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domingo, janeiro 28, 2018

QUADRAnte

Porque me vieste buscar, boneca de trapos vestida para teu bel prazer
Se não queres coser os remendos? 

Porque me vieste buscar, relógio avariado, adiantado ou atrasado, quase nunca acertado com o teu
Sem a disponibilidade de calibrar os ponteiros e olear a engrenagem?

Porque que me vieste buscar, vela enfonada pelos ventos do oriente 
Se não trazes contigo o quadrante?

Porquê?

Porque me dizes que queres uma paz que não sabes(emos) construir?
Querêla-às de facto?
Existirà sequer?

Porquê?
Diz-me. 
Tu. 
Que me vieste buscar...


Liliana
  


Museu da Electricidade

segunda-feira, setembro 05, 2016

MeRiDiAnO

Sem margem de erro, a minha rota leva-me sempre ao meridiano de mim mesma. Esta linha colorida que dança entre o cinza e o rosa que sou e me mergulha numa maré inconstante. A linha imaginária que liga a figura imaginada de mim e do seu contrário, que afinal também sou. 

Podia jurar que quando me lanço ao mar levo a bússola e a rota delineada nas cores mais claras de mim. E de repente uma derrapagem vinda do nada, ou do tudo que se escondia no fundo do mar... 

Podia jurar que ao sair levo os sapatinhos vermelhos bem aconchegados aos pés. Mas uns passos mais apressados e uma "pedra no meio do caminho", uns dias inesperada, outros dias tão previsível...

Podia jurar que sempre a vontade de me conter, de me calar, de me acalmar. Mas no lado de lá do espelho, eu, ou o contrário, a chorar, a gritar, a resmungar... 

Sem margem de erro a minha rota leva-me sempre ao meridiano de mim mesma. Semi-círculo que me circunda nestes dois tons com que me pinto, rosa e cinza. Fé e medo. Paixão e frieza. Linha nascida numa corrente inquieta, que nasce e desagua dentro do meu peito, e me percorre o corpo, alterando-me a corrente sanguínea à força das vontades duma força que desconheço. 

Liliana 


terça-feira, julho 07, 2015

pôr DO tempo

O dia seguinte (há sempre um dia seguinte) correu descompassado pelas horas que se atropelavam nos minutos que se atrasavam. 

O relógio onde a engrenagem rodava sem rodar e uma mão cheia de areia sem espaço para descansar, com um. A ampulheta que se virava sem nada correr e os ponteiros cansados de tanto esperar, com outro.

Combinaram encontrar-se junto ao Tejo, ao pôr do sol, com a cidade como moldura e um abraço como promessa.

À medida que sol se aproximou do rio, assim o relógio se inquietou com a impossibilidade de marcar a hora combinada. Com o céu a corar e o rio a brilhar, o tempo avançou sem forma da ampulheta o contar. Foram andando pelas estradas, percorrendo os caminhos, resolvendo os desafios que se colocavam entre eles e a hora a que cada um previa o pôr do sol. 

Sem ponteiros ou areia, avançar nas horas tornou-se numa navegação à vista, sem vela nem remos. Um correndo pelas docas e o outro sentado a meio da rosa dos ventos. 

Os minutos certos, aqueles certinhos em que lhes tinham prometido que o sol beijaria o Tejo, chegaram alternados a cada um. E o sol, esse, abrandou teimosamente, baralhando horários e convenções e previsões. Abraçando o Tejo esperou que a hora certa, a deles, se encontrasse na correria das horas marcadas. 

Acertaram os ponteiros e guardaram a areia, ao ritmo inquieto de quem não quer saber quanto demora o tempo, fora do tempo, de um abraço.

Liliana


quinta-feira, fevereiro 02, 2012

Da urgência de seguir

Sigo, com a rosa-dos-ventos mal colocada e os pontos cardeais trocados. Avanço. Não sei se para Norte se para Sul, mas sei que não paro não baixo os braços não me deixo ficar.

Há uma urgência em mim que me pede para continuar, ainda que o escuro das noites de Lua nova me envolva os sentidos e me tolde a visão. Avanço apesar das ondas, contra as minhas expectativas, sem remos nem vela.

Que vontade me faz andar, sem mapa nem bússola?
Que destino procuro, sem querer saber dos caminhos, cruzamentos ou desvios?
Em que rio navego sem me preocupar com os baixios ou marés?

Onde vou?
Onde quero ir?

Saberei, sequer, se existe essa ilha que projecto numa tela feita vida, que uso depois como pano de fundo do meu dia-a-dia?

Sigo, iluminada por uma Lua que não se deixa fotografar...
Sigo, rasgando os mapas e despindo as convenções...
Sigo, apesar da rosa, dos ventos, das marés, das ruas e estradas, dos rios e oceanos...

Sigo.

Passo a passo vou fazendo este caminho, desenhado pelas estrelas e orientado pelo sonho.

Continuo porque sou.

Liliana