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quinta-feira, dezembro 11, 2008

Passamos pelas coisas de Andrade...

"Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:

se alguém chama por nós não respondemos,

se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,

vamos caindo ao chão, apodrecidos.

Eugénio de Andrade - As mãos e os frutos


Passamos uns pelos outros, sem nos tocarmos, quase sem nos olharmos.
Passamos uns pelos outros sem nos darmos, sem nos sentirmos.

Se um de nós, em sentido contrário nos chama... passamos sem ouvir, estranhos a um comportamento que desconhecido. Se um de nós, em contramão nos ama... passamos sem sentir, críticos a um comportamento desinibido.

Passamos uns pelos outros correndo, e vamos viviendo sem sabor, envelhecendo, apodrecendo, ficando gastos...

Porque deixámos de sentir? Porque deixámos de responder? Porque deixámos de viver?

Voltemos atrás! Tenhamos a coragem de estrecemer, de viver, de sentir, de chamar, de pedir e de amar!

"É urgente um barco no mar..."

LL 30-03-2008

quinta-feira, dezembro 04, 2008

Adeus, Eugénio...

Um entre tantos casamentos falhados. Uma entre tantas divisões de bens, (e os males?! quem fica com os males?) o carro fica para ele, os electrodomésticos com ela, a aparelhagem leva-a ele, os pratos e os tachos abalam com ela.

Tudo se divide, tudo se quantifica, se pesa, se mede... Até que fica apenas o vazio de uma casa assombrada.

Meto a chave à porta e ao girar o canhão da fechadura acordo os sorrisos, as palavras, os amores e os desamores que ali viveram. Sobressaltada volto atrás e afasto-me da porta com a chave na mão.

Que se passa, estás bem?

Sim. Não, não é nada, deixa lá, abre tu a porta.

Dou-lhe a chave e ao estendê-la vejo as memórias dos escassos anos em conjunto projectadas no pequeno buraco da fechadura.

Ele pega na chave, abre a porta num só gesto e entra sem ouvir as gargalhadas ao calor da lareira do primeiro inverno; sem ver os lanches de domingo na mesa pequena da sala; sem se dar conta da cama que geme no quarto do fundo ou dos soluços abafados no canto da cozinha.

Um pouco a medo avanço pela entrada nua e oiço o vazio da casa. Foi tudo pesado, medido, quantificado, falta apenas dividir o pouco que ficou esquecido,

Leva tu este cesto...

Aproveita aquela manta...

Tropeço num riso e choco com um murmúrio,

Este sorriso, levas tu...?!


LL 30-11-2005


"Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,

e o que nos ficou não chega

para afastar o frio de quatro paredes.

Gastámos tudo menos o silêncio.

Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,

gastámos as mãos à força de as apertarmos,

gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.

Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;

era como se todas as coisas fossem minhas:

quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.

E eu acreditava.

Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,

era no tempo em que o teu corpo era um aquário,

era no tempo em que os meus olhos

eram realmente peixes verdes.

Hoje são apenas os meus olhos.

É pouco mas é verdade,

uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.

Quando agora digo: meu amor,

já não se passa absolutamente nada.

E no entanto, antes das palavras gastas,

tenho a certezade que todas as coisas estremeciam

só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.

Dentro de ti

não há nada que me peça água.

O passado é inútil como um trapo.

E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus."




Adeus - Eugénio de Andrade

terça-feira, dezembro 02, 2008

Lisboa para Eugénio

(Com um grande abraço à Vanda...)

Lisboa, sabes que eu sei que a solidão em ti contagia, propaga-se e estende-se até ao rio descalça e leve como erva daninha…
Lisboa, sabes que eu sei porque te desço os degraus e te conheço as mágoas esculpidas nas rugas finas que apenas o luar ilumina.
Sabes Lisboa? Eu sei também que o vento súbito que vem do castelo e se espalha pelas sete colinas é um suspiro de saudade.
E eu sei que tu sabes Lisboa, que suspiro contigo…

LL 19-Abril-2006




"Alguém diz com lentidão:
«Lisboa, sabes...»
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus
e degraus até ao rio.

Eu sei. E tu, sabias?"


Eugénio de Andrade (Coração do Dia)

quarta-feira, novembro 12, 2008

A invenção do Amor

"Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor



Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana



Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado



Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo



Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A polícia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta
fechada para o mundo


É preciso encontrá-los antes que seja tarde

Antes que o exemplo frutifique

Antes que a invenção do amor se processe em cadeia

(...)"

Daniel Filipe
Editorial Presença



Precisamos (re)inventar o amor, como quem inventa um novo sentido para uma palavra tantas vezes pronunciada, como quem descobre uma nova cor no arco-íris do céu, como quem se apercebe dum novo ritmo na canção já gasta, como quem se permite um novo olhar para o espelho que, de repente, nos devolve um piscar de olhos...