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sexta-feira, outubro 26, 2012

Uma avenida para Mariza...

Desço a avenida e o som dos ferros dos andaimes a bater uns nos outros atordoa-me os sentidos e leva-me a uma insegurança que julgava perdida para o dia de hoje.

Desço a avenida e com o pingar das primeiras gotas de chuva nos vidros das montras, vejo-me reflectida em mil pedaços, em mil lágrimas.

Desço a avenida e todos os barulhos da cidade se distanciam à minha passagem, tornando-se apenas num burburinho de fundo. Como se o seu respirar sussurrasse aos meus ouvidos e nele se diluíssem, os carros que passam por cima das poças, os choros das crianças que entram nas escolas, os comboios que avisam que vão partir, o sem número de pessoas que avançam em passo apressado.

Desço a avenida com o sussurrar da cidade nos ouvidos, e no poço dos sentidos descubro o uivar do vento nas janelas de madeira da velha casa de Moimenta, agarro-me a ele como se um bote salva-vidas se tratasse e perco-me nas ondas do mar que em mim se baloiça.

Desço a avenida e com ela navego na lembrança do soalho que estala aos passos do meu avô, e com ela relembro o desembrulhar dos rebuçados de geleia na cozinha grande e fria que dava para o quintal.

Mas não o quintal com a videira, não os rebuçados reluzentes e pegajosos, não o soalho aos passos do avô…

Desço-me pela avenida e vejo escorrer, com a água da chuva, os mil reflexos que de mim deslizam e desaguam no Tejo…

Liliana 14-12-2006


"Ando na berma
Tropeço na confusão
Desço a avenida
E toda a cidade estende-me a mão
Sigo na rua, a pé, e a gente passa
Apressada, falando, o rio defronte
Voam gaivotas no horizonte
Só o teu amor é tão real
Só o teu amor…

São montras, ruas
E o trânsito
Não pára ao sinal
São mil pessoas
Atravessando na vida real
Os desenganos, emigrantes, ciganos
Um dia normal,
Como a brisa que sopra do rio
Ao fim da tarde
Em Lisboa afinal

Só o teu amor é tão real
Só o teu amor…

Gente que passa
A quem se rouba o sossego
Gente que engrossa
As filas do desemprego,
São vendedores, polícias, bancas, jornais
Como os barcos que passam tão perto
Tão cheios
Partindo do cais

Só o teu amor é tão real
Só o teu amor…"

Montras – Rui Pedro Campos

quarta-feira, março 18, 2009

Quem dança para ti ao luar, Rui?

Eu fui um dia o teu cavaleiro andante, tu eras a minha bailarina. 
Lembras-te? 
Quando os dias eram longos e as manhãs demoradas. 
Espalhávamos os legos e os carecas, as tuchas e os carros, os camiões e os lápis, inventávamos histórias e corríamos o mundo no teu cavalo de pau... no teu quarto.

Às vezes chegavas aflita a minha casa, a correr, chorando porque a lua não iluminava a tua dança. 
Eu subia para o cavalo, dobrava oceanos e cruzava desertos para te devolver o luar. E tu, então, dançavas feliz com as estrelas que brilhavam, e esquecias as mágoas e as desventuras que te assaltavam as noites frias.

Eu cavalgava ao teu lado, e jurava que seria, para sempre, o teu cavaleiro andante e tu a minha bailarina. Até nas tardes de chuva, em que te encostavas ao meu peito enquanto te contava histórias das minhas aventuras, loucas mentiras que inventava para te ver sorrir. 

Lembras-te? 
Tu dançavas ao som das músicas mal sintonizadas no rádio do teu quarto e eu, feliz, cavalgava ao teu lado afastando os ventos e as chuvas que o teu medo trazia. 
Quando os dias eram longos...

Eu fui um dia o teu cavaleiro andante. 
E hoje ainda guardo o cavalo, o teu velho cavalo de pau, no sótão encavalitado por cima dum caixote de discos antigos e riscados. 
Soubesse eu em que ruas te encontraria e, sem demora, montava nele e cavalgava até ti, só para te ver dançar à luz do luar!

Liliana Lima - 19 de Março de 2009







"Porque sou o cavaleiro andante
Que mora no teu livro de aventuras
Podes vir chorar no meu peito
As mágoas e as desventuras


Sempre que o vento te ralhe
E a chuva de maio te molhe
Sempre que o teu barco encalhe
E a vida passe e não te olhe


Porque sou o cavaleiro andante
Que o teu velho medo inventou
Podes vir chorar no meu peito
Pois sabes sempre onde estou


Sempre que a rádio diga
Que a américa roubou a lua
Ou que um louco te persiga
E te chame nomes na rua


Porque sou o que chega e conta
Mentiras que te fazem feliz
E tu vibras com histórias
De viagens que eu nunca fiz


Podes vir chorar no meu peito
Longe de tudo o que é mau
Que eu vou estar sempre ao teu lado
No meu cavalo de pau"


Rui Veloso - Cavaleiro Andante (in Rui Veloso 1986)

segunda-feira, março 09, 2009

Quem guarda o teu sorriso, Rui?

Aqui estou à tua espera, ainda à tua espera. A praia está tão deserta sem o teu sorriso! Porque demoras? Porque não chegas?
Combinámos que nos encontraríamos aqui, depois dos caminhos percorridos que, dizíamos, convergiam lá à frente. E, no entanto aqui estou, sozinha na praia... Onde estás, que não chegas? Por onde andas perdido? Tens de andar perdido, depois de nos termos encontrado, só podes estar perdido!

Já passei tantos dias e tantas noites nesta praia que parece tão deserta sem o teu sorriso... Já pisei tantas vezes esta areia sem te avistar... Deves estar perdido, só podes! Não acredito que não vens, não posso!

O sorriso que me davas, não se dá sem ser verdadeiro, era genuíno, era real... (seria?) Quantas vezes te perguntei se os teus olhos nos meus eram reais, se existiam de verdade ou se eu os imaginava. Tu dizias que sim, que eu não era uma ilha perdida que, atrás daquele rochedo, virias ter comigo no fim dos caminhos que, dizíamos, convergiam lá ao fundo. Mas, eu aqui estou, ainda à tua espera nesta praia deserta...

Ainda guardo o teu sorriso fechado na minha mão... Aperto-o com força enquanto viro as costas a esta praia que fica tão deserta sem nós...

Liliana Lima, 09-Mar-2009


"Tenho um sorriso fechado na palma da minha mão.
Sorriso que foi achado caído no meio do chão.
Um sorriso que era vento desenrolado do azul
em que as minhas velas pandas se enfunavam para o Sul,
rumo a qualquer fim do mundo!

Uma ilha tropical onde o meu corpo confundo
com vento suor e sal. Era esse o teu sorriso;
o sorriso que me davas quando os teus olhos nos meus
eram dois potros com asas.

À tua espera na praia fiquei pela tarde fora,
no alto daquele rochedo onde um minuto é uma hora!
E não vi o teu sorriso surgir da areia ou do mar.
Nem tive um porto de abrigo…
Nem foste um barco a chegar.

Se me disseres que morreste não acredito. Não posso!
Andavas sempre comigo e o teu sorriso era o nosso…
Hoje guardo o teu sorriso fechado na minha mão…
A contrastar com o siso que trago no coração."

Sorriso - Rui Represas (música - Luís Represas)