quinta-feira, março 10, 2011

Dá-me a mão, Clarice...

Conta-me o que é feito dos nossos risos que ecoavam pelos olhos bem abertos e as mãos com vontade de se apertar.
Diz-me onde está a ansiedade que brincava às escondidas por entre as almofadas nas noites brancas de verão?
Sabes onde guardámos a tranquilidade das tardes de sábado com que barrávamos o pão torrado, alegremente sentados no chão?

Procura os dias claros em que o mundo, parado, se instalava nas nossas mãos e o tempo corria connosco e não contra nós.
Ajuda-me a desenterrar a esperança com que corremos dia-após-dia, num rodopio de partilhas coloridas pelos sonhos.

Tens contigo o meu sorriso?
Procuro a tua gargalhada nos meus bolsos...
Encontraste os meus beijos na gaveta?
Abro um livro à procura dum carinho...

Conta-me, onde se perderam os nossos risos no passar das luas?
Diz-me, onde está a ansiedade que arrefeceu com o inverno?
Quero saber da tranquilidade, porque tarefas ou afazeres a trocámos?

Diz ao tempo que devolva os dias em que sonhávamos juntos!
Manda o sorriso entrar e aquecer o carinho escondido na gaveta!
Pede às gargalhadas que de novo habitem os beijos!

Liliana



"Estou tão assustada que só poderei aceitar que me perdi se imaginar que alguém me está dando a mão.

Dar a mão a alguém sempre foi o que esperei da alegria. Muitas vezes antes de adormecer (...), antes de ter coragem de ir para a grandeza do sono, finjo que alguém está me dando a mão e então vou, vou para a enorme ausência de forma que é o sono."

in A paixão segundo G.H.
de Clarice Lispector


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