quinta-feira, novembro 21, 2019
ATÉ já, José!
segunda-feira, outubro 29, 2012
Que caminho tão longo, José...

terça-feira, outubro 09, 2012
Aqui estás tu, José...
A imagem era, no mínimo, surreal. Vinha a pé pelo meio da estrada, trazia com ele duas malas de pele castanha já gastas, tão cheias que uma quase se abria e a outra trazia de fora uma manga de camisa branca com riscas azuis. Um malote verde à tira-colo, uma mochila grande às costas, daquelas de campismo com a tenda enrolada por baixo e uma caçarola pendurada nos fechos de cima, uma mala de transportar animais com um gato que, a medo, espreitava pela rede, e um periquito ao ombro.
"Aqui estás tu, com tudo o que és..." pensei eu. Tudo o que, ao longo da vida, foste recolhendo e apanhando, o que te foi marcando, o que não conseguiste soltar, o que te pesa nos ombros à noite quando, às voltas na cama, não consegues dormir, o que te arrependes e o que tens saudades.
02-Abril-2009
"(...)
De morrer ou de nascer
(...)
sexta-feira, setembro 14, 2012
Alice
domingo, outubro 16, 2011
Uma curva que vem de trás....
Apareceu ao fundo da rua, com um sorriso enorme de criança que acabou de ganhar um chocolate. "Aqui estou eu!", disse ele feliz. E estava mesmo...
A imagem era, no mínimo, surreal. Vinha a pé pelo meio da estrada, trazia com ele duas malas de pele castanha já gastas, tão cheias que uma quase se abria e a outra trazia de fora uma manga de camisa branca com riscas azuis. Um malote verde à tira-colo, uma mochila grande às costas, daquelas de campismo com a tenda enrolada por baixo e uma caçarola pendurada nos fechos de cima, uma mala de transportar animais com um gato, que a medo espreitava pela rede, e um periquito ao ombro.
"Aqui estás tu, com tudo o que és..." pensei eu. Tudo o que, ao longo da vida, foste recolhendo e apanhando, o que te foi marcando, o que não conseguiste soltar, o que te pesa nos ombros à noite quando, às voltas na cama, não consegues dormir, o que te arrependes e o que tens saudades.
02-Abril-2009
"Eu não tenho a certeza
De gritar ou de esconder
segunda-feira, abril 11, 2011
Só posso dar o que é meu...
Liliana
"Fado da Tristeza" de Manuela de Freitas e José Mário Branco
domingo, março 06, 2011
Porquê este vazio, Jóse?!

"(...)
Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
(...)"
terça-feira, fevereiro 01, 2011
Onde, José?
Com "Eu vim de longe" de José Mário Branco
como pano de fundo
quarta-feira, janeiro 05, 2011
José, que sentes quando a acaso te trai?!
terça-feira, junho 29, 2010
Chegaste ao fim ou ao princípio do caminho, José?!
Desceu a rampa convencido de ir dar a um local mágico. Tinha tanta certeza que estava no caminho certo que nem os avisos ou desconfianças ou contratempos o fizeram desistir. Era ali, o lugar dele, finalmente chegaria ao fim da sua caminhada!
Todo o percurso tinha sido, no mínimo, absurdo. O astrolábio avariou-se em plena noite de lua nova deixando-o à deriva durante dias. A bússola caiu no meio dum pântano esverdeado onde até a mochila da roupa se afogou para sempre. Os mapas, que trouxera como último recurso, acabaram em fanicos depois dos cães os confundirem com algo para trincar. Ah! Mas aquela era uma viagem que faria até contra ventos e marés. Afinal, um homem tem o direito de morrer numa poltrona feita propositadamente para si, e ele sabia que era aquele o caminho para ela.
Avançou pelo meio dar árvores até chegar a uma espécie de clareira polvilhada de arbustos selvagens e flores campestres, estava quase a chegar, sentia-o dentro do peito no palpitar acelerado do coração. De repente teve dúvidas, suores frios inundaram-lhe as ideias. E se estivesse errado? Depois de tantos atalhos e desvios, não se teria perdido? Ele queria o fim do caminho, mas não de um qualquer, ele queria encontrar o final da sua estrada. Sentou-se um pouco naquele chão arenoso por onde as formigas (enormes) faziam os seus próprios caminhos por entre ervas e pedras, sem bússolas, nem mapas ou astrolábios elas seguiam, decididas, confiantes, acompanhadas - ao contrário dele é certo, mas há coisas que têm de ser feitas em solidão e uma companhia só teria servido para o atrapalhar, atrasar ou até mesmo desmoralizar.
Não! Chegara até ali sem saber bem como, fizera o seu percurso, aprendera com os erros e arriscara sem medos - porque na verdade este tipo de caminho deve ser feito seguindo os instintos, não os instrumentos ou os julgamentos de outros - e não seria agora que desistiria. Levantou-se, olhou as formigas (agora já tão pequenas) e sorriu, tantos caminhos por desbravar e elas naquela eterna correria... Tinha pena delas, deitou umas migalhas de bolacha que tinha no bolso e afastou-se tentando não ferir nenhuma ao passar.
Encontrou um caminho pintado branco no meio dos arbustos. Ele sempre soubera! Era ali, era aquele o final da linha, lutara para lá chegar e era lá que seria, finalmente, feliz - no fim. Desceu a rampa convencido que ia encontrar um local mágico, o sítio perfeito para poisar, para parar, para acabar. Teria uma poltrona luxuosa à sua espera, feita à sua medida e todo o tempo do mundo para deixar de pensar, de se preocupar, de sofrer, de sentir, de amar, de se magoar, de duvidar, de chorar, de procurar... de viver.
A rampa, feita de ripas de madeira pintadas dum branco que outrora talvez tivesse sido azul, acabava numa falésia com vista para o mar. Havia um banco, também de madeira, meio desfeito virado para aquela imensidão de água que acariciava a areia e brincava com as conchas que rebolavam, para trás e para a frente, distraídas dos medos dos homens. O sol embalado pela brisa da tarde demorava-se, preguiçoso, num beijo ainda tímido no ondular do horizonte.
Estava tonto. Não sabia o que pensar, talvez pelo cheiro forte a maresia, talvez pela beleza do cenário. Perdera-se no caminho?! Aquele não era, com certeza o seu fim. Aliás aquele não era o final de coisa nenhuma, era um início de noite, uma explosão de laranjas e roxos no céu, um banho de vida que revoltava a areia e trazia sempre novas conchas à margem... Perdera-se no caminho?! Mas como? Estava tão certo que era ali que queria chegar.
Sentou-se no banco, as tábuas já gastas e desconjuntadas rangeram com o peso do seu corpo mas mantiveram-se, formando uma espécie de casulo em seu redor. O sol mergulhara já pelo mar e a lua brilhava, cheia, para ele. A toda a volta a vida parecia espicaça-lo, nos besouros que se levantavam com o ar quente da noite, nos pirilampos que esvoaçavam por entre as flores adormecidas, no piar dum cuco ou duma coruja, tudo lhe dizia que aquele não era o fim.
Ali, aquele banco, era exactamente o início. Primeiro da madrugada, lenta e tranquila, depois da manhã, com os pássaros que se alvoraçavam e as gaivotas que voavam a pique para o mar, depois da tarde, com o sol bem alto e quente fazendo a terra endurecer para se proteger e depois, devagar, aquele beijo primeiro tímido depois envolvente e por fim abraço perfeito entre sol e mar que lhe gritavam por todo o céu para se levantar e, mais uma vez, percorrer o caminho - o seu. Caminhar seguindo o instinto e aproveitando cada segundo do percurso, porque todos as as chegadas contêm em si a partida que se seguirá. Para onde? No mínimo até à linha do horizonte...
Com "Travessia do deserto" de José Mário Branco no ouvido, (aqui numa Curva de outros tempos)...
quarta-feira, junho 23, 2010
Tens um regador, José?
Por dentro da distância percorrida
Fazer de cada perda uma raiz
E improvavelmente ser feliz
De como aqui chegar não é mister
Contar o que já sabe quem souber
O estrume em que germina a ilusão
Fecundará por certo esta canção
Ser solidário sim, por sobre a morte
Que depois dela só o tempo é forte
E a morte nunca o tempo a redime
Mas sim o amor dos homens que se exprime
De como aqui chegar não vale a pena
Já que a moral da história é tão pequena
Que nunca por vingança eu te daria
No ventre das canções sabedoria
Ser solidário assim pr’além da vida
Por dentro da distância percorrida
Fazer de cada perda uma raiz
E improvavelmente ser feliz
do álbum 'Ser Solidário' 1982
terça-feira, janeiro 26, 2010
Que caminho tão longo, José....

sexta-feira, maio 15, 2009
Ouves o meu silêncio, José?

"Em que língua se diz, em que nação,
"No silêncio dos olhos" de José Saramago
quarta-feira, abril 01, 2009
Tens a certeza, José?
Apareceu ao fundo da rua, com um sorriso enorme de criança que acabou de ganhar um chocolate. "Aqui estou eu!", disse ele feliz. E estava mesmo... A imagem era, no mínimo, surreal. Vinha a pé pelo meio da estrada, trazia com ele duas malas de pele castanha já gastas, tão cheias que uma quase se abria e outra trazia de fora uma manga de camisa branca com riscas azuis, um malote verde à tira-colo, uma mochila grande às costas, daquelas de campismo com a tenda enrolada por baixo e uma caçarola pendurada nos fechos de cima, uma mala de transportar animais com um gato, que a medo espreitava pela rede, e um periquito ao ombro. "Aqui estás tu, com tudo o que és..." pensei eu. Tudo o que, ao longo da vida, foste recolhendo e apanhando, o que te foi marcando, o que não conseguiste soltar, o que te pesa nos ombros à noite quando, às voltas na cama, não consegues dormir, o que te arrependes e o que tens saudades.

segunda-feira, março 23, 2009
Vamos soltar um balão, José?
"(...)
Matemáticos pontos combinando,
Tendo por base a grande Astronomia,
Um Génio, que não tem nada de brando,
Projecta ir ver o Sol, fonte do dia:
Em pejado Balão vai farejando,
Subindo mais e mais como devia;
Divisa a Lua, mete-se por ela,
Pasma de imensas cousas que viu nela.
(...)"
José Daniel Rodrigues da Costa in "O Balão aos Habitantes da Lua" (1819)
sexta-feira, fevereiro 27, 2009
Vens por aqui, José?
Entendo tão bem o que me dizes com esse olhar… Estás cansado, não era este o caminho pensavas fazer. E no entanto, quando te disse que era por aqui não hesitaste e entraste comigo. Não sei porque tenho esta certeza, mas sei que o caminho certo é este.
O rio está calmo, mas a corrente obriga-nos a um esforço suplementar. Ajudo-te a pegar nos remos, avançamos devagar, mas vamos subindo o rio.
Nas margens há pessoas que nos acenam “vão ao contrário… a paisagem é mais bonita na foz”, acenamos também mas continuamos rio-acima, com calma.
Aproveitamos uma pequena baía e paramos para descansar. O teu olhar diz-me que continuas cansado, mas confiante. Acreditas em mim e eu sei que, contigo o barco está mais estável. Começamos a falar mas as “palavras estão gastas” e não nos falam das coisas importantes. Os teus olhos sim, dizem-me que devemos partir, está a fazer-se tarde, sinto-te inquieto. Achas que a viagem será mais difícil a partir daqui, remar contra a corrente não é fácil, mas eu sei, eu sinto que é lá em cima, perto da nascente que nos vamos encontrar. Acalmo-te com a minha certeza e entramos novamente em silêncio no barco.
Voltar ao ritmo é difícil, avisto na margem um grupo de crianças que brincam na água. Aproximam-se nadando e perguntam-nos porque vamos por ali, porque não subimos pela margem até à nascente como todos os outros. Olhas para mim, entendo tão bem o que me dizes com esse olhar… Inspiro-me nele e não desisto, sei que é este o caminho, não sei porquê, mas sinto que é por ali. Devolvo-te o sorriso e continuamos a remar.
Estamos quase a chegar, já oiço o burburinho da água que cai das pedras lá ao fundo. Os teus olhos estão cansados, mas acompanham-me nesta viagem. Cada vez que duvido de mim é neles que reencontro as certezas que tenho cá dentro.
Entendo tão bem o que me dizes com esse olhar… Não era este o caminho que pensavas fazer e, no entanto, aqui estás, ao meu lado, remando comigo contra a corrente. Estás cansado, mas confortas-me. Estamos quase a chegar!
Não era este o caminho que pensavas fazer mas entraste no barco, sentaste-te ao meu lado e remaste comigo… Pergunto-me porquê… Pergunto-me se o teria conseguido sem ti…
Procuro nas margens, mas já não avisto ninguém. Estamos quase a chegar e, aqui, estamos sozinhos. Agora que as certezas dançam no ar como borboletas coloridas num jardim florido, já posso confessar que houve alturas em que duvidei, que houve alturas em que foste tu que me mantiveste sentada, a remar. Os teus olhos respondem-me com as mesmas palavras, estivemos os dois no mesmo barco, construído de certezas e alimentado pela força dos olhares que trocámos.
Se eu te disse o caminho tu deste-me, sem dúvidas, a força para lá chegar. Foi nesse tabuleiro de compromissos, que jogámos as certezas e as inseguranças, sempre apoiados na confiança dos olhares que trocámos.

""Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil! Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!"
Cântico Negro de José Régio
quarta-feira, fevereiro 25, 2009
Como explicar o que sou, José?

"Não cantes alegrias a fingir
Se alguma dor existir
A roer dentro da toca
Deixa a tristeza sair
Pois só se aprende a sorrir
Com a verdade na boca
Quem canta uma alegria que não tem
Não conta nada a ninguém
Fala verdade a mentir
Cada alegria que inventas
Mata a verdade que tentas
Pois e tentar a fingir
Não cantes alegrias de encomenda
Que a vida não se remenda
Com morte que não morreu
Canta da cabeça aos pés
Canta com aquilo que és
Só podes dar o que é teu"
quinta-feira, janeiro 15, 2009
No dia em que 'eu olhei para ti', José Mário...
Um dia olhei para ti, olhei...

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"Quando o avião aqui chegouquando o mês de Maio começou
eu olhei para ti
então entendi
foi um sonho mau que já passou
foi um mau bocado que acabou
Tinha esta viola numa mão
uma flor vermelha n'outra mão
tinha um grande amor
marcado pela dor
e quando a fronteira me abraçou
foi esta bagagem que encontrou
Eu vim de longe
de muito longe
o que eu andei p'ra'qui chegar
Eu vou p'ra longe
p'ra muito longe
onde nos vamos encontrar
com o que temos p'ra nos dar
E então olhei à minha volta
vi tanta esperança andar à solta
que não exitei
e os hinos cantei
foram feitos do meu coração
feitos de alegria e de paixão
Quando a nossa festa s'estragou
e o mês de Novembro se vingou
eu olhei p'ra ti
e então entendi
foi um sonho lindo que acabou
houve aqui alguém que se enganou
Tinha esta viola numa mão
coisas começadas noutra mão
tinha um grande amor
marcado pela dor
e quando a espingarda se virou
foi p'ra esta força que apontou"
Eu vim de longe - José Mário Branco

