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terça-feira, junho 18, 2019

esta OUTRA margem

Sentei-me na MARGEM, esgotada, enervada e sem forças para continuar. 
Todo o mundo me parecia estar na OUTRA MARGEM. 
Mesmo tu, que sentia tocar-me, estavas lá do OUTRO lado.
As vozes chegavam de longe e a cidade parecia desaparecida.

Com o Tejo a desaguar em mim, ouvi a tua voz.
Com a Lua Nova a esconder-se comigo, senti a tua mão. 
Com o corpo a tremer num turbilhão de sentimentos, reconheci o teu calor.

Levantei-me, esgotada, dESTA MARGEM. 
Olhei à volta e decidi atravessar a ponte para o OUTRO lado e, num só passo, anular as MARGENS.

Liliana Lima 



sábado, abril 13, 2019

MARgens

É cá dentro que continuas a dizer-me bom dia
É cá dentro que me acompanhas na eterna correria
É cá dentro que me visto de ti para me construir a mim

Querias ficar no Tejo, disseste-me um dia
Querias ficar nas águas que tantos anos te banharam
Querias ficar ali

Podem as margens conter-te de uma só vez?
Podem as águas embalar o teu sono de vez?
Posso largar-te sem quebrar os laços que nos juntaram?
E, por consequência, perder-me nas lágrimas que se afundaram?

Quantas vezes choramos um adeus?

Queria deixar-te no Tejo, como pediste um dia
Deixar-te em paz nas águas que tão bem conhecias
Queria deixar-te ali

Se é cá dentro que continuas a florir
Nas receitas
Nas feições
Nos dizeres
Nas graças
Nas roupas
Nos gostos
Nas escolhas
Nas canções
Nos caminhos
Porque pesavas tanto, quando te deixei cair?

Podem as margens conter-te de uma só vez?
Podem as águas embalar o teu sono de vez?
Posso largar-te sem quebrar os laços que nos juntaram?
E, por consequência, perder-me nas lágrimas que se afundaram?

Quantas vezes choramos um adeus?


Liliana Lima




sábado, fevereiro 23, 2019

(des)CONSTRUÇÃO

Do tanto que fomos e construímos
Levo os vestidos, dos dias claros junto ao Tejo
Levo os sonhos, três vezes saídos de mim e embalados a dois
Levo os sapatos, os vermelhos com que bati os calcanhares
E deixo as lágrimas, deixo os pilares que mantêm a casa, que construímos

Do tanto que fomos e construímos
Levo os casacos, de Inverno que lá fora está frio
Levo todos e cada sorriso que partilhámos, à mesa da cozinha
Levo os livros, partes de mim de que não consigo separar-me
E deixo as angústias, deixo arrumada a casa, que construímos

Do tanto que fomos e construímos
Levo o blush, o baton e o rímel preto
Levo a cumplicidade, partilhada numa troca de olhares 
Levo os CD's, da música que se canta dentro e fora de mim
E deixo o silêncio, deixo o desencanto intruso nesta casa, que construímos

Do tanto que fomos e construímos
Levo as plantas que aprendi a cuidar
Levo o carinho servido num tabuleiro, numa manhã de domingo
Levo as malas, umas dentro das outras, as grande e as pequenas
E deixo as discussões, deixo as palavras amargas que ecoam na casa, que construímos

E deixo os quadros e as panelas 
Deixo os sofás e os candeeiros 
Deixo as televisões e os pratos
Deixo as estantes e as fotos nas paredes

Agora que abro a porta para sair
Guardo as noites e os beijos
Guardo os jantares e almoços a dois
Guardo os cheiros e os sabores 
Guardo os recortes e as memórias
Dum amor que nasceu, cresceu e deu frutos 
E, gradual e compassadamente, saiu pelas janelas e desaguou no Tejo 
Que o levou nas suas águas e, tenho a certeza que agora
Agora que abro a porta para saír
"o mar / tem mais peixinhos a nadar"

Liliana Lima



sexta-feira, agosto 10, 2018

os DIAS em que (não) SOMOS

Olho para o jardim 
onde a vida (de)corre dentro 
da normalidade dos dias quentes.

Lá fora uma leve brisa 
faz as folhas das árvores dançar.
Cá dentro uma ventania
despenteia ideias 
e desarruma sentimentos. 

Chegam os dias em que somos,
cada um 
e deixamos de ser 
nós.

Vês o Sol que anuncia  
a sua chegada no alto de cada
alvorada?

Ouves o mar que canta
a morte anunciada na volta 
de cada onda? 

Olho o jardim e sei-te saíndo,
de malas feitas e vontade de silêncio.
fugindo dos dias, cansados, extenuados.

Lá fora o dourado da tarde
pinta a vida que vive no jardim.
Cá dentro um crescente vazio
afoga as palavras nascem em mim.

Vês as estrelas, altas
que te dizem a morada
das histórias em que estou?

Ouves os aviões, rasteiros
que abafam a vida que não há
quando estamos sós?

Chegam os dias em que somos,
cada um 
e deixamos de ser 
nós.

Liliana

 

segunda-feira, abril 10, 2017

GAveTA

Vivemos numa gaveta cada vez mais delimitada. Reservada. Supostamente aberta mas a cada dia mais fechada. Apertada.


Lá dentro, a sós, a música toca sempre certa no rádio que canta tudo o que não vivemos enquanto avisa que a cidade, adormecida, está pronta para nós. 



Cá fora, fora do tempo e da música e da gaveta, com a cidade acordada, trocamos palavras invisíveis sobre sentimentos amordaçados. Cada vez mais limitados às paredes desta gaveta feita cama.



Cá dentro, nesta cama-gaveta cumpre-se a coreografia perfeita, de tantas vezes dançada. O ar é quente e os corpos dão-se sem pudores ou receios. 



Mas sempre que pela fresta aberta entra a luz lá de fora, todo o espaço se preenche com os fantasmas e as feridas e os receios que tingem os silêncios, cortam as horas e consomem o ar.


Estamos numa gaveta cada vez mais delimitada. Eu finjo que não sinto. Tu finges que não sabes. 

Liliana Lima


terça-feira, outubro 11, 2016

pALMA

Aperto o relógio na palma da mão, os minutos demoram horas a passar e a noite avança sem esperar por mim

Espero

Espero dias que parecem infinitos, por entre os destroços das batalhas que travo entre o que quero e o que gostava de querer

Guardo dentro de mim o pó das lágrimas secas à força do vento que eu própria sopro para enfonar as velas de cada partida

Abraço as certezas, ainda que efémeras, ainda que trémulas e sorrio para os ponteiros na esperança de os ver dançar com um tempo que teima em não se encontrar com o meu 

Espero

Espero noites e noites, despida de ilusões, deitada numa cama de rede que baloiça entre o que sou e o que não quero ser 

Procuro dentro da redoma em que me escondo do tempo a chave para dar corda ao relógio de pé que me olha, imóvel, num canto da sala 

Sento-me à beira-rio com as inquietações o mais aquietadas possível e recorto pequenas luas onde desenho números romanos 
Peço ao lado de mim que tenta abafar o outro, que me deixe soltar os ponteiros
Aperto o relógio na palma da mão

E espero


Liliana



quarta-feira, maio 25, 2016

Sil ênc io

Nunca soube ouvir no silêncio,
arranha-se-me o corpo à ausência de sinais
legíveis nos simbolos mudos
desenhados pelos ponteiros do relógio.

Fico muito quieta à espera de ver
aparecer o som que me dirá tudo
o que o silêncio, teimosamente,
esconde dos meus olhos cansados.

Saberá ele o quanto vasculho e procuro,
nas gavetas da secretária,
nas prateleiras do escritório,
até mesmo nos armários da cozinha,
pelo manual que me permitirá
aprender os segredos
da comunicação
na total
ausência
de fonemas?

Nunca soube entender o silêncio,
marca-me a pele esta espera,
por uma palavra não
dita,
por uma resposta não
dada,
por uma explicação não
partilhada.

Desco pela cidade,
sento-me à beira-rio
e desenho letras na água
com os pés descalços.

Olho o silêncio, na outra margem,
que se estende
pelo Tejo
e abraça
Lisboa
num beijo sem som.

Pergunto-lhe se me pode ajudar
e ele
em silêncio
responde
com frases que
não
consigo ouvir,
nem
entender.

Nunca soube ouvir o silêncio.


Liliana


segunda-feira, maio 09, 2016

Aí/qui

Agora que me deito sobre as mágoas e me tapo com as inquietações
Agora que a noite ilumina os medos que apenas mostro ao luar
Agora que deixo de lutar contra as lágrimas que, todo o dia, prendi
Agora que procuro a calma que me falha, num frasco de berlindes arredondados
Agora que me viro de lado e tento pensar apenas em não pensar
Agora que fecho os olhos o oiço dentro de mim todos os sons que pintaram o dia
Agora que me permito zangar e resmungar e até praguejar
Agora que a lua me sussurra que as horas avançam e me pede para a embalar
Agora que não sei como começar o amanhã
Agora que sinto, tanto, tudo o há para sentir
Agora que não vejo como sair daqui
Agora que toda a cidade dorme embalada pela dança do Tejo
Agora que não sei de ti
Agora que me perco em mim
Agora que procuro por nós

Agora

Deitada no Tejo e embalada pelos medos
Pergunto à Lua se sabe de ti
Confesso à cidade que preciso de nós
E penso em voz alta porque estou aqui

Agora

Diz-me a noite que estás aí/qui
Asseguram-me os berlindes que me esperas aí/qui
Prometem-me as mágoas que me queres aí/qui


Liliana Lima


terça-feira, abril 12, 2016

caMinHo

Chega-te a mim e olha o rio comigo. Vês-nos ali, reflectidos nos espelhos reluzentes que o Sol ilumina? O que nós andámos para aqui chegar!
Ainda ontem um sorriso tímido, atrevido, uma palavra mais ousada entre outras tantas tão contidas, cuidadosas. 
Deste conta que aqui chegámos?

Chega-te a mim e dá-me mão, essa mão onde já cabe, perfeito, o meu coração. Espreita comigo pelo buraco da fechadura dos medos. Vês como fomos, um a um, embrulhando os meus na certeza de que o Sol sempre nasce, mesmo depois da mais escura noite de Lua nova? Como vamos desmontando os teus, sempre calados, velados ou disfarçados de falsas certezas?
Ainda ontem um quarto escuro onde as sombras, soltas de cada menino, saltavam à corda com as inseguranças de cada manhã. 
Percebeste que já aqui estamos?

Chega-te a mim e embrulha-me num abraço, daqueles onde me consigo enroscar longe de tudo e de todos menos de nós. Sentes como nos aproximámos muito para lá dos corpos que sempre se souberam um do outro? Como nos apendemos a ler e a reconhecer um no outro sem pudor de nos despirmos depois dos corpos nús, húmidos e amachucados?
Conheces o mapa que nos trouxe até aqui?

Chega-te a mim e olha o meu  rio, ouve a minha cidade e lê a minha Lua.
Sabes de onde viémos e onde estamos?
(não te preocupes com para onde vamos, isso só saberemos depois de aqui vivermos)

Liliana


quinta-feira, março 31, 2016

FanTasMas

Olho em volta, o espaço aberto parece encolher a cada suspiro meu. 

Não estou aqui e não me encontro na outra margem. 
As palavras ecoam no barulho dos carros que param nos sinais, tropeçam nas vozes que falam em segundo plano, escondem-se nas nuvens que brincam no céu azul e mergulham no ondular das águas que se espreguiçam no Tejo.

Estás ao meu lado, deveras. 
Sinto-o quando me tocas as mãos ao de leve para reforçares o que me dizes. Sei-o porque os meus olhos se encontram nos teus e se reveêm no teu carinho. Percebo-o mesmo quando não te mostro o mar que guardo dentro do peito.

Procuro uma ponte para fora de mim, mas a miragem desvanece-se com o vento.
Quanto mais me tento despir das sombras que arrasto, mais me fecho nesta concha que nunca me abandona.

Entro no jardim fechado na e da cidade. 
Aqui sou múltipla, nunca estou só e nem me é permitido sonhá-lo. Procuro-me em cada silhueta, mas perco-me em todas as faces.

Regresso a ti e, em surdina, pergunto por mim.
As palavras esfumam-se por entre os meus medos e espalham-se pelos fantasmas que acordo.

Olho em volta, o espaço aberto em roda de nós parece encolher a cada suspiro meu.

Liliana





"às vezes é no meio de tanta gente, que descubro afinal aquili que sou"
Maria Guinot

domingo, março 06, 2016

tornEIRA

Não abras a torneira que estou a suster a água dentro do peito. 
Não acendas a luz que o espelho olha fixamente para os olhos que não mostro a ninguém para esquecer que os tenho.
Não respondas que falo somente para me ouvir, pintando a verdade de aguarelas que escorrem pelo ralo e não tarda se juntam ao rio.
Não me dês a mão que ela só sabe amparar, e nunca foi amparada.

Que sabor amargo é este que se me cola à garganta e se recusa a ser diluído, pelos mil argumentos, que junto no guarda-joias para os dias de tempestade?

Que tremor é este que me impede até de falar, me embarga a voz e me aperta o peito?

Que tontura dança em mim, rodopiando os meus pensamentos, em volta da sala, do quarto, até mesmo da cama?

Que mágoa é esta que abre rachas mais antigas que o nascer dos tempos, e se confunde com as dores de ontem e multiplica as de hoje?

Que solidão é esta que se senta ao meu lado, por muito que me confortem em abraços ocos do calor de quem sabe ler as entrelinhas?

Que vazio é este que me consome, e devora cada nova alvorada?

Abre a torneira que me afogo na água que trago no peito...
Acende a luz que preciso encontrar no espelho os olhos que a ninguém mostro...
Responde-me que preciso ouvir a verdade para além da que pinto com aguarelas no rio...
Dá-me a mão, devagar, como quem é amparado, para que não perceba que é a tua que me ampara...

Liliana


segunda-feira, janeiro 18, 2016

cAOs

Sento-me no chão da cozinha com a água para a massa a ferver em cacho e a frigideira com o azeite quente à espera da carne. Cá fora nem uma onda a mais no Tejo, nenhum carro a derrapar junto à passadeira, nem uma só criança a chorar pela mãe. Lá dentro um furacão capaz de arasar a cidade e engolir o rio dum só trago.

Sentada no chão da cozinha, com o jantar a chamar por mim, sinto-me perdida entre o que sinto e o que acho que devo sentir. Levanto-me e jogo à apanhada com tudo o que sei que não devia fazer, com todas as palavras que, acho, não devia dizer. Um passo para a frente, um salto para trás e o mundo ao contrário numa sucessão de sentimentos que não consigo controlar e que se espalham à minha volta, na água que ferve e na frigideira quente.

Levanto-me guardando a tempestade num aperto de coração, o mundo cá fora não vê o caos lá dentro. Hesito entre apagar o lume e pôr a massa a cozer, mas o espectáculo não pode parar e os ventos são contidos num novo aperto. Uma leve tontura lembra-me tudo em que, agora, não posso pensar e solta o bater do coração que segue o ritmo frenético interior.

O jantar está pronto e o ritual é cumprido como se um bailado, onde os receios e as inquietações e a dúvida dançam comigo à volta da mesa onde não consigo jantar. Sinto-me perdida entre o ritmo acelerado do coração e a calma aparente com que arrumo a loiça. 

Sento-me no chão da cozinha com os talheres na mão e os pratos arrumados. Cá fora a noite avança tranquilamente com os pijamas e os sacos de água quente e as escovas de dentes. Lá dentro um rufar de tambores descompassados .

O tempo segue o seu rumo, indiferente às minhas dúvidas, e de novo uma tontura que me pede para soltar as emoções que não sei dizer. Procuro as palavras para descrever o que sinto sem espelhar os destroços do marmorto. Não sei o que fazer, mas sei que não posso soltar os ventos que aperto lá dentro, sob pena de deitar por terra as construções que erguemos cá fora.

Sentada no chão da cozinha, com o silêncio do luar que entra pela janela, meço os adjectivos e conto os verbos. Sinto-me perdida entre o que sou lá dentro e o que acho que devo ser cá fora. Digo-me com muito cuidado e espero que me acolhas com todo o carinho.


Liliana


sábado, janeiro 16, 2016

aVÔ

Não sei onde estás. 
Pergunto-me todas as semanas, onde será que descansas? 

Questiono-me vezes sem fim... 

Será que olhas por mim nas noites brancas que partilho com os meus fantasmas? 
Conhecer-me-ás os passos nesta cidade que me acolhe e me oprime numa história de amor à beira-rio, vivida de costas para Lisboa? 
Saberás dos meus medos ao apagar a luz do corredor que acaba no meu quarto? 
Ouvir-me-ás cantar, ainda e sempre a cantar, as tardes de domingo passadas na cozinha no meio de tantas receitas que não poderias comer, mesmo se ao meu lado? 
Reconhecer-me-ás nas palavras que escrevo, nesta história que embalo, conto e reconto em mil e uma formas que vou baptizando com mil e um nomes?
Encontrar-me-ás neste caminho tão comprido, nesta viagem tão longa e, decerto, tão distante do que sonhaste, um dia, para mim?

Rever-te-ás nos pequenos nadas, tudos enfim, em que no dia-a-dia te trago comigo?
Nos tamanhos das minhas saias, nunca muito acima do joelho...
No arroz, quase sempre presente na mesa de jantar...
No sorriso espontâneo ao ouvir, por exemplo, o Variações...
Na vontade de paz a acompanhar o almoço....
Nas torradas partilhadas com os meus (será que me reconheces neles?) a fazer lembrar os nossos lanches....
Nos dedos, livres há tantos anos, que eternamente procuram o cigarro...
No gozo de estar com outros, comer com muitos, em casa de preferência....
No fado, o de Coimbra, trauteado com saudades de ti....

Não sei onde estás. 
Pergunto-me todas as semanas, onde será que descansas?

Será que sabes que escrevo, tantas vezes de ti e para ti?
Será que viste que tive filhos, homens que tanto querias?
Será que leste o livro que escrevi?
Será que me viste plantar um pinheiro para ti?
Será que já me cumpri?
Será que um dia me deixas ir até ti?

Não sei onde estás.
Sei que ficaste sempre comigo, aqui.


Liliana


quinta-feira, janeiro 07, 2016

reFLEXO

Nem sempre é claro o dia que nasce na janela do meu quarto 
Nem sempre é claro 
Nem sempre me vejo inteira no reflexo matinal do espelho húmido da casa-de-banho
Nem sempre me vejo

Quando saio com o miúdo pela mão, correndo contra os ponteiros do relógio, nem sempre reconheço os meus passos no chão da calçada por entre o jardim 
Nem sempre reconheço 
E mais tarde, novamente apressada, novamente atrasada, nem sempre me sinto completa na agenda que a tarde preparou para mim
Nem sempre me sinto 

Quando o vento está de feição e a maré permite o atracar no cais, procuro no rio a verdade de cada momento, traduzida na imagem que me devolve do mundo que eu, assim à primeira vista, não consigo entender
Com a cidade às costas e o tempo contado, medido, repartido, tão mais pelas obrigações do que pelas paixões, peço ao Tejo que me diga do sentido do dia que passa 

Mas as águas, ainda que mansas, nem sempre espelham as respostas que procuro 
Nem sempre espelham

Liliana 


quinta-feira, dezembro 10, 2015

pRoMeSsA

Abro a janela, alta, sob o céu baço de Lisboa. Ao fundo uma promessa de Tejo fala-me de ti. Há dias em que o longe que estamos se torna tão mais longínquo do que a distância que nos divide.

Há uma gaivota pousada em cima da chaminé do telhado em frente. Há uma mágoa que se estende por cima da ponte e apaga o rio. E há um choro, ou um canto, de mar fora do mar. E há uma gaivota que canta o meu inquieto olhar.

Abro a janela, alta, e atiro ao vento as palavras que não quero ouvir. Procuro as marcas dos dias claros e pinto o mapa das nossas Primaveras. É sempre mais difícil encontrar o teu norte quando o céu se veste de cinza.

Há uma chaminé e muitos telhados à minha frente. Há ruas e pessoas e carros, que passam, alheios a mim. E há uma promessa dum Tejo, ao fundo, que se esconde de mim.

E há uma gaivota que canta o meu inquieto olhar.


Liliana


quinta-feira, novembro 26, 2015

PRiMeiRo DiReiTo

Espreitei à janela, na correria do fim de tarde 
Corriam as compras, agasalhavam-se os sinais e esperava-se pelas crianças 

As luzes deste Novembro tão avançado já teimam em cheirar a Natal
Mas as lembranças desta manhã vestem-se de Primavera 

Espreitei à janela à procura dum tempo que só existe em mim

E encontrei, no pedacinho de céu que deste primeiro direito avisto, o caminho para um nós que em mim alimento

Mandei-te um beijo embrulhado no luar
E, por entre os carros apressados, e os jantares atrasados, e os abraços adiados, 
Encarreguei a Lua de to entregar

Espreitei pela janela para o bocadinho de céu que deste primeiro direito avisto
E perguntei à Lua se um beijo teu me traria 

Liliana

terça-feira, novembro 10, 2015

L. U. A.

Sorrio com a luz parda do fim-do-dia e pinto a minha história com uma aguarela encantada. Olho a cidade beijada pelo Tejo e peço-lhe emprestados os acobreados que a abraçam. 

É tão bonita a vida vista do alto do meu sorriso! 

Procuro o espelho em forma de coração que guardo na mala, e penteio o teu carinho com as mãos. Todos os teus gestos ganham um brilho novo quando olhados com um sorriso. Escolho as palavras em que te quero ouvir e mergulho tudo o resto no rio. 

É tão macio o tempo que passa sorrindo! 

Dispo-me muito devagar, ao ritmo do cair do Sol, e procuro o calor do teu abraço. Lisboa espera, ansiosa, que a Lua se levante e a cubra com o seu olhar velado com que sorri para mim. 

É tão sensual o respirar da cidade nas noites em que sorrimos! 

Fecho a janela do quarto e deixo-me embalar no teu sorriso quente. O teu corpo envolve o meu no ondular prateado do Tejo e a cidade afasta-se para não nos incomodar. 

É tão real o amor que fazemos quando a Lua sorri! 


Liliana 






terça-feira, julho 21, 2015

Mornas

Nas noites mornas de Verão, o Sol dança com o horizonte numa tela de laranjas-rosadas, e a Lua acende os teus olhos.
Ainda que por breves momentos.
Iluminas com um só olhar o tanto que guardo no cesto das aguarelas por pintar.
O luar espreita timidamente pelo véu da noite recém-pintada e sorri para a mão que apertas em volta da minha, que se torna, de repente, o centro do meu centro nevrálgico.

O tempo, que agora dança com as estrelas, avança num ritmo mais lento que o ritmo certo e diz-me do teu tempo, que corre atrás das horas mas que, agora, páras só para mim.

O rio embala os sonhos que, nos teus lábios nos meus, se tornam súbita e urgentemente reais. O teu calor no calor morno da noite aquece as vontades que acordam desalinhadas com a corrente.

No teu corpo o meu corpo floresce. Aqui já não sei do cesto das aguarelas por pintar. Todas as formas são delicadamente desenhadas pelos dedos que num arrepio húmido forçam o respirar e soltam a energia embriagante apaga todas as sombras.

Nas noites mornas de Verão.
Os sonhos no meu centro nevrálgico.
Ainda que por breves momentos páras o teu tempo só para mim.
Com um só olhar, as formas delicadamente desenhadas. 
A tua mão no meu corpo que floresce. 
Os dedos num arrepio húmido que espreita timidamente pelo véu da noite...


Liliana

terça-feira, julho 07, 2015

pôr DO tempo

O dia seguinte (há sempre um dia seguinte) correu descompassado pelas horas que se atropelavam nos minutos que se atrasavam. 

O relógio onde a engrenagem rodava sem rodar e uma mão cheia de areia sem espaço para descansar, com um. A ampulheta que se virava sem nada correr e os ponteiros cansados de tanto esperar, com outro.

Combinaram encontrar-se junto ao Tejo, ao pôr do sol, com a cidade como moldura e um abraço como promessa.

À medida que sol se aproximou do rio, assim o relógio se inquietou com a impossibilidade de marcar a hora combinada. Com o céu a corar e o rio a brilhar, o tempo avançou sem forma da ampulheta o contar. Foram andando pelas estradas, percorrendo os caminhos, resolvendo os desafios que se colocavam entre eles e a hora a que cada um previa o pôr do sol. 

Sem ponteiros ou areia, avançar nas horas tornou-se numa navegação à vista, sem vela nem remos. Um correndo pelas docas e o outro sentado a meio da rosa dos ventos. 

Os minutos certos, aqueles certinhos em que lhes tinham prometido que o sol beijaria o Tejo, chegaram alternados a cada um. E o sol, esse, abrandou teimosamente, baralhando horários e convenções e previsões. Abraçando o Tejo esperou que a hora certa, a deles, se encontrasse na correria das horas marcadas. 

Acertaram os ponteiros e guardaram a areia, ao ritmo inquieto de quem não quer saber quanto demora o tempo, fora do tempo, de um abraço.

Liliana


domingo, julho 05, 2015

AReia do TEMpo

Levantou-se vagarosamente, vestindo apenas o tempo que teimava em enrolar à sua volta. A caminho da casa de banho agarrava os minutos para não saírem do quarto.
Voltou com as mão molhadas, deitou-se novamente na cama e, com os ponteiros do seu relógio assentes na cabeceira, deixou o corpo embarcar na valsa dos dois que em um se tornaram.

No tempo fora do tempo, os telefones tocavam ao longe quase em surdina, e a cidade, cúmplice, abafava as ansiedades. 

Com o crescer do quarto, da lua, assim crescia a areia no lado de cima da ampulheta. Ao chegar ao limite, por fim, pé-ante-pé, pedindo licença às roupas perdidas por aqui e aos sapatos desemparelhados por ali, deixava saltar o primeiro ponteiro, cair o segundo grão, avançar o terceiro número. 

Aos poucos, o prédio, a rua, o bairro, toda a cidade acordava com/por eles deixando espreguiçar os sons que em silêncios os embrulharam nas horas anteriores.

Levantaram-se vagarosamente, deixando cair o manto que os abraçava nos dias que em noites tornavam. Lavaram os rostos e vestiram as roupas com que tinham chegado, agora estranhas aos corpos ainda trocados.

Lá fora um mundo por redescobrir à luz da lua, sua, num tempo que lhes fugia e antecipava os movimentos.

Separaram-se "como sempre, como antes", embora com a candura do primeiro beijo. Seguiram cada um pelo seu caminho acertando-se, aos poucos, com o relógio do mundo.

Sentou-se vagarosamente na cama, despiu-se sem pudores soltando a roupa por aqui e os sapatos por ali. Pela janela crescente espreitava a lua que iluminava o seu relógio sem ponteiros. Procurou-os nos bolsos, e enquanto sorria pensando onde os tinha deixado, encontrou a ampulheta, sem areia.

Liliana