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segunda-feira, outubro 15, 2012

Dá-me a mão, Sérgio...

Dá-me a mão que me escapo por este precipício feito de lembranças dos meus medos, vestidos de fatos completos e sapatos altos, numa dança de salão que me convida para o centro num voo libertador de gaivota bailarina.

Dá-me a mão que salto para este buraco escuro onde o agora se baralha com o antes, e o depois deixa de existir, num movimento circular em volta de cada lágrima que não chorei e de cada sorriso que fingi.

Dá-me a mão para que não me envolva neste cântico de sereia que me chama e me puxa para o fundo do fundo do mar, onde os peixes me relembram os erros e as falhas e a água é fria e escura e não me deixa respirar.

Dá-me a mão porque este grito leva-me ao início dos tempos e esta zanga atira-me para outro dia e eu, de repente pequena, não me sei defender nem resguardar, e vou pelos anos fora contabizando as mágoas que saltam das caixas onde as escondi, como bonecos de mola que me olham com olhos assustadores.

Dá-me a mão nesta corda bamba que decidi atravessar, apesar de todos os avisos e conselhos e contra todos os gráficos e estatísticas, numa bicicleta ferrugenta e sem travões que me levará não sei bem onde nem como.


Dá-me a mão e não digas nada que o silêncio contém em si todas as palavras do mundo e eu sei tudo o que me queres dizer.

Dá-me a mão apesar do que sentes e pensas das minhas escolhas.

Dá-me a mão apenas...

Dá-me a mão...


Liliana




"- Senhora de preto
diga o que lhe dói
é dor ou saudade
que o peito lhe rói
o que tem, o que foi
o que dói no peito?
- É que o meu homem partiu

Disse-me na praia

frente ao paredão
“tira a tua saia
dá-me a tua mão
o teu corpo, o teu mar
teu andar, teu passo
que vai sobre as ondas, vem”

Pode alguém ser quem não é?

Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?

Seja um bom agoiro

ou seja um mau presságio
sonhei com o choro
de alguém num naufrágio
não tenho confiança
já cansa este esperar
por uma carta em vão

“por cá me governo”

escreveu-me então
“aqui é quase Inverno
aí quase Verão
mês d’Abril, águas mil
no Brasil também tem
noites de S. João e mar”

Pode alguém ser quem não é?


É estranho no ventre

ser de outro lugar
e tão confusamente
ver desmoronar
um a um sonhos sãos
duas mãos
passando da alegria ao desamor

Pode alguém ser livre

se outro alguém não é
a algema dum outro
serve-me no pé
nas duas mãos,
sonhos vãos, pesadelos
diz-me:
Pode alguém ser quem não é?"



Pode alguém ser quem não é  de  Sérgio Godinho

quarta-feira, janeiro 18, 2012

Posso ser quem nunca fui, Sérgio?!

Ah! Não me toques na noite suave, levantando o lençol dos sonhos que pedem para ser vividos, para quando nasce o sol me deixares assim as mãos frias, desamparadas, sós, como um ninho vazio.

Ah! Não me cantes ao ouvido de mansinho neste leito iluminado pelas estrelas, esculpindo as palavras letra a letra no meu corpo, para quando as nuvens cobrem o céu me escureceres com o silêncio da ausência que se instala em mim sem pedir licença.

Ah! Não me beijes os seios num nascer de Sol matinal que acorda os sentidos e os sentires se, quando o dia se mostra, foges numa barca invisível que te afasta do rio dos afectos e te leva para o oceano desconhecido deixando a marca da rejeição rasgada nas águas.

Ah! Não encostes o teu corpo ao meu nesta onda que acelera a respiração e me leva na maré se, quando a lua se transfigura, me deixas sentada à beira-mar procurando na areia, ainda húmida, a concha onde te escondes.

Diz-me, posso ser quem nunca fui?!

Ah! Deixa-me manter o espanto, o encanto, a capacidade de sonhar e acreditar... Que é possível ser, querer, sentir, viver... sem me ver só, no caminho dos campos.

Vem! Abre portas e janelas, se conseguires deixar a luz iluminar os corpos que somos(?) e fomos(?)!

Mas parte! Se enrolado num mar de dúvidas, perdido por entre hesitações, me negas e rejeitas.
Mas parte! Se apenas velado por um luar inaudito que só tu conheces e imaginas, consegues querer(ter)-me.

Diz-me, posso ser quem nunca fui?!

Liliana


'- Senhora de preto
diga o que lhe dói
é dor ou saudade
que o peito lhe rói
o que tem, o que foi
o que dói no peito?
- É que o meu homem partiu

Disse-me na praia
frente ao paredão
“tira a tua saia
dá-me a tua mão
o teu corpo, o teu mar
teu andar, teu passo
que vai sobre as ondas, vem”

Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?

Seja um bom agoiro
ou seja um mau presságio
sonhei com o choro
de alguém num naufrágio
não tenho confiança
já cansa este esperar
por uma carta em vão

“por cá me governo”
escreveu-me então
“aqui é quase Inverno
aí quase Verão
mês d’Abril, águas mil
no Brasil também tem
noites de S. João e mar”

Pode alguém ser quem não é?...

É estranho no ventre
ser de outro lugar
e tão confusamente
ver desmoronar
um a um sonhos sãos
duas mãos
passando da alegria ao desamor

Pode alguém ser livre
se outro alguém não é
a algema dum outro
serve-me no pé
nas duas mãos,
sonhos vãos, pesadelos
diz-me:
Pode alguém ser quem não é?'

Sérgio Godinho (do "Pré-Histórias")

domingo, agosto 07, 2011

De que tens medo, Sérgio?!

Tenho medo... sobretudo do escuro, onde a vista se perde e os sentidos, em alerta, se confundem entre o querer e o perder. Por isso acendo os candeeiros da rua, mesmo quando o nevoeiro me impede de ver.

Tenho medo... sobretudo do silêncio que me imponho na procura duma janela que, penso, só eu poderei encontrar no isolamento total. E no entanto, tenho medo... do vazio da sala onde, sozinha, me enrolo sobre os joelhos e me embalo, para não ter... medo.

Tenho medo... dos não ditos e das omissões, que se misturam com a história e fazem nascer mil contos, tantas vezes criados e regados apenas com a minha imaginação.

Tenho medo... sobretudo de paralisar, por medo. Pôr o pé no travão, engatar a marcha-atrás, parar mesmo antes de começar a andar. Começo a viagem tão concentrada na forma certa de chegar à meta que quantas vezes, com medo de falhar, acabo por me perder no caminho.

Tenho medo... dos novelos que se desenrolam e se entrelaçam pelo chão, pelas minhas mãos, pelo meu corpo, numa mistura de cores onde me envolvo e me prendo mesmo antes de conseguir enfiar a linha na agulha para bordar o arco-íris.

Sim, tenho medos... E, nos dias bons, tenho muito medo, sobretudo quando não sinto... medo.

Liliana



"Eh! Meu irmão, o que é que tu tens
que tremes como um chouriço?
Eh, meu irmão que é que tens,
parece que viste bicho!
Um bicho vi, sim senhor
enroscou-se a mim e pediu-me amor
tinha corpo de mulher
cabelo encaracolado
beijou-me, apagou as luzes
e eu então gritei!
Ai, um bicho!

Eh meu irmão, que é que tens
estás branco que nem um nabo!
Eh, meu irmão, que é que tens,
parece que viste o diabo!
Vi mesmo, bateu à porta
disse que o povo estava na rua
e que a rua era do povo
que é p’ra quem ela foi feita
e o povo somos nós todos
e eu, então gritei:
Ai o diabo!

Eh, meu irmão, que é que tu tens
estás branco como o jasmim!
Eh, meu irmão que é que tu tens
o que é que te pôs assim!
Foi o medo da água fria
o medo da vida, o medo da morte
o medo da lua cheia
o medo da lua nova
o medo até de ter medo
que me faz gritar
Ai, que medo!

E assim com medo de tudo
perdeu meu irmão a vida
e assim com medo de tudo
viveu-a e não foi vivida
meteram-no num caixão
às duas por três, num dia de Verão
desceram-no p’ra uma cova
deitaram terra por cima
espetaram-lhe uma cruz
ita missa est
Amen"

"Eh! Meu irmão" do Sérgio Godinho
(Pré-Histórias)

quarta-feira, junho 15, 2011

Conta-me como foi, Sérgio...

Conta-me como foi, para que me lembre das vezes que nos rimos de mãos dadas. Diz-me de ti, de nós, para que nunca ponha em causa o que, um dia fomos e sentimos, e agora parece tão longe.
Não deixes que se me apague o tempo, no corpo cansado do mar e da chuva.

Conta-me como foi, para que fique guardado nas linhas da minha mão o caminho que partilhámos. Diz-me das canções, que juntos cantámos e dançámos à luz branca da lua.
Ajuda-me a guardar as memórias, nesta caixa que um dia abrirei para nos sentir e cheirar e ouvir, com um sorriso que hoje me foge pelos dedos como a areia dos dias.

Ah! Conta-me como o teu corpo no meu, se fez jardim e arco de mil cores, quando todos os sonhos eram possíveis. Sim, diz-me que também foste flor a nascer no meio da rebentação da praia dos desejos.
Não me deixes lavar o sal das lágrimas, que conserva as lembranças boas e faz de todo o passado um constante presente que não dói, apenas afaga a alma.

Deixa-me ser quem te faz sorrir, aquela que no tempo em que os desejos falavam, te encantou com histórias de fadas e cavaleiros andantes.
Deixa-me sorrir contigo, no cimo desta muralha que cobre o mundo, onde outrora descansámos as almas pesadas da inquietação das horas, e nos demos em corpo, suor e beijo.
Deixa-me sentar ao teu lado e lembrar as noites em que cantámos as canções que fazíamos em pautas desenhadas nos corpos nus.

Vem e abraça-me, num aconchego de quem já juntou as vozes e misturou os cheiros em madrugadas claras e horas de gemidos silenciosos.
Vem sem medos nem receios, porque quem já esteve tão perto nunca deixa de se querer bem.
Vem e dá-me a mão, sem dizer nada, sem palavras ou explicações, que os nossos olhos conhecem bem demais o fundo de cada olhar, e nada mais precisamos para nos sabermos de novo em casa, na casa dos sonhos.

Conta-me como foi, para que juntos inventemos a história por viver, do que ainda podemos ser, agora que chegou a hora... de dizer adeus!

Liliana




"Com um brilhozinho nos olhos
e a saia rodada
escancaraste a porta do bar
trazias o cabelo aos ombros
passeando de cá para lá
como as ondas do mar.
Conheço tão bem esses olhos
e nunca me enganam,
o que é que aconteceu, diz lá
é que hoje fiz um amigo
e coisa mais preciosa
no mundo não há.

Com um brilhozinho nos olhos
metemos o carro
muito à frente, muito à frente dos bois
ou seja, fizemos promessas
trocamos retratos
trocamos projectos os dois
trocamos de roupa, trocamos de corpo,
trocamos de beijos, tão bom, é tão bom
e com um brilhozinho nos olhos
tocamos guitarra
p'lo menos a julgar pelo som

E que é que foi que ele disse?
E que é que foi que ele disse?
Hoje soube-me a pouco.
Hoje soube-me a pouco.
Hoje soube-me a pouco.
Hoje soube-me a pouco.
passa aí mais um bocadinho
que estou quase a ficar louco
Hoje soube-me a tanto
Hoje soube-me a tanto
Hoje soube-me a tanto
Hoje soube-me a tanto
portanto,
Hoje soube-me a pouco

Com um brilhozinho nos olhos
corremos os estores
pusemos a rádio no "on"
acendemos a já costumeira
velinha de igreja
pusemos no "off" o telefone
e olha, não dá p'ra contar
mas sei que tu sabes
daquilo que sabes que eu sei
e com um brilhozinho nos olhos
ficamos parados
depois do que não te contei

Com um brilhozinho nos olhos
dissemos, sei lá
o que nos passou pela tola
do estilo és o "number one"
dou-te vinte valores
és um treze no totobola
e às duas por três
bebemos um copo
fizemos o quatro e pintámos o sete
e com um brilhozinho nos olhos
ficamos imóveis
a dar uma de "tête a tête"

E que é que foi que ele disse?...

E com um brilhozinho nos olhos
tentamos saber
para lá do que muito se amou
quem éramos nós
quem queríamos ser
e quais as esperanças
que a vida roubou
e olhei-o de longe
e mirei-o de perto
que quem não vê caras
não vê corações
com um brilhozinho nos olhos
guardei um amigo
que é coisa que vale milhões.

E que é que foi que ele disse? ..."
Sérgio Godinho (in "Canto da boca" - 1981)

domingo, abril 10, 2011

Perdi-me na guerra Sérgio...

Perdi-me no meio da areia que cai de um lado para o outro da ampulheta que controla o meu tempo.
Perdi a noção da minha pela na beira-mar, dissolvo-me neste vai-vem de água salgada que chove dos meus olhos.
Perdi a minha voz de tanto procurar o meu canto por entre os ventos que correm os mares e as montanha geladas.
Perdi o choro à força de tanto gritar num silêncio que me afoga e me oprime.
Perdi-me no meio do espelho onde procurava a criança que fui, ou que nunca cheguei a ser realmente, mas que imagino podia ter sido...
Perdi-me entre as palavras que começam a repetir-se em pequenos círculos que se espalham em ondulações que ecoam a toda a volta.
Perdi-te por entre os meus medos e fantasmas e sonhos e humores e tempos e expectativas e estradas e sentidos e guerros e lençóis onde não me encontro.

Liliana



Fotos de Fogo


(de Sérgio Godinho)

sábado, janeiro 29, 2011

Vem devagar, Sérgio...

Obrigo o tempo a parar e recolho-me no fundo da caixa onde guardo as pérolas do mar futuro que um dia, sem aviso nem fumo nem carta nem anúncio prévio, me trouxeste num cesto de sol.

Aproveito as entre-linhas do relógio para, nesta agitação mansa neste caos calmo nesta noite sonhada, deixar entrar o rio com a lua ondulada e a cidade, ao contrário, que velam pelo silêncio que, letra-a-letra, me ensinas.

Deito a ampulheta de lado e, na areia molhada do tempo parado, visto-me de mil cores para acalmar o futuro que teima em saltar em todas as direcções, fazendo-me tropeçar num presente que quero apressar.

Os segundos abrandam o ritmo e os ponteiros aceitam o convite para dançar com os sonhos que correm, esses sim, livres das horas e dos dias do mundo real. Saio para o meu sonho e, sem pressa deixo-me levar, nesta onda com cheiro e sabor a sorrisos.

Liliana






"Quando/ tu me vires no futebol/
estarei no campo/ cabeça ao sol
a avançar pé ante pé/ para uma bola que está/ à espera dum pontapé
à espera dum penalty/ que eu vou transformar para ti
eu vou/ atirar para ganhar
vou rematar/ e o golo que eu fizer/
ficará sempre na rede/ a libertar-nos da sede
não me olhes só da bancada lateral/ desce-me essa escada e vem deitar-te na grama
vem falar comigo como gente que se ama/ e até não se poder mais/ vamos jogar

Quando/ tu me vires no music-hall
estarei no palco/ cabeça ao sol/ ao sol da noite das luzes/ à espera dum outro sol
e que os teus olhos os uses/ como quem usa um farol
não me olhes só dessa frisa lateral/ desce pela cortina e acompanha-me em cena
vamos dar à perna como gente que se ama/ e até não se poder mais/ vamos bailar

Quando/ tu me vires na televisão
estarei no écran/ pés assentes no chão
a fazer publicidade/ mas desta vez da verdade/ mas desta vez da alegria
de duas mãos agarradas/ mão a mão no dia a dia
não me olhes só desse maple estofado/ desce pela antena e vem comigo ao programa
vem falar à gente como gente que se ama/ e até não se poder mais/ vamos cantar

E quando/ à minha casa fores dar
vem devagar/ e apaga-me a luz/ que a luz destoutra ribalta
às vezes não me seduz/ às vezes não me faz falta
às vezes não me seduz/ às vezes não me faz falta"

"Espectáculo" de Sérgio Godinho

quarta-feira, agosto 11, 2010

Também tens medo, Sérgio?!


Enrolo novelos com os fios dos dias. Faço-os coloridos e redondos com a ponta solta, caso os queira um dia juntar. Depois arrumo-os na cristaleira da sala, empoleirados uns nos outros como brinquedos numa montra.

Sempre que me foge o fio das mãos assusto-me, pensando nos novelos que vou deixar de fazer. Então, como um felino atrás da presa, procuro por todo o mundo um novo fio que possa enrolar. E acabo sempre os encontrar, numa esquina de um sorriso ou ao fundo de um olhar. Contente, volto a casa e recomeço o meu trabalho enquanto admiro as prateleiras cheias de rolos às cores numa pirâmide mal montada.

À noite sinto-os inquietos, espreito devagar tentando perceber o seus lamurios. Sonham com vidas coloridas e pontas soltas, recordam os dias entrelaçados noutros fios em formas divertidas, choram pelas agulhas que lhes dariam vida... Calem-se! Grito do canto. Que mais querem vocês, se não estar a salvo do mundo, num novelo resguardado, amado e bem enrolado?! Ingratos! Bato com a porta da sala e volto para a cama zangada. Ao fundo a ladainha continua como um murmúrio sem fim. Finjo que durmo, mas não engano nem a mim mesma. Com os olhos abertos no escuro da noite sonho com vidas coloridas, recordo dias entrelaçados noutros braços e choro pelos que me dariam vida.

De manhã, sento-me à janela, olho para o dia que corre já no meio do trânsito e das crianças que saltitam em volta das mães apressadas e procuro o fio do dia. Agarro-o devagar para não o assustar e enrolo-o num novelo colorido do que poderia ser o meu dia vivido...

Um dia, igual a todos os outros, encontrei um fio escondido no vaso da janela da frente. Tentei agarrá-lo mas ele não se deixou apanhar. Também não fugiu como era costume acontecer, ficou suspenso nos troncos da árvore em frente, enquanto me desafiava a descer à rua e passear com ele. Que ideia tão parva! Disse eu. Para quê sair e correr os perigos da rua se podia viver ali enroscada num novelo colorido, espreitando pela janela como uma boneca na montra de uma loja, sempre bonita, sempre penteada, sempre a sorrir...

Nesse dia não enrolei nenhum novelo, mas também não corri o mundo à procura de um novo fio. Fiquei apenas sentada, espreitando o sem número de outros fios que se entrecruzavam, enrolavam, deslizavam, saltavam, rolavam, ali mesmo à minha frente. É verdade que não estavam tão limpinhos como os meus novelos, nem tão pouco a salvo de tristezas ou sobressaltos. Mas pareciam... vivos! Alegres ou tristes, com caminho ou sem ele, depressa ou devagar, eram livres e isso parecia ser-lhes suficiente para afastar o medo.

Olhei para trás, na cristaleira, empoleirados nas prateleiras os meus novelos coloridos pareciam uma triste imitação dos fios que lá fora corriam. Sem pensar bem no que fazia, abri a portas de vidro com moldura de carvalho e, um a um, tirei os novelos cá para fora. Espantados, não choravam nem resmungavam, estavam tão surpreendidos que apenas um silêncio imenso se ouvia em toda a casa. Enrolada num sonho, abri a janela e comecei a atirar os novelos que, como serpentinas de carnaval, se espalharam por toda a rua colorindo a cidade das mais improváveis combinações de cores.

Depois de todos libertos, procurei uma mala onde guardei duas agulhas de tricô, algumas roupas e um caderno em branco. Fechei a porta a tremer de medo, mas lá fora ouvia as vozes dos fios cantando. Foi embalada pelos meus novelos que me atrevi a sair pelo mundo sem medo. E, sem fios de segurança, avancei pela corda bamba no circo da vida.

Liliana



Eh! Meu irmão, o que é que tu tens
que tremes como um chouriço?
Eh, meu irmão que é que tens,
parece que viste bicho!
Um bicho vi, sim senhor
enroscou-se a mim e pediu-me amor
tinha corpo de mulher
cabelo encaracolado
beijou-me, apagou as luzes
e eu então gritei!
Ai, um bicho!

Eh meu irmão, que é que tens
estás branco que nem um nabo!
Eh, meu irmão, que é que tens,
parece que viste o diabo!
Vi mesmo, bateu à porta
disse que o povo estava na rua
e que a rua era do povo
que é p’ra quem ela foi feita
e o povo somos nós todos
e eu, então gritei:
Ai o diabo!

Eh, meu irmão, que é que tu tens
estás branco como o jasmim!
Eh, meu irmão que é que tu tens
o que é que te pôs assim!
Foi o medo da água fria
o medo da vida, o medo da morte
o medo da lua cheia
o medo da lua nova
o medo até de ter medo
que me faz gritar
Ai, que medo!

E assim com medo de tudo
perdeu meu irmão a vida
e assim com medo de tudo
viveu-a e não foi vivida
meteram-no num caixão
às duas por três, num dia de Verão
desceram-no p’ra uma cova
deitaram terra por cima
espetaram-lhe uma cruz
ita missa est
Amen

"Eh! Meu irmão" de Sérgio Godinho

segunda-feira, maio 03, 2010

Deixa-me ver o brilho dos teus olhos, Sérgio...

Entro na água com os pés descalços e arrepio-me com o ondular que me gela todo o corpo. Sussurro uma canção antiga, mais velha que o nascer do sol, que varre as memórias e levanta o pó dos sentidos e acende o brilho dos olhos. A ponte balança as ancas acompanhando o ritmo vagaroso da maré que me cumprimenta.

Deixo-me levar novamente pelo azul límpido das águas.

Avanço pelo rio nesta melodia esquecida, avanço sem esforço, leva-me a maré que, aos poucos se levanta em ondas na minha direcção. O vento acompanha a minha canção e enche todo o horizonte com os sentimentos que se soltam de cada palavra cantada, de cada melodia entoada.

Olho para o espelho de água e revejo-me presa num remoinho antigo, passado, abafado pelo pó dos dias, que recomeça a girar à minha volta. Será possível? Pergunto-lhe. Será que a canção, que ficou debaixo, da areia que se eleva e volta a acender o brilho dos olhos? Será o Sol que se atreveu novamente a aquecer o corpo? Será o azul que, como um berço, embala os sentidos e acorda as lembranças?

Deixo de cantar e olho a ponte que se entristece com o meu silêncio. E ali fico parada, muito tempo, olhando o espelho de água como uma projecção de um filme antigo. Vejo-me e revejo o turbulhão de onde, um dia, saíra. Procuro a margem como reforço da minha história e volto a cantar. Mas canto bem alto, fazendo abanar todo leito do rio e aumentar as ondas e rodopiar a ponte. Canto sem medo, porque canto com prazer, sem dor.

E sorrio, mais uma vez, ao azul límpido das águas.

Liliana





"Com um brilhozinho nos olhos
e a saia rodada
escancaraste a porta do bar
trazias o cabelo aos ombros
passeando de cá para lá
como as ondas do mar.
Conheço tão bem esses olhos
e nunca me enganam,
o que é que aconteceu, diz lá
é que hoje fiz um amigo
e coisa mais preciosa
no mundo não há.

Com um brilhozinho nos olhos
metemos o carro
muito à frente, muito à frente dos bois
ou seja, fizemos promessas
trocamos retratos
trocamos projectos os dois
trocamos de roupa, trocamos de corpo,
trocamos de beijos, tão bom, é tão bom
e com um brilhozinho nos olhos
tocamos guitarra
p'lo menos a julgar pelo som

E que é que foi que ele disse?
E que é que foi que ele disse?
Hoje soube-me a pouco.
passa aí mais um bocadinho
que estou quase a ficar louco
Hoje soube-me a tanto
portanto,
Hoje soube-me a pouco

Com um brilhozinho nos olhos
corremos os estores
pusemos a rádio no "on"
acendemos a já costumeira
velinha de igreja
pusemos no "off" o telefone
e olha, não dá p'ra contar
mas sei que tu sabes
daquilo que sabes que eu sei
e com um brilhozinho nos olhos
ficamos parados
depois do que não te contei

Com um brilhozinho nos olhos
dissemos, sei lá
o que nos passou pela tola [o que nos passou pelo goto]
do estilo és o "number one"
dou-te vinte valores
és um treze no totobola [és o seis do meu totoloto]
e às duas por três
bebemos um copo
fizemos o quatro e pintámos o sete
e com um brilhozinho nos olhos
ficamos imóveis
a dar uma de "tête a tête"

E que é que foi que ele disse?
...

E com um brilhozinho nos olhos
tentamos saber
para lá do que muito se amou
quem éramos nós
quem queríamos ser
e quais as esperanças
que a vida roubou
e olhei-o de longe
e mirei-o de perto
que quem não vê caras
não vê corações
com um brilhozinho nos olhos
guardei um amigo
que é coisa que vale milhões.

E que é que foi que ele disse?
... "

"Com um brilhozinho nos olhos" de Sérgio Godinho

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Sabes Sérgio?...

Sabes?...
Do lado de cá do arco-íris os dias são lindos, o sol brilha e a temperatura é, nem quente nem fria, boa para correr pelos campos e mergulhar nos rios, mas também para vestir um casaco macio e enrolar-me numa manta enquanto leio um livro. Os sapatos são todos vermelhos e os caminhos estão todos por descobrir.

É que sabes?...
Do lado de cá do arco-íris tudo é peneirado por um filtro de mil cores e eu, protegida das intempéries, vivo tranquila a paz que me permito e a alegria que a mim mesma ofereço dia-a-dia-a-dia-a-dia pelo meio das noites em que me dou o prazer de ser, simplesmente, eu mesma.

Porque, sabes?...
Do lado de cá do arco-íris conheço bem o desenho da estrada que construo com tijolos amarelos, feitos das emoções, afectos e vivências que me encontram. Entendo-lhe o sentido e não duvido do horizonte para onde caminho, porque ele é claro e está sempre iluminado pelas cores que me pintam a alma.

Por isso, será que sabes?...
Do lado de cá do arco-íris as palavras voam livres e constroem histórias que vivo sempre que me apetece, ou que esqueço se me entristece, ou ainda que guardo se o dia certo não me parece.


E então, sabes?...
Do lado de cá do arco-íris só chegam as mensagens que, dentro de garrafas são atiradas ao mar com muito amor e, (somente) quando a maré o permite apraiam deste lado, rolando pela areia depois de coloridas por um filtro de mil cores. Essas, trazem sempre palavras de paz, alegria, cumplicidade, amor, acolhimento e disponibilidade, que misturam na terra amarela e se tornam tijolos que uso, mais tarde, em forma de contos com que prolongo a minha estrada.

Se eu estivesse desse lado, talvez te dissesse que nem sempre me sentiria no caminho certo, real ou coerente comigo.
Se eu estivesse desse lado, talvez te contasse que algumas palavras que me encontram me poderiam ferir, magoar ou até fazer duvidar de mim mesma.
Se eu estivesse desse lado, talvez te sussurrasse que os dias tristes se seguiam e sucediam sem que encontrasse as minhas histórias para viver.
Se eu estivesse desse lado, talvez até te mostrasse que, por vezes, não encontraria os sapatos vermelhos e me perderia no meio de tantos caminhos já acabados mesmo antes de começados.


Mas sabes?...
Como estou do lado de cá, digo-te apenas que as palavras minhas são também tuas, se tu as quiseres. Que as histórias que vivo podes viver também, se assim o escolheres. Que os tijolos que recolho podes recolher também, se o desejares. Que o caminho que faço podes fazer também, se sentido lhe encontrares.


Mais que tudo, sabes?...
É deste lado que escolho viver, sonhando uma história que conto em forma de tijolos amarelos com que desenho uma de estrada que percorro de sapatos vermelhos e palavras soltas!
Liliana

"Ser ou não ser gente
ter ou não ter sonhos
mais exactamente - vir
à tona dos sonhos
ter sempre a certeza das dúvidas
Por via das dúvidas saber o que achar

Dobradores do ferro
sopradores do vidro
na margem do erro - ser
claro como o vidro
ter sempre a destreza da prática
por via da prática saber o que achar

Ai, morrer, dormir, talvez sonhar
mas então
que outros sonhos virão
morrendo, vivendo, dormindo,
talvez que sonhando...
ter sempre a certeza da música
por via da música tocar e cantar

Sedutores da musa
amadores da alma
mesmo que difusa - ser
a imagem da alma
ter sempre a clareza da fábula
por via da fábula saber o que achar

Dedos semelhantes
às velozes aves
mesmo que distante - ouvir
o chamar das aves
ter sempre a afoiteza do pássaro
por via do pássaro subir e pousar

Ai, morrer, dormir, talvez sonhar
mas então
que outros sonhos virão
morrendo, vivendo, dormindo,
talvez que sonhando...
ter sempre a certeza da música
por via da música tocar e cantar"

"Talvez que sonhando" de Sérgio Godinho

(in Invasões Bárbaras e Domingo no Mundo)

sexta-feira, outubro 23, 2009

Não me digas que não me compreendes, Sérgio!

Não me digas que não me compreendes, depois de tantas palavras trocadas, linhas entrecruzadas e leituras partilhadas... não me digas que não me compreendes!

Vá, abre os olhos e vê para além do reflexo que flutua no rio, cidade indizível num mundo de palavras fantasma.
Vamos! Prova que consegues ler-me as marcas no corpo quando me despes no lusco-fusco da folha.
Ah! diz-me que treinaste os teus olhos para o escuro da minha alma, emaranhado de ideias soltas como balões subindo a noite num céu de lua nova até ao infinito.

Não me digas que não me compreendes, antes procura o caminho que marquei com migalhas de luz...
Não me digas que não me compreendes, antes descobre o fio que conduz à bola em que me enrolo e me embalo na madrugada...
Não me digas que não me compreendes, antes segue os sinais de fumo que espalho desenhando a rota num mapa astral...

Se me deres tempo para crescer em árvore, ver-me-às erguer os braços no cimo da serra, e então voarás até mim num sopro de primavera!
Se me deixares abrir as asas ao vento, saber-me-às no céu num voo de águia que se anuncia pela sombra no chão, e então seguirás até mim como ovo que estala no ninho!
Se me ouvires cantar com atenção, perceber-me-às em todos os cantos num sussurrar de brisa matinal, e então encontrarás o caminho até mim num silêncio que se impõe ao ruído da cidade!
Se me soltares no ar, ver-me-às a sorrir num arco-íris brilhante, e então sobirás até mim como uma criança brincando num escorrega!
Por isso, ouve-me, descobre-me, solta-me, encontra-me, lê-me, sente-me... verás que me consegues compreender!

Liliana





Com "Que força é essa" do Sérgio Godinho no ouvido.

(*aqui, numa curva de há uns tempos...)


quinta-feira, setembro 10, 2009

Agora não, Sérgio...

Agora não, não tenho tempo para te dar atenção. Se me perdoares vou, neste preciso momento, congelar este sentimento alegre que me invade quando me olhas fixamente nesse olhar de gaivota sobre a maré baixa do fim de tarde. Gostava de te dar atenção, de te dizer as palavras que te confortariam e te acenderiam o sorriso calmo, meigo... Mas agora não posso, amanhã falamos, mais logo voltamos aqui a este instante em que eu te olho também e a maré sobe. Tenta entender, o tempo é curto...

Agora não, não consigo concentrar-me no que estás a dizer. Sinto algo amargo que entristece a luz escondido atrás dessas palavras vazias, por entre esses olhos nus, sem expressão. Como gostaria de conversar, ouvindo atentamente até, na voz, renascerem as certezas e, nas mãos, poisarem os desejos. Tem paciência, mas vou ter de hipotecar este sentimento de mau estar que me segue como uma sombra. Pode ser que logo, se tudo se apressar e o telefone não tocar. Não posso, tu sabes, tenho tanto de fazer...

Agora não, as crianças estão acordadas, os vizinhos estão em casa, a noite ainda agora começou, a televisão está ligada e eu tenho de ver o debate. Tenho de amarrar este impulso que tenta o corpo e acorda um sentimento quente de noites de verão. Na verdade gostava de responder ao teu corpo, deixar-me avançar, deixar-te embalar, mas a roupa no cesto, a loiça por arrumar e a televisão que me puxa sem me deixar soltar. Quem sabe mais logo, se ainda estiveres aí, neste sentimento quente...

Agora sim estou aqui, o sol está quente e a casa calma. O computador desligado e a televisão calada, os vizinhos fora e o despertador apagado. Agora sim, estou aqui sem horas nem pendentes, sem pressas nem preocupações. Vá, fala-me que eu agora posso sentir-te! Vá, olha-me que eu agora posso ouvi-te! Vá, toca-me que eu agora posso responder-te! Agora sim, que a lua brilha e a casa está calma. Agora não?! Agora não, vais ter de congelar o sorriso? Agora não, precisas de hipotecar o sentimento? Agora não, tens de amarrar a vontade? Agora não... Quem sabe amanhã...


Liliana Lima


"(...)
Não fales, que o bebé ainda acorda
não grites, que o vizinho ainda acorda
e não me olhes, que o amor ainda acorda
deixa-o dormir o nosso amor, um bocadinho mais
deixa-o dormir, que viveu dias tão brutais

E o homem, de pé
Parece um rapazinho a ver se compreende
e grita e diz que ele também não se vende
que quer a paz mas de outra maneira
e nem que essa noite fosse a derradeira
veio afirmar quer ela queira ou não queira
que os dois ainda têm muito a aprender

Se temos...! Diz ela
mas o problema não é só de aprender
é saber a partir daí que fazer
e o homem diz: que queres que responda?
Não estamos no mesmo comprimento de onda...
Tu a mandares-me esse sorriso à Gioconda
e eu com ar de filme americano

Somos tão novos, diz o homem
e agora é a vez de a mulher se impacientar
essa frase já começa a tresandar
é que não é só uma questão de idade
o amor não é o bilhete de identidade
é eu ou tu, seja quem for, ter vontade
de mudar e deixar mudar

Não fales, que o bebé ainda acorda
não grites, que o vizinho ainda acorda
e não me olhes, que o amor ainda acorda
deixa-o dormir o nosso amor, um bocadinho mais
deixa-o dormir, que viveu dias tão brutais

E assim se ouviu
pela noite fora os dois amantes falar
e o que não vi só tive de imagina
ré preciso explicar que sou o vizinho
e à noite vivo neste quarto sozinho
corpo cansado e cabeça em desalinho
e o prédio inteiro nos meus ouvidos

Veio a manhã e diziam
telefona ao teu patrão, diz que hoje não vais
que viveste uns dias assim tão brutais
e que precisas de convalescença
sei lá, inventa qualquer coisa, uma doença
mete um atestado ou pede licença
sem prazo nem vencimento, se preciso for
(espero que não seja preciso, porque não
sei como é que eles vão viver sem os dois salários...)

Vá fala que o bebé está acordado
e vizinho deve estar já acordado
e o amor, pronto, também está acordado
mas tem cuidado, trata-o bem
muito bem, de mansinho
que ainda agora vai pisar outro caminho."

"2º andar direito" de Sérgio Godinho

segunda-feira, maio 25, 2009

Como é o brilho dos teus olhos, Sérgio?


Todos os olhos têm um brilho único. Há brilhos que nos acendem uma luz e nos aquecem por dentro ao primeiro olhar. Brilhos há que se acendem apenas depois de vários olhares. A verdade é que sempre que uns olhos acendem o seu brilho para nós, os nossos sentem-se em casa e, sorrindo, emitem de volta um brilho que, em conjunto, ilumina os corações de quem nos olha.

Todos os olhos têm um brilho único. Desde o primeiro olhar que trocámos, senti que o teu brilho falava de paz, de tranquilidade, de aceitação. Os teus olhos sorriem contigo e brilham uma luz que me aconchega no colo enquanto me permite brilhar também. O brilho dos teus olhos está sempre comigo, acompanha-me e dá-me confiança, sorri-me e ensina-me a brilhar mais forte. É no brilho dos teus olhos que os meus se despem e, em paz, se entregam e se permitem ser inteiros no brilho que emitem.

Todos os olhos têm um brilho único. Lembro-me que na primeira vez que vi os teus, foste tu que referiste o brilho dos meus. Quando, numa esplanada com cheiro a Tejo, em vez de cumprir as tarefas da agenda nos perdemos entre partilhas, sorrisos e algumas mágoas, reconheci nos teus olhos aquele brilho que nos aconchega e aquece nas noites frias de inverno. Desde aí, por muitos desencontros que se atravessem no nosso caminho, os nossos olhos sabem que estão sempre abertos para, mutuamente, se acolher.
Todos os olhos têm um brilho único. Os teus, naquela tarde ensolarada em que nos sentámos à mesa, falaram-me de aconchego, de tranquilidade, de ternura, de algo quente e familiar. No meio de um almoço que pedia uma conversa organizada e um pensamento estruturado, ouvia-os em amena cavaqueira com os meus. Despedi-me com um "até logo" de quem tem a certeza que se vai voltar a encontrar numa qualquer curva do caminho. Mais tarde, quando nos reencontrámos, reconheci de imediato o brilho que emites e soube que estava em casa.

Todos os olhos têm um brilho único. Não descobri o brilho dos teus nas primeiras vezes em que te vi, embora houvesse alguma coisa, um certo aroma, que me fazia intuir que os teus olhos ainda não se tinham aberto mas que, a seu tempo, o fariam. Quando nos reencontrámos nem foi preciso olhar para eles, o brilho que trazias foi suficiente para sentir que já nos tínhamos entendido. Acabou por ser em pleno lusco-fusco que os vi, por fim brilhar sem medos nem hesitações, entre risos e descobertas. Pode ser que me engane, mas além dos meus, os outros olhos que por lá brilhavam comigo e que também se juntaram à festa, retribuíram o teu brilho de forma tão clara, que também os teus se sentiram em casa.
Todos os olhos têm um brilho único. Alguns, por razões diversas, vêm-se obrigados a apagar o seu brilho e afastar o olhar. É na cumplicidade dos brilhos que nos permitimos partilhar e emitir que percebemos exactamente onde podemos brilhar em segurança.
Liliana Lima




"Com um brilhozinho nos olhos
e a saia rodada
escancaraste a porta do bar
trazias o cabelo aos ombros
passeando de cá para lá
como as ondas do mar.
Conheço tão bem esses olhos
e nunca me enganam,
o que é que aconteceu, diz lá
é que hoje fiz um amigo
e coisa mais preciosa
no mundo não há.


Com um brilhozinho nos olhos
metemos o carro
muito à frente, muito à frente dos bois
ou seja, fizemos promessas
trocamos retratos
trocamos projectos os dois
trocamos de roupa, trocamos de corpo,
trocamos de beijos, tão bom, é tão bom
e com um brilhozinho nos olhos
tocamos guitarra
p'lo menos a julgar pelo som


E que é que foi que ele disse?
Hoje soube-me a pouco.
passa aí mais um bocadinho
que estou quase a ficar louco
Hoje soube-me a tanto
portanto,
Hoje soube-me a pouco


Com um brilhozinho nos olhos
corremos os estores
pusemos a rádio no "on"
acendemos a já costumeira
velinha de igreja
pusemos no "off" o telefone
e olha, não dá p'ra contar
mas sei que tu sabes
daquilo que sabes que eu sei
e com um brilhozinho nos olhos
ficamos parados
depois do que não te contei


Com um brilhozinho nos olhos
dissemos, sei lá
o que nos passou pela tola
do estilo és o "number one"
dou-te vinte valores
és um treze no totobola
e às duas por três
bebemos um copo
fizemos o quatro e pintámos o sete
e com um brilhozinho nos olhos
ficamos imóveis
a dar uma de "tête a tête"


E que é que foi que ele disse?...


E com um brilhozinho nos olhos
tentamos saber
para lá do que muito se amou
quem éramos nós
quem queríamos ser
e quais as esperanças
que a vida roubou
e olhei-o de longe
e mirei-o de perto
que quem não vê caras
não vê corações
com um brilhozinho nos olhos
guardei um amigo
que é coisa que vale milhões.


E que é que foi que ele disse?..."


"Com um brilhosinho nos olhos"
letra e música de Sérgio Godinho (1981)

terça-feira, abril 21, 2009

Vamos cantar, Sérgio?



A pergunta era simples além de óbvia, afinal perceber qual é o nosso timbre deve ser o primeiro passo de qualquer trabalho que se desenvolva à volta da voz e do canto. Ainda para mais para quem está, de facto, a considerar a possibilidade de integrar um grupo coral. Resumindo, era uma questão básica e que precisava de resposta.
No entanto, e apesar do meu sobejamente conhecido bom-feitio, confesso que, de quando em vez, me acontece sentir uma certa dificuldade em aceitar regras daquele tipo em que a resposta tem de ser "branco ou preto", "sim ou não". Tenho sempre vontade de responder um grande, redondo e bem audível "nim". Mas ali estava eu, à frente da maestrina que me olhava já de sobrolho franzido, enquanto atrás de mim, se arrumavam calmamente sopranos e tenores à esquerda, baixos e contraltos à direita, sem dificuldades nem dúvidas existenciais.
Gaguejei "contralto...", depois como quem se arrepende "soprano, acho que consigo chegar a soprano..." por fim já baixinho, quase sussurrando "mas talvez seja contralto...". Pensava nos dias de Sol em que a voz sai translúcida e os agudos me parecem tão perto, ali mesmo ao virar da esquina, em contraponto via os dias cinzentos em que os graves são naturais e pedem para os apanhar. Imaginava-me contrariada, obrigada a viver eternamente num dia de sol sem direito às minhas neblinas, ou amordaçada num horizonte permanentemente encoberto, sem sol nem estrelas. A decisão parecia-me impossível, redutora e sem espaço para a criatividade pessoal e individual.
Depois de muitas hesitações a maestrina decidiu "arrumar-me" no lado dos contraltos e encerrou o assunto para não atrasar mais o ensaio. Ainda desconfiada com a decisão, subi as escadas e assumi a minha posição no grupo, peguei nas partituras e integrei os exercícios de aquecimento. Cantei no ensaio, e nos outros que se seguiram, a questão foi-se diluindo na magia de deixar de ouvir a minha voz e aperceber-me parte de um todo muito mais abrangente que apenas se consegue coordenando ritmo, respiração, entoação e melodia.
Agora que me sinto já parte desta melodia conjunta, começa a ser-me possível descobrir o meu timbre dentro do timbre meu. Somos todas contraltos, mas umas têm uma caixa torácica mais larga, aguentam mais tempo as notas, outras conseguem subir de tom com maior facilidade, outras ainda têm uma voz mais limpa ou uma melhor dicção.
As nossas pequenas diferenças, as características que fazem de nós únicos e irrepetíveis, por muito pouco audíveis que sejam para quem está longe, hão-de ser sempre reconhecíveis para quem nos rodeia. Não é o meu timbre que me caracteriza, mas sim a forma como eu me integro nele, respeitando o tom, o ritmo, a entoação, mas cantando sempre com a minha voz, energia, postura, enfim, comigo mesma...
Liliana Lima




"Benvindos todos ao salão de festas
faz bem andar metido nestas andanças
se agora danças
logo pensas
e mais
fazes diferentes
dias que eram iguais
ora puxa o corpo pra cá
quero o eco aqui que é de lá
faz por mexer, mexe
faz por mexer, mexe
e faz com que (oxalá!)
amanhã seja o que não há

Que bem se canta na Sé
mas é só para quem é
um sentado, outro em pé
mas aqui quem canta
é quem quiser (olha quem!)
isto enquanto é um canto
está sentado o desdém

Benvindos todos ao salão de festas
desbravaremos de florestas
e mares
se vais pelos ares
logo pousas e penso
melhor irás entre o furor e o bom senso
ora puxa o corpo pr´aqui
quero o eco cá que é daí
faz por fazer
o que hoje queres para ti
e que amanhã seja o que não vi

Que bem se canta na Sé
mas é só para quem é
um sentado, outro de pé
mas aqui quem canta
é quem quiser (olha quem!)
isto enquanto é um canto
está sentado o desdém

Quem dera que a energia que trouxe pudesse
habitar um só dia que fosse
o calor da tua hospedaria"

"Salão de Festas" de Sérgio Godinho (1984)

segunda-feira, abril 06, 2009

Danças comigo, Sérgio?

Danças comigo? Assim, sem mais nada, sem nós nem amarras, danças comigo só por dançar? Ouve a música, esquece que os nossos corpos são corpos e que, juntos, já navegaram num oceano de sensações, num turbilhão de ondas e remoinhos... Esquece a tua mão na minha e os meus lábios nos teus quando o Sol brilhava forte e aquecia os corações... Esquece os adeus e as desilusões quando, por fim, a noite nos abandonou e arrefeceu as paixões... Será que é possível, dançar, como amigos só?

Danças comigo? Será que podemos? Será que conseguimos passar por cima das dores e dos desamores, dos medos e dos tantos papeis, das trocas e confidências? E, por fim, dançar só por dançar, como amigos só?

Chega-te a mim, e quebra as barreiras que nos afastam e abafam a música. Chega-te a mim, mas apaga o corpo que não os queremos visíveis. Ouve a música e segue o compasso, acerta os teus pés com os meus e salta as fronteiras da inibição. Pisemos a pista e deixemo-nos guiar pelos nossos sapatos, quais sapatilhas vermelhas que não param de dançar... Pisemos a pista e esqueçamos acordos, amores e ódios. Dancemos, se for possível, como amigos só...

Danças comigo?
Liliana Lima




"Isto é como tudo
não há-de ser nada
a minha namorada
é tudo que eu queira
mas vive para lá da fronteira

Separam-nos cordas
separam-nos credos
e creio que medos
e creio que leis
nos colam à pele papéis

Tratados, acordos
são pântanos, lodos

Pisemos a pista
é bom que se insista
dancemos no mundo

Eu só queria dançar
contigo sem corpo visível
dançar como amigo
se fosse possível
dois pares de sapatos
levantando o pó
dançar como amigo só

Por ódio passado
(que seja maldito)
amor favorito
não tem importância
se for é de circunstância

Separam-nos crimes
separam-nos cores
a noite é de horrores
quem disse que é lindo
o sol-posto de um dia findo

Sozinho adormeço
E em teu corpo apareço

Pisemos a pista
é bom que se insista
dancemos no mundo

Eu só queria dançar contigo
sem corpo visível
dançar como amigo
se fosse possível
dois pares de sapatos
levantando o pó
dançar como amigo só

Em passos tão simples
trocar endereços
num mundo de acessos
ar onde sufocas
lugar de supostas trocas

Separam-nos facas
separam-nos fatwas
pai-nossos e datas
e excomunhões
acondicionando paixões

Acenda-se a tua luz
na minha rua

Pisemos a pista
é bom que se insista
dancemos no mundo

Eu só queria dançar contigo
sem corpo visível
dançar como amigo
se fosse possível
dois pares de sapatos
levantando o pó
dançar como amigo só"

"Dancemos no mundo" de Sérgio Godinho

sábado, março 28, 2009

Que força é essa, Sérgio?

Vagueio pela cidade num fim de dia abafado, misturo-me no meio de tanta gente que passa distraída por mim, mães nervosas com as crianças penduradas numa correria em contra-relógio, homens de fato escuro e olhar cerrado pensando nas muitas coisas que deixaram por fazer, namorados levitando numa alegria de olhares cúmplices, adolescentes em bandos que passam rindo e falando alto sem ligar aos encontrões que fazem tropeçar as velhinhas com sacos de supermercado...
Vagueio pelas ruas sem destino certo nem horário definido, ando apenas, percorrendo as ruas da cidade com o Tejo como pano de fundo. Olho de soslaio para uma montra despida e podia jurar que ele, o reflexo torto e ondulado chama por mim... Olho em volta para me certificar que é a mim que o reflexo chama, não há ninguém ali apenas eu e ele, o reflexo torto numa montra despida. A cidade parou para eu estar à vontade.
Aproximo-me da montra e ele, o reflexo torto que chamava por mim, fica repentinamente mais nítido, mais claro, faz-me sinal e como quem conta um segredo diz-me que as andorinhas já regressaram, o sol brilha quase beijando o Tejo e as árvores vestem-se com as cores da nova estação. "E tu, que força é essa que te põe de bem com outros e de mal contigo?" Afasto-me para o ver melhor mas a montra nua devolve-me somente o meu ar espantado num reflexo torto. As pessoas voltam a passar, distraídas e apressadas e a cidade retoma o seu burburinho de fundo.
Sinto um calor intenso que me aperta o peito e me invade os olhos, enquanto um novo bando de adolescentes invade a rua e encobre a montra abalroando as velhotas que, indignadas, resmungam contra os tempos. Deixo-me levar pela corrente de gente apressada que desce a cidade até chegar ao Tejo. Os comboios e barcos enchem-se e à hora certa levam consigo os relógios e os carros e o burburinho que inquietava a cidade. Aos poucos o Sol esconde-se no Tejo num abraço profundo e as luzes trémulas dos candeeiros acendem-se em pequenas ilhas amareladas que dão às docas um ambiente nostálgico de final de século.
Dói-me a cabeça, e embora o silêncio tenha afogado por completo a cidade, oiço mil vozes que parecem vir do rio e que perguntam em vários tons "Que força é essa que te põe de bem com outros e de mal contigo?" Aproximo-me das águas que me devolvem mil reflexos espelhados na ondulação do rio. Olho para todos eles, reflexos incompletos dançando com a ondulação e revejo-me em cada um.
Sento-me e tiro os sapatos, molho os pés no rio como que procurando um diálogo com as águas. A cidade ficou suspensa, aguardando o meu regresso, não há carros, nem pessoas, nem agitação, nem barulho, apenas o rio, eu e eles, os meus reflexos incompletos. A brisa da noite traz uma música antiga que repete o refrão vezes sem conta, como um disco riscado. As águas olham-me através dos meus olhos reflectidos em mil espelhos.
Respiro fundo, fecho os olhos e sinto novamente um calor intenso que me percorre o corpo e me afoga os olhos. Agarro uma lágrima que tenta cair com a certeza de que, se começar não paro mais. Engulo os soluços e afasto o mar dos olhos. Controlo-me. Recomponho-me. Afasto-me do rio e viro-lhe as costas.
A cidade acorda os carros e as pessoas e o barulho porque me sente a voltar. Misturo-me no meio de tanta gente e tento sorrir às andorinhas que se acalmam nas copas das árvores e se preparam para dormir. Ao fundo oiço o Tejo que me chama, não ligo e recomeço a andar sem olhar para as montras.
Chego a casa e deito-me sem passar pelo espelho na parede ao fundo do quarto. Fecho os olhos e digo baixinho como que sussurrando para alguém ao meu lado "Não é hoje que te vou ouvir". Viro-me de lado e afasto as vozes que ecoam na minha cabeça com a certeza de que, um dia, terei mesmo de lhes responder.


Liliana Lima


Com a canção de Sérgio Godinho "Que força é essa" no ouvido (e aqui, num post antigo do Curvas).

segunda-feira, dezembro 29, 2008

Dia 1 será o primeiro do resto das nossas vidas, Sérgio?

É no fim da festa, quando arrumamos a loiça e apanhamos os papeis de embrulho espalhados pelo chão que fazemos o apanhado do dia, pesamos as perdas e os ganhos e medimos, no barómetro dos sentimentos, onde ficámos no fim de tudo...

É no silêncio da casa vazia, ainda com os risos, as conversas e as correrias dos miúdos bem vivos na memória, que conseguimos olhar o copo (meio cheio? meio vazio?) e nele espelhar o que somos ali, naquele momento, no fim da festa...

É com o respirar profundo dos miúdos, que dormem alegres com as prendas, com os risos e as surpresas, que encontramos a paz interior para descobrir como nos demos à festa que acabou e o que ela nos deu em troca...

É nos sacos cheios papeis rasgados e caixas vazias, que espreitamos as expectativas e descobrimos quais as que encontraram eco e as que, sozinhas abandonaram a festa mesmo antes do fim...

É no fim da festa, quando desligamos as luzes coloridas que piscam no pinheiro, que sentimos o vazio da sala depois da agitação e procuramos o sentido de cada gesto, de cada palavra, e cada entrega em forma de olhar...

É no fim da festa, quando cansados nos deitamos finalmente, que percebemos que ao fundo do corredor se aproxima já outra festa. E as loiças voltarão para a mesa, as crianças voltarão e correr alegres com os brinquedos novos e toda a casa se tornará a encher de sorrisos, palavras e olhares cúmplices. E nós, novamente embrulhados em expectativas (umas com eco, outras sós) tornaremos a sorrir, até porque é só no fim da festa, quando arrumamos a loiça...

LL

"A principio é simples, anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no borborinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado, que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso, por curto que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar, sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vazia
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida"

“O primeiro dia do resto da tua vida” - Sérgio Godinho

sexta-feira, novembro 14, 2008

Mudemos de assunto, sim?!

"Andas aí a partir corações
como quem parte um baralho de cartas
cartas de amor
escrevi-te eu tantas
às tantas, aos poucos
eu fui percebendo
às tantas eu lá fui tacteando
às cegas eu lá fui conseguindo
às cegas eu lá fui abrindo os olhos
E nos teus olhos como espelhos partidos
quis inventar uma outra narrativa
até que um ai me chegou aos ouvidos
e era só eu a vogar à deriva
e um animal sempre foge do fogo
e mal eu gritei: fogo!
mal eu gritei: água!
que morro de sede
achei-me encostado à parede
gritando: Livrai-me da sede!
e o mar inteiro entrou na minha casa
E nos teus olhos inundados do mar
eu naveguei contra minha vontade
mas deixa lá, que este barco a viajar
há-de chegar à gare da sua cidade
e ao desembarque a terra será mais firme
há quem afirme
há quem assegure
que é depois da vida
que a gente encontra a paz prometida
por mim marquei-lhe encontro na vida
marquei-lhe encontro ao fim da tempestade
Da tempestade, o que se teve em comum
é aquilo que nos separa depois
e os barcos passam a ser um e um
onde uma vez quiseram quase ser dois
e a tempestade deixa o mar encrespado
por isso cuidado
mesmo muito cuidado
que é frágil o pano
que tece as velas do desengano
que nos empurra em novo oceano
frágil e resistente ao mesmo tempo
Mas isto é um canto
e não um lamento
já disse o que sinto
agora façamos o ponto
e mudemos de assunto
sim?"

Sérgio Godinho
(cantado pelo Sérgio e o Palma no Irmão do Meio)

Às vezes precisamos de mudar de assunto, alterar o registo, criar uma nova narrativa, virar o bico ao prego...

O problema é quando, depois de o fazermos, chegamos à conclusão que "isto está tudo ligado" como dizia o outro (que neste caso até é o mesmo...) e por muitas mudanças que façamos, a nossa história joga-se sempre no mesmo campo. Por muito esforço de mudança o mais que se altera são paisagens, porque o que realmente importa joga-se dentro de nós, da nossa essência e essa, se não muda com cantigas... (E ainda bem, diria eu!)

O que é importante então? Ter a capacidade de "inventar uma outra narrativa" sem perdermos aquilo que nos define, o fio condutor que faz de nós pessoas únicas e irrepetíveis e fazê-lo com amor, carinho e muita coragem!

quinta-feira, novembro 16, 2006

Cuidado com as imitações - Sérgio Godinho

Estimado ouvinte, já que agora estou consigo
Peço apenas dois minutos de atenção
É pra contar a história de um amigo
Casimiro Baltazar da Conceição

O Casimiro, talvez você não conheça
a aldeia donde ele vinha nem vem no mapa
mas lá no burgo, por incrível que pareça
era, mais famoso que no Vaticano o Papa

O Casimiro era assim como um vidente
tinha um olho mesmo no meio da testa
isto pra lá dos outros dois é evidente
por isso façamos que ia dormir a sesta

Ficava de olho aberto
via as coisas de perto
que é uma maneira de melhor pensar
via o que estava mal
e como é natural
tentava sempre não se deixar enganar
(e dizia ele com os seus botões:)

Cuidado, Casimiro
cuidado com as imitações
Cuidado, minha gente
Cuidado justamente com as imitações

Lá na aldeia havia um homem que mandava
toda a gente, um por um, por-se na bicha
e votar nele e se votassem lá lhes dava
um bacalhau, um pão-de-ló, uma salsicha

E prometeu que construía um hospital
Uma escola e prédios de habitação
e uma capela maior que uma catedral
pelo menos a julgar pela descrição

Mas... O Casimiro que era fino do ouvido
tinha as orelhas equipadas com radar
ouvia o tipo muito sério e comedido
mas lá por dentro com o rabinho a dar, a dar
E... punha o ouvido atento
via as coisas por dentro
que é uma maneira de melhor pensar
via o que estava mal
e como é natural
tentava sempre não se deixar enganar
(e dizia ele com os seus botões:)

Cuidado, Casimiro
cuidado com as imitações
Cuidado, minha gente
Cuidado justamente com as imitações

Ora o tal tipo que morava lá na aldeia
estava doido, já se vê, com o Casimiro
de cada vez que sorria à plateia
lá se lhe viam os dentes de vampiro

De forma que pra comprar o Casimiro
em vez do insulto, do boicote, da ameaça
disse-lhe: Sabe que no fundo o admiro
Vou erguer-lhe uma estátua aqui na praça

Mas... O Casimiro que era tudo menos burro
tinha um nariz que parecia um elefante
sentiu logo que aquilo cheirava a esturro
ser honesto não é só ser bem falante


A moral deste conto
vou resumi-la e pronto
cada qual faz o que melhor pensar
Não é preciso ser
Casimiro pra ter
sempre cuidado pra não se deixar levar.

Sérgio Godinho in Campolide 1979

Não vos parece terrívelmente actual este aviso?!?!

Para meditar... ;-)

quarta-feira, outubro 25, 2006

Correio Azul - Sérgio Godinho


Manda-me uma carta em correio azul
p'ra afastar estas cinco nuvens negras
relembra-me as regras
do saber viver
repõe-me o sentido nos sentidos
olfactos
ouvidos
à vista
de tactos
do teu paladar

Manda-me uma carta em correio azul
p'ra afastar esses blues de pacotilha
renega e perfilha
respectivamente
a torpe indiferença
e o amor ardente
amor tão ardente
que dos erros meus
má fortuna se ausente

Erros meus, má fortuna, amor ardente
qual em nós mais frequente
qual em nós mais frequente
amor ardente
cada vez mais frequente

Manda-me uma carta em correio azul
que me deixe a face roburizada
promete-me a noite fatigada
de termos aberto o nosso nexo
ao sexo
da vida
porção destemida
da nossa emoção

Erros meus, má fortuna, amor ardente
qual em nós mais frequente
qual em nós mais frequente
amor ardente
cada vez mais frequente

Manda-me uma carta em correio azul
que branqueie o passado num momento
paixão, é no corpo o sentimento
que faz da razão montanha russa
aguça
o encanto
mas no entretanto
faz estragos mil

Erros meus, má fortuna, amor ardente
qual em nós mais frequente
qual em nós mais frequente
amor ardente
cada vez mais frequente

Manda-me uma carta em correio azul
para eu guardar no castanho dos armários
no meio de testemunhos vários
escritos por letras tão distantes
murmúrios amantes
que a vida me oferece
só por muito amar

Erros meus, má fortuna, amor ardente
qual em nós mais frequente
qual em nós mais frequente
amor ardente
cada vez mais frequente


Ségio Godinho in Domingo no Mundo (1997)

quarta-feira, outubro 11, 2006

Lisboa que Amanhece - Sérgio Godinho

Já vos aconteceu querer adormecer e ter à volta da cabeça uma série de dúvidas, questões, medos e inseguranças que, por mais que nos esforcemos por diluir no lusco-fusco de Lisboa, teimam em não desaparecer? Que fazer quando a meio da noite Lisboa nos sussurra ou ouvidp, de mansinho, perguntas que nos tiram o sono e alteram a imagem do outro lado do espelho?!

Ás vezes é assim, às vezes pergunto-me se estarei a cumprir o papel que me está reservado com a força de quem sabe que temos de nos superar todos os dias, em todas as situações...

Mas é assim mesmo, depois o dia nasce e já tudo volta a ser “tudo aquilo que parece, na Lisboa que amanhece”...




"Cansados vão os corpos para casa
dos ritmos imitados de outra dança
a noite finge ser
ainda uma criança
de olhos na lua
com a sua
cegueira da razão e do desejo

A noite é cega e as sombras de Lisboa
são da cidade branca a escura face
Lisboa é mãe solteira
amou como se fosse
a mais indefesa
princesa
que as trevas algum dia coroaram

Não sei se dura sempre esse teu beijo
ou apenas o que resta desta noite
o vento enfim parou
já mal o vejo
por sobre o Tejo
e já tudo pode ser tudo aquilo que parece
na Lisboa que amanhece

O Tejo que reflecte o dia à solta
à noite é prisioneiro dos olhares
ao cais dos miradouros
vão chegando dos bares
os navegantes
amantes
das teias que o amor e o fumo tecem

E o Necas que julgou que era cantora
que as dádivas da noite são eternas
mal chega a madrugada
tem que rapar as pernas
para que o dia não traia
Dietrichs que não foram nem Marlenes

Não sei se dura sempre esse teu beijo
ou apenas o que resta desta noite
o vento enfim parou
já mal o vejo
por sobre o Tejo
e já tudo pode ser tudo aquilo que parece
na Lisboa que amanhece

Em sonhos, é sabido, não se more
aliás essa é a única vantagem
de, após o vão trabalho
o povo ir de viagem
ao sono fundo
fecundo
em glórias e terrores e ventures

E ai de quem acorda estremunhado
espreitando pela fresta a ver se é dia
a esse as ansiedades
ditam sentenças friamente ao ouvido
ruído
que a noite, a seu costume, transfigure

Não sei se dura sempre esse teu beijo
ou apenas o que resta desta noite
o vento enfim parou
já mal o vejo
por sobre o Tejo
e já tudo pode ser tudo aquilo que parece
na Lisboa que amanhece"


Lisboa que Amanhece – Sérgio Godinho