Fui descendo a calçada
Por entre carros fora dos carris
E respostas por aparecer
E palavras que esperava ler
Os sorrisos primaveris
Fogem rápido como balões
E as promessas que nos fazemos
Borboletas inquietas a esvoaçar
Fui subindo a avenida
Com os sacos cheios de promessas
Quase todas por começar
E um cansaço, enjoativo, pesado
Com o poder de tudo apagar
As tardes de Primavera
Cantam canções de embalar
Mesmo quando o silêncio que ecoa
Não nos deixa avançar
No canto dum passeio
Perdida num canteiro
Uma papoila chama por mim
Tráz-me à terra, e neste dia louco
Lembra-me de ti
Liliana Lima
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quinta-feira, abril 05, 2018
O canto DA papOILA
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sábado, dezembro 02, 2017
poeMas de aMor
Nunca me escreveram poemas de amor
Uma carta passada por entre as mesas da sala de aula
Um postal deixado na secretária
Um ramo de rosas vermelhas entregues à porta...
Mas nunca um poema de amor
Eu já escrevi algo parecido com poemas de amor
Aliás, quase tudo o que escrevo é um poema de amor
se o souberes ler, entenderás que o é, meu amor
É que a palavra AMOR não se diz na correria das horas
É feita dum cristal tão fino como o teu olhar,
quando me olhas de perto, quase de dentro
A palavra AMOR, meu amor, é feita de muitas histórias
que se contam em todas as ruas e em todos os fados
e embora se pareçam iguais, são únicas e irrepetíveis
Nunca me escreveram um poema de amor
E agora que penso nisso, nem sei o que faria para o agarrar
É que o poema tem em si a força de todas as marés
que se elevam nos oceanos ou se estendem na areia
E o peso absurdo de todos os luares
que beijam a Terra e iluminam cada história
E a palavra, quando cantada, como poema,
torna-se fogo ou ventania, medo ou alegria
Nunca me escreveram poemas de amor
Nunca me disseram AMOR, assim com todas as letras
e por escrito, que tem sempre uma força maior do que o dito
Se um dia me escreveres um poema de amor, meu amor,
que seja alegre e suave, doce e leve
se diga, "cantando a toda a gente"
e se espalhe pelo mundo, assim, num vôo livre de andorinha
que abraça o céu azul e nele escreve, dançando
leve e inquieta, a nossa canção, AMOR
Liliana Lima
Uma carta passada por entre as mesas da sala de aula
Um postal deixado na secretária
Um ramo de rosas vermelhas entregues à porta...
Mas nunca um poema de amor
Eu já escrevi algo parecido com poemas de amor
Aliás, quase tudo o que escrevo é um poema de amor
se o souberes ler, entenderás que o é, meu amor
É que a palavra AMOR não se diz na correria das horas
É feita dum cristal tão fino como o teu olhar,
quando me olhas de perto, quase de dentro
A palavra AMOR, meu amor, é feita de muitas histórias
que se contam em todas as ruas e em todos os fados
e embora se pareçam iguais, são únicas e irrepetíveis
Nunca me escreveram um poema de amor
E agora que penso nisso, nem sei o que faria para o agarrar
É que o poema tem em si a força de todas as marés
que se elevam nos oceanos ou se estendem na areia
E o peso absurdo de todos os luares
que beijam a Terra e iluminam cada história
E a palavra, quando cantada, como poema,
torna-se fogo ou ventania, medo ou alegria
Nunca me escreveram poemas de amor
Nunca me disseram AMOR, assim com todas as letras
e por escrito, que tem sempre uma força maior do que o dito
Se um dia me escreveres um poema de amor, meu amor,
que seja alegre e suave, doce e leve
se diga, "cantando a toda a gente"
e se espalhe pelo mundo, assim, num vôo livre de andorinha
que abraça o céu azul e nele escreve, dançando
leve e inquieta, a nossa canção, AMOR
Liliana Lima
Baragem do Alvor, Igrejinha, Arraiolos
sábado, novembro 05, 2016
Chão
De quando te foge o chão, e o pé descalço bate no asfalto
De quando estendes a mão à procura da calma que não volta na palma vazia
De quando te foge o chão, e as paredes rodam à tua volta como slides envelhecidos e desconexos
De quando os gritos te assustam e te ferem, num loop de memórias escondidas debaixo do tapete
De quando o silêncio te invade, como a maré que revolve a areia e desenterra as conchas e arranca as algas
De quando o calor que te falta enregela a cama e arrefece os lençóis e te esvazia as emoções
De quando te foge o chão e os fantasmas, fechados nas arcas, se soltam numa dança de bruxas
De quando te sentes afundar em ti, e por momentos te perdes no poço onde moram os medos
De quando precisas duma palavra, abraço, duma palavra, mão, duma palavra, carinho , e te falta a voz para as pedires
De quando te foge o chão e, de repente escuro, de repente longe, de repente só, não o consegues agarrar
De quando te foge a paz, e "num segundo se envolam muitos anos"(*).
Liliana Lima
De quando estendes a mão à procura da calma que não volta na palma vazia
De quando te foge o chão, e as paredes rodam à tua volta como slides envelhecidos e desconexos
De quando os gritos te assustam e te ferem, num loop de memórias escondidas debaixo do tapete
De quando o silêncio te invade, como a maré que revolve a areia e desenterra as conchas e arranca as algas
De quando o calor que te falta enregela a cama e arrefece os lençóis e te esvazia as emoções
De quando te foge o chão e os fantasmas, fechados nas arcas, se soltam numa dança de bruxas
De quando te sentes afundar em ti, e por momentos te perdes no poço onde moram os medos
De quando precisas duma palavra, abraço, duma palavra, mão, duma palavra, carinho , e te falta a voz para as pedires
De quando te foge o chão e, de repente escuro, de repente longe, de repente só, não o consegues agarrar
De quando te foge a paz, e "num segundo se envolam muitos anos"(*).
Liliana Lima
" E por vezes”
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos
David Mourão-Ferreira
terça-feira, outubro 11, 2016
pALMA
Aperto o relógio na palma da mão, os minutos demoram horas a passar e a noite avança sem esperar por mim
Espero
Espero dias que parecem infinitos, por entre os destroços das batalhas que travo entre o que quero e o que gostava de querer
Guardo dentro de mim o pó das lágrimas secas à força do vento que eu própria sopro para enfonar as velas de cada partida
Abraço as certezas, ainda que efémeras, ainda que trémulas e sorrio para os ponteiros na esperança de os ver dançar com um tempo que teima em não se encontrar com o meu
Espero
Espero noites e noites, despida de ilusões, deitada numa cama de rede que baloiça entre o que sou e o que não quero ser
Procuro dentro da redoma em que me escondo do tempo a chave para dar corda ao relógio de pé que me olha, imóvel, num canto da sala
Sento-me à beira-rio com as inquietações o mais aquietadas possível e recorto pequenas luas onde desenho números romanos
Peço ao lado de mim que tenta abafar o outro, que me deixe soltar os ponteiros
Aperto o relógio na palma da mão
E espero
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quarta-feira, março 16, 2016
conCHA
A minha concha tem paredes feitas de giz. Brancas como a cal, pintam-me as mãos quando as tento afastar.
A minha concha tem paredes de vidro. Levo-a comigo onde quer que vá e, escondo-me nelas sempre que o vento norte me arrepia.
Boneca de loiça a dançar a valsa que eu própria canto. É dentro do búzio que me protejo dos barcos fantasma que, "a noite, ao seu costume transfigura".
Desenho vestidos madrepérola cosidos nas abas da minha concha. Enfeito-me com eles e mergulho num cenário colorido à força dos sonhos que guardo na palma da mão.
Oculto a concha até de mim, escondo-a quando sorrio e abafo-a sempre que falo. Se não te mostro que a tenho é porque nem eu a vejo ao espelho.
Vou-me enrolando nas margens em caracol e quando me encontro é bem no fundo do coração que estou. Espreito a cada alvorada mas recolho-me ao nascer do Sol.
A minha concha é feita de recortes dos dias que se dizem nossos. Colo-os na parede que me rodeia e embalo-me com as ondas do mar.
A minha concha tem paredes feitas de nuvens. Voo no branco-cinzento da sua forma desenhada sobre os azuis do céu primaveril. Afago os verdes das copas das árvores que se reflectem nos meus olhos e, nua de medos, acordo nos castanho-esverdeado dos teus.
Liliana
domingo, março 06, 2016
tornEIRA
Não abras a torneira que estou a suster a água dentro do peito.
Não acendas a luz que o espelho olha fixamente para os olhos que não mostro a ninguém para esquecer que os tenho.
Não respondas que falo somente para me ouvir, pintando a verdade de aguarelas que escorrem pelo ralo e não tarda se juntam ao rio.
Não me dês a mão que ela só sabe amparar, e nunca foi amparada.
Que sabor amargo é este que se me cola à garganta e se recusa a ser diluído, pelos mil argumentos, que junto no guarda-joias para os dias de tempestade?
Que tremor é este que me impede até de falar, me embarga a voz e me aperta o peito?
Que tontura dança em mim, rodopiando os meus pensamentos, em volta da sala, do quarto, até mesmo da cama?
Que mágoa é esta que abre rachas mais antigas que o nascer dos tempos, e se confunde com as dores de ontem e multiplica as de hoje?
Que solidão é esta que se senta ao meu lado, por muito que me confortem em abraços ocos do calor de quem sabe ler as entrelinhas?
Que vazio é este que me consome, e devora cada nova alvorada?
Abre a torneira que me afogo na água que trago no peito...
Acende a luz que preciso encontrar no espelho os olhos que a ninguém mostro...
Responde-me que preciso ouvir a verdade para além da que pinto com aguarelas no rio...
Dá-me a mão, devagar, como quem é amparado, para que não perceba que é a tua que me ampara...
Liliana
segunda-feira, janeiro 18, 2016
cAOs
Sento-me no chão da cozinha com a água para a massa a ferver em cacho e a frigideira com o azeite quente à espera da carne. Cá fora nem uma onda a mais no Tejo, nenhum carro a derrapar junto à passadeira, nem uma só criança a chorar pela mãe. Lá dentro um furacão capaz de arasar a cidade e engolir o rio dum só trago.
Sentada no chão da cozinha, com o jantar a chamar por mim, sinto-me perdida entre o que sinto e o que acho que devo sentir. Levanto-me e jogo à apanhada com tudo o que sei que não devia fazer, com todas as palavras que, acho, não devia dizer. Um passo para a frente, um salto para trás e o mundo ao contrário numa sucessão de sentimentos que não consigo controlar e que se espalham à minha volta, na água que ferve e na frigideira quente.
Levanto-me guardando a tempestade num aperto de coração, o mundo cá fora não vê o caos lá dentro. Hesito entre apagar o lume e pôr a massa a cozer, mas o espectáculo não pode parar e os ventos são contidos num novo aperto. Uma leve tontura lembra-me tudo em que, agora, não posso pensar e solta o bater do coração que segue o ritmo frenético interior.
O jantar está pronto e o ritual é cumprido como se um bailado, onde os receios e as inquietações e a dúvida dançam comigo à volta da mesa onde não consigo jantar. Sinto-me perdida entre o ritmo acelerado do coração e a calma aparente com que arrumo a loiça.
Sento-me no chão da cozinha com os talheres na mão e os pratos arrumados. Cá fora a noite avança tranquilamente com os pijamas e os sacos de água quente e as escovas de dentes. Lá dentro um rufar de tambores descompassados .
O tempo segue o seu rumo, indiferente às minhas dúvidas, e de novo uma tontura que me pede para soltar as emoções que não sei dizer. Procuro as palavras para descrever o que sinto sem espelhar os destroços do marmorto. Não sei o que fazer, mas sei que não posso soltar os ventos que aperto lá dentro, sob pena de deitar por terra as construções que erguemos cá fora.
Sentada no chão da cozinha, com o silêncio do luar que entra pela janela, meço os adjectivos e conto os verbos. Sinto-me perdida entre o que sou lá dentro e o que acho que devo ser cá fora. Digo-me com muito cuidado e espero que me acolhas com todo o carinho.
Liliana
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domingo, dezembro 13, 2015
DIZ-me
Diz-me, porque me manténs aqui, encostada à palma da tua mão que pensava aberta e afinal sangra a cada toque da minha pele?
Diz-me, porque me deixas deitar-me ao teu lado todas as noites que achava de luar e afinal sem nenhuma lua, nem nova, a iluminar o teu lado da cama?
Diz-me, porque me permites esta proximidade tão nossa se afinal, não estás aqui estando, sentado ao meu lado?
Diz-me, porque me manténs inteira no abraço que me dás, pensava, enroscado em mim e afinal com o corpo tenso, dorido à força de, não estando estar?
Diz-me, porque me dizes de ti sabendo que de mim ponho tudo o que tenho, pensando que te apoiando e afinal apenas mais um peso no pesar das horas?
Diz-me, porque me sorris quando olho para os teus olhos que sempre me pareceram tão meigos, e afinal numa fuga?
Diz-me, porque deixas que o meu corpo no teu se dilua no que achava um tango a dois, se afinal uma viagem disfarçada com os fantasmas com que, afinal danças?
Diz-me, porquê dizer-me que sangras sem luar, não estando no passar das horas, mas sim numa fuga, num disfarce?
Liliana
terça-feira, fevereiro 24, 2015
malaba.ris.mo
Peso na balança antiga, de pratos de cobre amolgados pelo passar dos anos, o hoje o ontem e o depois
Entrego ao lado esquerdo o peso vivo dos sentimentos, que brincam comigo esvoaçando alegres a cada nascer do Sol
E despejo à direita a ausência dos outros, que espreito e pinto no céu ainda que os saiba, eternamente tapados pelas nuvens
Espero que a balança responda, enquanto jogo com os pesos à procura do equilíbrio que nunca encontro
Descai o prato do lado direito, meu esquerdo, que olha para mim de sobrolho franzido culpando-me pela incoerência do sentir
No entanto, ontem, podia jurar que os pratos inclinados para a esquerda e os olhos a sorrir, com o Sol a iluminar o corpo e o querer
Peso nos pratos amolgados da balança antiga de cobre, o querer os sorrisos o sentir as incoerências o desequilíbrio as ausências e os sentimentos
Junto tudo no mesmo prato, não consigo separar uns dos outros e desisti de tentar entender a ordem pela qual se vão manifestando
Pergunto-lhe para que lado me virar, e ela, antiga e amolgada, eleva os pratos à vez como quem faz malabarismo e recusa-se a responder
Liliana
sexta-feira, abril 29, 2011
O que esconde o nevoeiro?!
Aninho-me para que a frieza do dia não entre pela roupa e me enregele a pele. Sabes quantos barcos se perdem no nevoeiro, atraídos pelos cantos das sereias?!
Afago o meu rosto de mar aberto porque não consegui conter a lágrima que encheu o copo e o fez transbordar. E danço... danço comigo numa valsa lenta para acalmar o adamastor que se mostra, imponente, intransponível...
Canto a vozes comigo própria para afastar os fantasmas que me querem devolvem um reflexo turvo dum tempo que já passou e que não volta, mas teima em espreitar por trás da chaleira do serviço da avó.
Embalo-me, num ritmo certo, como quem adormece um bebé, adormecendo as dores, as ferias, as lágrimas e dizendo para fora "está tudo bem".
E assim se desenha o círculo que começa no nevoeiro e, por entre outros círculos, acaba inevitavelmente no tão pouco convincente como real "está tudo bem". Sabias que, voando em círculos perdemos a noção das coordenadas e se as sereias a cantar, podemos acabar perdidos num nevoeiro enganoso e frio onde não há espaço para mais que um.
Embalo-me e aninho-me para não sentir a solidão do cântico enganador das sereias-fantasma que me reflectem um tempo que não volta mas teima espreitar atrás da chaleira do serviço da avó....
Liliana
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