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quinta-feira, maio 05, 2011

Como toca a orquestra do tempo, Franz?!

Abro porta da rua que dá para a grande entrada oval com varias portas para salas e quartos e um corredor. Um pouco por toda a parte bocados de vida espalhados pelo chão, atirados para cima dos baús, pendurados no bengaleiro ou encavalitados nas estantes.

Pedaços de dias, horas, meses inteiros, momentos alegres rasgados, lágrimas que escorrem das paredes forradas a papel fora de moda. Toda a assoalhada coberta dum passado que teima em levitar, em invadir, em fazer-se lembrar. Uma grande entrada oval com varias portas para o absurdo possível dos dias que se passam.

Um sofá virado ao contrário que conta a história de um assalto espreita pela porta da sala. Roupas que se espalham pelo corredor sem ordem nem lógica. Uma casa de bonecas com mobílias em miniatura que se perderam no tempo, balança no tecto. Uma cozinha desarrumada sem cozinhados nem vida. Uma menina sentada num canto que se embala, cantando. Muitas casas, muitos dias, muitas histórias recortadas.

Abro a porta da rua que dá para a grande entrada com portas para as salas e o corredor que vai dar à cozinha. Casacos atirados para cima dos baús, espalhados pelo chão um monte de legos e carrinhos e brinquedos por onde tropeço. Canetas e lápis e papeis com desenhos encavalitados nas prateleiras espreitam quem entra.

Todo um absurdo que se transforma à medida que o tempo recua e avança "como bola colorida por entre as mãos de uma criança".

Liliana



"As forças do homem não são concebidas como uma orquestra. No homem é necessário que todos os instrumentos toquem constantemente com toda a sua força. Não foram destinados a ouvidos humanos e não dispõem da duração de uma noite de concerto durante a qual cada instrumento pode esperar para se fazer valer."


Franz Kafka, in "Meditações"

sábado, março 19, 2011

Fala-me do teu pai, Franz...


Posso sempre dizer que foi bom ter-te.

Sim, apesar dos pesares, posso dizer que me deste o amor pelos livros, a paixão pelo cinema e o desejo infindável pela música.

Posso dizer-me que foi contigo que conheci os "Cinco" que me maravilhei com o "Dune" ou que descobri o António Pinho Vargas... não estarei a mentir-me nem a colorir a história.

Aliás, posso dizer-me que foi contigo que aprendi o que são histórias, lidas vistas ou ouvidas (só muito mais tarde percebi que podiam ser contadas).

É também verdade que foi contigo que conheci pesadelos que inundam o quarto enquanto dormes, com tal força que não dão tempo para nadar e sair pela janela, afogando-te no sonho e levando-te para outro hemisfério tão absurdo como longínquo.

Mas posso dizer-me que foste tu que me ensinaste a escrever com os textos que publicavas no jornal e em relação aos quais fazias questão que eu lesse e, claro, opinasse.

Posso mesmo dizer-me que foste tu quem me ensinou que as opiniões podem ser diversas e que discuti-las pode ser um processo de aprendizagem para todos (embora sempre desconfiasse que pouco aprendias nessas tertúlias).

Foi contigo, posso dizê-lo igualmente, que me habituei a reparar nas incoerências das histórias, nas falhas das gravações, nos defeitos das projecções, no desequilíbrio sonoro dos equalizadores e colunas... foi contigo, portanto, que me descobri ser exigente com o que leio, oiço e vejo.

É também verdade, que foi contigo que aprendi uma certa forma de abandono pelo silêncio pela despreocupação pelo afastamento pela desatenção, no fundo, pelo absurdo.

Mas, há sempre um arco-íris que brilha algures no mundo. E, posso dizer, foi contigo que vi as várias versões de uma das histórias que mais me marcou e me acompanha desde sempre...
Soubera eu onde estão os sapatinhos vermelhos e, quem sabe num dia de pesadelos, entrava no teu quarto, batia os calcanhares e trazia-te de volta a casa. Até porque, como reza a história: "there's no place like home" (seja isso o que for...).
Liliana

"Claro que não quero dizer que aquilo que sou se deve apenas à tua influência. Seria um grande exagero (e eu até tenho tendência para estes exageros) (...)se tivesse crescido completamente fora da tua influência (...)ter-me-ia tornado um ser completamente diferente daquilo que sou(...)"

"Carta ao pai" de Franz Kafka