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domingo, dezembro 23, 2012

Dos Natais de outros anos...

Acreditas no Pai Natal, António?

Pego no pinheiro enrolado numa espécie de meia de rede, daquelas que antigamente as senhoras ousavam usar para provocar os cavalheiros, e tento a custo equilibrar-lhe o tronco entre as duas pedras grandes que de ano para ano servem de apoio à tão esperada árvore de natal. Entre desequilíbrios e quedas, dou um salto na memória e vejo os pinheiros da minha infância. Sem esforço aparente apareciam prontos a decorar na sala de jantar onde eu e a minha prima mergulhávamos nas caixas de enfeites e descobríamos as bolas decoradas, ainda de vidro, que diminuíam de número à força das nossas tão delicadas mãos, as luzes em feitio de vela que se apagavam sempre que uma das lâmpadas se fundisse e até as faixas farfalhudas douradas e prateadas com que, literalmente, vestíamos o coitado do pinheiro...

De repente o meu pinheiro, este verdadeiro, com resina e folhas que se espalham pelo chão da sala e tudo o que a natureza nos dá, parece-me tão pequeno. Os enfeites e bolas, estas de plástico para sobreviverem aos assaltos anuais dos miúdos, olham-me tristes e desengraçados. Até as luzes, que piscam e mudam de cor, me parecem desengraçadas.

Quando eu tinha o tamanho dos meus filhos mais velhos, o Natal estava coberto de um manto mágico que nem a mais dura realidade conseguia romper ou corromper. Via a azáfama e correria na cozinha com os olhos de quem quer acreditar no Pai Natal mesmo quando me diziam que ele não existia. Tudo me parecia um bailado de movimentos alegres e criadores, de onde nasciam filhoses e leite-creme e embrulhos e aletria e bacalhau e embrulhos e mesas arranjadas com copos de pé e embrulhos...

Enrolo o alguidar com a massa das filhoses numa manta e deixo-a fintar perto do aquecedor. Com as mãos cheias de farinha vejo-me do lado de dentro do teatro, onde as luzes estão penduradas por cabos pretos e o cenário colorido está debotado e remendado. A minha avó à porta da cozinha, também com as mãos enfarinhadas, suspira cansada. A minha mãe na sala, arruma as lágrimas ao lado dos copos de pé enquanto arranja os presentes em volta da árvore. Os meus tios, atrasados para o jantar, batem à porta com olhos cansados da correria e do trânsito.

Ao fundo do palco, o meu avô sorri. Olha-me através dos tempos e das luzes e das árvores de muitos natais. Ao fundo do corredor grande e comprido, da cozinha ao escritório, chama-me ao seu lado. Sou do tamanho dos meus filhos mais velhos e está na hora de lhe dar a prenda que a minha mãe comprou. Ele dá-me a mão e abre o embrulho de mais um lenço com um "F" bordado. Está tudo tão perfeito que nem as lágrimas, nem os suspiros, nem os cansaços se atrevem a interromper, apenas a mesa com os copos de pé e o leite-creme e os embrulhos ainda à volta da árvore.

Ao fundo do corredor, do meu corredor, o meu avô sorri e os seus olhos azuis iluminam o palco, dão cor ao cenário e alegram os focos.

Os meus filhos correm e brincam em volta do pinheiro que, aos poucos, se veste de festa. As filhoses estão prontas e luzidias no centro da mesa vestida, também, de Natal. Os embrulhos vão-se juntando longe da vista das crianças e na manhã de Natal aparecem, como que por magia, em volta da lareira. Afinal sempre me disseram que o Pai Natal não existe, apesar de o ter visto passar em frente da lua todas as vésperas de Natal!
Liliana a 22/Dez/2009
 













"Venho, torna-me velho esta lembrança!
D'um enterro d'anjinho, nobre e puro:
Infancia, era este o nome da criança
Que, hoje, dorme entre os bichos, lá no escuro...

Trez anjos, a Chymera, o Amor, a Esperança
Acompanharam-n'o ao jazigo obscuro,
E recebeu, segundo a velha usança,
A chave do caixão o meu Futuro.

Hoje, ambulante e abandonada Ermida,
Leva-me o fado, á bruta, aos empurrões,
Vá para a frente! Marcha! Á Vida! Á Vida!

Que hei-de fazer, Senhor! o qu'é que espera
Um bacharel formado em illuzões
Pela Universidade da Chymera?"

"Ai de Mim! "
António Nobre, in 'Só'

quarta-feira, fevereiro 15, 2012

Queria escrever-te António...

Queria escrever-te um mundo novo, inventar cada rua, plantar as casas e os prédios, os passeios e as estradas e, rimar cada flor com uma cidade sonhada.

Queria escrever-te um jardim, onde a Lua, sempre nova, sempre cheia, iluminasse as árvores todas as noites com aquele o "brilho nos olhos" que apenas os amantes...

Queria escrever-te um rio, que rompesse a cidade e me obrigasse a pontes, de palavras feitas, para unir os amores.

Queria escrever-te uma casa, com o calor das letras que fazem corar e a alegria de tantas canções por descobrir.

Queria escrever-te uma janela aberta sobre o rio, sobre a cidade, sobre este mundo reescrito, de emoções construído e em sentimentos vivido.

Queria escrever-te uma gaivota, num voo sereno, planando a areia da praia com o mar inteiro nos olhos e o pôr-do-sol no peito.

Queria escrever-te uma carta, tecer o papel num emaranhado de letras, aparentemente caótico, onde pudesse recortar todas as dores, apagar a saudade e sublinhar as carícias.

Depois, com o envelope bem fechado... q
ueria respirar fundo, olhar em frente e escrever-me um novo "eu".

Liliana

'Carta de um contratado'
de António Jacinto do Amaral Martins
cantado por Fausto

sábado, dezembro 24, 2011

dos Natais de outros anos....

Acreditas no Pai Natal, António?

Pego no pinheiro enrolado numa espécie de meia de rede, daquelas que antigamente as senhoras ousavam usar para provocar os cavalheiros, e tento a custo equilibrar-lhe o tronco entre duas pedras grandes que de ano para ano servem de apoio à tão esperada árvore de natal. Entre desequilíbrios e quedas dou um salto na memória e vejo os pinheiros da minha infância que, sem esforço aparente, apareciam prontos a decorar na sala de jantar, onde eu e a minha prima mergulhávamos nas caixas de enfeites e descobríamos as bolas decoradas, e ainda de vidro, que diminuíam de número à força das nossas tão delicadas mãos, as luzes em feitio de vela que se apagavam se alguma lâmpada se fundisse e até as faixas farfalhudas douradas e prateadas com que, literalmente, vestíamos o coitado do pinheiro...

De repente o meu pinheiro, este verdadeiro, com resina e folhas que se espalham e tudo o que a natureza nos dá, parece-me tão pequeno. Os enfeites e bolas, estas de plástico para sobreviverem aos assaltos anuais dos miúdos, olham-me tristes e desengraçados. Até as luzes, que piscam e mudam de cor, me parecem demasiadamente impessoais.

Quando eu tinha o tamanho dos meus filhos mais velhos, o Natal estava coberto de um manto mágico que nem a mais dura realidade conseguia romper ou corromper. Via a azáfama e correria na cozinha com os olhos de quem quer acreditar no Pai Natal mesmo quando me diziam que ele não existia, e tudo me parecia um bailado de movimentos alegres e criadores, de onde nasciam filhoses e leite-creme e embrulhos e aletria e bacalhau e embrulhos e mesas arranjadas com copos de pé e embrulhos...

Enrolo o alguidar com a massa das filhoses e deixo-a fintar ao lado do aquecedor. Com as mãos cheias de farinha vejo-me do lado de dentro do teatro, onde as luzes estão penduradas por cabos pretos e o cenário colorido está debotado e remendado. A minha avó à porta da cozinha, também com as mãos enfarinhadas, suspira cansada. A minha mãe na sala, arruma as lágrimas ao lado dos copos de pé enquanto arranja os presentes em volta da árvore. Os meus tios, atrasados para o jantar, batem à porta com olhos cansados da correria e do trânsito.

Ao fundo do palco, o meu avô sorri. Olha-me através dos tempos e das luzes e das árvores de muitos natais. Ao fundo do corredor grande e comprido da cozinha ao escritório, chama-me ao seu lado. Sou do tamanho dos meus filhos mais velhos e está na hora de lhe dar a prenda que a minha mãe comprou. Ele dá-me a mão e abre o embrulho de mais um lenço com um "F" bordado. Está tudo tão perfeito que nem as lágrimas, nem os suspiros, nem os cansaços se atrevem a interromper, apenas a mesas com os copos de pé e o leite-creme e os embrulhos ainda à volta da árvore.

Ao fundo do corredor, o meu avô sorri e os seus olhos azuis iluminam o palco, dão cor ao cenário e alegram os focos.

Os meus filhos correm e brincam em volta do pinheiro que, aos poucos, se veste de festa. As filhoses estão prontas e luzidias no centro da mesa vestida, também, de Natal. Os embrulhos vão-se juntando longe da vista das crianças e na manhã de Natal aparecem, como que por magia, em volta da lareira. Afinal sempre me disseram que o Pai Natal não existe, apesar de o ter visto passar em frente da lua todas as vésperas de Natal!

Liliana a 22/Dez/2009



"Venho, torna-me velho esta lembrança!
D'um enterro d'anjinho, nobre e puro:
Infancia, era este o nome da criança
Que, hoje, dorme entre os bichos, lá no escuro...

Trez anjos, a Chymera, o Amor, a Esperança
Acompanharam-n'o ao jazigo obscuro,
E recebeu, segundo a velha usança,
A chave do caixão o meu Futuro.

Hoje, ambulante e abandonada Ermida,
Leva-me o fado, á bruta, aos empurrões,
Vá para a frente! Marcha! Á Vida! Á Vida!

Que hei-de fazer, Senhor! o qu'é que espera
Um bacharel formado em illuzões
Pela Universidade da Chymera?"

"Ai de Mim! " de António Nobre, in 'Só'

domingo, setembro 04, 2011

Não posso adiar a vida, António...

Sentada, de perna cruzada, cabelo bem penteado e guardanapo no colo.
Sorrindo ligeiramente, e respondendo discretamente às perguntas que lhe são dirigidas.
Sem se intrometer nas conversas do grupo, mas mantendo a presença de forma educada.
Nunca respondendo a provocações nem entrando em assuntos controversos.
Nunca rindo alto, ou levantando o tom de voz.

Esperando, calada, que ele olhe para ela.
Sonhando com uma valsa, sem nunca dançar.
Pensando na possibilidade, sem nunca se atrever.

Com medo dos julgamentos alheios.
Com receio da negação.

Tantas regras e recalcamentos.
Tantas obrigações.
Tantas proibições e constrangimentos.

Deu consigo própria um dia, sentada, de perna cruzada, cabelo bem penteado e guardanapo no colo... embalsamada num expositor do Museu de arte Antiga....


Liliana



"Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração."


'Não posso adiar o amor' de António Ramos Rosa

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Ajuda-me a abrir o armário, António...

Aquele armário branco, com portas de vidro recortado em madeira e gavetas de vários tamanhos, é onde guardo os tesouros e os medos. Cada um bem embrulhado numa rede fina de tempo que se vai tecendo conformegiram os ponteiros do relógio da torre da estação.

Nas gavetas estão pequenas lembranças, sentimentos arrebatadores, brilhantes manhãs em que o sol esteve mais forte, noites estreladas de verão, tardes de chuva com chá e uma manta, um sorriso, um abraço, um olhar, uma mão que se estende, uma criança que se mexe dentro de nós, um nevão de folhas amarelas, palavras que se juntam, conjugam e rimam.

Nas portas de vidro recortado em madeira pintada de branco, dentro de dossiers fechados, numerados e catalogados, estão as mágoas as lágrimas que não quero lembrar, as feridas saradas e as que ainda sangram, os passos que não fui capaz de dar e os que dei a mais, dossiers fechados a que já não quero voltar.

Aquele armário branco é a minha história, contada em parcelas, que se interligam por fios condutores - pequenas estradas amarelas que se enrolam em volta dos anos que passam a um ritmo tão inconstante como o passar do tempo. Os tempos demorados que nos fazem esperar eternidades pelo final da manhã tecem fios finos de um amarelo claro, quase branco. Os tempos irrequietos, que nos fogem por entre os dedos e parecem esfumar-se em poucos segundos fiam novelos grossos amarelo-torrado, quase laranja.

Abro uma gaveta de baixo, pequena, quase imperceptível. Os fios amarelo-torrado amontoam-se à volta dela como um casulo que, cuidadosamente, desenrolo. Num piscar de olhos um abraço em silêncio os teus olhos o teu cheiro... voando como borboletas coloridas por entre outros dias e outras horas. Os ponteiros do relógio da torre da estação avançam e logo o silêncio, este baço, cinzento, povoado pelos barulhos indiferentes duma cidade em movimento, me levam de volta ao meu armário branco onde embalo de novo a gaveta nos fios do tempo e a recoloco no seu lugar, para outro dia reviver...

Liliana


"Dou-te um nome de água
para que cresças no silêncio.

Invento a alegria
da terra que habito
porque nela moro.

Invento do meu nada
esta pergunta
(Nesta hora, aqui.)

Descubro esse contrário
que em si mesmo se abre:
ou alegria ou morte.

Silêncio e sol - verdade,
respiração apenas.

Amor, sei que vives
num breve país.

Estou vivo e escrevo sol"


"Teu corpo principia" de António Ramos Rosa

in "Matéria de Amor"

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

Sou feita de várias palavras, António...


Sou feita de várias matérias, compostos químicos que se degladiam pela liderança. Se choro em silêncio é porque sei que ninguém virá aconchegar-me os cobertores de lágrimas numa cama de esperança.
E por isso corro. Corro para te secar as lágrimas que choras nos dias de nevoeiro.
E por isso velo pelo teu sono, para que sejas sempre capaz de imaginar um admirável mundo diferente.
E por isso te acolho antes que chores, para que durmas tranquilo.
E por isso, também a ti, te pinto o céu com arcos e te conto histórias de vidas coloridas.

E, talvez por isso, me sinto assim, vaga, estranha numa casa de família, abandonada até por mim.

Sou feita de muitas estrelas, constelações e luas que giram em redor de um planeta talvez longe da Terra. Se canto durante o dia é porque à noite me vejo nua debaixo do luar procurando o meu lugar.
E por isso te conforto, para que te sintas em casa em mim.
E por isso te pergunto, te interrogo, te pressiono, para que não percas o impulso vital de agir.
E por isso te acolho nas birras, nas zangas, mesmo até quando me cansas, porque te sei só e te quero embalar.
E por isso, sim, forço-me a regar as flores para que não morram e continues a ter primavera no inverno.

E, talvez por isso, tantas vezes me veja correndo atrás de ti e de ti, sem perceber que o faço por mim.

Sou feita assim, de palavras, gritos que silencio e depois canto em sorrisos, esforçando-me por distribuir o seu fugaz brilho, não para recolher os frutos, mas para não deixar apagar o fogo que crepita no mais fundo de ti e te faz acreditar sorrindo. E então, a parte mais colorida de mim possa surgir alegre, real e solar, sem truques nem feitiços, apenas eu, feita de várias matérias....

Liliana


"As palavras mais nuas
as mais tristes.
As palavras mais pobres
as que vejo
sangrando na sombra e nos meus olhos.

Que alegria elas sonham, que outro dia,
para que olhos brilham?
Procurei sempre um lugar
onde não respondessem,
onde as bocas falassem num murmúrio
quase feliz,
as palavras nuas que o silêncio veste.
(...)"

"Poema" de António Ramos Rosa

sábado, novembro 27, 2010

Não me posso adiar, António!

Hoje apetece-me ser transparente. Dizer o que me vai na alma, sem me conter pelo medo de quem me pode rejeitar. Falar de mim sem me importar com os outros que me vão culpar, sem receio de quem posso, eventualmente, magoar.

Hoje apetece-me gritar alto que, às vezes, me estão a assustar. Que, em tantos dias, me dizem coisas que me doem. Que, quando não me vêem, me magoam e que, sempre que me ignoram, me fazem sofrer.

Enfim, hoje quero largar o cesto de medos em que tantas vezes me afundo. Quero partir o espelho que me devolve a imagem que outros reflectem. Quero soltar as cordas que me amarram na necessidade de agradar. Quero calar as vozes que dizem que me vão abandonar no minuto em que me mostrar.

Estou cansada destas teias que se entrelaçam em não-ditos, destas nuvens de mal-entendidos que ensombram os dias, e desta sensação de estranheza ao olhar à volta e ver apenas caras veladas, meias cobertas por véus de desconfianças e inseguranças... Estou cansada que projectem em mim verdades que não são minhas, que me colem à pele máscaras criadas por outras vidas!

Não me apetece olhar para ti e ver o jardim de mil flores com vista para o mar que esconde o enorme castelo de cartas onde me queres guardar. Nem para ti, que me queres vestir o teu casaco preferido sem me perguntares se tenho frio. Nem mesmo para ti, que até me deixas acreditar que me dás a mão mas acabas por fugir quando procuro um ombro.

Não quero continuar a estar aqui. Quero SER, aqui... ali... onde estiver, onde for... o que sou.

Liliana



"Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração"

"Não posso adiar o coração" - António Ramos Rosa

segunda-feira, novembro 15, 2010

O teu jardim neva para ti, António?!


Todos os anos, o meu jardim, neva para mim. Um dia como os outros, sem aviso prévio ou chamada de atenção, saio de casa e, ao entrar no jardim, ele brinda-me com uma cascata de flocos disformes que caem descompassados e vestem o chão com um enorme manto amarelo raiado de verde.

Ninguém pára ou elogia o seu nevão. É para mim que caem as folhas e é para mim o tapete que, sorrindo, atravesso cheia de vontade de brincar com as árvores que dançam enquanto se despedem da roupa de verão e deixam mais leves as copas para, o sol tímido de inverno, alegrar as minhas janelas.

No dia em que o meu jardim neva, percebo que nem todos vemos a mesma realidade. Há um manto de folhas que me pedem para dançar enquanto dezenas de pessoas passam por mim sem lhes ligar, sem ver o jardim que as quer cumprimentar e sem sentir a brisa que ajuda as árvores a brincar.

Há anos em que a neve me abraça e aquece como uma manta quente e alegre que me faz sorrir, outros em que, tenho a certeza, são lágrimas das árvores que se compadecem de mim, escondida do outro lado da janela. Mas todos os anos me percebo só nesta conversa com o jardim, com as árvores, com as folhas e com o vento que as faz voar.

Talvez se um dia tu no meu jardim... Mas não, não te quero no jardim num dia de neve, porque talvez não... e então prefiro pensar que, quem sabe, talvez tu o visses, se calhar até o ouvisses e então o conseguisses entender, a ele... e com ele a mim.
Liliana




"Na região de Chiang-Shih, no estado de Song, há lindas florestas de plátanos, amoreiras e ciprestes. Acontece que, quando atingem dois ou três palmos de altura, algumas dessas árvores são cortadas para servir de poleiros; das que medem quatro ou cinco palmos, há algumas que são cortadas para fazer estacas, e, das que chegam aos sete e oito palmos, muitas são serradas para tábuas de caixões. Assim, nenhuma destas chegou ao termo natural da sua vida, nem pôde desfrutar, do alto do seu cume, a imagem do mundo para a qual tinham sido criada e, a meio do seu destino, caiu sob os golpes do machado. Este é o perigo de ser útil…

Ichonang-Tseu"

In "O riso de Deus" de António Alçada Baptista

terça-feira, dezembro 22, 2009

Acreditas no Pai Natal, António?

Pego no pinheiro enrolado numa espécie de meia de rede, daquelas que antigamente as senhoras ousavam usar para provocar os cavalheiros, e tento a custo equilibrar-lhe o tronco entre duas pedras grandes que de ano para ano servem de apoio à tão esperada árvore de natal. Entre desequilíbrios e quedas dou um salto na memória e vejo os pinheiros da minha infância que, sem esforço aparente, apareciam prontos a decorar na sala de jantar, onde eu e a minha prima mergulhávamos nas caixas de enfeites e descobríamos as bolas decoradas, e ainda de vidro, que diminuíam de número à força das nossas tão delicadas mãos, as luzes em feitio de vela que se apagavam se alguma lâmpada se fundisse e até as faixas farfalhudas douradas e prateadas com que, literalmente, vestíamos o coitado do pinheiro...

De repente o meu pinheiro, este verdadeiro, com resina e folhas que se espalham e tudo o que a natureza nos dá, parece-me tão pequeno. Os enfeites e bolas, estas de plástico para sobreviverem aos assaltos anuais dos miúdos, olham-me tristes e desengraçados. Até as luzes, que piscam e mudam de cor, me parecem demasiadamente impessoais.

Quando eu tinha o tamanho dos meus filhos mais velhos, o Natal estava coberto de um manto mágico que nem a mais dura realidade conseguia romper ou corromper. Via a azáfama e correria na cozinha com os olhos de quem quer acreditar no Pai Natal mesmo quando me diziam que ele não existia, e tudo me parecia um bailado de movimentos alegres e criadores, de onde nasciam filhoses e leite-creme e embrulhos e aletria e bacalhau e embrulhos e mesas arranjadas com copos de pé e embrulhos...

Enrolo o alguidar com a massa das filhoses e deixo-a fintar ao lado do aquecedor. Com as mãos cheias de farinha vejo-me do lado de dentro do teatro, onde as luzes estão penduradas por cabos pretos e o cenário colorido está debotado e remendado. A minha avó à porta da cozinha, também com as mãos enfarinhadas, suspira cansada. A minha mãe na sala, arruma as lágrimas ao lado dos copos de pé enquanto arranja os presentes em volta da árvore. Os meus tios, atrasados para o jantar, batem à porta com olhos cansados da correria e do trânsito.

Ao fundo do palco, o meu avô sorri. Olha-me através dos tempos e das luzes e das árvores de muitos natais. Ao fundo do corredor grande e comprido da cozinha ao escritório, chama-me ao seu lado. Sou do tamanho dos meus filhos mais velhos e está na hora de lhe dar a prenda que a minha mãe comprou. Ele dá-me a mão e abre o embrulho de mais um lenço com um "F" bordado. Está tudo tão perfeito que nem as lágrimas, nem os suspiros, nem os cansaços se atrevem a interromper, apenas a mesas com os copos de pé e o leite-creme e os embrulhos ainda à volta da árvore.

Ao fundo do palco, o meu avô sorri e os seus olhos azuis iluminam o palco, dão cor ao cenário e alegram os focos.

Os meus filhos correm e brincam em volta do pinheiro que, aos poucos, se veste de festa. As filhoses estão prontas e luzidias no centro da mesa vestida, também, de Natal. Os embrulhos vão-se juntando longe da vista das crianças e na manhã de Natal aparecem, como que por magia, em volta da lareira. Afinal sempre me disseram que o Pai Natal não existe, apesar de o ter visto passar em frente da lua todas as vésperas de Natal!

Liliana





"Venho, torna-me velho esta lembrança!
D'um enterro d'anjinho, nobre e puro:
Infancia, era este o nome da criança
Que, hoje, dorme entre os bichos, lá no escuro...

Trez anjos, a Chymera, o Amor, a Esperança
Acompanharam-n'o ao jazigo obscuro,
E recebeu, segundo a velha usança,
A chave do caixão o meu Futuro.

Hoje, ambulante e abandonada Ermida,
Leva-me o fado, á bruta, aos empurrões,
Vá para a frente! Marcha! Á Vida! Á Vida!

Que hei-de fazer, Senhor! o qu'é que espera
Um bacharel formado em illuzões
Pela Universidade da Chymera?

"Ai de Mim! " de António Nobre, in 'Só'

quarta-feira, outubro 14, 2009

Tens tempo para mim, António?


Saiu da cozinha devagar e entrou no quarto sem que dessem pela sua ausência. Fechou a porta devagar e sentou-se na cama. Em frente a ela o grande espelho numa moldura escura que lhe falava dos dias passados, dos olhares furtivos, dos risos esquecidos e das lágrimas por ele abafadas. Endireitou as costas e tentou sorrir-lhe mas ele não respondeu ao seu olhar, e ela acabou por se sentir ainda mais sozinha naquele quarto com duas janelas.

Respirou fundo, olhou para a janela grande virada para a rua que lá fora, indiferente às suas mágoas, corria numa agitação de fim detarde em crianças saídas da escola e carros procurando estacionamento. Levantou-se virada para a rua mas a outra janela, a pequena, virada para o pátio antigo e com o estore meio torto no cimo dos vidros, que velava o pouco sol que ainda entrava no quarto, chamou-a num silêncio "de móvel que estala".

Abriu a janela e espreitou os pátios antigos dos prédios antigos à volta, com pequenas floreiras e casotas de cão, com as cordas pesadas à força das toalhas velhas do cabeleireiro de velhotas em baixo e dos cueiros do neto da vizinha de cima que gritava, também à janela enquanto a avó, numa azáfama circense, lhe tentava em vão dar a papa. Ali tudo estava sempre no lugar certo e bem arrumado, era a sua réstia de segurança num mundo que passava depressa demais para o tamanho das suas horas.

Espreitou para os vasos de margaridas do prédio ao lado, sorriam ao sol que se despedia num até já enquanto o cão do rés-do-chão lambia a papa do bebé dos gritos que aterrava fora da pista. Tudo tinha o seu lugar bem definido e por mais rápidas que passassem as horas, nada parecia incomodar-se ou alterar-se. Nem mesmo o gato da Dª Chica, a senhora de cabelo azulado que vivia no primeiro andar, que teimava em descer as escadas de serviço e provocar o coitado do cão, que quase perdia a voz de tanto resmungar, parecia perturbar aquela paz. Tudo se regia por uma batuta de todos conhecida e sem grandes inovações.

A brisa que entrava pela janela invadia o quarto e, também ele, parecia afastar-se da correria citadina que buzinava ali mesmo ao lado. Aquela janela era a guardiã da sua paz interior e ela esquecera-se dela no meio das horas apressadas.

A realidade chamava em vozes animadas lá ao fundo. Na cozinha a vida continuara no ritmo estonteante de Lisboa. Ela, devagar, fechou a janela como quem fecha a caixinha das jóias, abriu a porta do quarto e, antes de sair, espreitou para o espelho que lhe piscou o olho.


Liliana






"Todo o tempo é de poesia
Desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.
Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia
Todo o tempo é de poesia
Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue soçobram.
Vidas qu'a amar se consagram.
Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.
Todo o tempo é de poesia.
Desde a arrumação ao caos
à confusão da harmonia."
"Todo o tempo é de poesia" de António Gedeão
in Movimento Perpétuo

quinta-feira, outubro 08, 2009

Tu sabes António, não sabes?

Eu não sei se eles sabem, ou mesmo se sonham. Mas eu sinto-o com tanta força em todo o corpo que chega a doer de tantas sirenes que me gritam aos ouvidos cada vez que, por momentos, me afasto desta certeza.

Eu não sei se eles sabem e nem perguntei se sonham. Mas a mim é-me tão claro como o sol do meio dia em plena primavera que mergulha devagar nas águas do Tejo e abraça Lisboa até ao lusco-fusco.

Ah! se eles soubessem, com certeza que sonhariam o mesmo sonho que joga comigo às escondidas por entre as ruas e as escadas e os jardins e as janelas e os pátios de onde se avista o rio, fazendo-me perder o fôlego numa correria infantil atrás do arco-íris que brilha dentro de uma bola de sabão.

Eu não sei se eles sabem e até nem me importa saber se sonham. Mas tu, tu que me lês desse lado da folha, diz-me. Tu sabes não sabes? Tu sentes este movimento perpétuo que avança por nós fora e nos impele e nos inspira e nos empurra e nos revela o que afinal há tanto tempo já sabíamos?

Eu não sei até onde é que eles sabem nem com o que é que sonham. Mas tu, tu que me lês os sonhos escritos onde o sorriso me denuncia e o brilho dos olhos me expõe e o tom de voz me mostra nua de adereços e máscaras, diz-me. Tu também sonhas e te perdes no sonho como se uma onda que te leva a um mundo distante e por lá te deixa numa correria infantil atrás dos arco-íris que brilham dentro das bolas de sabão?

Liliana Lima


"Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem
sonha o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança."

"Pedra Filosofal" de António Gedeão
in 'Movimento Perpétuo'

domingo, agosto 09, 2009

Diz-me em que história estou, António...

Diz-me tu em que história estou, que eu assim de repente não me encontro na que pensei que estava a contar. Enrolo-me no fio condutor que desfio só para mim e perco-lhe a ponta. Como contar uma história sem saber onde começa?

Diz-me, diz-me tu que conto é este em que me encontro, que não pareço descobrir-me na personagem que declamo. Ao fundo as ondas morrem mansas na areia e as crianças saltitam indiferentes ao vento que sopra frio arrepiando as conchas esquecidas à beira-mar. Procuro o meu cenário, nesta história que supostamente devia contar. Como dizer uma história sem conhecer os seus personagens?

Diz-me, tu que me olhas como quem lê um livro, que história devia eu estar a contar? Aqui, no alto das dunas que se estendem sobre o horizonte como uma fotografia de um mar dourado, não me pareço com história nenhuma que valha a pena dizer ou explicar. Aqui, ao fundo desta lagoa que se confunde e mistura com o mar, não encontro o real da história que devia contar. Como cantar uma história sem lhe ouvir a harmonia que a sustenta e a mantém inteira?

Diz-me, vá diz-me, tu que me ouves ao fundo de todos como se só para ti falasse, que contos querias que te contasse? Aqui neste búzio partido de onde vejo o mar ao fundo, avançando e recuando como se comigo dançasse a valsa, não me lembro dos contos de embalar, dos contos que ajudam a sonhar. Escorrego numa onda que me embala e pergunto ao mar, afinal que conto devo contar?

Diz-me tu em que história estou, que eu assim de repente parece-me que me esqueci da história que estava a viver.
Liliana Lima





"Eu hontem passei o dia
Ouvindo o que o mar dizia.

Chorámos, rimos, cantámos.

Fallou-me do seu destino,
Do seu fado...

Depois, para se alegrar,
Ergueu-se, e bailando, e rindo,
Poz-se a cantar
Um canto molhádo e lindo.

O seu halito perfuma,
E o seu perfume faz mal!

Deserto de aguas sem fim.

Ó sepultura da minha raça
Quando me guardas a mim?...
(...)"

"Passei o Dia Ouvindo o que o Mar Dizia"
de António Botto in 'Canções'

quarta-feira, junho 03, 2009

Porque se fechou o teu coração, António?


Vi-te ontem a subir a rua, sério e distraído, se bem te conheço ias para o cinema. Se te conhecesse ainda, quero dizer. Hoje em dia somos perfeitos desconhecidos. Se nos tivéssemos, de facto, cruzado como seria? Ainda as discussões que te prendem numa eterna zanga e sempre as razões que validam o meu silêncio.

Atravessaste a rua sem olhar para os carros e acordaste as dúvidas que dormiam ao lado da culpa num colchão de mágoas por resolver. Quem se afastou primeiro, quem se magoou primeiro, quem se defendeu e se escondeu primeiro...

A verdade é que, aqui do conforto do banco do carro, este lado da rua parece-me ter sido a saída mais fácil. O difícil seria ficar onde as estrelas são incertas e o céu nem sempre é azul. Mas os meus passos precisam da confiança de que a terra é redonda e o homem já foi à lua, mesmo que a verdade não seja única e universal. Não há actos heróicos no dia-a-dia das pessoas comuns que se cruzam na rua ao fim do dia em Lisboa.

Vi-te ontem, subias a rua e eu parada no sinal num misto de sobressalto assustado que se juntou à saudade e deixou um sabor amargo na boca. Tenho a certeza que empalideci, a minha cara qual casa alentejana ao sol duas janelas tristes e uma porta fechada, enquanto te via atravessar a rua, mesmo à minha frente.
Liliana Lima







"Um coração quando se fecha faz muito mais barulho que uma porta."
António Lobo Antunes in "Livro de Crónicas"

segunda-feira, março 16, 2009

De que palavra nasceste, António?

Fui, em palavras, mais longe do que algum dia pensei. No vazio do silêncio incendiei com palavras a esperança impossível. Dizendo, fui.

Não estarei, por isso, realmente perdida. Apenas e só consigo nascer duma pedra por uma palavra ardente. Se o digo sou-o, não sei se o pergunto ou se o respondo, mas sei que o sou... inteiramente, em palavras.

Ao poder destruidor do abandono, sobreponho a força criadora das palavras. Se o digo, se o digo verdadeiramente, é porque o vivo. Através da minha voz ergo-me nas sombras do vazio.

Não direi, certamente, que sou apenas palavra, sinto-me nua no azul da tua presença, sinto a minha boca na tua e algo que floresce quando, em mim és, para além das palavras.

Mas sei que nasci de uma palavra que, ébria, se enamorou de uma árvore e com ela foi vento, nascente e flôr e tudo o que a sede e o amor lhes permitiram, no mundo infinito da chama ardente das palavras.

Liliana Lima - 26 de Novembro de 2006






"Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei.
Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra."



António Ramos Rosa - "Uma voz na pedra"

quinta-feira, março 12, 2009

Onde te escondes tu, António?

As pessoas fazem coisas estranhas quando se sentem ameaçadas....

O meu avô, quando a terra tremia deitava-se dentro da banheira. Não debaixo da ombreira da porta, não debaixo da mesa grande e forte da sala, nem mesmo debaixo do balcão comprido da cozinha em mármore cor-de-rosa. Quando a terra tremia, ele deitava-se na banheira.

Um dia, quando era pequena e o balcão da cozinha ainda me ficava à altura do nariz, meti-me dentro da banheira a imaginar que a terra estava a tremer, para ver se entendia a razão de tal escolha tão invulgar. Nada... a única coisa que entendi foi que a minha avó não gostava lá muito que eu molhasse o vestido.

Nessa altura a minha avó arranjou uma rapariga que ficava as tardes tarde comigo e com a minha prima em casa dos meus avós e que, supostamente, tomava conta de nós enquanto ela ia para o escritório ajudar o meu avô com as escritas.

Estávamos em plenas férias de Verão, os dias estavam lindos e o Tejo, que inundava as janelas, chamava por nós em pequenas ondulações douradas... A rapariga, quase da nossa idade (mentalmente pelo menos), também ouvia o chamamento do rio que entrava pela sala dentro e nos dizia o quão frescas estavam as suas águas. Naquele dia decidiu, depois de um longo discurso sobre os adultos e a sua incapacidade para entender este tipo de diálogos entre meninas e rio, que iríamos atravessar a marginal, saltar a linha do comboio e, por fim, responder ao pedido do rio e brincar na sua água (naquela altura não tão azul como seria desejável). Depois de concordarmos o quão dispensável seria que os adultos soubessem desta inócua aventura, lá fomos as três, correndo pela marginal e saltando as barreiras até ao rio. O difícil foi mesmo atravessar a estrada, a partir daí foi uma brincadeira de crianças (que éramos as três).

Voltámos a casa antes dos "grandes", tomámos os banhos necessários para apagar as pistas e esperámos por eles com os nossos melhores sorrisos de anjinhos papudos. Tudo correu bem, ninguém suspeitou da nossa descrição das brincadeiras com os carecas durante a tarde inteira e a noite caiu na mais tranquila paz.

Foi de manhã, que era quando chegava a minha prima (a quem o balcão da cozinha ficava ainda por cima da cabeça), que, nas conversas azedas e nas respostas da minha avó ríspidas e em tom de desagrado, que percebi que tínhamos sido descobertas.

Sabia que as consequências não seriam agradáveis e a vontade era desaparecer ou matar a minha prima mas, como isso daria muito nas vistas, optei pela primeira e, enquanto todos me procuravam nas escadas, na casa da Dª Odete que vivia de baixo de nós e tinha um cão irritante com um lacinho na cabeça, no Sr João da Tendinha onde o meu avô gostava de beber um café e um copito, na Padaria onde eu comia os melhores pães de leite de sempre, e em muitos outros sítios perfeitamente lógicos, para eles pelo menos, eu passei o dia inteiro... deitada dentro da banheira!

(Escusado será dizer que o resultado não foi o melhor, nem para mim nem para a "rapariga" que, aliás, nunca mais tornámos a ver...)



Liliana Lima, 13 de Março de 2009


"Mas entre mim e os meus passos há um intervalo também: então invento os meus passos e o meu próprio caminho. E com palavras de vento e de pedra, invento o vento e as pedras, caminho um caminho de palavras."


António Ramos Rosa in "Sobre o rosto da Terra"

terça-feira, outubro 31, 2006

"Todos os homens são maricas quando estão com gripe (pasodoble)" - António Lobo Antunes




Pachos na testa
terço na mão
uma botija
chá de limão
zaragatoas
vinho com mel
três aspirinas
creme na pele
grito de medo
chamo a mulher
ai Lurdes Lurdes que vou morrer!
mede-me a fibre
olha-me a goela
cala os miúdos
fecha a janela
não quero canja
nem a salada
ai Lurdes Lurdes não vales nada!
se tu sonhasses
como me sinto
já vejo a morte
nunca te minto
já vejo o inferno
chamas diabos
anjos estranhos
cornos e rabos
vejo os demónios
nas suas danças
tigres sem listras
bodes de trances
choros de coruja
risos de grilo
ai Lurdes Lurdes que foi aquilo?
não é chuva
no meu postigo
ai Lurdes Lurdes fica comigo!
não é vento
a cirandar
nem são as vozes
que vêm do mar
não é o pingo
de uma torneira
põe-me a santinha
à cabeceira
compõe-me a colcha
fala ao prior
pousa o Jesus
no cobertor
chama o doutor
passa a chamada
ai Lurdes Lurdes nem dás por nada
faz-me tisanes
e pão-de-ló
não te levantes
que fico só
aqui sózinho
a apodrecer
ai Lurdes Lurdes que vou morrer!


António Lobo Antunes
in Letrinhas de Cantigas



Agora digam lá, se conseguirem, que o homem não tem piada...

terça-feira, outubro 03, 2006

A pedra Filosofal - António Gedeão

Natal em Outubro?!

Cheguei ontem a casa, com pressa (como de costume), sem lugar para estacionar (como de costume), com um tempo muito inglório e sem chapéu (como de costume). Nada de novo, portanto, a leste do paraíso.

No entanto um escadote apoiado no poste mesmo em frente à janela da sala de jantar e um amontoado de cabos no chão, fizeram-me erguer o olhar aos céus... em pleno início do mês de Outubro, dia 2 para ser mais precisa, as luzes de Natal estão já montadas por todo Campo de Ourique...

A novidade, a leste ou a oeste, já não é grande, todos os anos as luzes são montadas logo após o regresso às aulas. Mas a desilusão, a sensação de perder o Outuno, as folhas que despem as árvores ao sabor do vento, as castanhas que caem nos seus ouriços direitinhas para o tabuleiro do forno, a água para o chá que chama na cozinha, as bolas e os scones que pedem geleia de marmelo ainda quente... sinto que me escapam por entre os dedos como areia que foge pelo vidro estalado do cone de uma velha ampulheta.

Será que o ano está cada vez mais pequeno ou fomos nós, que na ânsia de não perder a última moda de Paris, deixámos de ter tempo de o ver passar? E ao deixar de o olhar, não deixámos também de o conhecer, de partilhar a cumplicidade que só quem se dá ao trabalho de acarinhar e acompanhar dia a dia, ano a ano, tem o privilégio de gozar?!

Mas abem que mais? Só quem tem tempo para estes pequenos/grandes momentos, tem o poder e a capacidade de sonhar...




PEDRA FILOSOFAL


Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.


In Movimento Perpétuo – António Gedeão