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terça-feira, abril 24, 2012

É noite de Liberdade...

É noite de liberdade! Digo-te eu com os olhos cheios de lua!

Sabias que hoje as estrelas dançam livres no céu?
Sabias que hoje os sonhos se libertam e se soltam das camas onde, sonhados, os donos se deitam?
Sabias que hoje as letras se apaixonam e, dançando, formam novas palavras livres?
Sabias que hoje a música se revolta e, fora das pautas, soa mais alto e mais forte?
Sabias que hoje os livros saltam das estantes e as histórias, livres, gritam pelas ruas?

Livremente confesso que, mesmo hoje, é difícil aceitar a diferença que, por ser livre, se afasta de mim...
Livremente confesso que, ainda hoje, me assusto ao perceber outros caminhos tão longe do meu...
Livremente confesso que, só hoje, percebi que para o meu conto ser livre, terá de aceitar outros finais que dele discordam...

É noite de liberdade! E este cravo é a prova que te liberto para que, também eu, seja livre de continuar a acreditar!


Liliana


"Querida Joana:


Como sabes eu estou preso mas também não sou um homem mau. Viste como foi. Não sejas rabujenta e ajuda o Pedro. Se ele estiver birrento lembra-te que ainda é um bebé e tu mais crescida que ele. O que eu não gosto é que sejas egoísta porque é muito feio. Se algumas das tuas amigas querem tudo para elas deixa lá. Elas fazem mal mas tu não. Explica-lhes que não devem ser egoístas. Tem cuidado com os sugos e outras porcarias iguais porque podes ficar sem dentes. Depois, mesmo que os queiras ter já ninguém tos pode pôr. Ficas como os velhinhos. Alguns deles tinham a mania de comer goluseimas, gelados e caramelos. E também chocolates.
Eu lembro-me muito de ti e do Pedro. O Zé ainda não cortou as barbas? Diz à Lena que eu não gosto que ela seja desarrumada. Todos têm de ajudar a mãe e a Dina...
Muitos beijos do
Zeca Pai"
in "José Afonso Textos e Canções"

domingo, outubro 02, 2011

De onde vem o passado, Zeca?

"Nem sempre os dias são dias passados"...
o absurdo espreita numa qualquer curva da mais estreita rua
a ausência espera atrás da sombra duma floreira.

"Nem sempre os dias são dias passados"...
o Sol nem sempre nasce quando o esperamos
e a Lua, essa, desaparece quando mais precisamos da sua luz.

"Nem sempre os dias são dias passados"...
a qualquer hora o passado nos escorre pelos dedos dos dias.


Liliana

segunda-feira, abril 25, 2011

É noite de Liberdade Zeca?!?!?

Era assim em 2009, é assim hoje...


É noite de liberdade! Digo-te eu com os olhos cheios de lua!

Sabias que hoje as estrelas dançam livres no céu?
Sabias que hoje os sonhos se libertam e se soltam das camas onde, sonhados, os donos se deitam?
Sabias que hoje as letras se apaixonam e, dançando, formam novas palavras livres?
Sabias que hoje a música se revolta e, fora das pautas, soa mais alto e mais forte?
Sabias que hoje os livros saltam das estantes e as histórias, livres, gritam pelas ruas?

Livremente confesso que, mesmo hoje, é difícil aceitar a diferença que, por ser livre, se afasta de mim...
Livremente confesso que, ainda hoje, me assusto ao perceber outros caminhos tão longe do meu...
Livremente confesso que, só hoje, percebi que para o meu conto ser livre, terá de aceitar outros finais que dele discordam...
É noite de liberdade! E este cravo é a prova que te liberto para que, também eu, seja livre de continuar a acreditar!
Liliana em 25-04-2009



"Querida Joana:

Como sabes eu estou preso mas também não sou um homem mau. Viste como foi. Não sejas rabujenta e ajuda o Pedro. Se ele estiver birrento lembra-te que ainda é um bebé e tu mais crescida que ele. O que eu não gosto é que sejas egoísta porque é muito feio. Se algumas das tuas amigas querem tudo para elas deixa lá. Elas fazem mal mas tu não. Explica-lhes que não devem ser egoístas. Tem cuidado com os sugos e outras porcarias iguais porque podes ficar sem dentes. Depois, mesmo que os queiras ter já ninguém tos pode pôr. Ficas como os velhinhos. Alguns deles tinham a mania de comer goluseimas, gelados e caramelos. E também chocolates.

Eu lembro-me muito de ti e do Pedro. O Zé ainda não cortou as barbas? Diz à Lena que eu não gosto que ela seja desarrumada. Todos têm de ajudar a mãe e a Dina.

Muitos beijos do
Zeca Pai"


in "José Afonso Textos e Canções"

sexta-feira, abril 01, 2011

Tens saudades do teu avô, Zeca?

Hoje fui ter contigo ao jardim. Procurei-te em todas as moradas, mas as ruas pareciam-me todas iguais, árvores altas, placas com nomes e datas que não me diziam nada e ao fundo uma parede grande de gavetas onde não te encontrei.

Sentei-me num banco cansada com as simetrias e pensei que te perdera. Agora não sabia onde estavas, agora que já te foste embora nem a tua gaveta consigo encontrar, no meio da desorganização da minha vida.

Sentei-me triste e com saudades dum tempo ido em que nos vejo a sorrir com o Tejo ao fundo. Levantei os olhos e lá estava ele, espelhando um sol quase de verão num dia de primavera.

Levantei-me e desci a calçada até ao rio que sorriu ao ver-me chegar. Sempre tive uma ligação pessoal com o Tejo, afinal conheço-o desde bebé e ele viu-me crescer à janela, cantando todas as canções desde a Gabriela ao Festival da Canção...

Cumprimentei-o e sentei-me nas escadas, perto da água. Aquela brisa fresca na cara e os pedacinhos de ouro a brilhar por entre a ondulação e num instante... tu, na cozinha ao lanche a contar-me as aventuras da juventude... no campismo a tocar cavaquinho e a cantar o fado de Coimbra... na Parede a jantar no topo duma mesa enorme... na cozinha ao lanche a fazermos torradas no aquecedor...

Estive ali um bocado, com o Tejo e contigo e comigo e com as saudades que têm o condão de emoldurar o passado num quadro pintado a cores amenas e alegres. Olhei para trás enquanto me levantava, o jardim com as árvores altas e as gavetas e as placas acenaram-me lá do alto e num instante... tu deixaste de ali estar.

Despedi-me do Tejo com um até já e tive a certeza dos teus olhos por entre os pedacinhos de ouro na ondulação.

Liliana





"Nem sempre os dias são dias passados


A ver os restos dum porto de abrigo


Quando era pequenino era soldado


Os cartuchos punha-os dentro do umbigo



Às vezes faço de conta que acredito


Nas cantilenas que ouvi do meu avô


Andava Deus menino com um apito


Já o meu avô me aceitava como eu sou



A história não se sente ultrapassada


Por muito menos meu avô era ganhão


A história tem uma gémea malcriada


Só elas são as passageiras do vagão



Era portanto descabida tanta importância


Por muito menos meu avô fazia estrilho


Quando era pequenino era ordenança


Os cartuchos punha-os dentro do umbigo"


José Afonso "Nem sempre os dias são dias passados"

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Sabes o que me espera, Zeca?

De não saber o que me espera, de esperar em vão o eco das minhas palavras, enrolo-me em mim mesma, bicho de conta que fia o seu colchão com as linhas dos seus medos.

De não saber qual a linha certa do horizonte para que me hei-de dirigir, enfolo as velas e sopro um vento sem norte, à deriva no meu mar.

De não saber de que cor se tinge o sol nos dias de guerra, que nascem já mortos pela madrugada, procurei sem parar as imagens floridas duma primavera por chegar.

De não saber fugir às sombras que me perseguem, pedi ao relógio que as horas corressem, mas vi-me, sem a sua ajuda, sózinha à espera da calma na maresia.

De não saber o que me espera, decidi largar o balão e voar bem alto, planar pelas nuvens, espreitar as cidades e, lá bem de cima descobri que não há uma só meta e, para qualquer uma delas, não há apenas uma estrada certa...

Liliana



"De não saber o que me espera
Tirei à sorte a minha guerra
Recolhi sombras onde vira
Luzes de orvalho ao meio-dia

Vítima de só haver vaga
Entre uma mó e uma espada
Mas que maneira bicuda
De ir à guerra sem ajuda

Viemos pelo sol nascente
Vingámos a madrugada
Mas não encontramos nada
Sol e água sol e água

De linhas tortas havia
Um pouco de maresia
Mas quem vencer esta meta
Que diga se a linha é recta"


"De não saber o que me espera" de José Afonso
in "Fura Fura", 1978

segunda-feira, setembro 13, 2010

Como sonhas a tua cidade, Zeca?!

Abri a janela, o dia estava lindo, de um azul claro que dançava com o sol matinal ao som de uma leve brisa fresca. No canto da janela, quase imperceptível, uma ponta de papel de cenário parecia querer soltar-se. Fingi não ver e espreguicei-me, sorrindo para o dia lindo que me cumprimentava com o calor de Setembro. Saí ainda com o coração embalado no despertar tranquilo de um dia que se apresentava bem-humorado, penteado e até mesmo elegante.
As ruas espelhavam a boa disposição que o sol inspirava, e as pessoas, sorridentes, andavam calmamente sem atropelos, tropeções ou buzinadelas. Sentei-me na esplanada para tomar café e ao afastar a cadeira ouvi um ruído abafado de papel a rasgar. Olhei devagar para baixo da mesa, como quem tem a certeza que aloja um monstro no fundo da cama. Não havia forma de disfarçar desta vez, estava ali mesmo, um enorme buraco no papel de cenário cuidadosamente pintado a aguarela, e deixava transparecer o dia de chuva que atrás dele estava em cena.
A acção real decorria lá atrás, as personagens sabiam-no e instintivamente romperam o papel que nos vestia dum magnífico dia de verão, deixando a chuva e as nuvens e os sobrolhos franzidos e o trânsito e os atrasos e as correrias e a ansiedade inundar toda a rua. Tentei com todas as minhas forças colar e retocar o cenário que, aqui e ali, se enrolava e amachucava com a água deixando escorrer as tintas que se misturavam num castanho amarelado que escorreu até ao Tejo juntamente comigo.
Deixei-me ir naquela corrente que desde manhã, ao abrir a janela, me parecera existir mas que evitei aceitar. Os homens que tinha pintado como personagens de histórias de encantar começaram a parecer-se apenas com homens de pequenos horizontes, sem carinho, sem esperanças, sem sonhos por que lutar. As ruas que desenhara com mil janelas floridas e pequenos pátios onde todos se cruzavam para conversar, perderam a cor e o tempo esqueceu-se delas, deixando-as apenas envelhecer sujas tristes e sós. A música que escrevera com os pássaros a chilrear e as crianças a rir, foi absorvida pelo caos citadino duma realidade com tanto barulho que abafa qualquer tentativa de melodia.
Mergulhei no Tejo e pensei nadar sem parar, nadar sem sentido, nadar apenas, nadar até mais não conseguir. Mergulhei no Tejo e vi o cenário estranhamente encaixar como pequenas peças de um puzzle colorido. Mergulhei no Tejo e aquela cidade que se formava no fundo do rio era a minha cidade, com todas as cores e a luz que dela saiam e se reflectiam nas águas projectadando-se em alguns prédios e carros e ruas e pessoas.
Sentei-me na outra margem, escorrendo água, cores e sonhos que se misturavam na ondulação e olhei a minha cidade, sem maquilhagem. Conforme o sol se levantava fui-me apercebendo que o cenário no fundo do rio se espelhava em alguns recantos criando um ambiente mágico de história de encantar.
Levantei-me triste e contente, procurando á volta alguma ponta solta dum cenário que parecia estar a mudar. Voltei para casa e podia jurar que por entre as casas sem graça e as pessoas apressadas, encontrei homens de olhos meigos, mulheres com asas de fada, crianças cantando, e até alguma alegria partilhada entre perfeitos desconhecidos.
Preparei-me para me deitar, não sem antes abrir um grande rolo de papel de cenário onde sonhei mais um conto para, de manhã, a cidade encantar...
Liliana




"Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo, mas irmão
Capital da alegria

Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
É teu a ti o deves
lança o teu desafio

Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso, a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio, este rumo, esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?"

"Utopia" de José Afonso

segunda-feira, agosto 23, 2010

Onde guardas os dias que passam, Zeca?

Nem sempre os dias que passam são passado. O vazio que fica de uma madrugada em branco também abafa a manhã que quer nascer num novo dia, escondendo-se atrás de sons, de pequenos nadas, que nos acordam para uma verdade que não queremos ouvir...

Não, nem sempre os dias que passam ficam no passado. Quantos e quantos forçam a entrada numa palavra embrulhada em memórias que nos obrigámos a esquecer quando fechámos a gaveta das águas passadas sem ver que, dos lados, a água fica sempre a escorrer...

Nem sempre os dias que passam ficam no passado. Adormecem, esmorecem, mas um dia normal como tantos os outros, agitam-se num quadro que se rasga e deixa entrar a maré que contínhamos numa praia deserta e invade a realidade como uma onda sem fim...

Nem sempre os dias são dias passados. Revivemos os anos numa espiral de lembranças, recortes de memórias, gritos abafados, que nos chegam duma planície alentejana onde aparentemente nada se passa e, no entanto, tudo se levanta.

Nem sempre os dias são dias passados. Arrumamos o estojo de primeiros socorros de palavras seguras e lugares perfeitos, levamo-lo connosco para tapar as feridas com um penso rápido, mas nem sempre elas ficam no dia que passa...

Liliana


"Nem sempre os dias são dias passados
A ver os restos dum porto de abrigo
Quando era pequenino era soldado
Os cartuchos punha-os dentro do umbigo

Às vezes faço de conta que acredito
Nas cantilenas que ouvi do meu avô
Andava deus menino com um apito
Já o meu avô me aceitava como eu sou

A história não se sente ultrapassada
Por muito menos meu avô era ganhão
A história tem uma gémea malcriada
Só elas são as passageiras do vagão

Era portanto descabida tanta importância
Por muito menos meu avô fazia estrilho
Quando era pequenino era ordenança
Os cartuchos punha-os dentro do umbigo"
José Afonso
"Nem sempre os dias são dias passados"

segunda-feira, agosto 02, 2010

Vamos descansar, Zeca?

Congela os mares para que os barcos e as canoas e as lanchas não avancem nem mais um milímetro.
Congela!

Pára as ondas que batem incessantemente nas rochas e trovejam por toda a costa.
Pára!

Cala as crianças que gritam quando riem, quando choram, quando jogam à cabra-cega e quando não querem ir dormir.
Cala!

Não vires a ampulheta para que a areia sossegue e descanse num sonho eterno de deserto.
Não vires!

Arranca os ponteiros do relógio da igreja que não deixa impune a passagem do tempo badalando-o aos sete-ventos.
Arranca!

Apaga as estradas e os caminhos, as pontes e os caminhos-de-ferro para que cada um fique apenas onde está.
Apaga!

Tapa o Sol com um manto de estrelas, trás a lua se quiseres, mas deixa apenas a noite com a paz daquele momento em que estamos quase-a-dormir-acordados, embalados pela tranquilidade de nos sabermos ser/não sendo, apenas estando.
Tapa!

E deixa-me apenas descansar...
Liliana

"Água e pedras do rio
Meu sono vazio
Não vão acordar
Água das fontes calai
Ó Ribeiras chorai!
Que eu não volto a cantar

Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai!
Que eu não volto a cantar

Águas do rio correndo
Poentes morrendo
P'ras bandas do mar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai!
Que eu não volto a cantar

Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai!
Que eu não volto a cantar"

"Balada do Outono" de José Afonso

quinta-feira, julho 22, 2010

Onde estão os degraus, Zeca?

O telefone estremeceu em cima da cómoda da entrada quando ela atirou o primeiro sapato ao ar. Já ninguém ligava às suas descargas de nervosismo, era assim como uma inevitabilidade que não surpreendia ou interessava. O segundo sapato bateu na moldura de madeira trabalhada e pintada de rosa velho, obrigando a fotografia de família a um rodopio quase mortal, as caras assustadas e o desequilíbrio geral despentearam por completo aquela imagem ideal de família americana com sorrisos pepsodente.

A porta fechou-se, indiferente aos sapatos e à raiva que esvoaçava no ar. Dentro de casa o tempo abrandou e todos os movimentos pareciam saídos de uma peça de ballet moderno, enquanto ela corria em volta das divisões, como quem sobe e desce degraus, respirando fundo para não rebentar e sujar as paredes com os estilhaços de mais uma zanga.

Procurou o canto mais escuro da casa e sentou-se enrolada aos joelhos, indecisa entre descobrir o que fazer para se acalmar e aceitar o facto de ninguém a ver no seu desespero. Estava sozinha numa casa cheia de gente que passava por ela - d e v a g a r - como se em todas as histórias normais houvesse uma personagem sentada num degrau a chorar.

Levantou-se de repente como se o mundo dependesse do seu esforço e foi varrendo os filhos até todos estarem nas camas, dando sorrisos e beijos como quem distribui bolachas à hora do lanche. Por dentro os sapatos ainda no ar, acertando bem no meio da fotografia e atirando o telefone ao chão.

Sentou-se em frente à televisão para limpar as ideias e arrefecer os ânimos. Entrou em duas ou três séries de seguida e em breve estava tão tranquila que já não sabia onde deixara os sapatos. Procurou por toda a casa até os encontrar desamparados na entrada. Já não se lembrava bem o que acontecera, algo lhe dizia que se tinha zangado, mas na verdade preferia não se lembrar.

A porta abriu-se e ela recebeu-o com um sorriso rasgado. Perguntou-lhe se estavam bem, ele respondeu calmamente que sim, e ela aceitou a inevitabilidade de uma paz que lhe parecia tão apetecível como um chocolate a uma criança. Abraçou-o e trancou a porta. Ao passar para o quarto endireitou a fotografia de família que estranhamente lhe parecia diferente. O tempo voltara a correr inevitavelmente como antes.

Liliana



"Era um redondo vocábulo
Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar,
Pelos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio,
Congregando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança,
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincando e Laura
Na sala de espera
Inda o ar educa"

"Era um redondo vocábulo" de José Afonso

segunda-feira, julho 19, 2010

Para quem escreves tu, Zeca?!


Para quem eu escrevo? Para ti!
Para que me leias, porque sei que me entendes nas entrelinhas. Sim, eu sei que me sentes em cada palavra, que me revês em cada silêncio, que talvez até me prevejas em cada parágrafo.
É por isso que sempre escrevi para ti.
Porque a ti não tenho de explicar a história desde o início para que faça sentido. Porque em ti tenho a confiança suficiente para me despir letra-a-letra sem medo de me sentir julgada, criticada ou ameaçada.

Escrevo para ti desde que escrevo por mim.
E cada frase é um reafirmar de tantos pulsares quantos os que respiram fora da galáxia das palavras. Viver é uma actividade quase paralela a escrever, e tu vives comigo através da escrita, por muito longe e inatingível que estejas.

É nas palavras que te encontro, naquelas em que tropeço durante a confusão dos dias e me perseguem pelos corredores dos relógios e do trânsito e das histórias e, sem saber bem porquê, me conduzem aqui até as escrever - para ti.
Liliana


"Amigo
Maior que o pensamento
Por essa estrada amigo vem
Por essa estrada amigo vem
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também

Em terras
Em todas as fronteiras
Seja bem vindo quem vier por bem
Se alguém houver que não queira
Trá-lo contigo também

Aqueles
Aqueles que ficaram
(Em toda a parte todo o mundo tem)
Em sonhos me visitaram
Traz outro amigo também"


"Traz outro amigo também" de José Afonso

segunda-feira, agosto 03, 2009

Parabéns Zeca!

Zeca, ajuda-me a dizer-lhes da utopia. Dá-me as palavras certas, para contar-lhes da cidade onde respira, vivo, o sonho e a magia. Ensina-me o cântico verdadeiro para mostrar-lhes que é o nosso coração, com sinais de fumo, que orienta a nossa rota.

Eu sei Zeca, que o partilhar desse sonho é, também, o sentido do meu caminho. Eu sei Zeca, que o contar dessa história é, também, o vôo da minha gaivota. Eu sei Zeca, que o cantar dessa utopia é, também, parte do meu desafio.

Deixa-me dizer-te Zeca, que o meu conto parte de partes do teu canto. Deixa-me contar-te, que a minha história começa algures nas tuas. Deixa-me cantar-te a canção da minha utopia que, no fundo, rima sempre com a tua.

A força do sonho, o acreditar da utopia, o peso da palavra, a liberdade do canto, são pedras com que construo os redondos vocábulos que, a mim, me levam "lá para os lados do oriente"...


Liliana Lima





"Era um redondo vocábulo
Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar,
Pelos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio,
Congregando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança,
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincando e Laura
Na sala de espera
Inda o ar educa."

"Redondo Vocábulo" - Zeca Afonso
in "Venham mais cinco"

(Se fosse vivo, Zeca faria ontem, dia 2 de Agosto, oitenta anos)

sábado, abril 25, 2009

É noite de Liberdade, Zeca?

É noite de liberdade! Digo-te eu com os olhos cheios de lua!

Sabias que hoje as estrelas dançam livres no céu?
Sabias que hoje os sonhos se libertam e se soltam das camas onde, sonhados, os donos se deitam?
Sabias que hoje as letras se apaixonam e, dançando, formam novas palavras livres?
Sabias que hoje a música se revolta e, fora das pautas, soa mais alto e mais forte?
Sabias que hoje os livros saltam das estantes e as histórias, livres, gritam pelas ruas?

Livremente confesso que, mesmo hoje, é difícil aceitar a diferença que, por ser livre, se afasta de mim...
Livremente confesso que, ainda hoje, me assusto ao perceber outros caminhos tão longe do meu...
Livremente confesso que, só hoje, percebi que para o meu conto ser livre, terá de aceitar outros finais que dele discordam...
É noite de liberdade! E este cravo é a prova que te liberto para que, também eu, seja livre de continuar a acreditar!


Liliana Lima


"Querida Joana:

Como sabes eu estou preso mas também não sou um homem mau. Viste como foi. Não sejas rabujenta e ajuda o Pedro. Se ele estiver birrento lembra-te que ainda é um bebé e tu mais crescida que ele. O que eu não gosto é que sejas egoísta porque é muito feio. Se algumas das tuas amigas querem tudo para elas deixa lá. Elas fazem mal mas tu não. Explica-lhes que não devem ser egoístas. Tem cuidado com os sugos e outras porcarias iguais porque podes ficar sem dentes. Depois, mesmo que os queiras ter já ninguém tos pode pôr. Ficas como os velhinhos. Alguns deles tinham a mania de comer goluseimas, gelados e caramelos. E também chocolates.

Eu lembro-me muito de ti e do Pedro. O Zé ainda não cortou as barbas? Diz à Lena que eu não gosto que ela seja desarrumada. Todos têm de ajudar a mãe e a Dina.

Muitos beijos do
Zeca Pai"
in "José Afonso Textos e Canções"

sexta-feira, março 27, 2009

Ajudas-me a segurar o meu castelo, Zeca?

Pego nas cartas espalhadas pela mesa e empilho-as em forma de castelo. Subo e desço as ameias, espreito pelos muros altos e vejo ao fundo o rio que espelha a cidade.

Oiço uma voz que me faz duvidar que existes. Tapo os ouvidos, suspiro e sem querer faço abanar o castelo onde deposito a minha utopia. A minha cidade desafia a alegria quando vista com atenção por dentro e por fora.

Acrescento mais uma carta, apoio-a na crença de que é possível. Uma gaivota voa sobre as águas e rouba o meu pensamento, deixo cair a carta que segurava e desconfio da estrutura que criei à tua volta.

Aproximo-me mais do castelo, olho-te nos olhos e percebo que devo seguir o meu rumo. Uma brisa leve que vem dos lados do oriente recorda-me a utopia em que acento os meus muros e devolve-me ao castelo onde encontro a minha rota, o meu rio, a minha cidade.

Liliana Lima




"Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo, mas irmão
Capital da alegria

Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
É teu a ti o deves
lança o teu
desafio

Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso, a palavra forte e justa
Homem para quem
nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio, este rumo, esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?"
Utopia de Zeca Afonso in "Como se fora seu filho" (1983)

segunda-feira, outubro 30, 2006

A "Utopia" que Zeca nos ensinou...


Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo mas irmão
Capital da alegria

Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
E teu a ti o deves
lança o teu
desafio

Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente

Este rio este rumo esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?


Utopia - José Afonso
in Como se fora seu filho - 1983