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segunda-feira, outubro 29, 2012

Que caminho tão longo, José...

Que caminho tão longo pai... Que sois tão cansativos se interpõem entre nós, neste nós que perdeu, há tanto tempo, a possibilidade de ser.

Que viagem tão comprida nos inundou as memórias de infância, que bóiam sem rumo nem mastro neste aparente caos calmo.

Quantas vidas teriam de passar para que nos pudéssemos sentar frente a frente e, olhos nos olhos, conversar? Mas conversar sem palavras, que essas só servem para enaltecer os que precisam de se ouvir a si mesmos fingindo perceber o mundo. Conversar a sério, a valer, afinal nem só do presente é feita a vida e nem todas as respostas estão no passado. Conversar olhando, sentindo, ouvindo, acolhendo aquilo que somos ou pensamos ser...

Que deserto tão grande... Que areias tão finas que entram pela pele, se entranham e se colam a mim por mais que as sacuda e empurre para longe. Estão cá dentro e fazem-se ouvir nas noites de tempestade, rolando umas contra as outras com o baloiçar do barco.

Estas estranhas marés que, novamente me largam nesta ilha que conheço tentando desconhecer, são apenas o reflexo da força do outro lado da Lua. Não sou daqui, sei-o. E no entanto, um estranho sentimento de déjà vu embala-me numa viagem remota ao centro do meu ser. Não sou daqui, mas podia ser.

Fui aqui um dia, há muitas vidas. Antes deste caminho tão longo, desta viagem tão comprida, deste deserto tão grande... que afinal me trazem sempre de volta aqui mesmo, a esta ilha de cacos espalhados e recortes desarrumados feita, no meio de um enorme oceano de silêncio, caos, desespero e solidão, onde nadas sem barco nem bóias. E eu, que fui aqui um dia, há muitas vidas, não te posso puxar, não te consigo dar a mão. É que eu, não sendo daqui, não consigo cá entrar.

Que caminho tão longo... para perceber que tudo o que posso fazer é ser ilha e aguentar a corrente das águas do passado. É ser terra em que semeie o presente para que nasça a espiga de tudo o que pode vir a nascer. É ser fonte onde jorre o tempo calmo de cada dia para que, às vezes, quando te falta a terra e te escorrega o céu, te possa estender uma ponte que te leve a quem, de facto, te pode ajudar, sem que isso me leve de volta ao deserto.

Liliana Lima
26-Jan-2010
 



"Que caminho tão longo!
Que viagem tão comprida!
Que deserto tão grande grande
Sem fronteira nem medida!

Águas do pensamento
Vinde regar o sustento
Da minha vida

Este peso calado
Queima o sol por trás do monte
Queima o tempo parado
Queima o rio com a ponte

Águas dos meus cansaços
Semeai os meus passos
Como uma fonte

Ai que sede tão funda!
Ai que fome tão antiga!
Quantas noites se perdem
No amor de cada espiga!

Ventre calmo da terra
Leva-me na tua guerra
Se és minha amiga"

"Travessia do deserto" de José Mário Branco

terça-feira, outubro 09, 2012

Aqui estás tu, José...

Apareceu ao fundo da rua, com um sorriso enorme de criança que acabou de ganhar um chocolate. "Aqui estou eu!", disse ele feliz. E estava mesmo...

A imagem era, no mínimo, surreal. Vinha a pé pelo meio da estrada, trazia com ele duas malas de pele castanha já gastas, tão cheias que uma quase se abria e a outra trazia de fora uma manga de camisa branca com riscas azuis. Um malote verde à tira-colo, uma mochila grande às costas, daquelas de campismo com a tenda enrolada por baixo e uma caçarola pendurada nos fechos de cima, uma mala de transportar animais com um gato que, a medo, espreitava pela rede, e um periquito ao ombro.

"Aqui estás tu, com tudo o que és..." pensei eu. Tudo o que, ao longo da vida, foste recolhendo e apanhando, o que te foi marcando, o que não conseguiste soltar, o que te pesa nos ombros à noite quando, às voltas na cama, não consegues dormir, o que te arrependes e o que tens saudades.

Ele avançava devagar, cansado do peso e da viagem. Era fim de tarde e o Sol, que brilhava baixinho, alongava-lhe a sombra da bagagem que chegava muito antes dele. Tentei dizer-lhe que largasse algum peso. Estranhou a sugestão como se viesse de mãos a abanar e não tivesse nada para largar.

Entrou em casa com dificuldade, lutando com as malas de pele e a mochila que lhe dificultavam a passagem. No meio daquela confusão, o periquito esvoaçava assustado e o gato, cuja mala acabou por se abriu ao bater na porta, fugiu assanhado. E eu acabei a correr pela estrada fora para o apanhar.

Quando voltei com o gato nos braços ele já estava instalado, sentado no sofá grande à frente da televisão, com o comando na mão e o mesmo sorriso alegre de criança. Espalhados um pouco por toda a sala, peças de roupa, bugigangas e papeis soltos saídos de uma das malas castanhas. Por muito que tentasse não consegui chegar-me a ele, muito menos sentar-me ao seu lado. O sofá estava completamente ocupado pelas bagagens que trouxera, e eu estava a mais naquela fotografia.

Abri a janela ao periquito e soltei o gato, tentei encaixar as malas, o malote e a mochila na dispensa, mas as tralhas pareciam ter vontade própria e não deixavam a porta fechar. Cheguei-me a ele devagar e perguntei o porquê de tanto passado a invadir um momento que devia ser só nosso, feito de futuro e esperança. "Eu estou aqui tal como sou, nada mais e nada menos" disse ele, e olhou-me com o sobrolho franzido, como se eu falasse chinês. "Tens a certeza?" perguntei de mansinho, quase em surdina. Afastei-me e percebi que ele não sabia o peso que trazia. Tudo aquilo vinha com ele há tanto tempo que ele já não se apercebia de que o acompanhava.

Peguei-lhe na mão e chamei o gato que saltitava em cima da cama, atrás do periquito. Depois levei-o até à dispensa, onde as tralhas lutavam contra a porta. Pelo chão do corredor, desordenadamente, espalharam-se roupas usadas, papeis amachucados e fotos antigas. Pasmado, encostado à parede, ele olhava aquele desfile do seu passado, enquanto os bons e os maus momentos, as dores e a alegrias invadiam um espaço tão grande que não me deixavam sequer chegar-lhe. Quanto mais tentava aproximar-me, mais longe me encontrava. Um mar de antigas memórias separava-nos empurrando-me para longe, longe dele.

Saí para lhe dar espaço, para não me sentir estranha numa vida da qual, afinal, eu não fizera parte. Saí mas voltei, mais tarde, depois dos ponteiros do relógio me confidenciarem que era o momento certo. 
Entrei devagar, receosa do gato, do periquito que esvoaçava, dos papeis, das malas e malotes... Entrei mas não vi os bichos, nem as tralhas, nem as malas. Na sala, no sofá grande à frente da televisão, sozinho, estava ele. Olhou-me demoradamente e tentei entender no seu olhar o que se seguiria.

Nunca mais vi as malas, o malote ou a mochila de campismo. Na verdade, não tenho a certeza que o gato se tenha ido verdadeiramente embora, às vezes parece-me ouvi-lo miar, e podia jurar que no outro dia vi um periquito a tentar entrar pela janela do quarto. Mas, poderei eu recriminá-lo por isso? Afinal, quem não guarda consigo imagens ou mesmo marcas do caminho que atravessou...


Liliana Lima
02-Abril-2009

"(...)
Eu não tenho a certeza
De morrer ou de nascer
Sempre que o amor vier
Brilhante natureza
Fecundando matagais assim
Vira vento, vira tempo contra mim
É tão bom ter a certeza
Entre o ser e o acontecer
Mas mentir-te meu irmão 
não o farei não 
(...)
Aqui vou eu
Com o que sou
Com o que é meu
Tal como estou
É neste chão
Que eu assento os pés
E é por seres quem és
Que eu assim me dou
(...)"

"Eu não tenho a certeza" de José Mário Branco

sexta-feira, setembro 14, 2012

Alice

Estou a cair... e a rodar... sinto o peso do corpo assente num colchão de passados presentes nas horas da noite.


Caí novamente? Escorreguei. Tropecei na pedra. Sempre a aquela pedra Drummond. Eu caí nela e ela lá continua, "no meio do caminho"... Sempre no "meio do caminho", porque havias tu de a inventar? Porquê escrevê-la e deixar que ela exista ali, no MEU caminho? Porra para ti e para a tua pedra, Drummond!

Escorrego, embato, desco rápidamente sem conseguir ver onde estou. Está escuro... vejo imagens deformadas. Que querem?! Quem são vocês?!... Só me faltava o coelho para ser Alice. Mas Alice não sou! Já me deixei de crenças, que o arco-íris, esse, é um mero reflexo da luz na humidade dos desejos vãos.

Os desejos... os verdadeiros, aqueles que nos fazem subir e não cair nos buracos, onde estão Simone? Ficaram lá em cima que aqui é só o escuro e os fantasmas que nascem do "medo até de ter medo". 

Ah! Qual medo! O medo é para os fracos "meu irmão". E eu, não quero este buraco escuro de onde não sei sair e para onde, tantas vezes me deixo levar. Quero lá saber das horas e das marés! Eu quero é respirar sem este aperto. Eu quero é olhar para o pôr-do-sol sem esta inquietação que tu me ensinas desde que nasci Zé Mário!


Já não sei se caio se me atiro. Se me afogo ou se mergulho, porque o agora e o aqui são conceitos indefinidos que, por mais que queira, não consigo lembrar-me onde os deixei. Perdi a conta às horas e não me vejo em nenhuma manhã. Esta invontade voluntária de me ajudar a amparar a queda deixou-me paralizada.


Agora quero mesmo cair! Preciso de embater no chão e partir-me em mil cacos! Quero saltar! 

...Mas quero ficar. Lá fora não sei como sou... Aqui bebo o chá das cinco com meus fantasmas e faço corridas com os medos... "Que força é esta"?!  Porra! "Que força é esta"?!

Vou saltar!

...vou-me enroscar...

Partir tudo, recomeçar!

...tenho medo...

Tem de ser!

...não consigo...
...estou só, posso gritar que ninguém me ouve, dentro de mim não há mais ninguém... 

...e lá fora? Quem me entenderia?!
Ninguém... 

Não, não posso sair deste casulo...

Fico.

Só.

Liliana


domingo, outubro 16, 2011

Uma curva que vem de trás....

Aqui estás tu, José...

Apareceu ao fundo da rua, com um sorriso enorme de criança que acabou de ganhar um chocolate. "Aqui estou eu!", disse ele feliz. E estava mesmo...

A imagem era, no mínimo, surreal. Vinha a pé pelo meio da estrada, trazia com ele duas malas de pele castanha já gastas, tão cheias que uma quase se abria e a outra trazia de fora uma manga de camisa branca com riscas azuis. Um malote verde à tira-colo, uma mochila grande às costas, daquelas de campismo com a tenda enrolada por baixo e uma caçarola pendurada nos fechos de cima, uma mala de transportar animais com um gato, que a medo espreitava pela rede, e um periquito ao ombro.

"Aqui estás tu, com tudo o que és..." pensei eu. Tudo o que, ao longo da vida, foste recolhendo e apanhando, o que te foi marcando, o que não conseguiste soltar, o que te pesa nos ombros à noite quando, às voltas na cama, não consegues dormir, o que te arrependes e o que tens saudades.

Ele avançava devagar, cansado do peso e da viagem. Era fim de tarde e o Sol, que brilhava baixinho, alongava-lhe a sombra da bagagem que chegava muito antes dele. Tentei dizer-lhe que largasse algum peso, estranhou a sugestão como se viesse de mãos a abanar e não tivesse nada para largar.

Entrou em casa com dificuldade, lutando com as malas de pele e a mochila que lhe dificultavam a passagem pela porta. No meio daquela luta, o periquito esvoaçava assustado e o gato, cuja mala acabou por se abriu ao bater na porta, fugiu assanhado e eu acabei a correr pela estrada fora para o apanhar.

Quando voltei com o gato nos braços ele já estava instalado, sentado no sofá grande à frente da televisão, com o comando na mão e o mesmo sorriso alegre de criança. Espalhados um pouco por toda a sala, peças de roupa, bugigangas e papeis soltos saídos de uma das malas castanhas. Por muito que tentasse não consegui chegar-me a ele, muito menos sentar-me ao seu lado. O sofá estava completamente ocupado pelas bagagens que trouxera, e eu estava a mais naquela fotografia.

Abri a janela ao periquito e soltei o gato, tentei encaixar as malas, o malote e a mochila na dispensa, mas as tralhas pareciam ter vontade própria e não deixavam a porta fechar. Cheguei-me a ele devagar e perguntei o porquê de tanto passado a invadir um momento que devia ser só nosso, feito de futuro e esperança. "Eu estou aqui tal como sou, nada mais e nada menos" disse ele, e olhou-me com o sobrolho franzido, como se eu falasse chinês. "Tens a certeza?" perguntei de mansinho, quase em surdina. Afastei-me e percebi que ele não sabia o peso que trazia às costas. Tudo aquilo vinha com ele há tanto tempo que ele já nem se apercebia do que o acompanhava.

Peguei-lhe na mão e chamei o gato que saltitava em cima da cama, atrás do periquito. Depois levei-o até à dispensa onde as tralhas lutavam contra a porta. Pelo chão do corredor, desordenadamente, espalharam-se roupas usadas, papeis amachucados e fotos antigas. Pasmado, encostado à parede, ele olhava aquele desfile do seu passado, enquanto os bons e os maus momentos, as dores e a alegrias invadiam um espaço tão grande que não me deixavam sequer chegar-lhe. Quanto mais tentava aproximar-me, mais longe me encontrava. Um mar de antigas memórias separava-nos empurrando-me para longe, longe dele.

Saí para lhe dar espaço, para não me sentir estranha numa vida da qual, afinal eu não fizera parte. Saí mas voltei, mais tarde, depois dos ponteiros do relógio me confidenciarem que era o momento certo. Entrei devagar, receosa do gato, do periquito que esvoaçava, dos papeis, das malas e malotes... Entrei mas não vi os bichos, nem as tralhas, nem as malas. Na sala, no sofá grande à frente da televisão, sozinho, estava ele. Olhou-me demoradamente e tentei entender no seu olhar o que se seguiria.

Nunca mais vi as malas, o malote ou a mochila de campismo. Na verdade, não tenho a certeza que o gato tenha ido verdadeiramente embora, às vezes parece-me ouvi-lo miar, e podia jurar que no outro dia vi um periquito a tentar entrar pela janela do quarto. Poderei eu recrimina-lo por isso? Afinal, quem não guarda consigo imagens ou mesmo marcas do caminho que atravessou...


Liliana Lima
02-Abril-2009



"Eu não tenho a certeza
De gritar ou de esconder
Sempre que o amor vier
Brilhante natureza
Fecundando matagais assim
Vira vento, vira lume contra mim

Aqui estou eu
Com o que sou
Com o que é meu
Tal como estou
É neste chão
Que eu assento os pés
E é por seres quem és
Que eu assim me dou"

"Eu não tenho a certeza" de José Mário Branco

(escrito de cabeça com a memória da voz do Jorge Lomba no "Inda a Noite" há uns anitos atrás...)

segunda-feira, abril 11, 2011

Só posso dar o que é meu...

Eu tenho de ser EU...

Entender-me como personagem principal desta peça, quantas vezes desinteressante, que vivo todos os dias... e perceber-me, também eu co-responsável pelo guião. Pensar que se quero flores em vez de pedras, basta-me semear bolbos e regar os vazos.

Mas tenho medo... medo de ser EU. Medo de não saber o que é ser eu própria, escolher as sementes erradas, plantar fora da época e não recolher frutos.

Eu tenho de ser EU...

Seguir o meu caminho de acordo com as minhas escolhas livres, opções cautelosamente pesadas na balança do coração, que é onde se joga toda a tensão dramática do texto.

Por isso um dia decidi que regaria todos os vazos, os meus e os teus (que me lês), os de todos que se cruzam comigo e ainda alguns abandonados, vazos de ninguém.

Esta é a base, o palco, onde assento os pés e espalho palavras que, a todo o custo, revisto de sonhos e polvilho de esperança, enquanto sonho nas flores que nascerão por aí.

Mas às vezes é difícil... ser EU. E acreditar que o um mundo pode ser um pouco mais colorido, sabendo que eu sou a tal co-responsável pelo guião...

Liliana



"Fado da Tristeza"

de Manuela de Freitas e José Mário Branco

domingo, março 06, 2011

Porquê este vazio, Jóse?!

Sabes de que tamanho é o vazio que me espreita de hora-a-hora? É maior que eu, esconde-se no fundo de mim, finge que não existe, mas está lá, sempre, à espreita.
Quero sair e não consigo, mas lanço sempre a mão à procura da corda...

Sabes o que é ter o vazio dentro de ti? É procurar continuamente a nascente dia-a-dia e encontrar o poço seco, todas as noites.
Luto por me manter completa, cheia, luto para não me esvaziar num sentimento que me amordaça, luto por manter a minha voz viva.

Sabes como é olhar para o espelho e não não ver imagem alguma do outro lado? É sentir este enorme vazio que não me engole, mas me persegue e me abafa sem me deixar espaço para ser, falar, sonhar.
Tento lembrar-me de mim, procurar-me por entre as memórias e refazer-me do nada.

Sabes o que é ter um peso no peito, querer respirar fundo e sentir-me apertada num espartilho de varas, sem forças para andar?
Procuro manter a esperança viva, manter o equilíbrio, de pé, na corda bamba.

Tenho um enorme vazio dentro de mim, que tento encher com as mais variadas coisas, mas ao qual não consigo fugir.
Continuo sempre a sorrir, à falta das lágrimas secas no deserto, e sei que tenho de avançar, tenho sempre de continuar...
Liliana



"(...)
Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
(...)"

"Inquietação" de José Mário Branco

terça-feira, fevereiro 01, 2011

Onde, José?

Onde nos vamos encontrar? Neste mar de horas marcadas e agendas mais que abusadas? Aquele dia livre que boiava no rio já se afundou com o peso das obrigações. Viste a gaivota que o olhava, desconfiada? Perguntou-lhe "quem és?", "sou o tempo esquecido" respondeu-se o dia, mas logo a sua voz fez vibrar as folhas, escritas riscadas e rabiscadas da agenda e, um segundo o engoliu no meio dos pendentes que ficam sem dia nem hora nem data marcada.

Onde nos vamos encontrar? Se a cidade não pára e as crianças logo de manhã com bibes coloridos e lancheiras recheadas por entre e os carros mal-dispostos e os barcos apressados e os comboios apinhados que não deixam passar os minutos, sem o burburinho de quem já nem procura o sentido do tempo numa maré de afazeres.

Onde nos vamos encontrar? Se o silêncio não tem hora nem dia nem espaço para se fazer ouvir e, calmamente se instalar, manto tranquilo que aconchega e acolhe e embala? Dizemos contrapomos discutimos repetimos defendemos e argumentamos, mas não olhamos, não ouvimos, não sentimos, não tocamos. Não há tempo.

Onde nos vamos encontrar? Para, fora do tempo, nos olharmos sentirmos tocarmos ouvirmos e, provavelmente em silêncio, descobrirmos o tanto que temos para nos dar?!

Liliana


Com "Eu vim de longe" de José Mário Branco
como pano de fundo

quarta-feira, janeiro 05, 2011

José, que sentes quando a acaso te trai?!

Ouvi-a falar em surdina, por detrás de todos os ruídos do mundo que ecoaram ao mesmo tempo na minha cabeça. Mantive a pose certa, as costas direitas e os braços não cruzados para não parecer na defensiva, os olhos quietos para não mostrar ansiedade e um meio sorriso de Gioconda que não revelasse o medo. Por dentro jogava às escondidas com as palavras que ela dizia, nomes, conceitos, etiquetas no fundo, que se me colavam à pele e que desesperadamente, em segredo, tentava arrancar.

Depois o silêncio, no meio da Avenida em plena hora de ponta. O enorme e indescritível silêncio que me assombrou, palavras nomes conceitos que se debatiam para me gritar aos ouvidos, e eu isolada no deserto interno de quem não quer fazer parte deste mundo.

A casa e os seus barulhos tão distantes, como um disco antigo mal gravado. A conversa surda sobre o que ela me dissera e mais um manancial de argumentos lógicos e coerentes que nada me diziam. Nada. Apenas os barulhos da casa ao fundo - as costas direitas, os miúdos a brincar, o som de cada berlinde a rolar pelas curvas coloridas até cair no recipiente plástico - os olhos quietos, as resmunguisses para deitar - o meio sorriso, as orações ao anjo da guarda - as mãos distantes a aconchegar os cobertores. Nada.

Ainda os argumentos e a lógica e a coerência enquanto uma solidão escura invadia a cama, cobrindo os cobertores, rasgando os lençóis, separando os corpos. Fechei os olhos e tentei concentrar-me nas palavras que ela me dissera, procurei o significado dos conceitos, a origem dos nomes, etiquetas no fundo, que se me colavam à pele por mais que as tentasse arrancar...

Lá fora a lua e o jardim dormindo com a cidade. As costas que se desmoronavam. As ruas vazias e os carros abandonados. Os braços rígidos e as mãos fechadas com força. As janelas fechadas e as casas dormindo. Os olhos alagados...

A traição da natureza, o acaso da solidão e o silêncio.

Liliana





"(...)
há uma altura, creio
um dia em que se acorda
e se percebe tudo:
a traição do acaso
que dispersa a folhagem do jardim,
a solidão inacessível dos desertos,
a ferocidade da natureza
em certas estações,
essa espécie de errância
que pertence ao silêncio
mais do que a qualquer palavra"

"Duas cidades, Paris"
de José Tolentino Mendonça
in Baldios

terça-feira, junho 29, 2010

Chegaste ao fim ou ao princípio do caminho, José?!


Desceu a rampa convencido de ir dar a um local mágico. Tinha tanta certeza que estava no caminho certo que nem os avisos ou desconfianças ou contratempos o fizeram desistir. Era ali, o lugar dele, finalmente chegaria ao fim da sua caminhada!

Todo o percurso tinha sido, no mínimo, absurdo. O astrolábio avariou-se em plena noite de lua nova deixando-o à deriva durante dias. A bússola caiu no meio dum pântano esverdeado onde até a mochila da roupa se afogou para sempre. Os mapas, que trouxera como último recurso, acabaram em fanicos depois dos cães os confundirem com algo para trincar. Ah! Mas aquela era uma viagem que faria até contra ventos e marés. Afinal, um homem tem o direito de morrer numa poltrona feita propositadamente para si, e ele sabia que era aquele o caminho para ela.

Avançou pelo meio dar árvores até chegar a uma espécie de clareira polvilhada de arbustos selvagens e flores campestres, estava quase a chegar, sentia-o dentro do peito no palpitar acelerado do coração. De repente teve dúvidas, suores frios inundaram-lhe as ideias. E se estivesse errado? Depois de tantos atalhos e desvios, não se teria perdido? Ele queria o fim do caminho, mas não de um qualquer, ele queria encontrar o final da sua estrada. Sentou-se um pouco naquele chão arenoso por onde as formigas (enormes) faziam os seus próprios caminhos por entre ervas e pedras, sem bússolas, nem mapas ou astrolábios elas seguiam, decididas, confiantes, acompanhadas - ao contrário dele é certo, mas há coisas que têm de ser feitas em solidão e uma companhia só teria servido para o atrapalhar, atrasar ou até mesmo desmoralizar.

Não! Chegara até ali sem saber bem como, fizera o seu percurso, aprendera com os erros e arriscara sem medos - porque na verdade este tipo de caminho deve ser feito seguindo os instintos, não os instrumentos ou os julgamentos de outros - e não seria agora que desistiria. Levantou-se, olhou as formigas (agora já tão pequenas) e sorriu, tantos caminhos por desbravar e elas naquela eterna correria... Tinha pena delas, deitou umas migalhas de bolacha que tinha no bolso e afastou-se tentando não ferir nenhuma ao passar.

Encontrou um caminho pintado branco no meio dos arbustos. Ele sempre soubera! Era ali, era aquele o final da linha, lutara para lá chegar e era lá que seria, finalmente, feliz - no fim. Desceu a rampa convencido que ia encontrar um local mágico, o sítio perfeito para poisar, para parar, para acabar. Teria uma poltrona luxuosa à sua espera, feita à sua medida e todo o tempo do mundo para deixar de pensar, de se preocupar, de sofrer, de sentir, de amar, de se magoar, de duvidar, de chorar, de procurar... de viver.

A rampa, feita de ripas de madeira pintadas dum branco que outrora talvez tivesse sido azul, acabava numa falésia com vista para o mar. Havia um banco, também de madeira, meio desfeito virado para aquela imensidão de água que acariciava a areia e brincava com as conchas que rebolavam, para trás e para a frente, distraídas dos medos dos homens. O sol embalado pela brisa da tarde demorava-se, preguiçoso, num beijo ainda tímido no ondular do horizonte.

Estava tonto. Não sabia o que pensar, talvez pelo cheiro forte a maresia, talvez pela beleza do cenário. Perdera-se no caminho?! Aquele não era, com certeza o seu fim. Aliás aquele não era o final de coisa nenhuma, era um início de noite, uma explosão de laranjas e roxos no céu, um banho de vida que revoltava a areia e trazia sempre novas conchas à margem... Perdera-se no caminho?! Mas como? Estava tão certo que era ali que queria chegar.

Sentou-se no banco, as tábuas já gastas e desconjuntadas rangeram com o peso do seu corpo mas mantiveram-se, formando uma espécie de casulo em seu redor. O sol mergulhara já pelo mar e a lua brilhava, cheia, para ele. A toda a volta a vida parecia espicaça-lo, nos besouros que se levantavam com o ar quente da noite, nos pirilampos que esvoaçavam por entre as flores adormecidas, no piar dum cuco ou duma coruja, tudo lhe dizia que aquele não era o fim.

Ali, aquele banco, era exactamente o início. Primeiro da madrugada, lenta e tranquila, depois da manhã, com os pássaros que se alvoraçavam e as gaivotas que voavam a pique para o mar, depois da tarde, com o sol bem alto e quente fazendo a terra endurecer para se proteger e depois, devagar, aquele beijo primeiro tímido depois envolvente e por fim abraço perfeito entre sol e mar que lhe gritavam por todo o céu para se levantar e, mais uma vez, percorrer o caminho - o seu. Caminhar seguindo o instinto e aproveitando cada segundo do percurso, porque todos as as chegadas contêm em si a partida que se seguirá. Para onde? No mínimo até à linha do horizonte...
Liliana

Com "Travessia do deserto" de José Mário Branco no ouvido, (aqui numa Curva de outros tempos)...

quarta-feira, junho 23, 2010

Tens um regador, José?

Alguém me disse que não podemos deixar de regar as árvores secas, sob pena de nunca mais voltarem a florir. Alguém me disse que é nessa esperança que reside toda a força da fé, na esperança de que um arbusto ressequido volte a florir, desde que acreditemos.
Tenho um regador azul-claro que não consigo deixar de usar. Todas as manhãs, ao nascer do sol, cubro a calçada de uma camada cristalina feita dessa esperança, e aguardo que em cada canto nasçam flores, em cada passeio floresçam árvores e em cada pessoa se abra o coração.
Alguém me disse que tenho de aprender a distinguir os troncos secos dos postes de electricidade...
Continuo de regador em punho ainda que nada aconteça, porque acredito que há terras muito áridas que apenas uma grande quantidade de água fará reviver. Compulsivamente continuo a regar, porque preciso de acreditar que este regador azul-claro dá sentido ao meu caminho, que com ele posso fazer florir uma flor vermelha no meio do deserto.
Alguém me disse que não posso continuar a regar enquanto me deixo secar por dentro, pela indiferença, pela imcompreensão, pela inercia. O que esse alguém não sabia é que tenho um mar inteiro dentro mim que daria para regar o maior jardim do planeta durante anos a fio...
Esta manhã bem cedo, ao nascer do sol, voltarei a sair com o meu regador azul-claro. Hei-de cobrir a calçada duma camada cristalina feita de esperança enquanto acredito que, algures neste deserto chamado Lisboa, nasça uma flor, floresça uma árvore ou se abra um coração. É esta a minha essência, nada posso contra ela...
Liliana





Ser solidário assim pr’além da vida
Por dentro da distância percorrida
Fazer de cada perda uma raiz
E improvavelmente ser feliz

De como aqui chegar não é mister
Contar o que já sabe quem souber
O estrume em que germina a ilusão
Fecundará por certo esta canção

Ser solidário sim, por sobre a morte
Que depois dela só o tempo é forte
E a morte nunca o tempo a redime
Mas sim o amor dos homens que se exprime

De como aqui chegar não vale a pena
Já que a moral da história é tão pequena
Que nunca por vingança eu te daria
No ventre das canções sabedoria

Ser solidário assim pr’além da vida
Por dentro da distância percorrida
Fazer de cada perda uma raiz
E improvavelmente ser feliz

José Mário Branco
do álbum 'Ser Solidário' 1982

terça-feira, janeiro 26, 2010

Que caminho tão longo, José....

Que caminho tão longo... Que sois tão cansativos se interpõem entre nós, neste nós que perdeu, há tanto tempo, a possibilidade de ser.

Que viagem tão comprida nos inundou as memórias de infância, que bóiam sem rumo nem mastro neste aparente caos calmo.

Quantas vidas teriam de passar para que nos pudéssemos sentar frente a frente e, olhos nos olhos, conversar? Mas conversar sem palavras, que essas só servem para enaltecer os que precisam de se ouvir a si mesmos fingindo perceber o mundo. Conversar a sério, a valer, afinal nem só do presente é feita a vida e nem todas as respostas estão no passado. Conversar olhando, sentindo, ouvindo, acolhendo aquilo que somos ou pensamos ser...

Que deserto tão grande... Que areias tão finas que entram pela pele, se entranham e se colam a mim por mais que as sacuda e empurre para longe. Estão cá dentro e fazem-se ouvir nas noites de tempestade, rolando umas contra as outras com o baloiçar do barco.

Estas estranhas marés que, novamente me largam nesta ilha que conheço tentando desconhecer, são apenas o reflexo da força do outro lado da Lua. Não sou daqui, sei-o. E no entanto, um estranho sentimento de déjà vu embala-me numa viagem remota ao centro do meu ser. Não sou daqui, mas podia ser.

Fui aqui um dia, há muitas vidas. Antes deste caminho tão longo, desta viagem tão comprida, deste deserto tão grande... que afinal me trazem sempre de volta aqui mesmo, a esta ilha de cacos espalhados e recortes desarrumados feita, no meio de um enorme oceano de silêncio, caos, desespero e solidão, onde nadas sem barco nem bóias. E eu, que fui aqui um dia, há muitas vidas, não te posso puxar, não te consigo dar a mão. É que eu, não sendo daqui, não consigo cá entrar.

Que caminho tão longo... para perceber que tudo o que posso fazer é ser ilha e aguentar a corrente das águas do passado. É ser terra em que semeie o presente para que nasça a espiga de tudo o que pode vir a nascer. É ser fonte onde jorre o tempo calmo de cada dia para que, às vezes, quando te falta a terra e te escorrega o céu, te possa estender uma ponte que te leve a quem, de facto, te pode ajudar, sem que isso me leve de volta ao deserto.

Liliana Lima



"Que caminho tão longo!
Que viagem tão comprida!
Que deserto tão grande grande
Sem fronteira nem medida!

Águas do pensamento
Vinde regar o sustento
Da minha vida

Este peso calado
Queima o sol por trás do monte
Queima o tempo parado
Queima o rio com a ponte

Águas dos meus cansaços
Semeai os meus passos
Como uma fonte

Ai que sede tão funda!
Ai que fome tão antiga!
Quantas noites se perdem
No amor de cada espiga!

Ventre calmo da terra
Leva-me na tua guerra
Se és minha amiga"

"Travessia do deserto" de José Mário Branco

sexta-feira, maio 15, 2009

Ouves o meu silêncio, José?

Aprendo o silêncio, aos poucos...
E a o s p o u c o s encontro-me tranquila
ouvindo a palavra que, somente em mim, ecoa.
Avanço. Tropeço numa paz reguila
que teima em me seduzir,
e muito d e v a g a r, aconchego-me nela,
embalada na música que, dentro de mim, voa.

Aprendo-me no silêncio. Nesta conversa pacata
de quem tem em si o mundo. E, descobrindo-o,
percebo-me, e m f i m, completa.
Liliana Lima




"Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?"

"No silêncio dos olhos" de José Saramago
in Os Poemas Possíveis

quarta-feira, abril 01, 2009

Tens a certeza, José?


Apareceu ao fundo da rua, com um sorriso enorme de criança que acabou de ganhar um chocolate. "Aqui estou eu!", disse ele feliz. E estava mesmo... A imagem era, no mínimo, surreal. Vinha a pé pelo meio da estrada, trazia com ele duas malas de pele castanha já gastas, tão cheias que uma quase se abria e outra trazia de fora uma manga de camisa branca com riscas azuis, um malote verde à tira-colo, uma mochila grande às costas, daquelas de campismo com a tenda enrolada por baixo e uma caçarola pendurada nos fechos de cima, uma mala de transportar animais com um gato, que a medo espreitava pela rede, e um periquito ao ombro.
"Aqui estás tu, com tudo o que és..." pensei eu. Tudo o que, ao longo da vida, foste recolhendo e apanhando, o que te foi marcando, o que não conseguiste soltar, o que te pesa nos ombros à noite quando, às voltas na cama, não consegues dormir, o que te arrependes e o que tens saudades.

Ele avançava devagar, cansado do peso e da viagem. Era fim de tarde e o Sol, que brilhava baixinho, alongava-lhe a sombra da bagagem que chegava muito antes dele. Tentei dizer-lhe que largasse algum peso, estranhou a sugestão como se viesse de mãos a abanar e não tivesse nada para largar.

Entrou em casa com dificuldade, lutando com as malas de pele e a mochila que lhe dificultavam a entrada. No meio daquela luta, o periquito esvoaçava assustado e o gato, cuja mala acabou por se abriu ao bater na porta, fugiu assanhado e eu acabei a correr pela estrada fora para o apanhar.

Quando voltei com o gato nos braços ele já estava instalado, sentado no sofá grande à frente da televisão, com o comando na mão e o mesmo sorriso alegre de criança. Espalhados um pouco por toda a sala, peças de roupa, bugigangas e papeis soltos saídos de uma das malas castanhas, dificultavam-me os movimentos. Por muito que tentasse não consegui chegar-me a ele, muito menos sentar-me ao seu lado. O sofá estava completamente ocupado pelas bagagens que trouxera, e eu estava a mais naquela fotografia.

Abri a janela ao periquito e soltei o gato, tentei encaixar as malas, o malote e a mochila na dispensa, mas as tralhas pareciam ter vontade própria e não deixavam a porta fechar. Cheguei-me a ele devagar e perguntei o porquê de tanto passado a invadir um momento que devia ser só nosso, feito de futuro e esperança. "Eu estou aqui tal como sou, nada mais e nada menos" disse ele, e olhou-me com o sobrolho franzido, como se eu falasse chinês. "Tens a certeza?" perguntei de mansinho, quase em surdina. Afastei-me e percebi que ele não sabia o peso que trazia às costas. Tudo aquilo vinha com ele há tanto tempo que ele já nem se apercebia do que o acompanhava.

Peguei-lhe na mão e chamei o gato que saltitava em cima da cama, atrás do periquito. Depois levei-o até à dispensa onde as tralhas lutavam contra a porta. Pelo chão do corredor, desordenadamente, espalharam-se roupas usadas, papeis amachucados e fotos antigas. Pasmado, encostado à parede, ele olhava aquele desfile do seu passado, enquanto os bons e os maus momentos, as dores e a alegrias invadiam um espaço tão grande que não me deixavam sequer chegar-lhe. Quanto mais tentava mais longe me encontrava, um mar de antigas memórias separava-nos empurrando-me para longe, longe dele.
Saí para lhe dar espaço, para não me sentir uma estranha numa vida da qual, afinal eu não fizera parte. Saí mas voltei, mais tarde, depois dos ponteiros do relógio me confidenciarem que era o momento certo. Entrei devagar, receosa do gato, do periquito que esvoaçava, dos papeis, das malas e malotes... Entrei mas não vi os bichos, nem as tralhas, nem as malas. Na sala, no sofá grande à frente da televisão, sozinho, estava ele. Olhou-me demoradamente e tentei entender no seu olhar o que se seguiria.
Nunca mais vi as malas, o malote ou a mochila de campismo. Na verdade, não tenho a certeza que o gato tenha ido verdadeiramente embora, às vezes parece-me ouvi-lo miar, e podia jurar que no outro dia vi um periquito a tentar entrar pela janela do quarto. Poderei eu recrimina-lo por isso? Afinal, quem não guarda consigo imagens ou mesmo marcas do caminho que atravessou...
Liliana Lima



"Eu não tenho a certeza
De gritar ou de esconder
Sempre que o amor vier
Brilhante natureza
Fecundando matagais assim
Vira vento, vira lume contra mim

(...)

Aqui estou eu
Com o que sou
Com o que é meu
Tal como estou
É neste chão
Que eu assento os pés
E é por seres quem és
Que eu assim me dou"

"Eu não tenho a certeza" de José Mário Branco
(escrito de cabeça com a memória da voz do Jorge Lomba no "Inda a Noite" há uns anitos atrás...)

segunda-feira, março 23, 2009

Vamos soltar um balão, José?

Podemos sempre tentar - digo eu, mais para me convencer a mim própria do que na esperança vã de te levar a concordar comigo. Diz-me sinceramente se não te seduz a ideia de prender num balão todos os sentimentos que tentas silenciar e, simplesmente, soltá-los no ar. Diz-me, olhos nos olhos se não o farias, se pudesses.

Imagina apenas. Fecha os olhos, não penses, não puxes o lado lógico do teu cérebro, deixa-te ir, solta a imaginação e visualiza o balão a voar, cada vez mais longe. Imagina... sentes a força libertadora? Deixa-o ir, despede-te e suspira fundo...

Podemos sempre tentar - repito, agora já com vontade de te convencer. Que tens a perder? Pega num cartão, deita fora o que está a mais. Escreve, que escrever é como tomar banho nas águas límpidas de um rio que nos purifica e lava a alma.

Agora vai buscar os balões, aquele colorido que parece o arco-íris para mim, o outro cor-de-rosa com bolas brancas para ti. Prende o cartão no fio e vem comigo ao cimo da montanha mais alta (aquela onde a águia abriu a asas e voou).

Chegámos, é aqui bem no cimo, onde o ar custa mais a respirar e a lua está à distancia de um salto. Respira fundo, olha para o céu, deixa-te inspirar pela luz trémula das estrelas e deixa-o ir, solta o balão!

Podemos sempre tentar... digo eu a olhar para os dois balões que sobem no ar cada vez mais longe, quase a tocar na lua...
Liliana Lima


"(...)

Matemáticos pontos combinando,
Tendo por base a grande Astronomia,
Um Génio, que não tem nada de brando,
Projecta ir ver o Sol, fonte do dia:
Em pejado Balão vai farejando,
Subindo mais e mais como devia;
Divisa a Lua, mete-se por ela,
Pasma de imensas cousas que viu nela.

(...)"


José Daniel Rodrigues da Costa in "O Balão aos Habitantes da Lua" (1819)

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Vens por aqui, José?

Entrámos no barco sem dizer palavra, sentámo-nos e pegaste nos remos.

Entendo tão bem o que me dizes com esse olhar… Estás cansado, não era este o caminho pensavas fazer. E no entanto, quando te disse que era por aqui não hesitaste e entraste comigo. Não sei porque tenho esta certeza, mas sei que o caminho certo é este.

O rio está calmo, mas a corrente obriga-nos a um esforço suplementar. Ajudo-te a pegar nos remos, avançamos devagar, mas vamos subindo o rio.

Nas margens há pessoas que nos acenam “vão ao contrário… a paisagem é mais bonita na foz”, acenamos também mas continuamos rio-acima, com calma.

Aproveitamos uma pequena baía e paramos para descansar. O teu olhar diz-me que continuas cansado, mas confiante. Acreditas em mim e eu sei que, contigo o barco está mais estável. Começamos a falar mas as “palavras estão gastas” e não nos falam das coisas importantes. Os teus olhos sim, dizem-me que devemos partir, está a fazer-se tarde, sinto-te inquieto. Achas que a viagem será mais difícil a partir daqui, remar contra a corrente não é fácil, mas eu sei, eu sinto que é lá em cima, perto da nascente que nos vamos encontrar. Acalmo-te com a minha certeza e entramos novamente em silêncio no barco.

Voltar ao ritmo é difícil, avisto na margem um grupo de crianças que brincam na água. Aproximam-se nadando e perguntam-nos porque vamos por ali, porque não subimos pela margem até à nascente como todos os outros. Olhas para mim, entendo tão bem o que me dizes com esse olhar… Inspiro-me nele e não desisto, sei que é este o caminho, não sei porquê, mas sinto que é por ali. Devolvo-te o sorriso e continuamos a remar.

Estamos quase a chegar, já oiço o burburinho da água que cai das pedras lá ao fundo. Os teus olhos estão cansados, mas acompanham-me nesta viagem. Cada vez que duvido de mim é neles que reencontro as certezas que tenho cá dentro.

Entendo tão bem o que me dizes com esse olhar… Não era este o caminho que pensavas fazer e, no entanto, aqui estás, ao meu lado, remando comigo contra a corrente. Estás cansado, mas confortas-me. Estamos quase a chegar!

Não era este o caminho que pensavas fazer mas entraste no barco, sentaste-te ao meu lado e remaste comigo… Pergunto-me porquê… Pergunto-me se o teria conseguido sem ti…

Procuro nas margens, mas já não avisto ninguém. Estamos quase a chegar e, aqui, estamos sozinhos. Agora que as certezas dançam no ar como borboletas coloridas num jardim florido, já posso confessar que houve alturas em que duvidei, que houve alturas em que foste tu que me mantiveste sentada, a remar. Os teus olhos respondem-me com as mesmas palavras, estivemos os dois no mesmo barco, construído de certezas e alimentado pela força dos olhares que trocámos.

Se eu te disse o caminho tu deste-me, sem dúvidas, a força para lá chegar. Foi nesse tabuleiro de compromissos, que jogámos as certezas e as inseguranças, sempre apoiados na confiança dos olhares que trocámos.

Liliana Lima 26/02/2009
(com um abraço ao 'outro' José que me desafiou a escrever este texto)




""Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: "vem por aqui!"

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali...


A minha glória é esta:

Criar desumanidade!

Não acompanhar ninguém.

- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade

Com que rasguei o ventre à minha mãe


Não, não vou por aí! Só vou por onde

Me levam meus próprios passos...


Se ao que busco saber nenhum de vós responde

Por que me repetis: "vem por aqui!"?


Prefiro escorregar nos becos lamacentos,

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

A ir por aí...


Se vim ao mundo, foi

Só para desflorar florestas virgens,

E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!

O mais que faço não vale nada.


Como, pois sereis vós

Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem

Para eu derrubar os meus obstáculos?...

Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,

E vós amais o que é fácil! Eu amo o Longe e a Miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos...


Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátria, tendes tectos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...

Eu tenho a minha Loucura !

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...


Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;

Mas eu, que nunca principio nem acabo,

Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.


Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: "vem por aqui"!

A minha vida é um vendaval que se soltou.

É uma onda que se alevantou.

É um átomo a mais que se animou...


Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou

- Sei que não vou por aí!"

Cântico Negro de José Régio

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Como explicar o que sou, José?

Fervo a água para o chá e componho o tabuleiro com a torradeira, as ideias confundem-se no vapor que sai da chaleira...

-"Às vezes não sei explicar o que sou, o que faço... parece que me perco no meio das palavras e deixo cair os significados." disse eu espalhando manteiga numa torrada ainda fumegante.

- "Isso é porque queres dizê-lo numa língua que não é tua. Procuras as palavras do mundo e renegas as tuas referências. Tentas descodificar as tuas metáforas, explicar as tuas idiossincrasias. Perdes tanto tempo a explicar as palavras que acabas por perder o significado. Passa-me a manteiga, se faz favor."

Passo-te a manteiga enquanto mastigo o que me queres dizer, preciso de tempo para digerir as palavras, sentir-lhes o significado e descodificar-lhes o sentido. No relógio da sala os ponteiros respeitam a minha hesitação e param por um momento.

- "Não sei se é bem isso, mas se calhar até tens razão... parto do princípio que sou complicada e isso leva-me a procurar, à priori, explicações para o que ainda não disse. Mas além disso, tenho sempre a sensação que não sei encontrar as palavras certas, que carreguem o simbolismo certo, exacto, daquilo que procuro fazer. É como se, só fazendo o consigo explicar..."

O chá está pronto, sirvo-te e misturo água fria na minha chávena. O vapor mistura-se com o cheiro das torradas e ambos dançam ao som do fado que toca na aparelhagem.

- "O que eu sei é que já te vi explicares varias vezes o que fazes e porque o fazes. Percebes o que quero dizer? Sempre que falas do que fizeste, do que tens programado, dos livros que sugeres... Repetes expressões, invocas referências, compões metáforas... É aí que estás tu, é nessa forma de expressão que te leio, que te encontro."

Mais uma vez as palavras chegam-me mas o seu significado está desfasado, como num filme dobrado em que o som não corresponde aos movimentos dos lábios, demoro a perceber o que me dizes. Passo-te o açúcar e com ele as minhas dúvidas que persistem apesar do vapor das tuas palavras.

- "Queres dizer que me explico melhor quando não me quero explicar?"

- "Quero dizer que és verdadeira quando não te procuras traduzir. Quando falas sem te preocupar com quem te está a ouvir..."

A aparelhagem esforça-se por me ajudar a entender o que dizes, aumenta o som e ouvem-se as palavras que rodopiam à minha volta pousando no chá que bebo e na torrada em que espalho geleia.

Quanto mais quero entender-te mais longe me sento. Desisto, escuso-me a responder para não prolongar a conversa. Desvio o olhar mas o fado que toca entra-me pela pele, obriga-me a ouvir-te e a entender as tuas palavras... "Canta da cabeça aos pés / Canta com aquilo que és / Só podes dar o que é teu"...


Liliana Lima 25-Fev-2009








"Não cantes alegrias a fingir
Se alguma dor existir
A roer dentro da toca
Deixa a tristeza sair


Pois só se aprende a sorrir
Com a verdade na boca
Quem canta uma alegria que não tem
Não conta nada a ninguém


Fala verdade a mentir
Cada alegria que inventas
Mata a verdade que tentas
Pois e tentar a fingir


Não cantes alegrias de encomenda
Que a vida não se remenda
Com morte que não morreu
Canta da cabeça aos pés
Canta com aquilo que és
Só podes dar o que é teu"



"Fado da tristeza" de José Mário Branco

quinta-feira, janeiro 15, 2009

No dia em que 'eu olhei para ti', José Mário...

Um dia olhei para ti
e com espanto, surpresa e pesar
não descobri no teu olhar
a força de vida que conheci
e, em tempos, usei para amparar
as lágrimas que, sozinha, verti.
Um dia olhei para ti, olhei...
mas o teu olhar me traiu
e, como garrafas sem fundo vertendo
as imagens que neles busquei,
nos teus olhos parados fui lendo
as mágoas que em ti projectei.
Perdi-te, no dia em que te olhei
e com um tal manto de mágoas te cobri,
que até do reencontro te culpei.
Acho que só agora entendi
que nessa culpa fui eu que me perdi.

LL Abril-2005 / Janeiro-2009



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"Quando o avião aqui chegou
quando o mês de Maio começou
eu olhei para ti
então entendi
foi um sonho mau que já passou
foi um mau bocado que acabou

Tinha esta viola numa mão
uma flor vermelha n'outra mão
tinha um grande amor
marcado pela dor
e quando a fronteira me abraçou
foi esta bagagem que encontrou


Eu vim de longe
de muito longe
o que eu andei p'ra'qui chegar

Eu vou p'ra longe
p'ra muito longe
onde nos vamos encontrar
com o que temos p'ra nos dar

E então olhei à minha volta
vi tanta esperança andar à solta
que não exitei
e os hinos cantei
foram feitos do meu coração
feitos de alegria e de paixão


Quando a nossa festa s'estragou
e o mês de Novembro se vingou
eu olhei p'ra ti
e então entendi
foi um sonho lindo que acabou
houve aqui alguém que se enganou


Tinha esta viola numa mão
coisas começadas noutra mão
tinha um grande amor
marcado pela dor
e quando a espingarda se virou
foi p'ra esta força que apontou"



Eu vim de longe - José Mário Branco

sexta-feira, janeiro 02, 2009

O que perfuma a tua vida, José Eduardo?!

"Certas palavras são como as especiarias, devem ser usadas com parcimónia. Por exemplo, esplendor, solte essa palavra numa única página e ela perfumará todo o romance. Mas use-a sem discernimento e então transformar-se-à em ruído."

José Eduardo Agualusa
"Um estranho em Goa"
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Fernando nasceu numa adeia do interior numa casa típica onde, devido à proximidade com os animais, que estavam nas lojas do rés-do-chão, tudo cheirava a eles. Não guardou consigo qualquer recordação de infância que não tivesse impregnada daquele cheiro das cabras e dos dois porcos que, nos primeiros anos da sua vida, moraram com ele.

Aos seis anos, e até ao fim do liceu, foi para o Seminário de Gouveia estudar. Quando lá chegou não foi a grandeza dos dormitórios ou a limpeza dos balneários que o espantaram, foi o cheiro daquele edifício, todos os armários, gavetas, roupeiros, arcas e até mesmo debaixo de cada colchão (e eram muitos os colchões num seminário com mais de 150 meninos...) em todo o lado havia saquinhos de Alfazema. Era apanhada ali mesmo, nos campos do Seminário, depois de seca era guardada em saquinhos de linho atados com um laços de varias cores. Aqueles botões de Alfazema enchiam o ambiente, entravam nas paredes e perfumavam o edifício de tal forma que, quando ia a casa de visita, às perguntas normais da mãe (a comida é boa? tratam-te bem?) Fernando respondia sempre com o bem que cheiravam os quartos, as salas, os corredores e até os campos.

Mais tarde optou por continuar a estudar, queria ser advogado. Para isso, e como orçamento familiar não permitia suportar sonhos desse calibre, arranjou um emprego como padeiro em Coimbra. De noite fazia o pão e de dia estudava. Toda a sua vivência nesta cidade se resumia a estes dois lugares, a Padaria e a Universidade. O seu ofício, aprendeu-o com facilidade e, rapidamente, passou de aprendiz a Mestre Padeiro. O cheiro do fermento misturado com o aroma do forno a lenha entranharam-se nele de tal forma que se convenceu que onde quer que fosse todos sabiam que era Padeiro somente pelo seu cheiro.

Finalmente acabou o curso e, para grande orgulho da sua família, lá se estabeleceu como Advogado no Cartório Notarial de Moimenta da Beira. O seu gabinete ficava no fundo do edifício, mesmo ao lado do arquivo e o cheiro a pó e papel velho infiltrou-se nas roupas , na carne e até nos ossos de Fernando, até que todos o passaram a conhecer como "Rato de Biblioteca", nome que, nos dias em que estava bem disposto até ele usava para se referir a si mesmo.

Na verdade, depois da reforma Fernando não ficou muito mais tempo para descobrir novos cheiros, foi como um botão de flor arrancado, que aos poucos deixa cair todas as pétalas até murchar por completo. Quando as suas sobrinhas foram limpar a casa e guardar os seus pertences, encontraram em todos os móveis, gavetas, roupeiros, arcas e até mesmo debaixo do colchão saquinhos de linho, com laços de varias cores cheios Alfazema, plantada ali mesmo no jardim pelo seu tio Fernando.



LL Nov/2005

terça-feira, dezembro 02, 2008

Porquê, não sei ainda...

"A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes

São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Ensinas-me fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas

Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
P'ra ficar pelo caminho

Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda"

Inquietação - José Mário Branco
(cantado no CD "Ser Solidário")

Bem aventurados os que não conhecem esta sensação que, como uma sombra nos segue, nos espera ao virar da esquina, nos surpreende quando olhamos o espelho e nos embala nas noites em branco...

Esta inquietação de saber que, a cada flor que desponta, a cada alvorada que nasce, há sempre alguma coisa que não percebemos, que não compreendemos e que não sabemos como resolver...