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quarta-feira, outubro 30, 2019

Crónicas duma separação XII

Recorto os horários e colo-os nos azulejos da cozinha. Não podiam ser mais díspares! 

Olho para os (muitos) relógios que tenho espalhados pela casa, cada um diz uma hora diferente do outro, ou pelo menos uns minutos: "são dois p'ra lá, dois p'ra cá"(*1).

E com esses quatro, fui deitar-te e (tentar) organizar a manhã seguinte. E assim o fiz. Ou pensei que o fizera.

Sabes, meu querido, sinto-me baralhada. Com os horários. Com os tempos entre horários que passo no carro "esperando, esperando, esperando alguém. .."(*2)

Esta manhã instalou-se o caos,  porque apesar dos dois despertadores programados, ninguém acordou na hora certa para te levar a ti e a ti levar também .

E, com este sentimento de baralhação, te levantei, te chamei, me vesti e saímos, sem telemóveis, o que nos valeu mais uma subida é certo, mas saímos. Muitos minutos para além dos que devíamos ter saído, e que todos somados dariam exactamente a hora a que devíamos ter acordado.

Fomos fugindo ao trânsito e aos acidentes,  também muitos  (talvez de pessoas tão atrasadas como nós mas que chegarão muito mais tarde com certeza), andámos o melhor que pudemos, com a ajuda Maria Papoila sempre tão expedita com as alternativas e as fugas à confusão. Mas o resultado, apesar do tanto esforço, não foi diferente do esperado. 

A verdade, meu querido, é que de cada vez que olho para os horários, para os mapas de testes, para a agenda com tanto por fazer... para as actividades... para as explicações... para os gatos por cuidar... para a catequese, para a roupa por comprar... e para os horários e para a agenda com tanto por fazer... sinto-me, baralhada...

Com muito amor, 
Mãe 



(*1)João Bosco e Aldir Blanc
(*2)Chico Buarque de Hollanda

terça-feira, fevereiro 20, 2018

mi nu tos

Pergunta aos minutos se vêm que as horas não chegam
Pede à vontade que se arrume ao lado do bule que o chá está servido
Senta-te ao meu lado, sem cerimónia, que os bolos não têm de estar inteiros no prato
Tira os ponteiros que correm ao contrário no relógio que o barulho do tempo invade o espaço 

Olha para mim e deixa os olhos falar que da boca só saem palavras mudas
Estende o sonho até mim e promete que tudo vai correr bem
Mata o silêncio que o medo invade a saudade
Pergunta aos minutos se os segundos vêm que as horas nunca chegam 

Liliana



domingo, janeiro 28, 2018

QUADRAnte

Porque me vieste buscar, boneca de trapos vestida para teu bel prazer
Se não queres coser os remendos? 

Porque me vieste buscar, relógio avariado, adiantado ou atrasado, quase nunca acertado com o teu
Sem a disponibilidade de calibrar os ponteiros e olear a engrenagem?

Porque que me vieste buscar, vela enfonada pelos ventos do oriente 
Se não trazes contigo o quadrante?

Porquê?

Porque me dizes que queres uma paz que não sabes(emos) construir?
Querêla-às de facto?
Existirà sequer?

Porquê?
Diz-me. 
Tu. 
Que me vieste buscar...


Liliana
  


Museu da Electricidade

terça-feira, outubro 11, 2016

pALMA

Aperto o relógio na palma da mão, os minutos demoram horas a passar e a noite avança sem esperar por mim

Espero

Espero dias que parecem infinitos, por entre os destroços das batalhas que travo entre o que quero e o que gostava de querer

Guardo dentro de mim o pó das lágrimas secas à força do vento que eu própria sopro para enfonar as velas de cada partida

Abraço as certezas, ainda que efémeras, ainda que trémulas e sorrio para os ponteiros na esperança de os ver dançar com um tempo que teima em não se encontrar com o meu 

Espero

Espero noites e noites, despida de ilusões, deitada numa cama de rede que baloiça entre o que sou e o que não quero ser 

Procuro dentro da redoma em que me escondo do tempo a chave para dar corda ao relógio de pé que me olha, imóvel, num canto da sala 

Sento-me à beira-rio com as inquietações o mais aquietadas possível e recorto pequenas luas onde desenho números romanos 
Peço ao lado de mim que tenta abafar o outro, que me deixe soltar os ponteiros
Aperto o relógio na palma da mão

E espero


Liliana



quarta-feira, maio 25, 2016

Sil ênc io

Nunca soube ouvir no silêncio,
arranha-se-me o corpo à ausência de sinais
legíveis nos simbolos mudos
desenhados pelos ponteiros do relógio.

Fico muito quieta à espera de ver
aparecer o som que me dirá tudo
o que o silêncio, teimosamente,
esconde dos meus olhos cansados.

Saberá ele o quanto vasculho e procuro,
nas gavetas da secretária,
nas prateleiras do escritório,
até mesmo nos armários da cozinha,
pelo manual que me permitirá
aprender os segredos
da comunicação
na total
ausência
de fonemas?

Nunca soube entender o silêncio,
marca-me a pele esta espera,
por uma palavra não
dita,
por uma resposta não
dada,
por uma explicação não
partilhada.

Desco pela cidade,
sento-me à beira-rio
e desenho letras na água
com os pés descalços.

Olho o silêncio, na outra margem,
que se estende
pelo Tejo
e abraça
Lisboa
num beijo sem som.

Pergunto-lhe se me pode ajudar
e ele
em silêncio
responde
com frases que
não
consigo ouvir,
nem
entender.

Nunca soube ouvir o silêncio.


Liliana


quinta-feira, julho 30, 2015

aguarela (in)acabada

Olho-te. Demorada e persistentemente procuro encontrar-te neste eu teu que pareço desconhecer.

Oiço-te com a maior atenção que consigo convocar, apesar das palavras que dizes arranharem os quadros pendurados nas paredes cansadas, cúmplices de tantos dias, anos, que se sucederam num caminho a par.

Procuro no meio dos teus cabelos, os caracóis morenos que me aconchegaram o desejo nas noites em que, navegando no meu corpo, me fizeram desaguar no teu.

Esforço-me por enquadrar esta cena numa qualquer série americana, onde nada é coerente e o tempo corre ao sabor das audiências com a certeza dum final feliz.

Quem és tu que, desse lado da casa, me falas como se comigo não vivesses a história que vivi contigo?

Olho para ti e não encontro nada que me aqueça. O calor que ainda agora, neste Pólo a desnorte, arrepiou os meus sentidos e rasgou as minhas memórias arrefeceu a cozinha e enregelou o chão.

Teremos vivido a mesma vida ou, lado a lado, criámos duas estradas em dimensões paralelas?

Esforço-me por manter intacto o teu eu que, me parece agora, criei ao correr dos ponteiros numa aguarela inacabada. É que, ao olhar para ti neste momento, não identifico o modelo com o retrato. Atiro ao chão as telas. E as aguarelas, por secar, escorrem da entrada até à sala onde as tuas fotografias ainda falam de nós.

Olho-te com muita atenção, projectando os dias que passam no tecto do quarto, deitado na vida que não deixo avançar.

Encontro-me e perco-te, desenho-te e apago-me.

Espelho-nos, por fim, numa história que não escolhi mas que, demorada e persistentemente, tento aceitar. 


Liliana



terça-feira, julho 07, 2015

pôr DO tempo

O dia seguinte (há sempre um dia seguinte) correu descompassado pelas horas que se atropelavam nos minutos que se atrasavam. 

O relógio onde a engrenagem rodava sem rodar e uma mão cheia de areia sem espaço para descansar, com um. A ampulheta que se virava sem nada correr e os ponteiros cansados de tanto esperar, com outro.

Combinaram encontrar-se junto ao Tejo, ao pôr do sol, com a cidade como moldura e um abraço como promessa.

À medida que sol se aproximou do rio, assim o relógio se inquietou com a impossibilidade de marcar a hora combinada. Com o céu a corar e o rio a brilhar, o tempo avançou sem forma da ampulheta o contar. Foram andando pelas estradas, percorrendo os caminhos, resolvendo os desafios que se colocavam entre eles e a hora a que cada um previa o pôr do sol. 

Sem ponteiros ou areia, avançar nas horas tornou-se numa navegação à vista, sem vela nem remos. Um correndo pelas docas e o outro sentado a meio da rosa dos ventos. 

Os minutos certos, aqueles certinhos em que lhes tinham prometido que o sol beijaria o Tejo, chegaram alternados a cada um. E o sol, esse, abrandou teimosamente, baralhando horários e convenções e previsões. Abraçando o Tejo esperou que a hora certa, a deles, se encontrasse na correria das horas marcadas. 

Acertaram os ponteiros e guardaram a areia, ao ritmo inquieto de quem não quer saber quanto demora o tempo, fora do tempo, de um abraço.

Liliana


domingo, julho 05, 2015

AReia do TEMpo

Levantou-se vagarosamente, vestindo apenas o tempo que teimava em enrolar à sua volta. A caminho da casa de banho agarrava os minutos para não saírem do quarto.
Voltou com as mão molhadas, deitou-se novamente na cama e, com os ponteiros do seu relógio assentes na cabeceira, deixou o corpo embarcar na valsa dos dois que em um se tornaram.

No tempo fora do tempo, os telefones tocavam ao longe quase em surdina, e a cidade, cúmplice, abafava as ansiedades. 

Com o crescer do quarto, da lua, assim crescia a areia no lado de cima da ampulheta. Ao chegar ao limite, por fim, pé-ante-pé, pedindo licença às roupas perdidas por aqui e aos sapatos desemparelhados por ali, deixava saltar o primeiro ponteiro, cair o segundo grão, avançar o terceiro número. 

Aos poucos, o prédio, a rua, o bairro, toda a cidade acordava com/por eles deixando espreguiçar os sons que em silêncios os embrulharam nas horas anteriores.

Levantaram-se vagarosamente, deixando cair o manto que os abraçava nos dias que em noites tornavam. Lavaram os rostos e vestiram as roupas com que tinham chegado, agora estranhas aos corpos ainda trocados.

Lá fora um mundo por redescobrir à luz da lua, sua, num tempo que lhes fugia e antecipava os movimentos.

Separaram-se "como sempre, como antes", embora com a candura do primeiro beijo. Seguiram cada um pelo seu caminho acertando-se, aos poucos, com o relógio do mundo.

Sentou-se vagarosamente na cama, despiu-se sem pudores soltando a roupa por aqui e os sapatos por ali. Pela janela crescente espreitava a lua que iluminava o seu relógio sem ponteiros. Procurou-os nos bolsos, e enquanto sorria pensando onde os tinha deixado, encontrou a ampulheta, sem areia.

Liliana