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quinta-feira, março 10, 2011

Dá-me a mão, Clarice...

Conta-me o que é feito dos nossos risos que ecoavam pelos olhos bem abertos e as mãos com vontade de se apertar.
Diz-me onde está a ansiedade que brincava às escondidas por entre as almofadas nas noites brancas de verão?
Sabes onde guardámos a tranquilidade das tardes de sábado com que barrávamos o pão torrado, alegremente sentados no chão?

Procura os dias claros em que o mundo, parado, se instalava nas nossas mãos e o tempo corria connosco e não contra nós.
Ajuda-me a desenterrar a esperança com que corremos dia-após-dia, num rodopio de partilhas coloridas pelos sonhos.

Tens contigo o meu sorriso?
Procuro a tua gargalhada nos meus bolsos...
Encontraste os meus beijos na gaveta?
Abro um livro à procura dum carinho...

Conta-me, onde se perderam os nossos risos no passar das luas?
Diz-me, onde está a ansiedade que arrefeceu com o inverno?
Quero saber da tranquilidade, porque tarefas ou afazeres a trocámos?

Diz ao tempo que devolva os dias em que sonhávamos juntos!
Manda o sorriso entrar e aquecer o carinho escondido na gaveta!
Pede às gargalhadas que de novo habitem os beijos!

Liliana



"Estou tão assustada que só poderei aceitar que me perdi se imaginar que alguém me está dando a mão.

Dar a mão a alguém sempre foi o que esperei da alegria. Muitas vezes antes de adormecer (...), antes de ter coragem de ir para a grandeza do sono, finjo que alguém está me dando a mão e então vou, vou para a enorme ausência de forma que é o sono."

in A paixão segundo G.H.
de Clarice Lispector


sábado, janeiro 22, 2011

Anda inventar realidades comigo, Clarice...

Escrevo enredos simbólicos, tão subtilmemente enrolados que nada mais transmitem do que a minha imensa necessidade de me ler. As palavras que escolho esvoaçam, flores num campo primaveril que apanho e com as quais enfeito grandes bouquets, na verdade pequenas aparas do espelho onde me procuro rever.

E espalho as palavras ao vento sonhando que, quem sabe, um dia num planeta distante um ser diferente me encontra, por entre os silêncios que afinal grito no desequilíbrio das rimas de que tanto fujo.

Mas, e se acaso numa rede distraída um dos meus mais íntimos silêncios nela se encaixa, em forma de borboleta, e uma mão meiga o afaga e aquece num abraço mudo? Poderia eu conviver com essa peça de um puzzle há tanto esquecido, perdido e desmontado no meio do pó das limitações do possível?

Ah! É que eu sei viver por entre as árvores sonhadas, de ramos fortes e folhas caducas. Eu conheço o mapa dos caminhos amarelos que, eternamente, construo e, continuamente, desaguam no mar. Eu consigo quebrar os muros e respirar um mundo livremente inventado!

Então porque teimo em me ler criatura limitada, confinada e acorrentada numa verdade tão curta que me auto-limita o horizonte à pequenez do estritamente exequível?

Liliana





"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada. (...)
A harmonia secreta da desarmonia: quero não o que está feito mas o que tortuosamente ainda se faz. Minhas desequilibradas palavras são o luxo de meu silêncio. Escrevo por acrobáticas aéreas piruetas - escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio."

in 'A Paixão Segundo G.H.' de Clarice Lispector