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quinta-feira, novembro 21, 2019

ATÉ já, José!

Não conheci o José Mário Branco. "Zé Mário" é como lhe chamam os amigos, que hoje parecem ser todos, é verdade, mas para mim foi sempre 'O' José Mário Branco.

Não o conheci? Se calhar sim... Quer dizer, o homem, o pai, o avô, o vizinho... na verdade não (com uma certa mágoa, posso dizer, agora que já não faz diferença nenhuma). Mas o poeta, o músico, o cantor, o exemplo, a ideologia, a luta, a força, a voz, o poeta, o cantor, o músico... 

Porra, José! O tanto que aprendi contigo desde que, tão cedo, te comecei a ouvir! 
O tanto que conversei e cantei contigo desde que, tão cedo, te conheci. Não foi, José?!
O tanto que descobri nas tuas letras...

Porra, José! Canções que me despem palavra-a-palavra desde que me sei quem sou. Como é isso José?! 
Sem nos conhecermos. Nem nos cruzarmos, nos tantos cruzamentos em que tão perto fomos estando... Como é isso, José?! 
O tanto que aprendi na força da tua interpretação. Estar lá todo, a cada nota, a cada frase. Porque a cantiga é uma arma, não é José?!

Sempre disse que, de uma forma impossível, tu me conhecias melhor que muita malta que de muito perto conviveu comigo... 
Disse eu, e aposto que milhares de outras almas que te conheceram, como eu, no gira-discos e nas cassetes.

É que, tu não sabes José, mas eu guardo as tuas palavras dentro de mim. Contam-se comigo, da cabeça aos pés. Porque tudo depende da raiva e da alegria, não é José?!
Acho que é aqui que nos continuaremos a encontrar, com o tanto que temos para nos dar. Não achas, José?!

É que mesmo não te conhecendo, José, estou (eu e aposto que milhares de outras almas) a tentar fazer desta perda uma raiz, assim, por sobre a tua morte. Como em canções, mesmo sem quereres, me (nos) ensinaste.

Mas já que estamos a conversar, aqui que ninguém nos ouve, acho que se cá estivesses, de viva voz, era capaz de te ouvir dizer qualquer coisa do tipo... É pá, continuem a cantar-me, continuem a lutar, mas já agora vão ter com a malta que ainda está viva enquanto estão vivos, porra!... 


Não conheci o José Mário Branco (com uma certa mágoa, posso dizer, agora que já não faz diferença nenhuma) ou talvez tenha conhecido... Quer dizer, o homem em si, não. Mas o homem que vive para sempre no legado que nos deixa, sim. E a esse digo: 

Obrigada José Mário Branco! 
Que bom conhecer-te!
Guardo em mim tudo o que de ti me confiaste
e sempre que Abril aqui passar
dou-lhe este farnel para o ajudar!
Até Já!


Liliana Lima 



sexta-feira, setembro 27, 2019

Crónicas duma separação consumada III

E quando acordamos para o facto de estarmos a ser/fazer grande parte das coisas que tão convicta e repetidamente dissemos, noutras ocasiões e representando outras personagens, para os nossos amigos não fazerem... 

Comunicar com o que, de um dia para o outro, parece ter-se transformado no "outro lado da barricada", não é fácil. E pouco se pode fazer para mudar. Resta-nos a esperança que o tempo, a seu tempo, lime as arestas e deixe correr o ar. 

Do alto da minha alta janela, a vontade que sinto crescer dentro de mim, é de escrever pequenos papéis coloridos, enrolar cada frase e lançá-las ao vento. E não ter, tão cedo, que confrontar esse conflito latente que (ainda) não se pode amainar. 

E o mais engraçado é que acredito mesmo que, pelo menos algumas das frases, chegariam, ao destino. Amachucadas claro, mas menos confusas e quem sabe menos sujas das interpretações e subjectividades de cada um, tanto emissor como receptor. 

Sei também que te tiraria a responsabilidade de acartar com o peso que cada recado acarreta. E te tiraria do meio deste diálogo mudo, onde o teu e os vossos personagens devem ser o mais omissos possível. 

Não te aceno com uma perfeição que sei não conseguir encontrar dentro de mim. Mas prometo que tentarei arranjar a forma certa, ou pelo menos a mais eficaz, de comunicar com "esse lado" que durante tantos anos foi também o "meu" lado. E que, por acaso do destino, hoje é onde tu estás. 

Se acaso algum dia me esquecer e tentar, fugindo ao confronto, entregar-te correspondência alheia, devolve sem medos ou hesitações, ao remetente. E lembra-me o que te contei: "as palavras estão gastas"(*). 

Com muito amor, 
Mãe 



(*) "Adeus" 
de Eugénio de Andrade
In Poesia e Prosa

segunda-feira, setembro 02, 2019

iLHa

O Sol entra,
Deita-se
Na cama
E conta-me
Do mar e das ondas
Que oiço
Desaguar na areia.
Tu cantas
Com o vento
Que faz abanar as canas.
Procuro
As palavras
Certas
Para espelhar
O tanto que quero contar.
Tu cantas,
Com a gaivota
Que rasga o céu,
Uma canção
De embalar.
E eu deito-me
Com o Sol
Que vejo entrar, invadindo
A cama,
Onde te vou encontrar
Também.
E, nesta tarde calma,
Deixo-nos
Ficar.

Liliana Lima


terça-feira, agosto 13, 2019

MEnsagEM

Que sabes das mensagens vazias que chegam à praia em bonitas garrafas vestidas de festa?
Conheces-lhes o cheiro demasiadamente forte e as cores para lá do berrante?
Já ouviste o enorme silêncio que lhes habita as palavras, tão gastas de nada dizer?

Que sabes do lamento que vive nos búzios escondidos no meio das pedras do molhe que protege a praia?
Já o viste dançar sozinho nos reflexos com que a lua pinta o mar depois do pôr-do-sol?
Conheces-lhe as palavras tão gastas de tanto ecoar as suas mágoas ao luar?

Que sabes das mensagens que, em silêncio, são lançados ao mar e dentro de um simples olhar percorrem mares e marés até darem à costa no outro lado do horizonte?
Já lhes sentiste o rasto, perceptível apenas aos que um dia já lançaram, eles próprios, as suas mensagens ao mar?
Algum dia te cruzaste com as complexas palavras que as compõem, que rimam sempre com amor e que, dizem, são cantadas em noites de lua nova, em uníssono, por sereias encantadas e trovadores enamorados?

Que sabes do tanto que traz este mar?...


Liliana Lima


Foto: Carlos Alberto Moniz

quarta-feira, abril 03, 2019

AMAnhã

Há sempre o dia depois
Há sempre a manhã seguinte
que tráz na aurora
os cheiros
os sons
os movimentos
que nos levaram até...
ao dia depois

Há sempre o amanhã
de tudo o que fomos ontem
em sintonia ou não
em paz ou exaltação
Há sempre o depois daquilo que se segue
e todas as palavras que com ele rimam
E a esperança que o hoje espere 
por este dia que é também amanhã

Há sempre a palavra que vem
Há sempre a escolha
de dizermos ou não
como chegámos
o que demos
quanto recebemos
para tentarmos chegar até...
à palavra que vem

Há sempre o amanhã
de tudo o que fomos ontem
em sintonia ou não
em paz ou exaltação
Há sempre o depois daquilo que se segue
e todas as palavras que com ele rimam
E a esperança que o hoje espere 
por este dia que é também amanhã

Há sempre a espera
Há sempre o silêncio
que nos pára em frente 
do espelho
do ontem
da dúvida
de como agir até...
superar a espera

Há sempre o amanhã
de tudo o que fomos ontem
em sintonia ou não
em paz ou exaltação
Há sempre o depois daquilo que se segue
e todas as palavras que com ele rimam
E a esperança que o hoje espere 
por este dia que é também amanhã

Liliana Lima


sábado, fevereiro 23, 2019

(des)CONSTRUÇÃO

Do tanto que fomos e construímos
Levo os vestidos, dos dias claros junto ao Tejo
Levo os sonhos, três vezes saídos de mim e embalados a dois
Levo os sapatos, os vermelhos com que bati os calcanhares
E deixo as lágrimas, deixo os pilares que mantêm a casa, que construímos

Do tanto que fomos e construímos
Levo os casacos, de Inverno que lá fora está frio
Levo todos e cada sorriso que partilhámos, à mesa da cozinha
Levo os livros, partes de mim de que não consigo separar-me
E deixo as angústias, deixo arrumada a casa, que construímos

Do tanto que fomos e construímos
Levo o blush, o baton e o rímel preto
Levo a cumplicidade, partilhada numa troca de olhares 
Levo os CD's, da música que se canta dentro e fora de mim
E deixo o silêncio, deixo o desencanto intruso nesta casa, que construímos

Do tanto que fomos e construímos
Levo as plantas que aprendi a cuidar
Levo o carinho servido num tabuleiro, numa manhã de domingo
Levo as malas, umas dentro das outras, as grande e as pequenas
E deixo as discussões, deixo as palavras amargas que ecoam na casa, que construímos

E deixo os quadros e as panelas 
Deixo os sofás e os candeeiros 
Deixo as televisões e os pratos
Deixo as estantes e as fotos nas paredes

Agora que abro a porta para sair
Guardo as noites e os beijos
Guardo os jantares e almoços a dois
Guardo os cheiros e os sabores 
Guardo os recortes e as memórias
Dum amor que nasceu, cresceu e deu frutos 
E, gradual e compassadamente, saiu pelas janelas e desaguou no Tejo 
Que o levou nas suas águas e, tenho a certeza que agora
Agora que abro a porta para saír
"o mar / tem mais peixinhos a nadar"

Liliana Lima



sexta-feira, dezembro 14, 2018

ESCREVES com TUDO o que ÉS, José?

O que escrevo é triste?
Escrevo mais amargura que alegria?
É possível
Sempre que o que sinto assim o é

Não sei escever "alegrias de encomenda"
Cada palavra é arrancada de mim
E carrega em si tanto quanto o que sou

Sei descrever sorrisos e o som das cantigas
Sei contar risos e dizer o colorido das flores
Sei narrar gargalhadas e apagar sombras

Sei escrever 

A L E G R I A 
ou 
F E L I C I D A D E

Porque também as sei sentir

Mas mais depressa visto o que não sinto, do que escrevo o que não sou
Porque a palavra, a palavra escrita, perdura e ecoa 
Numa leitura que nos fotografa e emoldura para sempre   

Por isso, talvez o que escrevo seja triste
Ou mostre mais ansiedade do que felicidade
Na verdade, nada posso alterar
Escrevo com tudo o que sou
Só posso escrever o que é meu

Liliana Lima


Não cantes alegrias a fingir
Se alguma dor existir
A roer dentro da toca
Deixa a tristeza sair
Pois só se aprende a sorrir
Com a verdade na boca

Quem canta uma alegria que não tem
Não conta nada a ninguém
Fala verdade a mentir
Cada alegria que inventas
Mata a verdade que tentas
Pois e tentar a fingir

Não cantes alegrias de encomenda
Que a vida não se remenda
Com morte que não morreu
Canta da cabeça aos pés
Canta com aquilo que és 
Só podes dar o que é teu


José Mário Branco
in Ser Solidário 1982

quinta-feira, junho 07, 2018

REALidade

Deixei de te dizer de mim
Da falta de vontade
de contar, sequer
E do caos instalado no fim
de tantos dias em que
em vez de descansar
me obriga a revirar o mundo interno
que se queria encerrar na concha
deitada ao mar

Porque demora a explicar
(e a entender...)
Porque cada palavra,
soletrada,
no seu mais baixo volume,
um dia, uma tarde,
uma noite qualquer
Será virada do avesso,
despida, interrogada e,
sempre sem querer,
rejeitada, incompreendida
fechada

Porque é este o signo
da loucura
trazermos em nós a semente
da mais pura clarividência
e com ela a sua irmã solidão
É que é não é possível
a (sobre)vivência
ao comum espectador, são,
aos maleficios da realidade
nua e crua

E por isso hoje,
esta noite pelo menos,
deixarei de te dizer de mim
Para que, em paz, possas dormir
por fim

Liliana Lima


sábado, junho 02, 2018

SuSpiro

No silêncio das palavras

Abraço
Vontade
Beijo
Tejo

Abraço
Querer
Tejo
Beijo

Abraço
Arrepio
Calor
Tejo
Abraço

Me perco e nos encontro

Seda
Suspiro
Humidade
Beijo
Tejo

Lua
Vontade
Lábios
Mãos
Abraço

Me sinto e nos uno

No silêncio das palavras


Liliana Lima


quinta-feira, abril 05, 2018

O canto DA papOILA

Fui descendo a calçada
Por entre carros fora dos carris
E respostas por aparecer
E palavras que esperava ler

Os sorrisos primaveris
Fogem rápido como balões
E as promessas que nos fazemos
Borboletas inquietas a esvoaçar

Fui subindo a avenida
Com os sacos cheios de promessas
Quase todas por começar
E um cansaço, enjoativo, pesado
Com o poder de tudo apagar

As tardes de Primavera
Cantam canções de embalar
Mesmo quando o silêncio que ecoa
Não nos deixa avançar

No canto dum passeio
Perdida num canteiro
Uma papoila chama por mim
Tráz-me à terra, e neste dia louco
Lembra-me de ti

Liliana Lima


terça-feira, abril 03, 2018

SO.mos

Como sabes que sabes o que sinto?
Onde vais buscar a certeza de que é verdade o que digo?
Porque fazes da minha palavra a minha verdade?
Quando sentes em ti a presença, longínqua, do meu querer?

É assim...
É  mesmo aí...
É exactamente por isso...
E, precisamente, nesse momento...

...que somos!

Liliana Lima


sábado, março 17, 2018

bRaNcO

Sei do frio branco que rasga a pele e corta o suspiro, branco e doce que se quer

Sei da estrada cheia de curvas que derrapam com o gelo e fogem do mapa e nos deixam sem ver o caminho para o futuro
Sei do vento que congela o sangue nas veias e proíbe os movimentos e cala as palavras nos lábios fechados, prolongando silêncios enregelados

Sei das árvores cobertas por mantos brancos por baixo dos quais se aquecem as paixões enquanto não chega a Primavera

Sei das flores que se escondem dentro da terra fértil, e germinam devagar os sentimentos que mais à frente, acredito, irão florir em mil cores

Sei do frio branco que rasga a pele e corta o suspiro, branco e doce que se quer...
E tu, sabes?


terça-feira, fevereiro 20, 2018

mi nu tos

Pergunta aos minutos se vêm que as horas não chegam
Pede à vontade que se arrume ao lado do bule que o chá está servido
Senta-te ao meu lado, sem cerimónia, que os bolos não têm de estar inteiros no prato
Tira os ponteiros que correm ao contrário no relógio que o barulho do tempo invade o espaço 

Olha para mim e deixa os olhos falar que da boca só saem palavras mudas
Estende o sonho até mim e promete que tudo vai correr bem
Mata o silêncio que o medo invade a saudade
Pergunta aos minutos se os segundos vêm que as horas nunca chegam 

Liliana



sábado, dezembro 02, 2017

poeMas de aMor

Nunca me escreveram poemas de amor
Uma carta passada por entre as mesas da sala de aula
Um postal deixado na secretária
Um ramo de rosas vermelhas entregues à porta...
Mas nunca um poema de amor

Eu já escrevi algo parecido com poemas de amor
Aliás, quase tudo o que escrevo é um poema de amor
se o souberes ler, entenderás que o é, meu amor

É que a palavra AMOR não se diz na correria das horas
É feita dum cristal tão fino como o teu olhar, 
quando me olhas de perto, quase de dentro
A palavra AMOR, meu amor, é feita de muitas histórias
que se contam em todas as ruas e em todos os fados
e embora se pareçam iguais, são únicas e irrepetíveis

Nunca me escreveram um poema de amor
E agora que penso nisso, nem sei o que faria para o agarrar

É que o poema tem em si a força de todas as marés 
que se elevam nos oceanos ou se estendem na areia
E o peso absurdo de todos os luares 
que beijam a Terra e iluminam cada história
E a palavra, quando cantada, como poema,
torna-se fogo ou ventania, medo ou alegria

Nunca me escreveram poemas de amor
Nunca me disseram AMOR, assim com todas as letras
e por escrito, que tem sempre uma força maior do que o dito

Se um dia me escreveres um poema de amor, meu amor,
que seja alegre e suave, doce e leve
se diga, "cantando a toda a gente"
e se espalhe pelo mundo, assim, num vôo livre de andorinha
que abraça o céu azul e nele escreve, dançando
leve e inquieta, a nossa canção, AMOR 

Liliana Lima

 Baragem do Alvor, Igrejinha, Arraiolos

domingo, novembro 05, 2017

chuVA

Não te vejo por entre a chuva que cai nos espaços das linhas que seguram as palavras que repito.
Lê!

Não te sinto por entre as letras que formam as palavras que repetidamente te explico.
Ouve!

Não te oiço por entre os vocábulos, vazios de tantas vezes repetidos, que me esforço por escrever.
Sente!

Não te encontro por entre os sentimentos que se repetem como a chuva que já me banha muito para além dos olhos.
Entende!

Não te peço outra vez que me entendas, se já to repeti vezes sem conta.
Vê!

Não te explico nem mais uma palavra, destas linhas em que me repito letra após letra após dia após ano (já lá vão quantos?!)
Pára!

Não me vejo por entre a chuva que cai nos espaços das linhas que, repetidamente, seguram as mesmas palavras que novamente te dirijo. 
Olha!


Não me deixa o cansaço desta repetição

Não encontro a saída de outra repetida discussão 

Não consigo fugir ao repetir deste sentimento de frustração

Não me deixa o cansaço doutra repetição

Não te encontro no final desta repetida frustração 


Não nos vejo por entre a chuva que cai...


Liliana

quinta-feira, agosto 17, 2017

admirável mundo NOVO

- Olhos-nos-olhos
Disse ela, assim, tão só, sem mais nada, nem mesmo pontuação, através do teclado do
telefone.

Ela que escrevia tanto, escrevia tudo, o que sentia e como sentia, que descodificava as
figuras de estilo só para ter certeza que era entendida. Dando-se em escrita, como afinal sempre sonhara dar-se. Deixava cair, com grande estrondo, a mensagem. Sem
enquadramento nem explicação.

Ele já a conhecia tão bem! Sabia-lhe o estado de alma às primeiras letras. Ouvia as
entrelinhas, mesmo as que não conseguia interpretar. Saboreava-lhe o humor algo
apimentado. Sentia-lhe a inquietação a subir em flexa. E dispensava explicações ou
esclarecimentos. Lia-a em cada palavra, que sabia ter sido prepositada e muitas vezes
inusitadamente escolhida, para aquela posição naquela frase.

Ele em silêncio sem ter certeza de como a ler. Ele, desta vez, à espera do resto, dos verbos que nem existiam, dos adjectivos, um ponto de interrogação, exclamação, um ponto apenas.

Eles que desde há tanto tempo gastavam as palavras sem nunca as desperdiçar pela rua. Eles que já eram nós. Um nós nascido e criado numa narrativa que era muito mais do que a soma das de cada um. Eles à espera, em silêncio, do ecoar morno a que as suas palavras os habituaram.

Ele pega no telefone e arrisca,
- Olhos-nos-olhos?

E recebe de volta um simples e singelo,
- Sim.

Num segundo um oceano de imagens, construídas por expressões e figuras de estilo, percorreu todo o corpo dele. Recortes dela projectados dentro de si. Do quanto escreveram até a conhecer ao ponto de a saber saborear, intuir, antecipar, alegrar e até entristecer, palavra-a-palavra.

Mas “olhos-nos-olhos” as palavras ganham outras dimensões, vestem-se de outros
significados. E ele sentia-se bem assim. Gostava dela assim. Desejava-a assim. Nesta
narrativa partilhada, em que cada um se escrevia tão mais profundamente do que em qualquer vulgar relação dependente dos sentidos. Aliás, quanto mais olhava para o ecran do telefone, mais certeza tinha que não queria pôr em risco os riscos com que a escrita a desenhara no seu imaginário.

Não, eles que em narrativa se tornaram nós, não precisavam dos olhos para se ver. Esta narrativa escrita ao longo dos anos, e já lá iam quase quatro, estava muito além do estar. Porque o sentir, esse, vivia intinsecamente em cada palavra que se escreviam.

Decidiu, por fim, quebrar o silêncio gélido que os separava, com um simples e singelo,
-Não!

Liliana Lima





segunda-feira, agosto 07, 2017

PeRtO

Olho-te de tão longe...
Sinto-te em cada palavra
Vejo-te em cada letra
Oiço-te em cada espaço

Olho-te de tão longe, 
De repente tão perto nesta singela frase
"Também gosto de ti"
E a lua, cheia, que ilumina a distância 
A trazer-me o silêncio da suspresa repetida
A cada vez que te leio

Olho-te, assim, de tão longe 
Nas palavras que cheiram a ti
Nas frases a que me agarro para chegar aí
Onde me dizes que gostas de mim

Olho-te daqui, onde 
A lua te traz em tudo o que escreves
A distância encurta e ilumina o sorriso
E a surpresa se repete e ecoa na noite

Olho-te de tão longe 
E sei-te tão perto...


Liliana 



segunda-feira, maio 29, 2017

SER.á

E de repente as palavras caem no silêncio e ecoam no mar inesperado dos sentidos
(Percebeste o peso do que disseste?)
E de repente o sorriso aberto rasgando o dique que continha os sentimentos abafados 
(Apercebeste-te que o disseste?)
E de repente as memórias guardadas na caixa dos sinais de perigo, a desfocar, a perder a côr, a esconder a dor
(Sabes da fragilidade que, ao conjugar o verbo, desnudaste?)

E uma calma que se instala num querer subitamente, e apesar dos pesares, possível 
(Será que o disseste?)

E um medo que se amaina numa vontade que diz real
(Será que o sentes?)

E o silêncio que ecoa no corpo depois do reboliço no coração 
(Será que te ouvi dizê-lo?)

E a dúvida que espreita atrás de cada silêncio 
(Será que acredito?)

E a espera da confirmação na volta de cada palavra, em busca do sorriso que denuncia a fragilidade e desfoca a dor
(Será que o vais repetir?)

Liliana Lima 


segunda-feira, abril 10, 2017

GAveTA

Vivemos numa gaveta cada vez mais delimitada. Reservada. Supostamente aberta mas a cada dia mais fechada. Apertada.


Lá dentro, a sós, a música toca sempre certa no rádio que canta tudo o que não vivemos enquanto avisa que a cidade, adormecida, está pronta para nós. 



Cá fora, fora do tempo e da música e da gaveta, com a cidade acordada, trocamos palavras invisíveis sobre sentimentos amordaçados. Cada vez mais limitados às paredes desta gaveta feita cama.



Cá dentro, nesta cama-gaveta cumpre-se a coreografia perfeita, de tantas vezes dançada. O ar é quente e os corpos dão-se sem pudores ou receios. 



Mas sempre que pela fresta aberta entra a luz lá de fora, todo o espaço se preenche com os fantasmas e as feridas e os receios que tingem os silêncios, cortam as horas e consomem o ar.


Estamos numa gaveta cada vez mais delimitada. Eu finjo que não sinto. Tu finges que não sabes. 

Liliana Lima


domingo, abril 02, 2017

manter PERTO

Afasto(-me) depois de tantos ameaços gritados no espaço vazio que separa as palavras que (te) continuo a dizer 

Afasto(-te) em cada silêncio que continuas a fazer ecoar dentro do meu ser

Afasto(-me) das palavras que já não consigo encaixar no fundo do meu reflexo nas águas 

Afasto(-te) com medo das letras que unes e me ofereces em palavras ditas com uma incerteza que se me crava na pele

Afasto(-nos) de todo meu querer, o meu sentir, a mimha vontade, que antes repetia para nos aproximar, mas que hoje retraio com medo de tudo o que não me dizes

Afasto(-nos) das palavras amor, carinho, olhos, mãos, corpo... com receio das palavras fantasma, ainda, quase, acho, não sei

Afasto(-me), porque me parece ser a única forma de me manter perto


Liliana Lima