mas na verdade, e apesar da aparente tranquilidade atmosférica, tudo naquele dia viria a estar bem longe da normalidade.

Foi ainda no duche, enquanto se ensaboava, que percebeu que lhe faltava algo. Despachou-se a enxaguar o corpo e saiu da banheira numa inquietação crescente. Correu para o quarto e, desdenhando a roupa que escolhera e que cuidadosamente colocara em cima da cama, abriu portas e gavetas, revoltou as prateleiras e o roupeiro e despejou a caixinha dos brincos e dos alfinetes com que reduzia os decotes mais atrevidos. Não encontrando no quarto o que lhe fazia falta, avançou pela casa enrolada apenas na toalha de banho, em busca de algo que tanto procurava debaixo dos sofás, como em cima do frigorífico e até nas malas de inverno, arrumadas na pequena dispensa ao lado da caixa dos medicamentos e dos pensos rápidos.

Chegou à porta da rua ainda sem ter encontrado o que quer que procurava. Estava cansada, os cabelos ainda molhados teimavam em escorregar-lhe cara abaixo e os pés descalços começaram a arrepiá-la. Resolveu voltar ao quarto e vestir a roupa anteriormente escolhida, sem grande entusiasmo. De alguma forma o sol, que há momentos brincava pelo quarto fora, parecia-lhe tristonho e sem força. Uma nuvem de inquietação invadiu o seu sorriso e o dia entristecia com ela.

Perdera-se. Não sabia como nem porquê, mas durante o duche matinal percebeu claramente que se tinha perdido e, por mais que procurasse e revirasse a casa, não se conseguia encontrar. Como poderia sair assim de casa? Um corpo oco e desabitado, percorrendo as ruas da cidade em busca da sua alma... Por outro lado se não era ali, em casa, que se podia encontrar, seria com certeza na rua, perto de quem a conhecia e a queria bem que poderia reaver a sua essência. Sim! Era isso, devia sair o quanto antes e procurar por si no seu círculo de amigos, eles seriam capazes de a encontrar!

Saiu num remoinho deixando para trás a confusão espalhada um pouco por toda a casa. Encontrou-se com todos os que responderam à sua chamada, contou-lhes da sua perda e pediu-lhes ajuda para reaver-se a si própria. Cada um deu o seu contributo, conheciam-na bem e nada mais fácil que lhe contar das suas características, dos seus gostos, das suas paixões e amarguras. Apontou tudo num caderninho como se não pudesse escapar nada de si que mais tarde lhe viesse a fazer falta. Identificou-se com tudo o que diziam a seu respeito, como se aos poucos se lembrasse de um antigo amigo de Liceu. Guardou no caderninho a sua postura confiante e decidida, acarinhou o seu carisma forte e altruísta, abraçou a sua paixão por poesia e cinema, cuidou das feridas dos amores desanimados e apertou a mão às suas opções profissionais.

No fim do dia sentia-se de novo inteira, tinha no seu caderninho tudo o que necessitava para se recuperar. Mas então porque continuava no ar aquele nevoeiro estranho que a impedia de ver a sua imagem completa? Por muito que lhe falassem de si, por mais que lhe explicassem como era, não se sentia dona de si. Por muito que lhe mostrassem o caminho para si, não se conseguia encontrar.

Voltou para casa ao fim do dia, já o sol se escondia atrás do horizonte e o céu preparava a cama para Lua em tons rosa, laranja e azul. Entrou desanimada, pousou a mala e o caderninho no chão e sem acender as luzes do corredor foi até ao quarto, fingindo não ver a desarrumação que em todo o lado lembrava um dia de procura em vão. Sentou-se aos pés da cama, em frente à cómoda escura de onde saiam pontas de soutiens, mangas de uma t-shirt vermelha e metade de umas calças de ganga já gastas, restos da luta matinal em busca do seu "eu" perdido. Em cima da cómoda, o espelho rectangular esforçava-se por lhe devolver o seu reflexo completo.

Olhou em frente e viu-se, estava preocupada e triste no meio de um caos interior muito maior do que o visível à sua volta. Fixou-se durante muito tempo, tentando descodificar os sinais que lhe pareciam inteligíveis. Levantou-se sem tirar os olhos do espelho e perguntou-se onde estava, porque se escondia de si, porque tinha desaparecido, como podia encontrar-se. Ficou muito tempo de pé, em frente ao espelho a falar consigo. Conversou durante tanto tempo como há muito não se lembrava de conversar com alguém. Aos poucos foi-se reconhecendo nos pequenos gestos, nas discretas entrelinhas, nas subjectivas verdades. Deitou-se na cama, cansada mas inteira e dormiu toda noite tranquila e feliz. Encontrara-se no mesmo local onde, afinal, estivera o tempo todo.

Liliana Lima





"Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento,
Minha alma não tem alma.

Se existo é um erro eu o saber.
Se acordo Parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero nem tenho nem recordo.
Não tenho ser nem lei.

Lapso da consciência entre ilusões,
Fantasmas me limitam e me contêm.
Dorme insciente de alheios corações,
Coração de ninguém. "

"Sonho. Não sei quem sou" de Fernando Pessoa
in "Cancioneiro"

segunda-feira, junho 01, 2009

De que falam os teus sonhos, Fernando?

Os sonhos são as coordenadas do nosso caminho. Sonhamos acordados com pequenos sinais que nos inspiram e nos levam a percorrer a Terra em busca de pequenos reflexos de algo que dá sentido à estrada que vamos fazendo, de joelhos no chão, alinhando os tijolos um a um, num desenho que só as estrelas conseguem traduzir.

Às vezes sonhamos verdadeiramente, de olhos fechados e coração aberto. Nessas alturas somos mais nós, desistimos menos e arriscamos mais, longe das hesitações e medos que nos refriam os movimentos quando acordados. Então sentimo-nos voar, a imaginação dança e, sem rédeas, dá as cartas, seguindo as coordenadas que a intuição nos vai mostrando mas nós, habilmente, vamos abafando no fundo do cesto à medida que o enchemos de tarefas e o esvaziamos de sentido.

Há sinais que nos vão aparecendo, pequenas fagulhas que giram no ar e, sem pedir licença, nos prendem a atenção num canto de sereia que nos fala de luz e cor no meio do trânsito que, de repente, deixa de nos incomodar. Outras vezes somos arrebatados com uma certeza tão forte que encandeia tudo o que nos rodeia reduzindo-o a pó. Então, por entre as ruínas das antigas certezas, erguemos um novo farol abastecido apenas pelo nosso brilho interior que se torna mais claro e mais forte como o nascer do sol em pleno verão.

Os sonhos são as coordenadas do nosso caminho. Às vezes ouvi-los disfarçados de suspiros que nos dizem que o mar nos espera em tufos de azul profundo, ali mesmo, ao fundo de uma rua que teimamos não descer. Outras vezes sentimo-los protestar numa estranha melancolia que nos invade nos fins-de-tarde compridos de Maio. Outras vezes, ainda, aparecem-nos em pequenos esgares de confiança que nos assaltam o olhar perante algo que imediatamente se liga ao mais íntimo de nós e nos inspira, nos emociona e nos cheira a conforto.

Os sonhos são as coordenadas do nosso caminho. São os que arriscam segui-las, e vão montando o puzzle sugerido em forma de pistas sonhadas pela intuição, que descobrem as razões que os fazem sorrir e se encontram, um dia, frente ao seu farol e o percebem capaz de iluminar, não só o seu caminho, mas também o de outros que, pelo caminho, se vão aproximando.

Liliana Lima









"Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,


E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.


Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!"


"O Infante" de Fernando Pessoa, in Mensagem

domingo, abril 19, 2009

A vida é como os comboios, Fernando?

"Ai, isto já não tem melhoras, já cheguei ao fim da linha..." disse uma velhota gorducha, de cara rosada, cabelo branco encaracolado e um sorriso do tamanho de toda a estação dos Correios. "Ah! Eu sei o que isso é!" respondeu outra, no fim da fila, de bengala castanha e costas ligeiramente curvadas, com o cabelo enrolado num caracol encarrapitado no alto da cabeça. A conversa continuou, entre as risotas das mais bem humoradas e os queixumes das mais amarguradas, durante todo o tempo em que eu, calada, esperava a minha vez para comprar um envelope.

"Isto agora já não é como antigamente, já ninguém tem paciência! No meu tempo dávamos valor às coisas, agora é tudo para ontem..." dizia a gorducha olhando de soslaio para mim, quando me viu de envelope de Correio Azul na mão. As outras confirmaram o facilitsmo dos novos tempos enquanto saí com a nítida sensação de ter passado pela quinta dimensão.

Espreitei pelo vidro para aquele "coro das velhas" enquanto me afastava devagar, ainda com os movimentos presos de tantas dores nas cruzes... Sentei-me numa esplanada enquanto preenchia uns quaisquer impressos e os fechava dentro do tão apressado envelope de correio azul. Ao fundo, um comboio avisava que ia partir e, no meio do burburinho da cidade, aquela frase ressoou na minha cabeça "cheguei ao fim da linha".

Sem me dar conta, aproximei-me da estação e fiquei a olhar para o corropio de quem sai dos comboios que chegam e de quem espera pelo próximo a partir. Os que partem iniciam a viagem ao mesmo tempo que finalizam o percurso que os levou até ali, por outro lado (ou não...), quem chega acaba o caminho enquanto dá início a um novo percurso.

Estamos sempre a chegar e preparamo-nos constantemente para partir... Somos mudança constante entre o partir para um sorriso, e o chegar de uma qualquer desilusão. Estamos em movimento contínuo entre o início de um gesto, e o desviar de um olhar.

Ali, no terminal dos comboios, percebi que também eu "cheguei ao fim da linha" ao mesmo tempo que me preparo para descobrir a estrada que dará início a uma nova viagem.

Liliana Lima


"No comboio descendente
Vinha tudo à gargalhada,
Uns por verem rir os outros
E os outros sem ser por nada -
No comboio descendente
De Queluz à Cruz Quebrada...

No comboio descendente
Vinham todos à janela,
Uns calados para os outros
E os outros a dar-lhes trela -
No comboio descendente
Da Cruz Quebrada a Palmela...

No comboio descendente
Mas que grande reinação!
Uns dormindo, outros com sono,
E outros nem sim nem não
No comboio descendente
De Palmela a Portimão..."

"Que grande reinação" de "Poemas para Lili"
Fernando Pessoa in Obras Completas

segunda-feira, abril 13, 2009

Ajuda-me a desembrulhar-me, Fernando...

Escrever é uma coisa que me acontece, de repente, como se em mim existisse um gesto que não me pertence e que, quase sem querer, assim como que por acaso, escreve...
Às vezes calha que as ideias se juntam e a um canto pedem para ser escritas. Outras vezes é como que uma necessidade, uma vontade que pesa, uma angústia que se queixa, que não me deixa esquecer as palavras que querem ser sentidas...
Escrever torna-se, assim, uma forma de sentir o mundo que me rodeia, filtrado por palavras, por letras, por riscos e rabiscos no papel.
Quando escrevo é como se dançasse uma valsa com os sentimentos, que rodam e giram em volta das minhas ideias. Nem sempre consigo escrever o que sinto. Às vezes escrevo mesmo antes de sentir, antes de ter, de facto, vivido. Outras vezes demoro muito tempo até que as ideias se juntem às palavras que me permitem escrever o que, há tanto tempo senti.
Então escrever acontece-me como uma espécie de catarse de vidas e pensamentos que já me tinha esquecido e, através do papel, revivo, sem mágoas, sem dores, sem alegrias, como um rio que atravesso a nado, devagar, e nele, a vida acontece, escrita.
Procuro, nestes breves momentos em que aconteço, desembrulhar-me. Despindo as letras e as ideias a que me encosto, para desencaixotar as verdadeiras emoções. Escavando nos sentidos, para chegar ao seu verdadeiro pulsar.
Assim, mesmo quando caio numa palavra mais brusca, sei que me levantarei noutra mais terna. Acerto e erro, magoo-me e animo-me, e avanço.
Escrever é uma coisa que me acontece, e quando escrevo procuro o caminho certo que me leve não ao outro, mas a mim.

Liliana Lima


"Deste modo ou daquele modo.
Conforme calha ou não calha.
Podendo às vezes dizer o que penso,
E outras vezes dizendo-o mal e com misturas,
Vou escrevendo os meus versos sem querer,
Como se escrever não fosse uma cousa feita de gestos,
Como se escrever fosse uma cousa que me acontecesse
Como dar-me o sol de fora.

Procuro dizer o que sinto
Sem pensar em que o sinto.
Procuro encostar as palavras à ideia
E não precisar dum corredor
Do pensamento para as palavras.
Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.
O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.

Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,
Mas um animal humano que a Natureza produziu.

E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer como um homem,
Mas como quem sente a Natureza, e mais nada.
E assim escrevo, ora bem ora mal,
Ora acertando com o que quero dizer ora errando,
Caindo aqui, levantando-me acolá,
Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso.

Ainda assim, sou alguém.
Sou o Descobridor da Natureza.
Sou o Argonauta das sensações verdadeiras.
Trago ao Universo um novo Universo
Porque trago ao Universo ele-próprio.

Isto sinto e isto escrevo
Perfeitamente sabedor e sem que não veja
Que são cinco horas do amanhecer
E que o sol, que ainda não mostrou a cabeça
Por cima do muro do horizonte,
Ainda assim já se lhe vêem as pontas dos dedos
Agarrando o cimo do muro
Do horizonte cheio de montes baixos."

Alberto Caeiro in "Guardador de Rebanhos"(XLVI)

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Que esconde o nevoeiro, Fernando?


Procuro-me no nevoeiro, ninguém me viu, ninguém me conhece, ninguém me dá a mão.
Visto-me de mil cores, arrisco, avanço, e recuo... não me encontro no meio da multidão.
Procuro-me pelas ruas dispersas da alma, procuro-me na minha solidão...
Onde estás quando preciso de ti por inteiro? Será que sentes que o meu coração chora, será que sabes que em silêncio te chama?
Porque persisto nesta busca em vão?
Procuro-me no nevoeiro que me cobre a alma. Procuro, vagueio, pergunto, anseio. Mas ninguém me viu, ninguém me conhece, ninguém me dá a mão.
Procuro-me por ruas dispersas e ao fundo vejo o Sol que se levanta. Visto-me de mil cores, avanço e recuo... perco a razão...
Procuro-me em silêncio no meio do nevoeiro, mas tudo é incerto, tudo é disperso, ninguém me conhece, ninguém me dá a mão.
Porque persisto nesta busca em vão?
Liliana Lima Nov/2008



"(...)

Ninguém sabe que coisa quere.

Ninguém conhece que alma tem,

Nem o que é mal nem o que é bem.

(Que ânsia distante perto chora?)

Tudo é incerto e derradeiro.

Tudo é disperso, nada é inteiro.

Ó Portugal, hoje és nevoeiro…


É a Hora!"


"Nevoeiro" de Fernando Pessoa (in Mensagem)

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Como é uma 'Pessoa' tranquila, Fernando?


Não, não me peças tranquilidade como quem pede um copo de água. Não nasci com o dom da calma.

Como gostava de ser uma rapariga tranquila! Procuro, vasculho a mala à procura da calma prometida num fraquinho de berlindes. Não encontro. Tento a todo o custo manter o controlo, paro de falar, inspiro, simulo uma calma falsa diminuindo drasticamente a velocidade dos meus gestos.

Sento-me no cadeirão de verga virado para a janela e procuro o azul do Tejo. O dia está cinzento, carregado, ao fundo avisto o arco-íris esbatido nas nuvens escuras. Mordo a língua com vontade de gritar e em vez disso repito baixinho, pausadamente:

Não me peças tranquilidade como quem pede um copo de água.
Olhas-me de raspão, procuro entender o que dizem os teus olhos mas foges-me. A sala estica-se e eu cada vez mais afastada de ti. Como gostava de ser uma rapariga tranquila!

O bebé trepa por mim sem se importar com os remoinhos que atravessam o meu corpo. Não tenho calor para lhe dar, não me peças colo, digo em silêncio. E a sala a alongar mais e mais enquanto afasto o bebé e os teus olhos e o teu silêncio e a ti encostado à porta com as mãos nos bolsos sem saberes o que fazer (de mim). Como gostava de ser uma rapariga tranquila!

Desvio o olhar para o rio e as listas de aguarela escorreram e tingiram as águas que se baloiçam, e se misturam num arco-íris líquido que beija a cidade. Procuro a tua mão, os teus olhos, estás longe, não me ouves lá ao fundo. Vejo a mala, levanto-me e procuro novamente os berlindes que prometem tranquilidade, estou tão perto... será que não me ouves? Como gostava de ser uma rapariga tranquila!

Olhas para mim sem expressão, sei que procuras acalmar-me com o teu silêncio. Tento chamar-te, contar-te o quanto preciso que me toques, que me abraces, que me dês a mão. E a sala a alongar, a aumentar a distância entre nós, quilómetros e quilómetros de água colorida que entra pela janela. Eu em silêncio a chamar-te e tu em silêncio para me acalmares.

O bebé corre entre os dois, divertido com os brinquedos espalhados pelo chão. Não te vejo e sinto-me sozinha. Como gostava de ser uma rapariga tranquila!

Liliana Lima 26-01-2009
("Pessoa à janela" - Dali)

"Ela ia, tranquila pastorinha,
Pela estrada da minha imperfeição.
Segui-a, como um gesto de perdão,
O seu rebanho, a saudade minha...

'Em longes terras hás de ser rainha'
Um dia lhe disseram, mas em vão...
Seu vulto perde-se na escuridão...
Só sua sombra ante meus pés caminha...

Deus te dê lírios em vez desta hora,
E em terras longe do que eu hoje sinto
Serás, rainha não, mas só pastora

Só sempre a mesma pastorinha a ir,
E eu serei teu regresso, esse indistinto
Abismo entre o meu sonho e o meu porvir... "

"Ela ia, tranquila pastorinha" - Fernando Pessoa

segunda-feira, novembro 17, 2008

Não se deve falar demasiado...

Falamos, falamos, falamos... tantas vezes só para nos ouvirmos falar, para validarmos os nossos pensamentos, as nossas decisões, as nossas opções.

Mas há coisas sobre as quais não se deve falar muito, como os sonhos... antes devemos protegê-los, alimentá-los e mantê-los. Não em segredo, fechados do mundo... Partilhados com quem entenda a língua dos sonhos, mas resguardados dos cépticos, dos calculistas e dos não-crentes (não poucas vezes representados por nós mesmos)...

“Não se deve falar demasiado... A vida espreita-nos sempre...
Toda a hora é materna para os sonhos, mas é preciso não o saber...
Quando falo demais começo a separar-me de mim própria e a ouvir-me falar.
Isso faz com que me compadeça de mim própria e sinta demasiadamente o coração.
Tenho então uma vontade lacrimosa de o ter nos braços para o embalar como a um filho...”
Fernando Pessoa in O Marinheiro

segunda-feira, janeiro 15, 2007

A liberdade de Pessoa...

Liberdade


Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma
.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...


Fernando Pessoa

segunda-feira, setembro 18, 2006

Chuva Oblíqua - Fernando Pessoa


"(...)
Lá fora vai um redemoinho de sol os cavalos do carroussel...
Árvores, pedras, montes, bailam parados dentro de mim...
Noite absoluta na feira iluminada, luar no dia de sol lá fora,
E as luzes todas da feira fazem ruídos dos muros do quintal...
Ranchos de raparigas de bilha à cabeça
Que passam lá fora, cheias de estar sob o sol,
Cruzam-se com grandes grupos peganhentos de gente que anda na feira,
Gente toda misturada com as luzes das barracas, com a noite e com o luar,

E os dois grupos encontram-se e penetram-se
Até formarem só um que é os dois...
A feira e as luzes das feiras e a gente que anda na feira,
E a noite que pega na feira e a levanta no ar,
Andam por cima das copas das árvores cheias de sol,
Andam visivelmente por baixo dos penedos que luzem ao sol,
Aparecem do outro lado das bilhas que as raparigas levam à cabeça,
E toda esta paisagem de primavera é a lua sobre a feira,
E toda a feira com ruídos e luzes é o chão deste dia de sol...

De repente alguém sacode esta hora dupla como numa peneira
E, misturado, o pó das duas realidades cai
Sobre as minhas mãos cheias de desenhos de portos
Com grandes naus que se vão e não pensam em voltar...
Pó de oiro branco e negro sobre os meus dedos...
As minhas mãos são os passos daquela rapariga que abandona a feira,
Sozinha e contente como o dia de hoje...

(...)"

Fernando Pessoa