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terça-feira, junho 02, 2015

Como é uma "Pessoa" tranquila, Fernando?!

(Há coisas que não mudam...)




Não, não me peças tranquilidade como quem pede um copo de água. Não nasci com o dom da calma.

Como gostava de ser uma rapariga tranquila! Procuro, vasculho a mala à procura da calma prometida num fraquinho de berlindes. Não encontro. Tento a todo o custo manter o controlo, paro de falar, inspiro, simulo uma calma falsa diminuindo drasticamente a velocidade dos meus gestos.

Sento-me no cadeirão de verga virado para a janela e procuro o azul do Tejo. O dia está cinzento, carregado, ao fundo avisto o arco-íris esbatido nas nuvens escuras. Mordo a língua com vontade de gritar e em vez disso repito baixinho, pausadamente:
"Não me peças tranquilidade como quem pede um copo de água."

Olhas-me de raspão, procuro entender o que dizem os teus olhos mas foges-me. A sala estica-se e eu cada vez mais afastada de ti. Como gostava de ser uma rapariga tranquila!

O bebé trepa por mim sem se importar com os remoinhos que atravessam o meu corpo. Não tenho calor para lhe dar, "não me peças colo", digo em silêncio. E a sala a alongar mais e mais enquanto afasto o bebé e os teus olhos e o teu silêncio e a ti encostado à porta com as mãos nos bolsos sem saberes o que fazer (de mim). Como gostava de ser uma rapariga tranquila!

Desvio o olhar para o rio e as listas de aguarela escorreram e tingiram as águas que se baloiçam, e se misturam num arco-íris líquido que beija a cidade. Procuro a tua mão, os teus olhos, estás longe, não me ouves lá ao fundo. Vejo a mala, levanto-me e procuro novamente os berlindes que prometem tranquilidade, estou tão perto... será que não me ouves? Como gostava de ser uma rapariga tranquila!

Olhas para mim sem expressão, sei que procuras acalmar-me com o teu silêncio. Tento chamar-te, contar-te o quanto preciso que me toques, que me abraces, que me dês a mão. E a sala a alongar, a aumentar a distância entre nós, quilómetros e quilómetros de água colorida que entra pela janela. Eu em silêncio a chamar-te e tu em silêncio para me acalmares.

O bebé corre entre os dois, divertido com os brinquedos espalhados pelo chão. Não te vejo e sinto-me sozinha. Como gostava de ser uma rapariga tranquila!




Liliana Lima
26-01-2009



Aprendendo a florescer/ Agnes-Cecile


"Ela ia, tranquila pastorinha,
Pela estrada da minha imperfeição.
Segui-a, como um gesto de perdão,
O seu rebanho, a saudade minha...

'Em longes terras hás de ser rainha'
Um dia lhe disseram, mas em vão...
Seu vulto perde-se na escuridão...
Só sua sombra ante meus pés caminha...

Deus te dê lírios em vez desta hora,
E em terras longe do que eu hoje sinto
Serás, rainha não, mas só pastora

Só sempre a mesma pastorinha a ir,
E eu serei teu regresso, esse indistinto
Abismo entre o meu sonho e o meu porvir... "



"Ela ia, tranquila pastorinha" - Fernando Pessoa

segunda-feira, dezembro 23, 2013

Dos Natais de outros anos...

Acreditas no Pai Natal?

Pego no pinheiro enrolado numa espécie de meia de rede, daquelas que antigamente as senhoras ousavam usar para provocar os cavalheiros, e tento a custo equilibrar-lhe o tronco entre as duas pedras grandes que de ano para ano servem de apoio à tão esperada árvore de natal. Entre desequilíbrios e quedas, dou um salto na memória e vejo os pinheiros da minha infância. Sem esforço aparente apareciam prontos a decorar na sala de jantar onde eu e a minha prima mergulhávamos nas caixas de enfeites e descobríamos as bolas decoradas, ainda de vidro, que diminuíam de número à força das nossas tão delicadas mãos, as luzes em feitio de vela que se apagavam sempre que uma das lâmpadas se fundisse e até as faixas farfalhudas douradas e prateadas com que, literalmente, vestíamos o coitado do pinheiro...

De repente o meu pinheiro, este verdadeiro, com resina e folhas que se espalham pelo chão da sala e tudo o que a natureza nos dá, parece-me tão pequeno. Os enfeites e bolas, estas de plástico para sobreviverem aos assaltos anuais dos miúdos, olham-me tristes e desengraçados. Até as luzes, que piscam e mudam de cor, me parecem desengraçadas.

Quando eu tinha o tamanho dos meus filhos mais velhos, o Natal estava coberto de um manto mágico que nem a mais dura realidade conseguia romper ou corromper. Via a azáfama e correria na cozinha com os olhos de quem quer acreditar no Pai Natal mesmo quando me diziam que ele não existia. Tudo me parecia um bailado de movimentos alegres e criadores, de onde nasciam filhoses e leite-creme e embrulhos e aletria e bacalhau e embrulhos e mesas arranjadas com copos de pé e embrulhos...

Enrolo o alguidar com a massa das filhoses numa manta e deixo-a fintar perto do aquecedor. Com as mãos cheias de farinha vejo-me do lado de dentro do teatro, onde as luzes estão penduradas por cabos pretos e o cenário colorido está debotado e remendado. A minha avó à porta da cozinha, também com as mãos enfarinhadas, suspira cansada. A minha mãe na sala, arruma as lágrimas ao lado dos copos de pé enquanto arranja os presentes em volta da árvore. Os meus tios, atrasados para o jantar, batem à porta com olhos cansados da correria e do trânsito.

Ao fundo do palco, o meu avô sorri. Olha-me através dos tempos e das luzes e das árvores de muitos natais. Ao fundo do corredor grande e comprido, da cozinha ao escritório, chama-me ao seu lado. Sou do tamanho dos meus filhos mais velhos e está na hora de lhe dar a prenda que a minha mãe comprou. Ele dá-me a mão e abre o embrulho de mais um lenço com um "F" bordado. Está tudo tão perfeito que nem as lágrimas, nem os suspiros, nem os cansaços se atrevem a interromper, apenas a mesa com os copos de pé e o leite-creme e os embrulhos ainda à volta da árvore.

Ao fundo do corredor, do meu corredor, o meu avô sorri e os seus olhos azuis iluminam o palco, dão cor ao cenário e alegram os focos.

Os meus filhos correm e brincam em volta do pinheiro que, aos poucos, se veste de festa. As filhoses estão prontas e luzidias no centro da mesa vestida, também, de Natal. Os embrulhos vão-se juntando longe da vista das crianças e na manhã de Natal aparecem, como que por magia, em volta da lareira. Afinal sempre me disseram que o Pai Natal não existe, apesar de o ter visto passar em frente da lua todas as vésperas de Natal!


Liliana a 22/Dez/2009


sexta-feira, janeiro 04, 2013

Porque fechamos janelas, João?!

Porque é que fechamos as janelas em par e nos barricamos dentro de uma bola de sabão que distorce a realidade? Qual é o mecanismo que nos afasta do outro e nos impele a criar personagens de acordo com a história que pensamos viver?

Diz-me, tu que me lês nestas letras em curva, de quantas máscaras é feita a tua capa? Quantas vezes te escondes atrás de palavras vagas e opacas, como quem se defende ainda antes de ser atacado? Também te acontece dar contigo em conversas evasivas, mascarando tudo o que é sentimento e filtrando qualquer réstia de impulso de partilha? Alguma vez te aconteceu olhares o espelho de manhã e, por momentos, pensares estar em frente a outro alguém?

Às vezes penso que andamos todos às costas do que pensamos que os outros pensam de nós, que os outros esperam de nós, que os outros sentem por nós... enfim, quase esperamos que os outros sejam por nós.

Sim, eu sei que também já sofreste por, em tempos, te despires de tantos papeis. Sim, eu sei que quanto mais abrimos as janelas, mais água entra quando começa a tempestade. Sim, eu sei que também eu me escondo atrás destas verdades sempre tão verdadeiras. Sim, eu sei... mas que queres? Há dias em que me apetecia tanto ser apenas eu.

Será que se te disser, assim sem mais nada, que fiquei magoada, ou que tenho saudades, ou que me fazes falta, não me vou arrepender? Será que se eu te disser, assim sem mais nada, do que gosto, o que me faz sorrir, o que me assusta, o que me faz chorar, não vou ficar com a sensação de me ter despido enquanto te afastas de casaco, sobretudo e cachecol?

Porque é que fechamos as janelas em par e nos barricamos dentro de uma bola de sabão que distorce a realidade? Talvez porque um dia ousámos sair, abrir portas e janelas e inspirar o ar puro sem filtros nem maquilhagem mas o frio da rua desprotegida congelou-nos os pulmões, e a luz forte reflectida no rio fez-nos cerrar os olhos, e as portadas bateram e voltaram a fechar-se à força do vento.

Talvez... Mas talvez se não nos dermos espaço para sermos assumidamente nós próprios e rirmos apenas porque o sol nos pregou uma partida, ou abraçarmos quem se atravessa no nosso caminho, ou partilharmos o que sentimos com quem assim nos faz sentir... Talvez então, um dia, eventualmente um fim de tarde de outono quando as tardes esfriam e o sol, tímido, se esquece de esperar por nós... Talvez um dia, acabemos por esquecer quem éramos verdadeiramente atrás das janelas fechadas...

Posso contar-te um segredo? A ti que me lês nestas letras em curva? Hoje passou-me pela cabeça que, se calhar, a única forma de rebentar a bola de sabão sem cair redonda no chão, é mesmo abrir as janelas em par e ousar espreitar o mundo pelos meus olhos, sem máscaras ou enfeites ou papeis para decorar, apenas eu, tu e o mundo despido de janelas fechadas.

Assim de repente, parece-me que por muito que arrisque, e ainda que a chuva entre pela janela, ao menos ganho uma história para contar! E ou muito me engano, ou é isso mesmo que, atrás de cada janela fechada e dentro de cada bola de sabão que distorce a realidade, alguém sonha e espera, um dia, ganhar coragem para se vestir de si próprio e ousar viver...

Liliana Lima
13-07-2009



"Trago-te ao espaço da janela.
De novo surgiram deste lado da rua.
Em voz baixa disse «uma alucinação». A
única resposta foi entrar em casa
subir ao quarto mudar de roupa
ser jovem com quem soube bem ser jovem
sábio com quem quiseste ser sábio
velho com os velhos.
Trago-te para perto da janela
o rio vê-se daqui.
A cor da terra circula.
«Talvez seja a morte» «não»
«se for a morte o coração baterá mais ou menos forte».
O corpo não tem grande lugar."

"Trago-te ao Espaço da Janela" de João Miguel Fernandes Jorge
in "Meridional"

terça-feira, janeiro 01, 2013

Vamos ao teatro Gastão?!

Sobe a cortina e acendem-se os focos. No palco a acção desenrola-se entre o programado e os pequenos imprevistos, que tantas vezes alteram o decorrer do esperado, conhecido e até ensaiado. Lá ao fundo, num canto escondido, uma fagulha brilha ainda quente da fogueira que a acendeu. Não se vê, não entra na cena, não se ouve, nem tem deixas onde entrar. Está ali simplesmente, lembrando a fogueira que, outrora, ali ardeu. A cortina desce e as luzes apagam da memória quaisquer rasgos de outros actos. 

Sobe a cortina e com ela o sol que se levanta por detrás das árvores e das pontes e das casas e dos homens que dormem ainda na quietude das noites de verão. A acção desdobra-se em vários palcos que se espalham um pouco por toda a linha do horizonte. Não há harmonia entre as cenas que se sucedem num remoinho de diálogos e se cruzam e desdizem entre si. Os personagens vagueiam entre sentimentos e responsabilidades, entre culpas e lembranças, entre desejos e amarguras, num equilíbrio coxo. Desce a cortina enquanto os bailarinos se apoiam nas palavras que pairam ainda no ar matinal. 
 
Sobe a cortina e a lua, uma enorme e redonda lanterna recortada no céu escuro da noite, inunda toda a acção num amarelo baço que romantiza os diálogos e acorda os sonhos. Uma sombra disforme atravessa o campo de visão. Passa por cada personagem como um sopro vindo de outras peças, de outras noites e fala-lhes de medos antigos, ou talvez de sonhos esquecidos, ou talvez de amores perdidos, ou apenas de sombras do vento no calor da noite. Enquanto não desce a cortina, a sombra mantém-se no centro da acção, inibindo as conversas, forçando os movimentos, consumindo toda a atenção como um grande buraco negro.
 
Sobe a cortina e o arco-íris reluz de um lado ao outro do palco. Os sonhos dançam livres e, no ar, uma leve brisa marinha embala os sentidos numa valsa "a mille temps". Borboletas passam em bandos colorindo o cenário, e as nuvens desfazem-se em pequenas bolas de sabão ao mais pequeno toque. Ninguém aparece em cena. Todos os personagens parecem ter adormecido num sonho de encantar e o tempo, controlado por um pequeno relógio de bolso deixado ao acaso no chão, segue alegre ao ritmo acelerado da orquestra. A cortina começa a descer, mas os espectadores agarram as cordas e sobem ao palco onde se instalam, confortavelmente, no primeiro tufo de relva vago que encontram. 
 
A acção começa onde onde a história devia acabar.
 
Liliana
13-Ago-2009




"Vêm de dentro repelidos
Conforme o seu destino a sua cor varia
pois escolhem a base de acordo com
a luz que o rosto cria

À frente da cortina enfrentam
o vazio que lhes dava guarida
Em sepulcros abrigam
as faces atingidas

No palco deambulam como num
tempo estreito entre duas crateras
a que na sua frente lhes recolhe os soluços
e o nada donde vieram"

"Os actores" de Gastão Cruz
in "As Leis do Caos"

domingo, dezembro 23, 2012

Dos Natais de outros anos...

Acreditas no Pai Natal, António?

Pego no pinheiro enrolado numa espécie de meia de rede, daquelas que antigamente as senhoras ousavam usar para provocar os cavalheiros, e tento a custo equilibrar-lhe o tronco entre as duas pedras grandes que de ano para ano servem de apoio à tão esperada árvore de natal. Entre desequilíbrios e quedas, dou um salto na memória e vejo os pinheiros da minha infância. Sem esforço aparente apareciam prontos a decorar na sala de jantar onde eu e a minha prima mergulhávamos nas caixas de enfeites e descobríamos as bolas decoradas, ainda de vidro, que diminuíam de número à força das nossas tão delicadas mãos, as luzes em feitio de vela que se apagavam sempre que uma das lâmpadas se fundisse e até as faixas farfalhudas douradas e prateadas com que, literalmente, vestíamos o coitado do pinheiro...

De repente o meu pinheiro, este verdadeiro, com resina e folhas que se espalham pelo chão da sala e tudo o que a natureza nos dá, parece-me tão pequeno. Os enfeites e bolas, estas de plástico para sobreviverem aos assaltos anuais dos miúdos, olham-me tristes e desengraçados. Até as luzes, que piscam e mudam de cor, me parecem desengraçadas.

Quando eu tinha o tamanho dos meus filhos mais velhos, o Natal estava coberto de um manto mágico que nem a mais dura realidade conseguia romper ou corromper. Via a azáfama e correria na cozinha com os olhos de quem quer acreditar no Pai Natal mesmo quando me diziam que ele não existia. Tudo me parecia um bailado de movimentos alegres e criadores, de onde nasciam filhoses e leite-creme e embrulhos e aletria e bacalhau e embrulhos e mesas arranjadas com copos de pé e embrulhos...

Enrolo o alguidar com a massa das filhoses numa manta e deixo-a fintar perto do aquecedor. Com as mãos cheias de farinha vejo-me do lado de dentro do teatro, onde as luzes estão penduradas por cabos pretos e o cenário colorido está debotado e remendado. A minha avó à porta da cozinha, também com as mãos enfarinhadas, suspira cansada. A minha mãe na sala, arruma as lágrimas ao lado dos copos de pé enquanto arranja os presentes em volta da árvore. Os meus tios, atrasados para o jantar, batem à porta com olhos cansados da correria e do trânsito.

Ao fundo do palco, o meu avô sorri. Olha-me através dos tempos e das luzes e das árvores de muitos natais. Ao fundo do corredor grande e comprido, da cozinha ao escritório, chama-me ao seu lado. Sou do tamanho dos meus filhos mais velhos e está na hora de lhe dar a prenda que a minha mãe comprou. Ele dá-me a mão e abre o embrulho de mais um lenço com um "F" bordado. Está tudo tão perfeito que nem as lágrimas, nem os suspiros, nem os cansaços se atrevem a interromper, apenas a mesa com os copos de pé e o leite-creme e os embrulhos ainda à volta da árvore.

Ao fundo do corredor, do meu corredor, o meu avô sorri e os seus olhos azuis iluminam o palco, dão cor ao cenário e alegram os focos.

Os meus filhos correm e brincam em volta do pinheiro que, aos poucos, se veste de festa. As filhoses estão prontas e luzidias no centro da mesa vestida, também, de Natal. Os embrulhos vão-se juntando longe da vista das crianças e na manhã de Natal aparecem, como que por magia, em volta da lareira. Afinal sempre me disseram que o Pai Natal não existe, apesar de o ter visto passar em frente da lua todas as vésperas de Natal!
Liliana a 22/Dez/2009
 













"Venho, torna-me velho esta lembrança!
D'um enterro d'anjinho, nobre e puro:
Infancia, era este o nome da criança
Que, hoje, dorme entre os bichos, lá no escuro...

Trez anjos, a Chymera, o Amor, a Esperança
Acompanharam-n'o ao jazigo obscuro,
E recebeu, segundo a velha usança,
A chave do caixão o meu Futuro.

Hoje, ambulante e abandonada Ermida,
Leva-me o fado, á bruta, aos empurrões,
Vá para a frente! Marcha! Á Vida! Á Vida!

Que hei-de fazer, Senhor! o qu'é que espera
Um bacharel formado em illuzões
Pela Universidade da Chymera?"

"Ai de Mim! "
António Nobre, in 'Só'

terça-feira, dezembro 04, 2012

Como foi a tua noite, João?

Ele voltou tarde para casa, estava cansado e a única coisa que lhe apetecia era tomar um duche, comer qualquer coisa e deitar-se sem grandes sobressaltos pelo caminho.

Ela esperava-o embrulhada em rendas e laços vermelhos em cima da cama, o quarto estava enfeitado com velas e flores, como numa série que tinha visto há uns dias, e no corredor setas feitas de chocolate indicavam o caminho até ela.

Há muito que não se encontravam na cumplicidade dos lençóis, antes cruzavam-se entre os horários dele e o despertador dela, sem tempo nem disponibilidade para mais do que dois dedos de "conversa de ervanária". Naquele dia, e depois de se ter inspirado no óptimo resultado da noite romântica da série que seguia religiosamente, ela decidira que estava na altura de reacender a chama dos tempos de namoro.

Ele abriu a porta distraído, nem viu os bombons até tropeçar neles (por momentos achou que se tinha enganado na porta) foi a voz dela, lá do fundo do corredor, que o fez perceber os planos para aquela noite. Parou na entrada, hesitou e suspirou fundo antes de avançar pelo corredor.

Ela ouviu-o entrar e chamou-o pelo diminutivo que usava quando namoravam, não estranhou a demora dele, nem o ar sério com que se aproximou. Estava entusiasmada e tinha a certeza de que tudo o que o seu casamento precisava para reanimar estava ali, naquela surpresa embrulhada em rendas e laços vermelhos. Quando casaram ela estava tão apaixonada por ele que o coração parecia saltar-lhe do peito cada vez que estavam juntos, depois os anos passaram, os empregos tomaram a dianteira nas prioridades de cada um e a rotina instalara-se mesmo antes que ela percebesse. Na verdade só há pouco tempo, com o divorcio de uns amigos, ela se apercebera o quão distantes estavam.

O rádio da mesa de cabeceira dela tocava, um pouco mais alto do que o normal, os estores estavam corridos, por todo o lado velas coloridas brilhavam e a jarra da cómoda estava repleta de pequenas flores brancas e rosas vermelhas. Ela estava deitada em cima da cama com uma lingerie sexy e olhava para ele como uma gata que ronrona baixinho.

Há quanto tempo ele esperava por um sinal de vida da parte dela... Na verdade, fazia tanto tempo que ele já nem se lembrava da última vez que a vira olhar assim para ele. Tanto tempo... Tempo em que ele tentara aproximar-se... tempo em que ele se sentira perdido e sozinho... Tempo em que ele por fim desistira e aceitara um casamento morno, de faz de conta... Tempo em que ele se cruzara com alguém que o fez sentir, de novo, o coração a saltar do peito...

Ele olhou para ela num misto de carinho e tristeza. Ela tinha tido tanto trabalho a embrulhar aquela noite! E ele esperara tanto tempo por uma noite assim! E no entanto, nada parecia bater certo, tudo estava fora do lugar como se os sapatos que calçava não fossem seus e as roupas que vestia fossem dois números acima do dele. E ela entendeu, aquele olhar disse-lhe tanta coisa que ela, por fim, entendeu.

Naquela noite, apesar de tudo estar fora dos lugares, ou talvez porque tudo estava fora dos lugares, apesar de saberem que a marca do tempo não se pode apagar, ou precisamente porque a marca do tempo não se pode apagar, apesar de terem entendido que o arco-íris já não lhes coloria um caminho conjunto, apesar dos pesares... naquela noite embrulhada em rendas e laços vermelhos, ela ronronou baixinho como uma gata e ele sorriu-lhe como há muito não fazia...




Com a canção "Há dias" de João Monje no ouvido 
(e aqui num post antigo do Curvas).

quarta-feira, novembro 28, 2012

Não tenhas medo, Manuel

Dou voltas sobre mim à procura de uma mão para agarrar antes de saltar, e por fim é também a minha que me toca de mansinho, 
calma estou aqui, maternal, 
está tudo bem, meiga, 
tu consegues. 
Aperto-a com força e fecho os olhos enquanto me aproximo da linha que divide o aqui do ali, o certo do desconhecido, o seguro do até agora ainda só sonhado e esbarro numa parede de medos e receios.

Eu, que acredito no arco-íris que me aponta a estrada e mostra a estrela e baloiça as árvores de onde crescem as palavras que voam ao vento e se espalham como sementes que acordam os sonhos que acendem, novamente o arco-íris... 
Eu, parada no medo e a parede a avançar... 
calma estou aqui, 
aperto ainda mais as mãos e fecho novamente os olhos à procura das cores...

Eu, que me sirvo da palavra sem correntes nem amarras, para com ela voar e num esgar de liberdade a multiplicar por mil olhares que valem muito mais que todas as imagens do mundo a rodar num ecran de pano branco... 
Eu, a esbarrar no medo e na parede... 
está tudo bem, 
uma tranquilidade que se impoem e as palavras a dançar à minha volta numa cantiga de roda...

Eu, que sinto as histórias vivas a sussurrar aos meus ouvidos, a pedirem para serem contadas na minha voz, vividas no meu corpo e acreditadas no mais íntimo de mim, obediente, deixando-as tomar o castelo e atacar os moinhos, ao mesmo tempo que as conto ao mundo ao abrigo das cumplicidades que nascem dos olhos e se espalham pelo ar... 
Eu, imobilizada com a ideia do vazio... 
tu consegues, 
uma certeza tímida que espreita por trás da chuva e lembra o sol de verão...

E eu, que sei que consigo, a duvidar, 
calma estou aqui, 
a hesitar, 
está tudo bem, 
a recuar, 
tu consegues, 
a parar... 
Uma brisa suave empurra-me, embala-me e recorda-me que eu sou eu, e que eu acredito na utopia, sirvo a palavra livre e sinto as histórias vivas! 
Dou-me novamente a mão e, com a ajuda do vento, retomo o caminho. 
Ao fundo, quase imperceptível, um arco-íris brilha sob o céu lisboeta...

Liliana


"Ninguém me roubará algumas coisas,
nem acerca de elas saberei transigir;
um pequeno morto morre eternamente
em qualquer sítio de tudo isto.

É a sua morte que eu vivo eternamente
quem quer que eu seja e ele seja.
As minhas palavras voltam eternamente a essa morte
como, imóvel, ao coração de um fruto.

Serei capaz de não ter medo de nada,
nem de algumas palavras juntas?"

"O Medo" de Manuel António Pina, in "Nenhum Sítio"
 

quarta-feira, novembro 21, 2012

Vieste para ficar David?

O que te diz o espelho, David?

Ele olhou-a de soslaio, lá do fundo do quarto. Tinha saído do banho e vinha apenas com a toalha amarela com riscas azuis enrolada à cabeça, como um grande cacho de frutas que cantava "o que é que a baiana tem...".

Ligou o rádio em cima da cabeceira empoeirada e, ao ritmo de uma qualquer música da moda, balanceava o corpo enquanto tirava peças de roupa ao acaso de dentro da mala de viagem. A cama foi-se enchendo com um emaranhado de camisolas, soutiens, saias, blusas, cuecas, casacos... que escolhia, experimentava e novamente despia, num frenesim de feira em plena actividade.

Tinha saudades dela! Há quanto tempo não a tinha assim, só para ele, para seu deleite. Olhava para ela e lembrava os dias, anos, em que fora de facto o seu companheiro de quarto. Horas que passaram a olhar um para outro, olhos nos olhos, comungando da mais profunda cumplicidade.

Algo mudara durante a sua ausência, estava mais desinibida, já não tinha vergonha de o olhar assim, despida, antes parecia provocá-lo propositadamente com aquele desfile bamboleante em trajes menores.

Ah! Quanto tempo o deixara ali, sozinho. Há quanto tempo não via aquela toalha a cantar "o que é que a baiana tem..."! Há quanto tempo não sentia aquele nervosismo ritmado ao som da música que parecia aumentar de volume cada vez que ela se aproximava e o olhava tão fixamente, quase através dele...

Havia, no entanto, uma certa amargura na sua expressão, uma mágoa que lhe entristecia o olhar, como a névoa que paira sobre o Tejo nas manhãs de Outono. O seu corpo dançava "como sempre, como antes", mas os seus olhos denunciavam uma inquietação nova, que ele desconhecia. Havia nela algo de novo, já não era a rapariga que crescera com ele, era uma mulher decidida, desinibida, desiludida talvez, mas com vontade de viver, de se recriar. Lia-o no seu corpo e nos seus gestos.

O espelho olhou-a de soslaio, lá do fundo do quarto, na parede em cima da cómoda. Estava vestida e continuava a balancear-se ao som da música do rádio, enquanto arrumava o caos de roupa em cima da cama. Não ia ficar. Viera de passagem, como o Sol que espreita por entre as nuvens num dia cinzento de inverno. O som do rádio distorcia-se por entre as interferências da sua saudade... Não ia ficar!

Olhou-a com todas as suas forças, tentando vislumbrar até à esquina ao pé da porta que quase não conseguia reflectir. Queria guardar o mais possível dela, marcar a sua imagem dentro de si para os dias repetidos de vazio.

Chegou o momento, a mala estava pronta, o casaco vestido e o cabelo penteado. Aproximou-se dele e olhou-o demoradamente. Suspirou, tirou do bolso o baton, pintou os lábios, e antes de sair, deu-lhe um beijo vermelho vivo que o marcou bem no centro de todas as emoções.


Liliana 29/01/2009




"Só de espelhos o crânio mobilado

Um corpo de mulher posto no centro

Outro jogo de espelhos lá por dentro

O meu crânio no centro colocado"


(David Mourão Ferreira)
 

quinta-feira, novembro 08, 2012

Posso ser quem nunca fui, Sérgio?!

Ah! Não me toques na noite suave, levantando o lençol dos sonhos que pedem para ser vividos, para quando nasce o sol me deixares assim as mãos frias, desamparadas, sós, como um ninho vazio.

Ah! Não me cantes ao ouvido de mansinho neste leito iluminado pelas estrelas, esculpindo as palavras letra a letra no meu corpo, para quando as nuvens cobrem o céu me escureceres com o silêncio da ausência que se instala em mim sem pedir licença.

Ah! Não me beijes os seios num nascer de Sol matinal que acorda os sentidos e os sentires se, quando o dia se mostra, foges numa barca invisível que te afasta do rio dos afectos e te leva para o oceano desconhecido deixando a marca da rejeição rasgada nas águas.

Ah! Não encostes o teu corpo ao meu nesta onda que acelera a respiração e me leva na maré se, quando a lua se transfigura, me deixas sentada à beira-mar procurando na areia, ainda húmida, a concha onde te escondes.

Diz-me, posso ser quem nunca fui?!

Ah! Deixa-me manter o espanto, o encanto, a capacidade de sonhar e acreditar... Que é possível ser, querer, sentir, viver... sem me ver só, no caminho dos campos.

Vem! Abre portas e janelas, se conseguires deixar a luz iluminar os corpos que somos(?) e fomos(?)!

Mas parte! Se enrolado num mar de dúvidas, perdido por entre hesitações, me negas e rejeitas.
Mas parte! Se apenas velado por um luar inaudito que só tu conheces e imaginas, consegues querer(ter)-me.

Diz-me, posso ser quem nunca fui?!
                                                                         Liliana


'- Senhora de preto
diga o que lhe dói
é dor ou saudade
que o peito lhe rói
o que tem, o que foi
o que dói no peito?
- É que o meu homem partiu

Disse-me na praia
frente ao paredão
“tira a tua saia
dá-me a tua mão
o teu corpo, o teu mar
teu andar, teu passo
que vai sobre as ondas, vem”

Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?

Seja um bom agoiro
ou seja um mau presságio
sonhei com o choro
de alguém num naufrágio
não tenho confiança
já cansa este esperar
por uma carta em vão

“por cá me governo”
escreveu-me então
“aqui é quase Inverno
aí quase Verão
mês d’Abril, águas mil
no Brasil também tem
noites de S. João e mar”

Pode alguém ser quem não é?...

É estranho no ventre
ser de outro lugar
e tão confusamente
ver desmoronar
um a um sonhos sãos
duas mãos
passando da alegria ao desamor

Pode alguém ser livre
se outro alguém não é
a algema dum outro
serve-me no pé
nas duas mãos,
sonhos vãos, pesadelos
diz-me:
Pode alguém ser quem não é?'

Sérgio Godinho (do "Pré-Histórias")

segunda-feira, outubro 29, 2012

Que caminho tão longo, José...

Que caminho tão longo pai... Que sois tão cansativos se interpõem entre nós, neste nós que perdeu, há tanto tempo, a possibilidade de ser.

Que viagem tão comprida nos inundou as memórias de infância, que bóiam sem rumo nem mastro neste aparente caos calmo.

Quantas vidas teriam de passar para que nos pudéssemos sentar frente a frente e, olhos nos olhos, conversar? Mas conversar sem palavras, que essas só servem para enaltecer os que precisam de se ouvir a si mesmos fingindo perceber o mundo. Conversar a sério, a valer, afinal nem só do presente é feita a vida e nem todas as respostas estão no passado. Conversar olhando, sentindo, ouvindo, acolhendo aquilo que somos ou pensamos ser...

Que deserto tão grande... Que areias tão finas que entram pela pele, se entranham e se colam a mim por mais que as sacuda e empurre para longe. Estão cá dentro e fazem-se ouvir nas noites de tempestade, rolando umas contra as outras com o baloiçar do barco.

Estas estranhas marés que, novamente me largam nesta ilha que conheço tentando desconhecer, são apenas o reflexo da força do outro lado da Lua. Não sou daqui, sei-o. E no entanto, um estranho sentimento de déjà vu embala-me numa viagem remota ao centro do meu ser. Não sou daqui, mas podia ser.

Fui aqui um dia, há muitas vidas. Antes deste caminho tão longo, desta viagem tão comprida, deste deserto tão grande... que afinal me trazem sempre de volta aqui mesmo, a esta ilha de cacos espalhados e recortes desarrumados feita, no meio de um enorme oceano de silêncio, caos, desespero e solidão, onde nadas sem barco nem bóias. E eu, que fui aqui um dia, há muitas vidas, não te posso puxar, não te consigo dar a mão. É que eu, não sendo daqui, não consigo cá entrar.

Que caminho tão longo... para perceber que tudo o que posso fazer é ser ilha e aguentar a corrente das águas do passado. É ser terra em que semeie o presente para que nasça a espiga de tudo o que pode vir a nascer. É ser fonte onde jorre o tempo calmo de cada dia para que, às vezes, quando te falta a terra e te escorrega o céu, te possa estender uma ponte que te leve a quem, de facto, te pode ajudar, sem que isso me leve de volta ao deserto.

Liliana Lima
26-Jan-2010
 



"Que caminho tão longo!
Que viagem tão comprida!
Que deserto tão grande grande
Sem fronteira nem medida!

Águas do pensamento
Vinde regar o sustento
Da minha vida

Este peso calado
Queima o sol por trás do monte
Queima o tempo parado
Queima o rio com a ponte

Águas dos meus cansaços
Semeai os meus passos
Como uma fonte

Ai que sede tão funda!
Ai que fome tão antiga!
Quantas noites se perdem
No amor de cada espiga!

Ventre calmo da terra
Leva-me na tua guerra
Se és minha amiga"

"Travessia do deserto" de José Mário Branco

domingo, outubro 28, 2012

Pelo que esperas, Chico?

Esperando que o amanhecer não caia em cima dela com força demais, capaz de deitar abaixo os sonhos da noite.
Esperando que os ventos não abanem o seu tronco de forma a danificar as raízes que a prendem ao seu solo interno.
Esperando que as estrelas não deixem de iluminar o seu lado mais alegre.
Esperando que a lua mantenha a ligação secreta que sempre a levou para lá do arco-íris.
Esperando acordar com um suspiro sincero, profundo, de respeito por si mesma.
Esperando encontrar-se, um dia, certa de si e das suas convicções, capaz de se pensar longe e inventar outros horizontes.
Esperando conseguir olhar para o copo e vê-lo sempre vazio, pronto a encher-se para novamente se esvaziar, num movimento perpétuo.
Esperando fintar a inquietação e olhar os fantasmas olhos nos olhos até lhes retirar toda a energia.
Esperando adormecer com a tranquilidade dum dia atrás do qual não precisou de correr.
Esperando olhar para o espelho e ver-se sorrir, sem reservas, para e de si mesma.
Esperando esperar...
Esperando apenas...
Esperando por si.
Liliana
17-10-2010





"Pedro pedreiro penseiro
esperando o trem
Manhã parece, carece
de esperar também para o bem
de quem tem bem
de quem não tem vintém

Pedro pedreiro fica assim pensando
Assim pensando o tempo passa
e a gente vai ficando prá trás
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
esperando o trem,
esperando aumento
desde o ano passado
para o mês que vem

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
Pedro pedreiro espera o carnaval

E a sorte grande do bilhete pela federal todo mês
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
Esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem
Esperando a festa, esperando a sorte
E a mulher de Pedro está esperando um filho prá esperar também

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
Pedro pedreiro fica assim pensando

Pedro pedreiro está esperando a morte
Ou esperando o dia de voltar pro Norte
Pedro não sabe mas talvez no fundo espere alguma coisa mais linda que o mundo
Maior do que o mar, mas prá que sonhar se dá o desespero de esperar demais
Pedro pedreiro quer voltar atrás, quer ser pedreiro pobre e nada mais, sem ficar
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
Esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem
Esperando um filho prá esperar também
Esperando a festa, esperando a sorte, esperando a morte, esperando o Norte
Esperando o dia de esperar ninguém, esperando enfim, nada mais além
Que a esperança aflita, bendita, infinita do apito de um trem
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando o trem
Que já vem...
Que já vem
Que já vem
Que já vem
Que já vem
Que já vem"
"Pedro pedreiro" de Chico Buarque

sexta-feira, outubro 26, 2012

Uma avenida para Mariza...

Desço a avenida e o som dos ferros dos andaimes a bater uns nos outros atordoa-me os sentidos e leva-me a uma insegurança que julgava perdida para o dia de hoje.

Desço a avenida e com o pingar das primeiras gotas de chuva nos vidros das montras, vejo-me reflectida em mil pedaços, em mil lágrimas.

Desço a avenida e todos os barulhos da cidade se distanciam à minha passagem, tornando-se apenas num burburinho de fundo. Como se o seu respirar sussurrasse aos meus ouvidos e nele se diluíssem, os carros que passam por cima das poças, os choros das crianças que entram nas escolas, os comboios que avisam que vão partir, o sem número de pessoas que avançam em passo apressado.

Desço a avenida com o sussurrar da cidade nos ouvidos, e no poço dos sentidos descubro o uivar do vento nas janelas de madeira da velha casa de Moimenta, agarro-me a ele como se um bote salva-vidas se tratasse e perco-me nas ondas do mar que em mim se baloiça.

Desço a avenida e com ela navego na lembrança do soalho que estala aos passos do meu avô, e com ela relembro o desembrulhar dos rebuçados de geleia na cozinha grande e fria que dava para o quintal.

Mas não o quintal com a videira, não os rebuçados reluzentes e pegajosos, não o soalho aos passos do avô…

Desço-me pela avenida e vejo escorrer, com a água da chuva, os mil reflexos que de mim deslizam e desaguam no Tejo…

Liliana 14-12-2006


"Ando na berma
Tropeço na confusão
Desço a avenida
E toda a cidade estende-me a mão
Sigo na rua, a pé, e a gente passa
Apressada, falando, o rio defronte
Voam gaivotas no horizonte
Só o teu amor é tão real
Só o teu amor…

São montras, ruas
E o trânsito
Não pára ao sinal
São mil pessoas
Atravessando na vida real
Os desenganos, emigrantes, ciganos
Um dia normal,
Como a brisa que sopra do rio
Ao fim da tarde
Em Lisboa afinal

Só o teu amor é tão real
Só o teu amor…

Gente que passa
A quem se rouba o sossego
Gente que engrossa
As filas do desemprego,
São vendedores, polícias, bancas, jornais
Como os barcos que passam tão perto
Tão cheios
Partindo do cais

Só o teu amor é tão real
Só o teu amor…"

Montras – Rui Pedro Campos

terça-feira, outubro 09, 2012

Aqui estás tu, José...

Apareceu ao fundo da rua, com um sorriso enorme de criança que acabou de ganhar um chocolate. "Aqui estou eu!", disse ele feliz. E estava mesmo...

A imagem era, no mínimo, surreal. Vinha a pé pelo meio da estrada, trazia com ele duas malas de pele castanha já gastas, tão cheias que uma quase se abria e a outra trazia de fora uma manga de camisa branca com riscas azuis. Um malote verde à tira-colo, uma mochila grande às costas, daquelas de campismo com a tenda enrolada por baixo e uma caçarola pendurada nos fechos de cima, uma mala de transportar animais com um gato que, a medo, espreitava pela rede, e um periquito ao ombro.

"Aqui estás tu, com tudo o que és..." pensei eu. Tudo o que, ao longo da vida, foste recolhendo e apanhando, o que te foi marcando, o que não conseguiste soltar, o que te pesa nos ombros à noite quando, às voltas na cama, não consegues dormir, o que te arrependes e o que tens saudades.

Ele avançava devagar, cansado do peso e da viagem. Era fim de tarde e o Sol, que brilhava baixinho, alongava-lhe a sombra da bagagem que chegava muito antes dele. Tentei dizer-lhe que largasse algum peso. Estranhou a sugestão como se viesse de mãos a abanar e não tivesse nada para largar.

Entrou em casa com dificuldade, lutando com as malas de pele e a mochila que lhe dificultavam a passagem. No meio daquela confusão, o periquito esvoaçava assustado e o gato, cuja mala acabou por se abriu ao bater na porta, fugiu assanhado. E eu acabei a correr pela estrada fora para o apanhar.

Quando voltei com o gato nos braços ele já estava instalado, sentado no sofá grande à frente da televisão, com o comando na mão e o mesmo sorriso alegre de criança. Espalhados um pouco por toda a sala, peças de roupa, bugigangas e papeis soltos saídos de uma das malas castanhas. Por muito que tentasse não consegui chegar-me a ele, muito menos sentar-me ao seu lado. O sofá estava completamente ocupado pelas bagagens que trouxera, e eu estava a mais naquela fotografia.

Abri a janela ao periquito e soltei o gato, tentei encaixar as malas, o malote e a mochila na dispensa, mas as tralhas pareciam ter vontade própria e não deixavam a porta fechar. Cheguei-me a ele devagar e perguntei o porquê de tanto passado a invadir um momento que devia ser só nosso, feito de futuro e esperança. "Eu estou aqui tal como sou, nada mais e nada menos" disse ele, e olhou-me com o sobrolho franzido, como se eu falasse chinês. "Tens a certeza?" perguntei de mansinho, quase em surdina. Afastei-me e percebi que ele não sabia o peso que trazia. Tudo aquilo vinha com ele há tanto tempo que ele já não se apercebia de que o acompanhava.

Peguei-lhe na mão e chamei o gato que saltitava em cima da cama, atrás do periquito. Depois levei-o até à dispensa, onde as tralhas lutavam contra a porta. Pelo chão do corredor, desordenadamente, espalharam-se roupas usadas, papeis amachucados e fotos antigas. Pasmado, encostado à parede, ele olhava aquele desfile do seu passado, enquanto os bons e os maus momentos, as dores e a alegrias invadiam um espaço tão grande que não me deixavam sequer chegar-lhe. Quanto mais tentava aproximar-me, mais longe me encontrava. Um mar de antigas memórias separava-nos empurrando-me para longe, longe dele.

Saí para lhe dar espaço, para não me sentir estranha numa vida da qual, afinal, eu não fizera parte. Saí mas voltei, mais tarde, depois dos ponteiros do relógio me confidenciarem que era o momento certo. 
Entrei devagar, receosa do gato, do periquito que esvoaçava, dos papeis, das malas e malotes... Entrei mas não vi os bichos, nem as tralhas, nem as malas. Na sala, no sofá grande à frente da televisão, sozinho, estava ele. Olhou-me demoradamente e tentei entender no seu olhar o que se seguiria.

Nunca mais vi as malas, o malote ou a mochila de campismo. Na verdade, não tenho a certeza que o gato se tenha ido verdadeiramente embora, às vezes parece-me ouvi-lo miar, e podia jurar que no outro dia vi um periquito a tentar entrar pela janela do quarto. Mas, poderei eu recriminá-lo por isso? Afinal, quem não guarda consigo imagens ou mesmo marcas do caminho que atravessou...


Liliana Lima
02-Abril-2009

"(...)
Eu não tenho a certeza
De morrer ou de nascer
Sempre que o amor vier
Brilhante natureza
Fecundando matagais assim
Vira vento, vira tempo contra mim
É tão bom ter a certeza
Entre o ser e o acontecer
Mas mentir-te meu irmão 
não o farei não 
(...)
Aqui vou eu
Com o que sou
Com o que é meu
Tal como estou
É neste chão
Que eu assento os pés
E é por seres quem és
Que eu assim me dou
(...)"

"Eu não tenho a certeza" de José Mário Branco

segunda-feira, outubro 08, 2012

Essa não sou eu Jutta...


Pensavas que era eu aquela com quem gritaste e gesticulaste e mal disseste e agrediste e mal trataste? Ahh, quão enganado andas tu!

Eu não era aquela. Eu nem estava, estive ou estou lá. Ela, a tal que te olhou com olhos tristes (erro crasso, estás a anos luz) e ainda tentou chegar a ti essa, coitada, como o pinguim do livro que já contei vezes e vezes sem conta em escolas e escolas e bibliotecas e feiras cheias de gente, essa ficou completamente desfeita!

Mas eu não. Eu não estive lá, nem por lá passei. Eu estou aqui inteirinha a olhar para o pinguim/menina desfeita por todo o mundo. E, claro, já sei que sou eu quem vai palmilhar as estradas e os caminhos e os mares e os céus até a reconstruir de novo - a menina/pinguim a quem tu gritaste. Irei, como sempre fui. Com carinho, com paciência, com "uma linha feita de amor e uma agulha feita de perdão" recolher peça a peça e depois coser a boneca que se endireitará novamente, vestida de pinguim.

Ah! Pensavas que era eu! Mas eu há muito que aprendi a estar onde não estou, a ser não o que sou. Não, não era comigo que gritavas, gesticulavas e magoavas. Tudo isso era contigo e com a menina/pinguim (a que tu imaginas ser eu), num mundo onde eu não entro e que não me faz sentido. Aliás, acho que aí desse lado do véu que divide os nossos mundos apareço pintada, maquilhada e mascarada (de pinguim).

As flores acompanharam a minha surdez, as árvores ajudaram à minha indiferença e até o vento me empurrou para continuar a andar, subindo a rua. Deixei lá a menina, aquela que se desfaz com os gritos, mas sei que a consigo consertar - consigo sempre. É que essa, por mais que eu tente, não se consegue afastar sem carregar o peso insuportável de culpas, dúvidas, pena, tristezas.... E por isso, lá fica, ouvindo os gritos que a agridem e, por fim, a deixam completamente desfeita... 
 
Parto esta noite, logo a seguir ao jantar, levo a linha e a agulha e um cobertor para a embrulhar. Não sei quando volto, posso demorar, mas no fim voltarei reconstruida.


Liliana
10-Mai-2010



"Hoje de manhã, a minha mãe gritou comigo, e eu fiquei desfeito.
A minha cabeça voou para junto das estrelas.
O meu corpo perdeu-se por entre as ondas do mar (...) "

"Quando a mãe grita" 
Jutta Bauer
 

terça-feira, outubro 02, 2012

Quem escondes debaixo do tapete, Luís?!

Ela já já lá estava quando ele entrou. Estava sentada no cadeirão azul a ler um livro. Ele olhou em volta, indeciso sobre onde se sentar, e  acabou por escolher um sofá pequeno de cor difusa entre o bege e o amarelo ao lado de uma mesa de canto, com um amontoado de revistadas e uma jarra com flores de plástico, mesmo em frente a ela. 
 
Reparou imediatamente na capa do livro que ela estava a ler, era um dos seus livros preferidos, "História da gaivota e do gato que a ensinou a voar" do Sepúlveda. Sorriu, tinha quase a certeza que iriam passar algumas horas ali e só podia ser um bom presságio.
Ela estava de pernas cruzadas e balançava lentamente o pé enquanto passava as folhas do livro. Estava tão concentrada que praticamente nem levantou os olhos quando ele acabou por dizer "bom dia". Foi só quando se levantou para ir buscar um copo de água, numa uma máquina com um garrafão de pernas para o ar, que o viu e o cumprimentou educadamente. 
 
Ele mantinha-se sentado em frente dela e tinha nos olhos a serenidade de um pôr do sol de Agosto. Folheava revistas ao acaso, sem grande interesse e foi ele que deu início à conversa. 
 
A propósito do livro que ela estava a ler, falaram de metáforas e formas de ver o mundo, aos poucos foram-se abrindo e partilhando um pouco de tudo e de nada. Sem se aperceberem já estavam a falar das escolhas e gostos, dos medos e expectativas, dos amores e desamores, como se conhecessem desde sempre. 
 
Ele estava entusiasmado, não esperava uma sintonia tão imediata com uma desconhecida, parecia que estavam num filme, começava uma frase e ela acabava-a na intenção exacta  que ele queria. Ao fim de duas horas, que mais pareciam ter sido dois minutos, ele começou a pensar que, se calhar, as almas gémeas não eram, afinal, uma invenção da Disney. 
 
A certa altura ela, sentada no cadeirão azul, agarrou uma resposta que tentava sair, espontânea e genuína. E deu consigo a pesar as consequências que aquela confidência teria na imagem dela que ele estava a desenhar na sua cabeça e que, assim de repente, ela queria preservar. Não a deixou sair, antes respondeu com uma frase redonda e sem grande significado, ou com todos os que se quisessem retirar dela. Devagar, como quem estende as pernas para descontrair os músculos, levantou a ponta do tapete colorido que, entre eles se estendia no chão, e empurrou para baixo dele os recortes da sua vida que lhe pareceram menos apropriados ao tal retrato dela que ele estaria a compor a partir daquela conversa. E continuou a falar, como quem assobia para o lado. 
 
Conversavam descontraidamente e sem direcção pré-definida, até que ele se engasgou antes de responder a uma questão levantada por ela. A resposta, que se formou ao mesmo ritmo da conversa, enrolou-se na garganta mas não saiu, pois ao mesmo tempo ele deu por si a pensar qual seria a reacção dela ao ouvir o que iria dizer. Ao mesmo tempo que criou um novo diálogo, mais ao gosto do que lhe pareciam ser os parâmetros dela, fingiu apanhar algo do chão e levantou outra ponta do tapete colorido, debaixo da qual, aconchegou tudo o que preferia que ela não ouvisse. 
 
O tapete que os separava era feito de pequenos recortes de tecidos diferentes e formava uma imagem colorida e aberta a quaisquer interpretações que lhe oferecessem. À medida que eles, sentados em frente um do outro, começaram a esgotar os assuntos de conversa, debaixo do tapete as palavras, frases, relatos, deslizes e sonhos que lá tinham sido depositados entraram em relação, encontraram pontos de contacto e estabeleram sintonias.

Na verdade, ainda que no ar se mantivesse uma luz límpida e alegre, aos poucos, ele pegou numa revista e ela voltou ao livro. 
 
O tempo continuou a avançar, ao seu próprio e incontrolável ritmo, até que os dois se despediram. 
 
Por baixo do tapete as faces ocultas de cada um foram obrigadas ao afastamento e disseram adeus, com a certeza de terem acabado de se despedir da sua cara-metade.

Liliana Lima
19-06-2009





"Só pode voar quem se atreve a fazê-lo..."

in "História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar"
Luís Sepúlveda

segunda-feira, setembro 10, 2012

Quem foi Luís...?

Quem foi que deu às estrelas a luz dos teus olhos e as deixou brincar com o meu olhar?
Quem foi que ofereceu aos céus a força do meu abraço e o deixou embalar o luar?
Quem foi que contou ao vento o que sinto e o deixou gritar ao mar?

Quem foi que deu às estrelas a luz dos teus olhos e as deixou brincar com o meu olhar?
Quem abriu as portas aos rios e à corrente para o coração inundar?
Quem mergulhou ao fundo do mar e trouxe o azul que embala o meu sonhar?

Quem foi que deu às estrelas a luz dos teus olhos e as deixou brincar com o meu olhar?
Quem baralhou a bússola que me fez perder norte do mundo?
Quem disse que a verdade é um poço sem fundo?

Quem foi que deu às estrelas a luz dos teus olhos e as deixou brincar com o meu olhar?
Quem disse que o arco-íris não existe? Que o homem não pode voar?
Quem sonhou um caminho novo, com pedras de mil cores, para nos encontrar?

Quem foi que deu às estrelas a luz dos teus olhos e as deixou brincar com o meu olhar?
 
Liliana 14 Dez 2008


"Lembras-me uma marcha de Lisboa
Num desfile singular,
Quem disse
Que há horas e momentos p'ra se amar

Lembras-me uma enchente de maré
Com uma calma matinal
Quem foi
Quem disse
Que o mar dos olhos também sabe a sal

As memórias são
Como livros escondidos no pó
As lembranças são
Os sorrisos que queremos rever, devagar

Queria viver tudo numa noite
Sem perder a procurar
O tempo, ou o espaço
Que é indiferente p'ra poder sonhar

As memórias são
Como livros escondidos no pó
As lembranças são
Os sorrisos que queremos rever, devagar

Quem foi que provocou vontades
E atiçou as tempestades
E amarrou o barco ao cais

Quem foi, que matou o desejo
E arrancou o lábio ao beijo
E amainou os vendavais

As memórias são
Como livros escondidos no pó
As lembranças são
Os sorrisos que queremos rever, devagar
Devagar"

Memórias de um beijo – Luís Represas(in "Terra firme" Trovante 1987)