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sexta-feira, agosto 25, 2017

SEGUndos

Vejo
tudo centésimos de segundos antes de acontecer
E saio
de dentro de mim para me defender
Mas fico
imóvel, parada num tempo que não quero ver
Retiro
tudo de mim para fora da cena
E olho
para dentro dela, de fora, como num teatro de marionetas
Fecho
os sentimentos e as emoções no local mais escondido em mim, congelada na peça
E olho
para dentro dela, de fora, o mais friamente que consigo
Gravo
toda a acção de todos os actos que se seguirem
E revivo tudo
já de fora, segundos, minutos, semanas às vezes, depois da peça sair de cena

E sinto
todas as emoções numa espiral que mais ninguém vê
E demoro
muito tempo a encontrar a saída para dentro de mim
E desisto
de explicar esta complexa trama que bordo em torno de mim

Assusto-me
quando deixo escapar os milésimos de segundo de segurança
E não consigo sair
de mim, e deixar de sentir, e virar as costas, e defender-me a tempo
E então absorvo
todo o guião como barro girando que se vai moldando pelas mãos do artesão
E então salto
para outros filmes qual Alice caindo noutra dimensão
E então não controlo
a realidade que vivo, porque no palco um labirinto de espelhos faz-me perder de mim
E então assusto-me
com esta montagem desordenada que, tantas vezes, ultrapassa o que, na verdade, se passa nesses milésimos de segundo
Vivo
todas as cenas de uma só vez
Re.ajo
de acordo com o tamanho dos moinhos que rodam dentro de mim

E sinto
todas as emoções numa espiral que mais ninguém vê
E demoro
muito tempo a encontrar a saída para dentro de mim
E desisto
de explicar esta complexa trama que bordo em torno de mim


Liliana Lima


sábado, dezembro 26, 2015

cinema

Sim, sei como o filme vai acabar. Não o soube imediatamente quando comprei o bilhete e entrei na sala, escura, já com o genérico no grande ecrã. Mas assim que encontrei o meu lugar e me sentei, vi o desfecho atrás do grande plano sobre o meu sentir.

Sim, é verdade que me encostei (encosto) no sofá projectando as cenas de cada capítulo, esperando que desse lado não me digas "corta" de cada vez que te levantas e me dizes adeus. Vou guardando as películas dos dias claros dentro duma lua sempre cheia, para nas noites escuras, iluminar os meus sonhos.

Sim, eu sei que os arco-íris que me transportam para lá da acção fazem parte duma realidade cinéfila pouco fiel à realidade. Reconheço os elementos cénicos no outro lado do espelho e até percebo o guarda-roupa que condiz com os sapatinhos vermelhos. 

Mas é nesse filme que sinto o descompassar do palpitar do coração e o calor húmido das imagens sugeridas e até mesmo o amargo de boca que, às vezes, se prolonga até à próxima sessão. 

É nele que sou e me dou em todas as sequências e sequelas. E é nele que escolho actuar. E, sei que, nele não se vive só de ilusão. 

Mas, sim, sei como o filme vai acabar. 


Liliana


terça-feira, julho 13, 2010

Vamos brincar com as nuvens, Gilberto?

Veio numa nuvem colorida. Quando pousou ninguém sabia se traria bom ou mau agoiro. A figura alta e pouco definida deixava espaço para todas as leituras, para quaisquer projecções. Em pouco tempo toda a aldeia se viu envolvida naquele laranja-amarelado que desfigurava as árvores e iluminava até os mais recônditos esconderijos.
As crianças juntaram-se na praça, em frente à nuvem, deslumbradas com aquela visão tão estranha e poderosa, capaz de fazer entrar em casa todos os adultos, por maiores, fortes e resmungões que fossem. Na verdade, para eles a aparição era claramente algo de bom, pois viera do céu e enchera a aldeia de cor e, por isso, brincavam com as suas sombras formando imagens novas e criando cenários impensáveis.
A figura dentro da nuvem laranja-amarelada parecia brincar com eles. Girava e dançava no ar ao ritmo das correrias e cantilenas infantis que os pequenos gritavam. Não disse nem uma palavra durante todo o tempo em que ali esteve, mas partilhou um sentimento que se expressou numa narrativa conjunta, uma espécie de peça de teatro improvisada no meio de uma história que se escrevia com as palavras indizíveis de cada um.
O sol brilhou enquanto assistiu a todo o espectáculo que se desenrolava na praça da pequena aldeia. Já os adultos, fechados em casa, projectavam todos os medos que cabiam dentro de uma nuvem vinda do céu com uma figura alta e pouco definida.
Quando o sol finalmente se encostou à linha do horizonte, a nuvem laranja-amarelada desapareceu no céu com a mesma imprevisibilidade com que tinha aparecido naquela manhã. As crianças, exaustas da brincadeira, voltaram a casa enquanto os adultos, ainda desconfiados, se atreviam vagarosamente a sair e espreitar a rua.
Nada disseram as crianças do que se passara ou sobre o que era aquele ser, por mais que pais, tios e avós tentassem saber. Tudo o que se disse e contou pelas aldeias vizinhas foram meras conjecturas criadas por quem não teve a ousadia, a coragem para sair à rua e experimentar a novidade, a diferença, o inesperado...
Liliana



"A novidade veio dar à praia
Na qualidade rara de sereia
Metade o busto de uma deusa Maia
Metade um grande rabo de baleia

A novidade era o máximo
Do paradoxo estendido na areia
Alguns a desejar seus beijos de deusa
Outros a desejar seu rabo pra ceia

Ó mundo tão desigual
Tudo é tão desigual
De um lado este carnaval
De outro a fome total

E a novidade que seria um sonho
O milagre risonho da sereia
Virava um pesadelo tão medonho
Ali naquela praia, ali na areia

A novidade era a guerra
Entre o feliz poeta e o esfomeado
Estraçalhando uma sereia bonita
Despedaçando o sonho pra cada lado"
"A novidade" de Gilberto Gil