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quinta-feira, agosto 30, 2018

REdoMA

Estou presa numa redoma que tinge o mundo dum tom esverdeado 
Estou dentro duma casa que se vira do avesso como uma onda que embate no paredão e muda os sentidos e me deixa em contra mão
Sinto uma força de ciclone que me arranca de onde estou e me abandona num mundo sem coração com um colete apertado de lata e um monte de palha no avental
Estou presa numa órbita muito para além da Lua, que me aproxima ou afasta duma terra onde não encontro lugar
Baloiço na corda que me devia equilibrar, mas que não pára e nunca me deixa levantar
Vou de barco sem mastro nem velas nem estrelas para me guiar, vou apesar do medo de nunca saber se, algum dia vou chegar
Tenho a chuva toda da Terra agarrada aos olhos que, cansados, me pedem para simplesmente a soltar
Construí um muro feito de legos para me proteger do sismo que sinto cá dentro e que, só pode vir de fora, seja do ontem ou do agora
Decidi que não posso pedir desculpa a cada hora por actos ou omissões que me vejo fazer como uma marioneta nas mãos de um qualquer alguém 
Estou presa numa redoma que, com a água da chuva, tinge o mundo dum tom esverdeado 
Vivo numa casa ao contrário que me enjoa e desalinha
Aperto com força, tanta força, este tornado que vive em mim e que acredito capaz de destruir até a muralha mais longa
Vejo a Lua numa dança elíptica e com ela aprendo a nascer e a morrer em volta da mesma terra
Não me ponho em pé com medo dos solavancos com que a vida me embala
Navego pelos oceanos num barco de papel feito das muitas linhas que escrevo e acabo por riscar
Construo castelos de areia, mil e uma vezes levados pelo mar
E peço desculpa por tudo o que digo mesmo depois de avisar que o guião que se me cola à pele, poderia magoar
Estou presa numa redoma
Estrou presa dentro de mim

Liliana Lima


segunda-feira, junho 06, 2016

Lou.Cura

Olho através do espelho redondo com uma pega trabalhada em prata e procuro a minha loucura dentro dum chapéu. Os ponteiros lembram-me que as horas fogem de mim e saio com o miúdo pela mão, saltitando pelo jardim de relógio em punho. 

As minhas lutas jogam-se num tabuleiro de xadrez interno, onde as regras seguem as vontades voláteis duma rainha que, em mim, grita tão alto que quase deixo de ouvir o mundo fora do espelho. 

Sento-me comigo, numa dimensão multi-temporal, e bebo chá com as loucuras passadas enquanto invento novos chapéus para as que estão por vir. 

Sei há muito que o impossível é a desculpa que nos contamos, embrulhada num bolinho que nos faz diminuir, ao mesmo tempo que nos enroscamos num canto duma toca onde na verdade acabamos por cair.

O lado de lá(?) espelha o teu sorriso tranquilo, de quem nunca sentiu o cheiro da cola com que se faz um chapéu. Serás capaz de te sentar nesta mesa coberta de toda a loucura que, à hora do chá, se senta comigo? 

Apareço e esfumo-me à força das verdades que, de sorriso esvoassante, atiro ao ar em forma de borboletas azuis. Será que me sentes, enrolada no teu pescoço, sussurrando que o caminho que escolhes é indiferente enquanto não souberes para onde queres ir? Conseguirás dar-me a mão e acompanhar-me nesta aventura de loucuras guardadas em castelos de cartas?

O lado de lá(?) espelha os chapéus que guardo em cima do roupeiro. Nunca saio com eles, mas teimo em coleccioná-los, embrulhados em papel de seda ou fechados em caixas redondas de cartão. 

No lado de fora da janela voa uma borboleta azul e o relógio canta que são horas de sair. Guardo as cartas na caixa de madeira com um coração vermelho, apago o cachimbo que envolve de fumo a mesa do chá e desapareço por entre a loucura dos dias.

Olho através do espelho redondo com uma pega trabalhada em prata e vejo-te aproximar de chapéu na cabeça.

Liliana



sexta-feira, dezembro 19, 2014

PlaTeia

Estou aqui,
                    no centro do palco,
onde a plateia se confunde com as personagens.

Estou.

Entrei agora e sei que aqui tenho de ficar,
no meio duma peça sem guião
na qual não quero entrar.

Estou mas não sou.

Não me confundo com o cenário,
não gosto do guarda-roupa
e
não conheço as minhas deixas.

Aqui.

Olho à minha volta,
enrolo-me nos joelhos e
embalo-me
com as minhas queixas.

Estou.

Procuro uma imagem real
nas caras
com que me quero identificar.
Mas os olhos que me tocam são
puros,
só eu preciso de me mascarar.

Afinal.

Sou a plateia e a actriz
que desempenha o seu papel real,
numa peça
onde se confundem
o medo
a insegurança
e o surreal.


Liliana


quinta-feira, agosto 07, 2014

praia

Não me lembro de algum dia ter ido à praia sozinha, tirando esta tarde de Agosto envergonhado em que decidi, à falta de companhia, dar-me esse tempo só para mim.

O caminhar ao sol sem ninguém que salta à minha volta, o percorrer do trilho de madeira até ao cimo da arriba sem tropeções nem escorregadelas, o descer as escadas por entre as dunas de areia amarela sem zangas nem gritos nem a palavra "MÃE" gasta rebolando até à beira-mar...

Pensamentos e imagens que me acompanharam à praia e com os quais conversei até aceitar, não só a sensatez como a legitimidade de usar comigo este tempo.

Olho à minha volta e não oiço nada para além do mar que em segredo me chama, na espuma que dança o tango com as ondas e se deleita na areia para, com elas, voltar ao turbilhão da corrente.

Sou eu só, ali na areia quente para quem não tenho de me esconder nem aprimorar nem mascarar. Sensação esquisita esta de ser por completo. Pergunto-me se algum dia me sentirei assim, livre, entre as dunas das pessoas. E, com o vento a bater na minha toalha a bater em mim, vem-me à memória um outro mundo também de mares e de colinas e de ondas em espuma e de corpos deitados sobre a toalha-lençol, onde também aí dispo as máscaras e convenções, saio do esconderijo perco o medo e, sim, sou eu somente que me entrego.

Deito-me neste colchão de areia que espera por mim. Abro o livro, companheiros fieis de todas as caminhadas, e converso com Cesariny. Conversa difícil de iniciar, referências não muito distantes mas estilos longínquos e palavras desconexas que me baralham, 

não percebo que queres dizer...

e ele altivo divertido distraído

não percebes? Nem eu mas também não faz mal 
a salvação dos homens cães não passa por aí. 
Ou passará? 
           Talvez tenha passado 
                             no eléctrico que avisa a manhã.
Mas não, os homens cães estripados, apodrecidos 
nas bermas sujas desta
 cidade         imunda          navio 
podre sem carga a borrar o cais com as porcarias 
obscenas dos senhores foices
Mas tu, meu amor, para sempre bela...

Passo as apresentações mais abstractas e aqui e ali começo a perceber o fio à meada que tem nós e avanços e recuos mas nos liga (diria que a todos) naquilo que é a essência da arte poética "ter pessoas dentro" (roubei a um amigo, se ele se queixar logo se muda).

Cansa-me no entanto a conversa, onde só eu pareço esforçar-me para manter um certo fio condutor de lucidez. Despeço-me, voltarei a ti mais tarde, e troco o livro pelo horizonte límpido azul brilhante fresco do mar, que tento tocar numa carícia feita abraço feita olhar feita mergulho. Dura pouco no entanto este embalo. 

O vento chama lá de cima da encosta e as horas, inquietas, segredam-me que os papeis deixados em banho-maria precisam de ser novamente inventados e recriados para o pôr-do-Sol. Visto a saia preta que se levanta com o vento e a blusa branca com um coração, arrumo no cesto Cesariny e o livro e a toalha e estas duas horas sozinha na praia. A subida é íngreme e comprida até ao trilho de madeira que ainda me leva ao caminho até casa.

Vejo o mar a encolher e a areia marela ao fundo e vejo-me a mim também, subindo a arriba. Muito devagar vou vestindo os tropeções as escorregaldelas as zangas e os gritos. Dobrada com muito cuidado em cima do banco já de cimento já na estrada, a palavra "MÃE" que leio devagar e com todo o carinho de mãe até interiorizar o seu infinito significado.

Não me lembro de algum dia ter ido à praia sozinha, mas não faz mal. Quantos de vós já teve o privilégio de conversar descontraidamente na toalha de praia abanada pelo vento durante duas horas banhadas pelo cheiro e canto do mar com Cesariny?!?!

Liliana

quinta-feira, novembro 07, 2013

Loucura



Sou filha da loucura e da insanidade

e com elas me perdi no fundo da minha verdade

Sou filha da loucura e da insanidade

fogo que guardo em mim até à eternidade



Da loucura ficou a mágoa,

cavalo correndo sem fim

numa pista amarga e solitária,

sem ventos, moinhos ou lembranças de mim



Da loucura resta esta chave,

que escondo com medo que abra

a mala de ferro, que tapo

para que de dela não salte a verdade



Mas nem tudo foi só tristeza,

pois é complexa a nossa essência

Da dualidade vivida, nasceu o terror

de perder a visão da resistência

travada com violência e rancor,

contra as formas falsas da aparência



A insanidade jogou as cartas trocadas

e no tabuleiro viciado deixou desnudadas

a verdade e a mentira que foram violadas



O preço do jogo foi de tamanha quantia

que a alma vendida, jamais, algum dia

se virou contra a voz que lhe dizia

não ser verdade o que via, apenas o que dela ouvia



E na manta de retalhos escrevi

nada do que vivi ou senti,

pois ainda hoje oiço a voz que me diz

ser mentira o que penso que fiz



Sou filha da loucura e da insanidade

e com elas, um dia, avistarei a tranquilidade.



 

                                                                       Liliana
Abril 2005 


quarta-feira, outubro 24, 2012

Vamos lá Geni!

Agora vou tomar um calmante, vestir um sorriso e servir o jantar. Disse ela em frente ao espelho, mal iluminado e já descascado como o tronco duma velha árvore, da casa de banho.

Não era a primeira vez que se vestia de alegria, de paz, de confiança, de fé apenas para embalar os outros numa dança onde cada passo era cautelosamente conduzido por ela mesma.

Ali, em frente ao espelho que tão bem a conhecia que já não a conseguia enganar, procurava a força para se despir de si e enfeitar-se com os restos dum mundo que desde cedo lhe mostrara a face estranha de palhaço pobre.

Abriu o pequeno frasquinho com comprimidos cor-de-rosa e tirou um que engoliu sem água e sem cerimónia. Suspirou fundo, tão fundo que, a casa de banho com loiças antigas e um poliban de canto, quase ficou sem ar. Abanou a cabeça, penteou o cabelo e tentou até sorrir ao espelho que se recusava a reflectir uma falsa imagem.

Abriu a porta decidida e dirigiu-se à sala onde o mundo ficara suspenso à sua espera. Entrou, fez uma festa ao filho mais novo e, com um sorriso, serviu o jantar.

Liliana




De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina
Atrás do tanque, no mato
É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato
E também vai amiúde
Co'os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir
Joga pedra na Geni
Joga pedra na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante
Um enorme zepelim
Pairou sobre os edifícios
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo - Mudei de idéia
- Quando vi nesta cidade
- Tanto horror e iniqüidade
- Resolvi tudo explodir
- Mas posso evitar o drama
- Se aquela formosa dama
- Esta noite me servir

Essa dama era Geni
Mas não pode ser Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Mas de fato, logo ela
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro
O guerreiro tão vistoso
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro
Acontece que a donzela
- e isso era segredo dela
Também tinha seus caprichos
E a deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão
Vai com ele, vai Geni
Vai com ele, vai Geni
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um
Bendita Geni

Foram tantos os pedidos
Tão sinceros, tão sentidos
Que ela dominou seu asco
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco
Ele fez tanta sujeira
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir
Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni


Chico Buarque/1977-1978
Para a peça Ópera do malandro, de Chico Buarque

http://www.youtube.com/watch?v=jsB--twZgng&feature

terça-feira, julho 13, 2010

Vamos brincar com as nuvens, Gilberto?

Veio numa nuvem colorida. Quando pousou ninguém sabia se traria bom ou mau agoiro. A figura alta e pouco definida deixava espaço para todas as leituras, para quaisquer projecções. Em pouco tempo toda a aldeia se viu envolvida naquele laranja-amarelado que desfigurava as árvores e iluminava até os mais recônditos esconderijos.
As crianças juntaram-se na praça, em frente à nuvem, deslumbradas com aquela visão tão estranha e poderosa, capaz de fazer entrar em casa todos os adultos, por maiores, fortes e resmungões que fossem. Na verdade, para eles a aparição era claramente algo de bom, pois viera do céu e enchera a aldeia de cor e, por isso, brincavam com as suas sombras formando imagens novas e criando cenários impensáveis.
A figura dentro da nuvem laranja-amarelada parecia brincar com eles. Girava e dançava no ar ao ritmo das correrias e cantilenas infantis que os pequenos gritavam. Não disse nem uma palavra durante todo o tempo em que ali esteve, mas partilhou um sentimento que se expressou numa narrativa conjunta, uma espécie de peça de teatro improvisada no meio de uma história que se escrevia com as palavras indizíveis de cada um.
O sol brilhou enquanto assistiu a todo o espectáculo que se desenrolava na praça da pequena aldeia. Já os adultos, fechados em casa, projectavam todos os medos que cabiam dentro de uma nuvem vinda do céu com uma figura alta e pouco definida.
Quando o sol finalmente se encostou à linha do horizonte, a nuvem laranja-amarelada desapareceu no céu com a mesma imprevisibilidade com que tinha aparecido naquela manhã. As crianças, exaustas da brincadeira, voltaram a casa enquanto os adultos, ainda desconfiados, se atreviam vagarosamente a sair e espreitar a rua.
Nada disseram as crianças do que se passara ou sobre o que era aquele ser, por mais que pais, tios e avós tentassem saber. Tudo o que se disse e contou pelas aldeias vizinhas foram meras conjecturas criadas por quem não teve a ousadia, a coragem para sair à rua e experimentar a novidade, a diferença, o inesperado...
Liliana



"A novidade veio dar à praia
Na qualidade rara de sereia
Metade o busto de uma deusa Maia
Metade um grande rabo de baleia

A novidade era o máximo
Do paradoxo estendido na areia
Alguns a desejar seus beijos de deusa
Outros a desejar seu rabo pra ceia

Ó mundo tão desigual
Tudo é tão desigual
De um lado este carnaval
De outro a fome total

E a novidade que seria um sonho
O milagre risonho da sereia
Virava um pesadelo tão medonho
Ali naquela praia, ali na areia

A novidade era a guerra
Entre o feliz poeta e o esfomeado
Estraçalhando uma sereia bonita
Despedaçando o sonho pra cada lado"
"A novidade" de Gilberto Gil

segunda-feira, março 08, 2010

Vem comigo no carrossel, Alice...

O cavalo dourado e rosa arranca devagar, balançando aos poucos até ganhar velocidade e fazer a primeira volta completa. O mundo inteiro roda à minha volta subindo e descendo conforme a música das ruas e das pessoas e dos carros, tudo parece mágico, mais rápido e menos pesado.

Salto para a carruagem amarela e desfruto da paisagem que muda com o meu humor. As árvores ao fundo acompanham o compasso, e dizem-me adeus com os ramos molhados pela chuva que não me conseguiu apanhar.

Penduro-me no varão às riscas e espanto-me com as luzes que deixam um rasto colorido com que invento histórias escritas no céu. A lua corre entre os quartos tentando apanhar-me no crescente e perdendo-me no minguante. As estrelas olham-me divertidas, só elas conseguem acompanhar-me nesta corrida.

Vejo-te aparecer e logo te perco de vista, que dizias?! Já estou longe e aqui a paisagem parece correr na direcção contrária, fugindo do dia que começa a nascer lá ao fundo. O sol aquece-me com raios longos que me abraçam nos saltos do cavalo prateado. Giro em torno dele e acabo por o deitar mais cedo numa planície verde que abandono para mais uma volta.

Encontro-te novamente, pareces confuso, aceno-te, chamo-te, não sei se me viste... A carruagem onde me sento sobe e desce em pequenos solavancos que me arastam para mais longe até chegar novamente à noite. Procuro a lua mas não a encontro no céu, cheio de cartazes e luzes e prédios, da cidade. Os carros correm ao meu lado, estranhando o cavalo dourado e rosa que se endireita vaidoso e acelera o passo.

Rodo em torno de ti, no meio de frases mal misturadas e palavras que não percebo. A música baralha a conversa e a velocidade aproxima as interrogações que sobem e descem no pónei azul à minha frente. Não te consigo ouvir nem sei se me consegues ver.

Avanço para mais um nascer do sol e pergunto-me em que volta conseguirás saltar, agarrar o varão às riscas, subir para o cavalo prateado e seguir viagem ao meu lado neste carrossel colorido.


Liliana


"-Achas que estou a enlouquecer?
- Acho, estás completamente passada. Mas deixa-me dizer-te um segredo, todas as pessoas boas são loucas!"
Diálogo entre Alice e o pai e mais tarde entre o Chapeleiro e Alice
do filme "Alice no País das Maravilhas" de Tim Burton

sexta-feira, julho 03, 2009

Conversas de loucos Álvaro, conversas de loucos...

- Se tens poderes mágicos, esta é uma boa ocasião para os usares...

Eles estava visivelmente aflito. Tinha nos olhos a inquietação de quem não sabe mais o que fazer, os lábios rígidos e apertados um contra o outro e as mãos húmidas e hesitantes, em voos rasantes entre os bolsos, o peito e os cabelos.

- Mágicos? Disse eu calmamente, sem dar grande importância à sua urgência. De que serviria a minha magia se não acreditas nela?!

- Que importa se acredito ou não? Neste momento até podia aparecer o Pai Natal!

- Pois é, mas as coisas não funcionam assim. Primeiro é preciso acreditar... já to disse vezes sem conta, tu é que não quiseste ouvir. Mas ouve lá, queres explicar o que se passa contigo?

- O que se passa comigo? Comigo? O que se passa, não é comigo, nem é contigo, passa-se no mundo e por isso é com todos! É COM TODOS, entendes?!

Neste momento as sobrancelhas dele estavam enrugadas como as pregas daqueles cães do anúncio das lavandarias, e gesticulava fortemente como se chamasse alguém no meio de muita gente, na praia por exemplo.

- Certo, certo, tens razão. Desculpa. Estava aqui perdida nos meus pensamentos e não te dei a devida atenção. Voltemos ao início então. Explica-me melhor o que se passa no mundo, porque acho que não percebi.

- O mundo avançou depressa demais, senti-o mesmo agora, antes de me levantar, não sentiste tu? assim uma espécie de rodopio forte que abanou tudo, estava deitado e tenho a certeza que vi tudo envelhecer num ápice, assim como num filme que se faz avançar e se vê tudo a andar a grande velocidade, sei bem do que estou a falar, o mundo avançou depressa demais e agora nunca mais conseguiremos apanhar a realidade... estamos assim numa espécie de quinta dimensão, o tempo passou por nós sem nos termos dado conta e o problema é que não faço ideia nenhuma do tamanho do salto em termos quantitativos, quer dizer podem ter passado uns minutos como meses ou até anos... percebes a dimensão do problema?!?!

Falava ininterruptamente, quase sem respirar, acompanhando o discurso com gestos cada vez mais expressivos. Ele próprio parecia avançar mais depressa que o tempo na pequena cozinha, onde eu continuava tranquilamente a preparar o pequeno-almoço, eu sim, numa dimensão diferente da dele.

- Isso está tudo muito bem, mas ainda não percebi afinal para que queres a minha magia.

- Para que quero?! Que achas? Para fazer recuar o tempo, o tempo que passou sem dar tempo para o vivermos! O tempo que avançou sem pedir licença! Ora bolas! Para que havia de ser... Dizes vezes sem conta que és uma feiticeira, que és bruxa, que isto e que aquilo...

- Certo... Digo-o varias vezes, mas no sentido figurado, entendes? No sentido figurado. Fala-me mais sobre o tempo, como tens tanta certeza que não foi apenas uma tontura?

A esta altura ele olhou para mim com a raiva de quem sabe que não o estão a ouvir e a urgência de se fazer entender perante aquilo que, para ele, era o fim do mundo. Olhei-o demoradamente sem conseguir decidir que sentimento me invadia perante aquele discurso surrealista. Ele não se ia calar. Não desta vez. Estava demasiadamente enredado na sua ilusão, deixara a fantasia invadir todo o seu espaço mental e era tarde demais para o fazer voltar ao mundo do real com falinhas mansas ou raciocínios lógicos.

- Ok, tens razão! Medidas drásticas são necessárias! Nada de inseguranças! Usemos a magia para fazer o tempo voltar atrás!

- Ah! Eu sabia! Só tu me entenderias! E o que propões?! Que usarás? Um feitiço tirado de um antigo livro de receitas? Como se processa a tua magia? Tens certeza que o teu poder se consegue sobrepor a esta calamidade?

- Ora, ora... Tem um pouco de confiança mim! É tão fácil que até parece uma brincadeira de crianças! Dava-me jeito ajuda... queres ajudar-me? É preciso força, força de vontade para acreditar...

- Claro! Ajudo no que for necessário! Que tenho de fazer?

- Vem para o meu lado, dá-me a mão assim, com força. Espera... falta uma coisa, e é essencial...

Mantive o controlo, não me ri, não chorei, não dei parte fraca. Era uma personagem no mundo dele e para o tirar de lá teria eu própria de entrar, vasculhar, vestir-me da sua fantasia para o embrulhar na triste realidade e, sem grandes mágoas, tentar retomar o tempo que ele achava perdido.

- Voltei! Agora sim, está tudo pronto! Chega-te a mim, dá-me a mão. Fecha os olhos, bate com os calcanhares um no outro e repete comigo, bem alto: supercalifragilisticexpialidocious...

Liliana Lima




"Ora até que enfim..., perfeitamente...
Cá está ela!
Tenho a loucura exatamente na cabeça.
Meu coração estourou como uma bomba de pataco,
E a minha cabeça teve o sobressalto pela espinha acima...

Graças a Deus que estou doido!
Que tudo quanto dei me voltou em lixo,
E, como cuspo atirado ao vento,
Me dispersou pela cara livre!
Que tudo quanto fui se me atou aos pés,
Como a sarapilheira para embrulhar coisa nenhuma!
Que tudo quanto pensei me faz cócegas na garganta
E me quer fazer vomitar sem eu ter comido nada!

Graças a Deus, porque, como na bebedeira,
Isto é uma solução.
Arre, encontrei uma solução, e foi preciso o estômago!
Encontrei uma verdade, senti-a com os intestinos!

Poesia transcendental, já a fiz também!
Grandes raptos líricos, também já por cá passaram!
A organização de poemas relativos à vastidão de cada assunto resolvido em vários —
Também não é novidade.
Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim...
Tenho uma náusea que, se pudesse comer o universo para o despejar na pia, comia-o.
Com esforço, mas era para bom fim.
Ao menos era para um fim.
E assim como sou não tenho nem fim nem vida..."

"Ora Até que Enfim" de Álvaro de Campos
in "Poemas"