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sexta-feira, dezembro 14, 2018

ESCREVES com TUDO o que ÉS, José?

O que escrevo é triste?
Escrevo mais amargura que alegria?
É possível
Sempre que o que sinto assim o é

Não sei escever "alegrias de encomenda"
Cada palavra é arrancada de mim
E carrega em si tanto quanto o que sou

Sei descrever sorrisos e o som das cantigas
Sei contar risos e dizer o colorido das flores
Sei narrar gargalhadas e apagar sombras

Sei escrever 

A L E G R I A 
ou 
F E L I C I D A D E

Porque também as sei sentir

Mas mais depressa visto o que não sinto, do que escrevo o que não sou
Porque a palavra, a palavra escrita, perdura e ecoa 
Numa leitura que nos fotografa e emoldura para sempre   

Por isso, talvez o que escrevo seja triste
Ou mostre mais ansiedade do que felicidade
Na verdade, nada posso alterar
Escrevo com tudo o que sou
Só posso escrever o que é meu

Liliana Lima


Não cantes alegrias a fingir
Se alguma dor existir
A roer dentro da toca
Deixa a tristeza sair
Pois só se aprende a sorrir
Com a verdade na boca

Quem canta uma alegria que não tem
Não conta nada a ninguém
Fala verdade a mentir
Cada alegria que inventas
Mata a verdade que tentas
Pois e tentar a fingir

Não cantes alegrias de encomenda
Que a vida não se remenda
Com morte que não morreu
Canta da cabeça aos pés
Canta com aquilo que és 
Só podes dar o que é teu


José Mário Branco
in Ser Solidário 1982

domingo, agosto 12, 2018

sabias MEU amor?

Hoje não há luar,
sabias meu amor?
E nas noites de Lua Nova, tu sabes,
tudo me parece mais estranho e assustador
todo o mundo parece girar em meu redor
e dos fantasmas que tão bem conheces.
Consegues alcançar o fumo que assalta o meu olhar?
Estás aí sequer? 
Ou já dormes enrolado nas velas dos teus moinhos vento?

Hoje não há luar,
sabias meu amor?
O mar, desapareceu num horizonte profundo 
e eu, (só tu sabes) que não gosto do escuro,
procurei na forma certa das estrelas o caminho
para me encontrar.
Dás-me a mão para me acalmar?
Tens calma sequer?
Ou procuras também a tua noite iluminar?

Hoje não há luar,
sabias meu amor?
E as luzes das casas, dos barcos, das fábricas,
parecem fugir de mim apenas para me assustar
e tu sabes que sem ver a estrada me sinto afundar.
Chamas o meu nome, para te encontrar?
Falas comigo sequer?
Ou estás ocupado com os teus fantasmas a conversar?

Hoje não há luar,
sabias meu amor?
E eu, tu sabes, não consigo dormir. 
Gostava de estar ao lado e ver os teus olhos sorrir.

Liliana Lima 


domingo, abril 29, 2018

sOMBRA

Não digas que já não vês a sombra,
tem-na colada aos pés e às mãos,
cosida com fio de pesca ao coração.

Não te zangues quando a vejo
à tua procura, atrás das colunas,
por entre as caixas, acordando os medos.

Não esperes que não a oiça chamar-te
à janela, do lado de lá da noite,
em vontades inquietas, amordaçando os sonhos.

A sombra a que estás preso
das mãos aos pés,
tolda-te os sentidos
e traz-nos sempre ao início.

Acende a luz
Levanta-te
Liberta os fantasmas
E deixa-nos voar

Lili


segunda-feira, setembro 05, 2016

MeRiDiAnO

Sem margem de erro, a minha rota leva-me sempre ao meridiano de mim mesma. Esta linha colorida que dança entre o cinza e o rosa que sou e me mergulha numa maré inconstante. A linha imaginária que liga a figura imaginada de mim e do seu contrário, que afinal também sou. 

Podia jurar que quando me lanço ao mar levo a bússola e a rota delineada nas cores mais claras de mim. E de repente uma derrapagem vinda do nada, ou do tudo que se escondia no fundo do mar... 

Podia jurar que ao sair levo os sapatinhos vermelhos bem aconchegados aos pés. Mas uns passos mais apressados e uma "pedra no meio do caminho", uns dias inesperada, outros dias tão previsível...

Podia jurar que sempre a vontade de me conter, de me calar, de me acalmar. Mas no lado de lá do espelho, eu, ou o contrário, a chorar, a gritar, a resmungar... 

Sem margem de erro a minha rota leva-me sempre ao meridiano de mim mesma. Semi-círculo que me circunda nestes dois tons com que me pinto, rosa e cinza. Fé e medo. Paixão e frieza. Linha nascida numa corrente inquieta, que nasce e desagua dentro do meu peito, e me percorre o corpo, alterando-me a corrente sanguínea à força das vontades duma força que desconheço. 

Liliana 


segunda-feira, agosto 15, 2016

Pra ia

Escorre-me a areia por entre os dedos ao sabor do vento 
E no entanto podia jurar que ainda agora a tua mão na minha

O Sol consome todo o horizonte com o virar da ampulheta 
São corpos recortados no prateado intenso que invadem a praia 
Figuras indistintas que não consigo nomear 

Semi-cerro os olhos doridos com a força da luz para te procurar 
E no entanto ainda agora podia jurar que te estava a abraçar 

Liliana Lima 


sábado, agosto 13, 2016

sOU eu

Não é tua esta sombra que assombra o meu dia, meu amor.
Não é tua.
Guardo em mim a caixa de Pandora que abro a cada nascer do Sol. E dela tiro a ponta dos fios coloridos de algodão com que teço as teias por onde filtro as imagens do dia. 

Não é teu este medo que eleva as ondas do meu mar, meu amor.
Não é teu.
Todas as noites de Lua nova rasgo o lençol com que não nos tapamos e coso uma nova vela com que, repetidamente, tento navegar até "lá para os lados do oriente".

Não é teu este mapa rasgado onde me perco, meu amor.
Não é teu.
Acredito na estrada de tijolos amarelos que me levará de regresso a casa. Mas nem sempre a consigo encontrar nas encruzilhadas da vida.

Não é teu este poema que diz o que não diz, meu amor.
Não é teu.
Desenho as palavras com que construo uma narrativa em caracol, que gira em roda de si própria fazendo-me perder e reencontrar numa tempestade de sentidos.

Não és tu, meu amor.
Sou eu.


Liliana


terça-feira, abril 12, 2016

caMinHo

Chega-te a mim e olha o rio comigo. Vês-nos ali, reflectidos nos espelhos reluzentes que o Sol ilumina? O que nós andámos para aqui chegar!
Ainda ontem um sorriso tímido, atrevido, uma palavra mais ousada entre outras tantas tão contidas, cuidadosas. 
Deste conta que aqui chegámos?

Chega-te a mim e dá-me mão, essa mão onde já cabe, perfeito, o meu coração. Espreita comigo pelo buraco da fechadura dos medos. Vês como fomos, um a um, embrulhando os meus na certeza de que o Sol sempre nasce, mesmo depois da mais escura noite de Lua nova? Como vamos desmontando os teus, sempre calados, velados ou disfarçados de falsas certezas?
Ainda ontem um quarto escuro onde as sombras, soltas de cada menino, saltavam à corda com as inseguranças de cada manhã. 
Percebeste que já aqui estamos?

Chega-te a mim e embrulha-me num abraço, daqueles onde me consigo enroscar longe de tudo e de todos menos de nós. Sentes como nos aproximámos muito para lá dos corpos que sempre se souberam um do outro? Como nos apendemos a ler e a reconhecer um no outro sem pudor de nos despirmos depois dos corpos nús, húmidos e amachucados?
Conheces o mapa que nos trouxe até aqui?

Chega-te a mim e olha o meu  rio, ouve a minha cidade e lê a minha Lua.
Sabes de onde viémos e onde estamos?
(não te preocupes com para onde vamos, isso só saberemos depois de aqui vivermos)

Liliana


domingo, maio 31, 2015

madrugA.da


Sombras, dos risos e das lágrimas que nem cheguei a chover, mas que seriam tão mais perfeitos que estas angústias que trago, atreladas, comigo

Sombras, de outras noites aquecidas na fogueira das verdadeiras paixões e iluminadas por uma lua tão mais pura que o tom amarelado que hoje me envolve

Sombras, dos sonhos esquecidos, varridos do ventre muito antes da fecundação para não correr o risco de, um dia, como hoje, poderem florir

Sombras, dos amores perdidos, encontrados no chão do quarto junto a papeis de outros embrulhos, e que emolduro para que não se confundam com outras imagens

Sombras, que me embalam nas noites brancas, e que quando o silêncio se instala, abraço com medo da luz da madrugada

Liliana