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quinta-feira, dezembro 12, 2019

janELA

Passo na rua e olho para a que foi a minha janela durante tantos anos
Converso comigo própria e pergunto-me se sinto saudades
Não sinto nada

Os cactos estão maiores e lá dentro espreita um bocado de mim
Não sorrio nem choro para esse eu que ficou no anjinho que reluz do lado de dentro do vidro
Não sinto nada

Sempre gostei da vista daquela janela
No calor, os ramos das árvores quase que entram dentro de casa, atravessando a rua na passadeira em frente à porta
No Inverno, as folhas cobrem os passeios de neve verde amarelada e há uma espécie de papagaios miniatura que estrabucham enquanto procuram bagas para comer
Hoje, cá em baixo na rua, oiço-os e penso se sinto falta deles
Não sinto nada

Passo na rua daquela que foi, durante tantos anos, a minha janela
Deixo por baixo dela tudo o que de pesado pudesse vir comigo e levo tudo o que de bom consigo carregar no colo
Olho para trás enquanto e para o outro lado do passeio
Não sinto nada

Avanço e suspiro ao mesmo tempo que me arrepio com o vento fresco desta tarde solarenga de Inverno
E, de repente, sinto tudo

Liliana Lima


segunda-feira, novembro 25, 2019

Crónicas duma Separação Consumada XX

Meus queridos, tenho andado às voltas com uma preocupação que me assalta o sono de quando em vez. É assim como que um mau estar que aparece do nada e com o nada faz aumentar a pulsação e a sensação de que nada posso fazer a não ser deixar passar a onda...

Diz o poeta* que "é preciso avisar toda a gente", mas eu já não tenho essa pretensão.

Quero dizer-vos a vocês, meus amores, que o mundo não se pinta a preto-e-branco. 
Quero explicar-vos a vocês, meus amores, que as acções dos outros não se podem ler com os olhos de quem não fez a sua viagem, de quem não conhece o que carregam na sua bagagem.
Quero muito que entendam, meus amores, que sempre que julgamos quem se senta ao nosso lado, temos primeiro que experimentar o lugar onde seguiam.
Preciso de acreditar, meus amores, que vocês vão saber nadar contra a corrente e não seguir cegamente nenhum carreiro, porque mudar de rumo não é uma fraqueza é uma prova de inteligência e amor-próprio.
Quero ensinar-vos, meus amores, que ouvir alguém, ouvir a sério olhos-nos-olhos, não é obrigatoriamente entender, perceber ou mesmo concordar. Quantas vezes gostamos de pessoas de quem discordamos aqui e ali. 
Quero dizer-vos, meus amores, e acho que isto é muito importante, que ouvir/vendo as outras pessoas, é ser capaz de ser solidário mesmo quando não compreendemos ou concordamos totalmente com elas.

Diz o poeta* que é preciso "dar a notícia, informar, prevenir", assim o tento, mas não a toda a gente que já me deixei de utopias. 

Mas a vocês, meus amores, a vocês quero avisar que devem sempre desconfiar de discursos inflamados e muito cheios de si. Quem não tem espaço para dúvidas, não tem espaço para acolher o diferente. 
Mas a vocês, meus amores, a vocês quero explicar que quem não consegue acolher (reparem na palavra que escolhi) o que nos é contrário, estranho, difícil de perceber, nunca conseguirá ver o mundo para além duma paleta de cinzentos.

Diz o poeta* que é "preciso, imperioso e urgente", e vocês são as minhas flores. 

Por isso vos trago a notícia, a linha que divide o certo do "in"certo é ténue, curvilínea e muito instável. Não se encostem, não se deixem embalar, não cedam a certezas empacotadas com laços coloridos.

Pensem. Estudem. Questionem. Tomem decisões. Pensem. Questionem. Estudem. Mudem de rumo, se assim acharem. Pesem. Questionem. Tomem decisões. Questionem. Pensem. Questionem...   

Com muito amor,
Mãe





*Luís Cília - É preciso avisar toda a gente

quinta-feira, novembro 21, 2019

ATÉ já, José!

Não conheci o José Mário Branco. "Zé Mário" é como lhe chamam os amigos, que hoje parecem ser todos, é verdade, mas para mim foi sempre 'O' José Mário Branco.

Não o conheci? Se calhar sim... Quer dizer, o homem, o pai, o avô, o vizinho... na verdade não (com uma certa mágoa, posso dizer, agora que já não faz diferença nenhuma). Mas o poeta, o músico, o cantor, o exemplo, a ideologia, a luta, a força, a voz, o poeta, o cantor, o músico... 

Porra, José! O tanto que aprendi contigo desde que, tão cedo, te comecei a ouvir! 
O tanto que conversei e cantei contigo desde que, tão cedo, te conheci. Não foi, José?!
O tanto que descobri nas tuas letras...

Porra, José! Canções que me despem palavra-a-palavra desde que me sei quem sou. Como é isso José?! 
Sem nos conhecermos. Nem nos cruzarmos, nos tantos cruzamentos em que tão perto fomos estando... Como é isso, José?! 
O tanto que aprendi na força da tua interpretação. Estar lá todo, a cada nota, a cada frase. Porque a cantiga é uma arma, não é José?!

Sempre disse que, de uma forma impossível, tu me conhecias melhor que muita malta que de muito perto conviveu comigo... 
Disse eu, e aposto que milhares de outras almas que te conheceram, como eu, no gira-discos e nas cassetes.

É que, tu não sabes José, mas eu guardo as tuas palavras dentro de mim. Contam-se comigo, da cabeça aos pés. Porque tudo depende da raiva e da alegria, não é José?!
Acho que é aqui que nos continuaremos a encontrar, com o tanto que temos para nos dar. Não achas, José?!

É que mesmo não te conhecendo, José, estou (eu e aposto que milhares de outras almas) a tentar fazer desta perda uma raiz, assim, por sobre a tua morte. Como em canções, mesmo sem quereres, me (nos) ensinaste.

Mas já que estamos a conversar, aqui que ninguém nos ouve, acho que se cá estivesses, de viva voz, era capaz de te ouvir dizer qualquer coisa do tipo... É pá, continuem a cantar-me, continuem a lutar, mas já agora vão ter com a malta que ainda está viva enquanto estão vivos, porra!... 


Não conheci o José Mário Branco (com uma certa mágoa, posso dizer, agora que já não faz diferença nenhuma) ou talvez tenha conhecido... Quer dizer, o homem em si, não. Mas o homem que vive para sempre no legado que nos deixa, sim. E a esse digo: 

Obrigada José Mário Branco! 
Que bom conhecer-te!
Guardo em mim tudo o que de ti me confiaste
e sempre que Abril aqui passar
dou-lhe este farnel para o ajudar!
Até Já!


Liliana Lima 



sexta-feira, novembro 01, 2019

Crónicas duma separação consumada XIII

Filho, há tantas coisas que gostava de te dizer. 
Filho, há tantas coisas que gostava que soubesses o quão grata te sou. 
Filho, há tantas coisas que gostava de te pedir desculpa.

Sempre que não estás, não vens, não apareces ou não dizes de ti... Fico numa luta interna entre o espaço que o silêncio te dá e, hipoteticamente tu desejas (sabes o quão ensurdecedor é o silêncio de um filho?!), e o grito que como qualquer mãe, ancestralmente, te chamo, te reclamo para perto, o mais perto possível de mim.

De tão atento e meigo e companheiro e prestável que és, quase não me dás tempo para te dizer, obrigada! Para te reconfortar na minha identificação e, por isso, compreensão da tua mente inquieta como um pardalito que saltita na relva. Para te assegurar que nos vamos habituando a esses saltitos quase imprevisíveis e à sua cadência insistente e permanente. Para te contar o tanto que podes fazer, assim o queiras, com esse pardalito também chamado ideia, ou mente, ou narrativas, ou subconsciente, de formas mais ou menos (in)conscientes.

Há tantas coisas na vida que não correm como nós gostaríamos... Gostava de te pedir desculpa por não conseguir mostrar-te que há sempre outras tantas (ou mais) que correm melhor do que algum dia esperaríamos. Os óculos com que olhamos à nossa volta, moldam o que vemos, sentimos e compreendemos da realidade, de formas tão profundas que condicionam todas as nossas interacções com "essa" (nossa) verdade. E quando agimos (porque não vivemos em grutas sozinhos e afastados do mundo) tocamos e interferimos com outros, como uma peça de Lego que permite ou anula a possibilidade duma determinada construção. Por isso, e apesar do tanto que não corre como eu própria gostaria, deixa-me ensinar-te a ver com os óculos certos o que a vida de bom nos traz.

Tenho saudades tuas. Obrigada pelo apoio que me dás. Vamos ver as estrelas? (mesmo com a chuva que lá fora cai...)

Com muito amor.
Mãe





quarta-feira, outubro 30, 2019

Crónicas duma separação XII

Recorto os horários e colo-os nos azulejos da cozinha. Não podiam ser mais díspares! 

Olho para os (muitos) relógios que tenho espalhados pela casa, cada um diz uma hora diferente do outro, ou pelo menos uns minutos: "são dois p'ra lá, dois p'ra cá"(*1).

E com esses quatro, fui deitar-te e (tentar) organizar a manhã seguinte. E assim o fiz. Ou pensei que o fizera.

Sabes, meu querido, sinto-me baralhada. Com os horários. Com os tempos entre horários que passo no carro "esperando, esperando, esperando alguém. .."(*2)

Esta manhã instalou-se o caos,  porque apesar dos dois despertadores programados, ninguém acordou na hora certa para te levar a ti e a ti levar também .

E, com este sentimento de baralhação, te levantei, te chamei, me vesti e saímos, sem telemóveis, o que nos valeu mais uma subida é certo, mas saímos. Muitos minutos para além dos que devíamos ter saído, e que todos somados dariam exactamente a hora a que devíamos ter acordado.

Fomos fugindo ao trânsito e aos acidentes,  também muitos  (talvez de pessoas tão atrasadas como nós mas que chegarão muito mais tarde com certeza), andámos o melhor que pudemos, com a ajuda Maria Papoila sempre tão expedita com as alternativas e as fugas à confusão. Mas o resultado, apesar do tanto esforço, não foi diferente do esperado. 

A verdade, meu querido, é que de cada vez que olho para os horários, para os mapas de testes, para a agenda com tanto por fazer... para as actividades... para as explicações... para os gatos por cuidar... para a catequese, para a roupa por comprar... e para os horários e para a agenda com tanto por fazer... sinto-me, baralhada...

Com muito amor, 
Mãe 



(*1)João Bosco e Aldir Blanc
(*2)Chico Buarque de Hollanda

sexta-feira, outubro 25, 2019

Crónicas duma separação consumada XI

Vamos! Empurra-me do sofá, que eles já não demoram a chegar.
Tentemos descomplicar a minha complicada cabeça e encaremos o Sol, de frente.
Deixa que o mar nos diga para onde ir. Está tão calma a maré, como calma devo aprender a estar, mais vezes.
Há um ultra-leve que rompe o silêncio das ondas. Acho que conhecemos o piloto, mas não me lembro do nome dele. Nunca me lembro dos nomes.

Vamos! Empurra-me deste banco e leva-me à areia molhar os pés.
Tentemos salgar os dias que, às vezes deixo passar ensonsos. 
Deixa que o Sol, de Outono, me aqueça o corpo e abra as mãos para os abraços que aí vêm. 
Há um bando de gaivotas que saltitam em torno dos barcos. Procuram restos da pesca e lutam por eles. Não gosto de pássaros. Afasto-me e saio pelo lado contrário da praia.

Vamos! Empurra-me desse nevoeiro por mim criado e por mim sentido, e leva-me neste primaveril dia de Outono fora.
Tentemos desenhar caminhos amarelos e espreitar os dois lados dos espelhos com que nos cruzarmos.
Há um mundo inteiro por descobrir na ponta de um lápis e eu tenho tempo.  Os rapazes chegam amanhã! 

Venham com calma que eu cá vos espero! 

Com muito amor, 
Mãe 


quinta-feira, outubro 24, 2019

beirA-MAR

E se, sentada à beira-mar um grito se soltasse. ..
uma lágrima, o seu sal, com o mar juntasse...
uma nuvem, no céu, com as outras chuvesse...
E o meu corpo, na maré-baixa, se banhasse?..

E se, sentada à beira-mar o Sol de Outono me aquecesse...
a brisa, a minha respiração acalmasse...
o horizonte, para as fotos sorrisse...
E uma paz, com a maré-baixa, me banhasse?..

E se, à beira-mar sentada, o pôr-do-Sol me beijasse?..

Liliana Lima


quarta-feira, outubro 23, 2019

Crónicas duma separação consumada X

Eu sei, que tu te esforças o mais que podes; que tu ainda não consegues entender completamente a realidade que te rodeia; e que na verdade, não sei o que tu sentes ou pensas.

Às vezes chego ao final de um dia e, ao olhar o espelho, assalta-me um sentimento de culpa que invade tudo o que vivi ou senti, pelo simples facto de... o ter sentido e vivido sem ter estado com vocês. 

Ainda há uns dias, acordei bem disposta, cozinhei, arranjei-me, preparei a casa, acolhi os amigos. Senti-me bem. Conversei, ri, cantei, contei e despedi-me. Senti-me bem. Arrumei a cozinha e a sala. Continuei a sentir-me bem. Fui-me despir e desmaquilhar, e quando olhei para o espelho, o pano caiu... em cima de mim. De mim e de um dia inteiro de sol que ficou encoberto pelo peso da culpa e da vergonha, por ter "ousado" ser leve e alegre longe dos meus filhos.

Sabem? Não é difícil dizer "isso é normal, mas tens direito a ser feliz", não é difícil e socialmente é mesmo o discurso vigente. Mas, parar e olhar para mim, para a forma como o espelho me vê e eu me vejo no seu reflexo, e a partir daí aprender a sentir-me mulher. Antes de mãe. Antes de amiga. Antes de amante. Antes de companheira. Isso, meus amores, isso é deveras complicado.

É que, trago no peito esta ideia de que tudo tem de girar em torno de vocês. De que sou mãe e mãe sou. E, portanto, a vida corre em compasso binário, viva - convosco, suspensa - sem vocês. E sempre que me vejo em plena valsa, dançando sem dar conta que fui eu quem pediu a música, num dia, numa semana em que vocês estão longe, parece-me que estou a ser infiel a esse papel quase religioso que parece ser a maternidade.

Não. Não espero, nem quero, que qualquer um de vocês perceba, muito menos responda a estas questões, para as quais, afinal, eu até tenho as respostas dentro de mim (ainda que nem sempre saiam no tempo certo).

Eu sei que te esforças. Que ainda não consegues entender. E que não sei de ti. E é por sabê-lo, que me parece importante que percebam que existe esse outro lado do meu espelho. 

Acredito que é partilhando o que sinto, o que vivo (convosco e sem "vosco"), que vos preparo. Que vos deixo pistas para as vossas vidas. 

Quem sabe um dia ao olhar o espelho o pano cai... e um de vocês se lembra o que não entendeu do tanto que vivemos e, como por magia, ao perceber tudo se torne mais fácil. É que, "atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir"(*)

Com muito amor, 
Mãe




(*) Fausto

quarta-feira, outubro 16, 2019

Crónicas de uma separação consumada IX

Somos todos feitos da mesma matéria. Luz. Dia. Alegria. Noite. Dor. Inquietação. 
Somos todos sentimento em bruto, que a vida há-de moldar.
Somos carentes, de amor, de felicidade, de aceitação. 
Somos iguais, então, tu e eu, e eu e tu, e tu e tu. 
Saberás, tu, o quanto dói, o tanto que fere, a ausência, o silêncio, o afastamento? 

Somos todos sentimento, pela vida moldado, pelo tempo esculpido, pela experiência vivido. 
Não somos iguais, então, eu, tu, tu e tu. 

Cada um tem em si "todos os sonhos do mundo" *. 
Do seu mundo. 
Do filme que, noite após noite, vê espelhado nas costuras do sono. 

Não somos iguais, então, tu e eu. 
É possível que não saibas o quanto. 
Não te apercebas do tanto.
Não consigas interpretar o silêncio.

És um entre biliões, em milhões, em dezenas, em três. 
Ou seja, és único para mim. Como tu. E tu. 
Ou seja, a ausência, nesta equação, ao ser multiplicada por um, é exponenciada ao infinito. 
Ou seja, este sentimento único é "impossivelmente real" *. 

Somos todos feitos da mesma matéria. Luz. Dia. Alegria. Noite. Dor. Inquietação. 
Mais ou menos dobrados pela vida e quebrados à força do tempo. 

Somos todos iguais, na essência. 
E é lá que te procuro. 
E é para lá que olho. 
E é de lá que te digo que, sabendo, só podes não saber.

Com muito amor, 
Mãe 




*"Tabacaria" de Álvaro de Campos


quarta-feira, outubro 09, 2019

Crónicas de uma separação consumada VIII

Pontes 
Sem alicerces 
Sem pilares 
Pontes
Por sobre as ilhas 
Por sobre as nuvens 
Por sobre as imagens 
Pontes 
Cantadas 
Faladas 
Caladas 
Pontes 
Em alta velocidade 
No trânsito 
Pontes 
Com "mais cinco" 
Sabendo "o que faz falta" 
Pontes 
Com ensaio 
À capela 
Com segunda voz 
Pontes 
Por entre o Zeca 
E o João 
E o Carlos
Pontes
A vapor 
Metidas à força 
Pontes 
Em palco e sem ensaio 
Pontes 
Até ti
Para ti
E por ti


Com muito amor, 
Mãe 








segunda-feira, outubro 07, 2019

Crónicas duma separação consumada VII

Não estás aqui comigo, agora. Nem tu. Nem tu, quase nunca. Mas se estivesses poderia fazer-te uma daquelas perguntas de "gente de letras". Daquelas que nem eu sei se têm resposta, mas que embatem em nós de tal forma que temos mesmo de perguntar.

- Onde está desenhada a linha que separa a parte menos funda da piscina daquela em que, não sabendo nadar, perdemos o pé?

Se aqui estivesses trautearia, com certeza, a Rosalinda*. Ao que qualquer um de vós responderia, lá estás tu com as "tuas cantigas cheias de letra"...  

Mas, voltando à piscina, metafórica, que a real já não dá jeito que está fria. 

Até onde é que me é devido um esforço diário, por enquanto "apenas" geoestratégico (um nome pomposo como tu gostas) que, no final duma semana me deixa completamente desfeita, como o pinguim da história que mil vezes me ouviste contar?

É esperado que eu mãe, (para) sempre mãe, deixe enrolar a onda, para não levantar... ondas, até que ponto do cansaço? 

Qual é o ganho, em termos práticos e mesmo afectivos, em ceder a um conjunto de obrigações agendadas à priori e moldadas para uma escala que não é a minha, ou tua sempre que estás comigo?

Não moro onde deixei que a escola continuasse a morar, não tenho livres todas as horas do dia, nem tão pouco tenho a agenda em branco para preencher.
São todas verdades alienáveis desta nossa nova vida, que estamos a aprender a viver.  
São todas verdades que me deixam mais exposta, ou menos protegida, da complexidade de gerir, lá está, geograficamente o dia-a-dia.

E é nesta gestão que me vejo presa, como uma tartaruga numa rede plástica que a obriga a duplicar o esforço para chegar a tona.

E é assim, tartaruga abanando as barbatanas, que deixo a pergunta. Como sei onde está a linha em que me descai o meu "pé de catraia em óleo sujo à beira-mar"*

Com muito amor,
Mãe

*. Rosalinda de Fausto


domingo, outubro 06, 2019

varANDA

Dançam, as gaivotas, com as sombras
na varanda que ainda aquece
O dia avisa que vai partir
nas nuvens que o céu tece

No teu sorriso rasgado
encontro todas as cores da vida
O Sol, nos teus olhos, pintado
E no amor, a utopia prometida

Liliana Lima


quinta-feira, outubro 03, 2019

Crónicas duma separação consumada VI

Lembras-te quando o tempo era meigo e as tarefas decorriam com a elegância dum bailado? 
Esse bailado era, de facto, um pequeno teatro onde o guião ia sendo revelado à medida que a acção se aproximava.

O tempo, meus amores, é uma das variáveis da vida mais difíceis de conjugar.

Não é que os horários não fossem tão (ou quase) tão díspares como os deste ano.
Não é que, até certa altura, não vos acompanhasse no baile diário casa/escola/casa. 
Não é que as actividades fossem muito menos que as que agora me apresentam.

Ou talvez seja isso tudo junto.

Na verdade, a distância aumentou e com ela o tempo (lá está) para cumprir horários.
Na verdade, passei a ter de vos acompanhar e, enquanto não se aperceberem que crescer é também aprender a viver de formas diferentes, sucedem-se os dias de esperas prolongadas em cafés onde vou fingindo que trabalho (embora, para além de levar o portátil, quase nada faça)...
Na verdade, as actividades "extra" escola, já se apresentavam complicadas, mas eram o pouco que saía do cenário de papel que embrulhava o vosso mundo. E hoje, com a distância, com a frequência e com os afazeres profissionais (que se querem) vários e diversificados, se esticar o papel, rasgo todo o embrulho.

A questão, meus amores, é que no tempo em que o tempo era como que um bailado harmonioso, eu, qual bailarina das sapatilhas vermelhas, corria de um lado para o outro sempre à beira do abismo. 
E hoje que o tempo, finalmente, se soltou do pequeno teatro e decidiu alargar o seu espaço até ao maior dos coliseus, temo que as sapatilhas não sejam suficientes para tantas, voltas. 

E, não se esqueçam nunca, liberdade não pressupõe caos.

Bom, o que tento dizer, desta forma complexa como complexa sou, é que o meu tempo não estica. Nem o vosso. 
Nem é suposto que, o estar comigo seja sinónimo de tempo perdido em filas inúteis ou esperas infindáveis uns pelos outros que resultam sobretudo em cansaço, frustração e um distanciamento encapotado pelas necessidades, ou a narrativa que se faz delas, de cada um.

É que o tempo, meus amores, é uma das variáveis da vida mais difíceis de conjugar.

Com muito amor,
Mãe



     

segunda-feira, setembro 30, 2019

Crónicas duma separação consumada V

Conheces aquele aperto no estômago e a vontade de fugir e a sensação de que tudo está muito mais lento do que o teu tempo interno, que antecede uma discussão anunciada?

Respiras fundo e, durante aquele breve instante, fazes conjecturas, ensaias respostas e imaginas acusações.

No momento seguinte apercebes-te que já comprometeste a promessa de não os envolver. Porque o mal-estar te levou a querer atalhar e perceber em primeira mão a onda prestes a cair sobre ti. Ou simplesmente porque, na verdade, é mesmo mais fácil perguntar.

Depois tentas compor a situação com pensos-rápidos e os "não te preocupes" vêm acompanhados dos "está tudo bem", mesmo quando não está.

E o aperto que não desaperta até saberes exactamente o que se está/vai passar que te continua a atordoar. 

Feitas as contas, o importante é mesmo o como não te deixares imergir neste estado que leva ao incumprimento dum acordo feito de ti para ti. Ou assim o devia ser. E para isso, o que se passará, ou não passará a seguir, não deve ser o epicentro da atenção interna.

Conheces aquele aperto no estômago que antecede uma discussão anunciada e, sem quereres (ou querendo, apenas para o aliviar) acabas por fazer, mais uma vez, aquela pergunta que devia estar bloqueada?

Um dia...

Um dia algures na tua, ou na tua, ou na tua vida, vão sentir, pressentir, ou em última (e pior) análise fazer sentir, esse aperto.

Nessa altura concentrem-se nos pensos-rápidos (tentando que sejam cada vez mais lentos) e desviem o futuro da vossa atenção. 

Peçam desculpa (é verdade, as desculpas podem evitar-se mas, mais cedo ou mais tarde, devem ser pedidas sem vergonhas) e concentrem todas as forças para o aqui e o agora. Mais tarde terão tempo, por muito que tenham vontade de fugir, de lidar com a crónica que se segue.

Por agora, desculpa. Tentarei mudar o penso não muito rapidamente.


Com muito amor,
Mãe


  
  



sábado, setembro 28, 2019

Crónicas duma separação consumada IV

As semanas em que não estão, são feitas de dias normais. Dias que nascem e põem-se ligeiramente mais para a esquerda, que vão ficando mais húmidos e frios e, de acordo com a dança do Sol em volta da Terra, são cada vez mais pequenos. Mas essas diferenças só se notam depois de passadas algumas semanas.

Na verdade, nas semanas em que não estão, alguns dias são programados com afazeres que conjugam melhor com a vossa ausência, trabalhos, deslocações, almoços ou jantares a que torceriam o nariz e a que não quereriam ir. Depois há os outros, em que "o rio corre, bem ou mal, sem edição original"(*).

Na verdade, nas semanas em que não estão, em cada dia há uma ausência que me acompanha, desde que o Sol nasce até que se põe. Que viaja comigo, que escreve comigo, que come comigo, que respira comigo, que sorri, conversa e abraça comigo. Dias há, em que só eu própria vejo esse silêncio de luz. Noutros, mostra-se sem timidez a quem está ao meu lado.

Na verdade, acho que posso dizer que essa ausência nasce dentro de mim, e que de dentro mim parece sair, como alguém que "tem tempo, não tem pressa"(*) e vai pintando as minhas horas cada vez mais claras até todo o relógio estar cinzento.

Na verdade, há dias, nas semanas em que não estão, que correm ao sabor da "brisa ... tão naturalmente matinal"(*) que os deixa alegres, tranquilos e felizes. Como é de esperar. Como é natural. 

Na verdade, há dias, nas semanas em que estão, que nascem no caos dos minutos que seguem mais rápidos que os segundos, nas manhãs que se tornam madrugadas e nas almofadas que, comigo, vêm e vão ora ocupadas convosco ora à espera de vós.

Na verdade, nas semanas em que estão, há lanche ao sair da escola, pizza como jantar obrigatório de pelo menos um dia, filme que se divide por vários serões para ninguém se deitar tarde e beijinhos de boas noites.
  
As semanas em que não estão, são feitas de dias bons e dias menos bons, como as outras. A meteorologia depende de forças que nos são completamente alheias. Os acasos atropelam-se sem qualquer intervenção da nossa parte. E as obrigações são tão obrigatórias como em qualquer outra altura.

Mesmo assim. As semanas em que não estão (ainda) custam um bocadinho mais a passar do que as outras.

Com muito amor,
Mãe


(*)in Liberdade
de Fernando Pessoa
Poesias, Ática 1996


sexta-feira, setembro 27, 2019

Crónicas duma separação consumada III

E quando acordamos para o facto de estarmos a ser/fazer grande parte das coisas que tão convicta e repetidamente dissemos, noutras ocasiões e representando outras personagens, para os nossos amigos não fazerem... 

Comunicar com o que, de um dia para o outro, parece ter-se transformado no "outro lado da barricada", não é fácil. E pouco se pode fazer para mudar. Resta-nos a esperança que o tempo, a seu tempo, lime as arestas e deixe correr o ar. 

Do alto da minha alta janela, a vontade que sinto crescer dentro de mim, é de escrever pequenos papéis coloridos, enrolar cada frase e lançá-las ao vento. E não ter, tão cedo, que confrontar esse conflito latente que (ainda) não se pode amainar. 

E o mais engraçado é que acredito mesmo que, pelo menos algumas das frases, chegariam, ao destino. Amachucadas claro, mas menos confusas e quem sabe menos sujas das interpretações e subjectividades de cada um, tanto emissor como receptor. 

Sei também que te tiraria a responsabilidade de acartar com o peso que cada recado acarreta. E te tiraria do meio deste diálogo mudo, onde o teu e os vossos personagens devem ser o mais omissos possível. 

Não te aceno com uma perfeição que sei não conseguir encontrar dentro de mim. Mas prometo que tentarei arranjar a forma certa, ou pelo menos a mais eficaz, de comunicar com "esse lado" que durante tantos anos foi também o "meu" lado. E que, por acaso do destino, hoje é onde tu estás. 

Se acaso algum dia me esquecer e tentar, fugindo ao confronto, entregar-te correspondência alheia, devolve sem medos ou hesitações, ao remetente. E lembra-me o que te contei: "as palavras estão gastas"(*). 

Com muito amor, 
Mãe 



(*) "Adeus" 
de Eugénio de Andrade
In Poesia e Prosa

quarta-feira, setembro 25, 2019

Crónicas duma separação consumada II

Não sei se tenho de vos pedir desculpa por não ser "só" vossa, por completamente impossível que seja deixar de ser.
Não pedirei, com certeza, por decidir seguir o caminho que me leva de volta a mim (e por consequência a vocês).

Talvez devesse, a seu tempo, ter pedido desculpa, a cada um. Por não seres único. Por não seres o mais novo. Por não seres para sempre bebé. 
Não pedirei, com certeza, por vos saber meus desde que vos soube parte de mim, por dentro mesmo, a crescer.

Não sei se vos devia pedir perdão pelos meus dias de lua nova que, por muito que não queira, acabam por encobrir os vossos céus. 
Não pedirei, com certeza, pela natureza que se me entranha, ora Primavera com os sonhos brotando em flor, ora Inverno com cheias e tremores de terra.

Não sei se preciso pedir desculpa pelo espaço, mais escasso, menos largo, que tenho comigo para partilhar. 
Não pedirei, com certeza, pelas tentativas e erros da vontade de o tornar mais nosso. 

Ainda assim, continuo sem saber se devo esperar algum tipo de resposta, mesmo que embrulhada num qualquer "maqueique" depois dos meus 'bons dias' a piscar nos visores dos telemóveis.
Não espero, com certeza, grandes conversas sobre lágrimas que nem deixo que vos humedeçam os dedos. 

Sei, por pouco que seja, que tudo farei para não vos cobrar nem culpabilizar das curvas apertadas do caminho. E que não posso, tão pouco, deixar martirizar-me pelas geadas das manhãs.

Mas... Será que posso pedir que não fechem o mundo em dois universos infinitamente paralelos, onde vivo de acordo com as semanas, alternando entre o estar e o vazio?
Fica a ideia no ar...

Com muito amor, 
Mãe 



terça-feira, setembro 24, 2019

Crónicas duma separação consumada I

Sei-vos meus, sabendo-vos de tantos outros. De muitas maneiras e de inúmeras intensidades. 
Mas como meus que são, foram e serão, tenho a certeza que o são no singular.

Sei que o amor não se mede em dias, e que o tempo tudo esclarece (a não ser quando piora e teima em transformar aguaceiros em tempestades). 
Mas há dias em que o tempo parece rarear e o amor decide chegar atrasado.

Sei dos manuais, dos conselhos e do senso-comum que tem sempre mais de comum do que de senso. E prefiro os académicos aos que nunca se escusam de dar, conselhos. 
Mas aqui, no dia-a-dia, na realidade nua e crua, e bruta (como o é igualmente a verdade), a vontade nem sempre parece querer seguir as técnicas comprovadas há anos de terapias e análises. 

Sei da mágoa, da raiva escondida por baixo da roupa suja, que salta mesmo antes de abrirmos o cesto, pese embora o número incontável de vezes que a tapámos e escondemos debaixo das meias e dos calções de ginástica. E sei o quanto nos arrependemos por não poder arrepiar caminho depois de lançadas as palavras ao vento. 
Mas, dizem, quem não sente não é filho de boa gente e nem sempre conseguimos calar o que cá dentro tanto grita. 

Sei do caminho e dos anos e das histórias, que nos fazem ser quem, e como, somos. E sei que não sou só eu a sabê-lo. 
Mas "por vezes num segundo se evolam tantos anos"(*)...


Com muito amor, 
Mãe 



(*) David Mourão Ferreira 
in "E por vezes" 

sábado, agosto 17, 2019

COMigo

Vem comigo procurar os pássaros que habitam a noite. Deixa-me aproximar devagar e ensina-me como dizer o seu nome.

Vem comigo por este oceano dentro, saibamos esperar no vai e vem das ondas por aqueles que se deixarem mostrar, barbatana de fora, dançando a valsa dos peixes.

Vem comigo descobrir as entranhas desta terra cuidadosamente plantada no meio do mar. Mostra-me a respiração de Deus, que levanta um véu sobre estas flores de mil cores.

Vem comigo até ao alto das nuvens e lá de cima, como que planando sobre os campos, mostra-me a vista a perder de vista desta manta pelos anjos bordada.

Vem comigo mergulhar nas rochas e nadar com os peixes, sem acordar os caranguejos que descansam ao sol.

Vem comigo ao lado de lá, onde as rochas provocam o mar e o sol diariamente se deixa morrer de amor pelo horizonte azul. 

Deixemos as horas desacelerar que aqui o tempo anda mais devagar.

Em breve o dia adormecerá.
E as cagarras cantarão mais forte.
E as baleias mostrar-se-ão sem timidez.
E as grutas vestir-se-ão de negro.
E as fumarolas continuarão a respirar.
E os campos preparar-se-ão para o anoitecer.
E as piscinas deixar-se-ão cobrir pelas ondas.
E as praias desertas serão habitadas pelos sonhos de quem as avistou.
E tu virás comigo ver o luar que reflectirá nas águas desta praia à nossa janela plantada.

Vens?!...


Liliana Lima



terça-feira, agosto 13, 2019

MEnsagEM

Que sabes das mensagens vazias que chegam à praia em bonitas garrafas vestidas de festa?
Conheces-lhes o cheiro demasiadamente forte e as cores para lá do berrante?
Já ouviste o enorme silêncio que lhes habita as palavras, tão gastas de nada dizer?

Que sabes do lamento que vive nos búzios escondidos no meio das pedras do molhe que protege a praia?
Já o viste dançar sozinho nos reflexos com que a lua pinta o mar depois do pôr-do-sol?
Conheces-lhe as palavras tão gastas de tanto ecoar as suas mágoas ao luar?

Que sabes das mensagens que, em silêncio, são lançados ao mar e dentro de um simples olhar percorrem mares e marés até darem à costa no outro lado do horizonte?
Já lhes sentiste o rasto, perceptível apenas aos que um dia já lançaram, eles próprios, as suas mensagens ao mar?
Algum dia te cruzaste com as complexas palavras que as compõem, que rimam sempre com amor e que, dizem, são cantadas em noites de lua nova, em uníssono, por sereias encantadas e trovadores enamorados?

Que sabes do tanto que traz este mar?...


Liliana Lima


Foto: Carlos Alberto Moniz