Vem comigo procurar os pássaros que habitam a noite. Deixa-me aproximar devagar e ensina-me como dizer o seu nome.
Vem comigo por este oceano dentro, saibamos esperar no vai e vem das ondas por aqueles que se deixarem mostrar, barbatana de fora, dançando a valsa dos peixes.
Vem comigo descobrir as entranhas desta terra cuidadosamente plantada no meio do mar. Mostra-me a respiração de Deus, que levanta um véu sobre estas flores de mil cores.
Vem comigo até ao alto das nuvens e lá de cima, como que planando sobre os campos, mostra-me a vista a perder de vista desta manta pelos anjos bordada.
Vem comigo mergulhar nas rochas e nadar com os peixes, sem acordar os caranguejos que descansam ao sol.
Vem comigo ao lado de lá, onde as rochas provocam o mar e o sol diariamente se deixa morrer de amor pelo horizonte azul.
Deixemos as horas desacelerar que aqui o tempo anda mais devagar.
Em breve o dia adormecerá.
E as cagarras cantarão mais forte.
E as baleias mostrar-se-ão sem timidez.
E as grutas vestir-se-ão de negro.
E as fumarolas continuarão a respirar.
E os campos preparar-se-ão para o anoitecer.
E as piscinas deixar-se-ão cobrir pelas ondas.
E as praias desertas serão habitadas pelos sonhos de quem as avistou.
E tu virás comigo ver o luar que reflectirá nas águas desta praia à nossa janela plantada.
Que sabes das mensagens vazias que chegam à praia em bonitas garrafas vestidas de festa? Conheces-lhes o cheiro demasiadamente forte e as cores para lá do berrante? Já ouviste o enorme silêncio que lhes habita as palavras, tão gastas de nada dizer? Que sabes do lamento que vive nos búzios escondidos no meio das pedras do molhe que protege a praia? Já o viste dançar sozinho nos reflexos com que a lua pinta o mar depois do pôr-do-sol? Conheces-lhe as palavras tão gastas de tanto ecoar as suas mágoas ao luar? Que sabes das mensagens que, em silêncio, são lançados ao mar e dentro de um simples olhar percorrem mares e marés até darem à costa no outro lado do horizonte? Já lhes sentiste o rasto, perceptível apenas aos que um dia já lançaram, eles próprios, as suas mensagens ao mar? Algum dia te cruzaste com as complexas palavras que as compõem, que rimam sempre com amor e que, dizem, são cantadas em noites de lua nova, em uníssono, por sereias encantadas e trovadores enamorados? Que sabes do tanto que traz este mar?... Liliana Lima
Sentei-me na MARGEM, esgotada, enervada e sem forças para continuar. Todo o mundo me parecia estar na OUTRA MARGEM. Mesmo tu, que sentia tocar-me, estavas lá do OUTRO lado. As vozes chegavam de longe e a cidade parecia desaparecida. Com o Tejo a desaguar em mim, ouvi a tua voz. Com a Lua Nova a esconder-se comigo, senti a tua mão. Com o corpo a tremer num turbilhão de sentimentos, reconheci o teu calor. Levantei-me, esgotada, dESTA MARGEM. Olhei à volta e decidi atravessar a ponte para o OUTRO lado e, num só passo, anular as MARGENS. Liliana Lima
Lembras-te que os caminhos que hoje escolhemos amarelos e seguros amanhã se continuam a desenhar? Lembras-te de cada beijo que as nossas bocas já têm para dar? Lembras-te das mãos que ontem aprendiam a silhueta um do outro e já nos afagam nas noites que vão chegar? Lembras-te das manhãs que vamos acordar? Lembras-te como o teu corpo húmido e cansado de trocar de corpo um com o meu se enrosca em mim nos lençóis que vamos comprar? Lembras-te das palavras que em todas as conversas que partilhamos já repetes de hoje em diante? Lembras-te de cada zanga que trocamos amiúde por carícias futuras? Lembras-te das velas que vamos acender? Lembras-te dos brincos a condizer com o anel que me vais oferecer? Lembras-te das canções que vais compor com os poemas que vou escrever? Lembras-te das lágrimas que no teu ombro novamente vou secar? Lembras-te das noites que vamos embalar? Lembras-te dos sorrisos que um com o outro vamos trocar? Lembras-te dos tantos concertos, filmes, peças que de mãos dadas vamos partilhar? Lembras-te dos caminhos sempre amarelos e seguros que vamos calcorrear? Lembras-te dos dias e das noites que vamos viver? Lembras-te de te lembrares das memórias conjuntas que vamos construir? Liliana Lima
Há sempre o dia depois Há sempre a manhã seguinte que tráz na aurora os cheiros os sons os movimentos que nos levaram até... ao dia depois Há sempre o amanhã de tudo o que fomos ontem em sintonia ou não em paz ou exaltação Há sempre o depois daquilo que se segue e todas as palavras que com ele rimam E a esperança que o hoje espere por este dia que é também amanhã Há sempre a palavra que vem Há sempre a escolha de dizermos ou não como chegámos o que demos quanto recebemos para tentarmos chegar até... à palavra que vem Há sempre o amanhã de tudo o que fomos ontem em sintonia ou não em paz ou exaltação Há sempre o depois daquilo que se segue e todas as palavras que com ele rimam E a esperança que o hoje espere por este dia que é também amanhã Há sempre a espera Há sempre o silêncio que nos pára em frente do espelho do ontem da dúvida de como agir até... superar a espera Há sempre o amanhã de tudo o que fomos ontem em sintonia ou não em paz ou exaltação Há sempre o depois daquilo que se segue e todas as palavras que com ele rimam E a esperança que o hoje espere por este dia que é também amanhã Liliana Lima
Do tanto que fomos e construímos Levo os vestidos, dos dias claros junto ao Tejo Levo os sonhos, três vezes saídos de mim e embalados a dois Levo os sapatos, os vermelhos com que bati os calcanhares E deixo as lágrimas, deixo os pilares que mantêm a casa, que construímos Do tanto que fomos e construímos Levo os casacos, de Inverno que lá fora está frio Levo todos e cada sorriso que partilhámos, à mesa da cozinha Levo os livros, partes de mim de que não consigo separar-me E deixo as angústias, deixo arrumada a casa, que construímos Do tanto que fomos e construímos Levo o blush, o baton e o rímel preto Levo a cumplicidade, partilhada numa troca de olhares Levo os CD's, da música que se canta dentro e fora de mim E deixo o silêncio, deixo o desencanto intruso nesta casa, que construímos Do tanto que fomos e construímos Levo as plantas que aprendi a cuidar Levo o carinho servido num tabuleiro, numa manhã de domingo Levo as malas, umas dentro das outras, as grande e as pequenas E deixo as discussões, deixo as palavras amargas que ecoam na casa, que construímos E deixo os quadros e as panelas Deixo os sofás e os candeeiros Deixo as televisões e os pratos Deixo as estantes e as fotos nas paredes Agora que abro a porta para sair Guardo as noites e os beijos Guardo os jantares e almoços a dois Guardo os cheiros e os sabores Guardo os recortes e as memórias Dum amor que nasceu, cresceu e deu frutos E, gradual e compassadamente, saiu pelas janelas e desaguou no Tejo Que o levou nas suas águas e, tenho a certeza que agora Agora que abro a porta para saír "o mar / tem mais peixinhos a nadar"
Existo de verdade Sim Do lado de cá do espelho, onde te vejo olhar para mim e para ti Estou no reflexo que aparece apenas quando te aproximas de mão dada a mim E é por existires de verdade deste lado onde nos olhamos sem nos vermos espelhados, que eu estou aqui Existo de verdade Sim Para cá dos arco-íris que procuro no céu como um sinal que me levará(ou) até ti Entre as cores que escorrem por todas as ruas da cidade "em que te procuro", colorida, estou aqui E mesmo quando não vejo os arcos que sei nascer a cada momento, estou na linha onde se deita o teu mar no meu céu Existo de verdade Sim Do lado de cá do arco-íris e por entre as cores do (teu) espelho Liliana Lima
Quantos pôres-do-Sol te vi beijar Quantos fins-de-tarde passeei ao teu lado Hoje não acordo contigo Como muitos anos, há muitos anos Hoje vejo-te o nascer do Sol pintar as águas E com ele aprendo a reconstruir os abraços Semi-cerro os olhos e revejo a esperança Sorrio-te e renovo as palavras Doces Liliana Lima
O sim já foi dado há tanto tempo
e nem precisou de anel
O sim, já foi dado, faz muito tempo
Não veio embrulhado num anel
mas sim na tomada de consciência
O sim foi dado há muito tempo
E, mesmo sem a companhia do anel,
trouxe consigo a perfeita consciência
dum tratado cumplicemente firmado
O sim, já foi dado, faz muito tempo
Ainda sem certeza?
Nem precisou de anel
Ainda sem o conhecimento completo?
Com a perfeita consciência
Ainda sem o correr do tempo?
Cumplicemente firmado
Ainda sem toda a certeza?
Debaixo da pele de cada um
O sim já foi dado há muito tempo...
Já com toda a certeza?
Não veio embrulhado num anel
Já com o todo o conhecimento?
Trouxe a perfeita consciência
Já com tempo suficiente?
Um tratado cumplicemente firmado
Já toda a certeza?
Debaixo da pele de cada um
Com a certeza absoluta?
Para todos os embrulhos futuros
Porque... o sim...
O sim, já foi dado
há muito tempo.
Não há receitas. Há que estar no cruzamento certo, à hora certa. Depois é preciso que o olhar se cruze o.l.h.o.s. n.o.s. o.l.h.o.s. Mas é só com os corações abertos que se cria ESPAÇO para a NARRAtiva. E sem NARRAtivas por muito que nos cruzemos e olhemos, não há ESPAÇO para o novo para a tentativa para a curiosidade para o impulso de saltar. Só de corações abertos podemos sentir a vontade de nos darmos n.ú.s. das camadas de tinta com que nos pintamos. Não há receitas. É estar no cruzamento certo na hora certa e olhar c.o.r.a.ç.ã.o. a. c.o.r.a.ç.ã.o. e deixar que a NARRAtiva se instale e escreva a história p.o.r. s.i. m.e.s.m.a. Não há receitas. Liliana Lima
Os corpos encontram-se no sofá num abraço longo que se estende com a sombra do Sol, que se retira
As mãos encontram-se a meio caminho do quarto onde as ondas já esperam, aconchegando os lençóis
Os olhos fecham-se para ver melhor tudo o que só se consegue ver fora do grande écran
E os lábios levando no beijo toda a carga dos sentimentos que cantam, desde a praia até ao alto da cidade
Os sentidos (con)fudem-se numa mistura de odores húmidos que se concentram nas quatro paredes sem pudor do espelho
E a respiração, ignorando o compasso, deixa-se levar pelas marés vivas que cobrem a praia e escondem a areia
O tempo pára. De verdade. E na rua todos se recolhem, respeitando o amor que ali se vive
Os corpos mantêm-se juntos, sem pressa, enquanto as ondas acalmam e se abafam na areia e a agulha chega ao fim do disco e o tempo retoma onde tinha parado
O Sol despede-se num longo abraço laranja e a cidade adormece em paz
Liliana Lima
Um dia ele chegou tão diferente
Do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente
Do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto
Quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto
Pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar
E então ela se fez bonita
Como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado
Cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços
Como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça
Foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança
Que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade
Que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu em paz
Saber a paz tão perto, ali já, atrás da porta
Sentir o mar, lá ao fundo, a cantar cá dentro
Descobrir o sorriso, sempre novo, a cada dia
Aprender a tranquilidade no final de cada espera
E... saber-te na paz de estar, aqui mesmo, atrás da porta
Deixar cair as barreiras, uma a uma, aproveitando todos os espaços novos para suspirar
Acreditar que o castelo de areia se desfaz, apenas para se refazer a cada madrugada
Encontrar a surpresa duma harmonia que respira, viva, em mim
E... saber-me na paz de deixar a inquietação, enfim, atrás da porta
Liliana
Urgentemente
É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
é urgente destruir certas palavras.
odio, solidão e crueldade,
alguns lamentos
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.
às vezes confundo o lado esquerdo com o direito diria mesmo que mudam de lado, num segundo incompleto baralhando o lado em que estou e caindo a pique para o outro, tão imperfeito às vezes confundo o lado em que bate, tranquilo, o meu coração com o lado em que me enrosco para sentir o teu corpo respirando, profundamente coordenados com o bater da ondulação às vezes procuro-te no lado ao lado da vida que espera num jardim que se encanta com tudo o que se canta e expõe lado a lado, a vida, florida, em plena Primavera às vezes o meu lado direito passa a ser esquerdo diria mesmo que se fundem, num beijo quase perfeito quando os corpos, abraçados, fazem do meu peito o teu lado direito Liliana Lima
Meto a mão na mala à procura dos minutos que tinha (tenho quase a certeza) guardado para te oferecer.
Este caos que vive comigo teima em se instalar por entre as chaves que não abrem a porta de casa, os lápis e os batôns meio-secos de tão pouco os usar, os cadernos pretos pequeninos sempre prontos para me deixar escrever as palavras que pedem para ser contadas, e os lenços e as toalhitas e o desodorizante e o leque florido e os cartões e... as chaves que nem a porta de casa abrem.
Encontro tudo, menos o tempo que queria para nós...
Tiro a agenda e peço-lhe, baixinho, que me deixe falar aos dias, contar às horas, pedir ao tempo que se aquiete e nos abra o espaço para sermos nós (não tu e eu, mas nós).
Nunca estou certa das suas respostas, conheço bem o seu mau-feitio e inconstância. Mas, pelo sim pelo não, espreito por sobre os sábados e procuro dentro das quartas-feiras e... às vezes dou por mim num dia-sim, outras encontro apenas nãos.
Mas, entre cada nascer e pôr-do-Sol, vou guardando carinhosamente na minha mala, todos os momentos que consigo libertar para juntar ao nosso tempo (não meu e teu, mas nosso).
Meto a mão no cesto, debroado a azul que trago hoje a consizer com a saia comprida e a blusa branca. Podia jurar que lá dentro pelo menos umas horas estavam guardadas para nós.
Mas o caos que teima em viver comigo diz-me que hoje não é o dia certo.
Suspiro e olho em frente com a certeza de que, mais dia menos noite, vamos encontrar O nosso tempo.
Um dia, quando deixares de gostar de mim Que seja a primeira a saber Que nada me escondas porque posso chorar E mo digas, boca-boca, Que já não gostas de mim Um dia, quando deixares de me querer Que me digas o nome que em ti suspira Que aquece o corpo que ficou marcado em mim Que o meu lugar, na almofada da tua cama, ocupa Um dia, quando te libertares de mim Que eu te veja, pela calçada, a sair Que te despeças com leve acenar E te afastes sem desviar olhar Um dia, quando deixares de gostar de mim Que eu seja a primeira a sentir Que deixes a chave de mim, no portão E que me sejas meigo no despedir Um dia, quando deixares de me desejar a mim Liliana Lima
Hoje não há luar, sabias meu amor? E nas noites de Lua Nova, tu sabes, tudo me parece mais estranho e assustador todo o mundo parece girar em meu redor e dos fantasmas que tão bem conheces. Consegues alcançar o fumo que assalta o meu olhar? Estás aí sequer? Ou já dormes enrolado nas velas dos teus moinhos vento? Hoje não há luar, sabias meu amor? O mar, desapareceu num horizonte profundo e eu, (só tu sabes) que não gosto do escuro, procurei na forma certa das estrelas o caminho para me encontrar. Dás-me a mão para me acalmar? Tens calma sequer? Ou procuras também a tua noite iluminar? Hoje não há luar, sabias meu amor? E as luzes das casas, dos barcos, das fábricas, parecem fugir de mim apenas para me assustar e tu sabes que sem ver a estrada me sinto afundar. Chamas o meu nome, para te encontrar? Falas comigo sequer? Ou estás ocupado com os teus fantasmas a conversar? Hoje não há luar, sabias meu amor? E eu, tu sabes, não consigo dormir. Gostava de estar ao lado e ver os teus olhos sorrir. Liliana Lima
Olho para o jardim onde a vida (de)corre dentro da normalidade dos dias quentes.
Lá fora uma leve brisa faz as folhas das árvores dançar. Cá dentro uma ventania despenteia ideias e desarruma sentimentos.
Chegam os dias em que somos, cada um e deixamos de ser nós.
Vês o Sol que anuncia a sua chegada no alto de cada alvorada?
Ouves o mar que canta a morte anunciada na volta de cada onda?
Olho o jardim e sei-te saíndo, de malas feitas e vontade de silêncio. fugindo dos dias, cansados, extenuados. Lá fora o dourado da tarde pinta a vida que vive no jardim. Cá dentro um crescente vazio afoga as palavras nascem em mim. Vês as estrelas, altas que te dizem a morada das histórias em que estou? Ouves os aviões, rasteiros que abafam a vida que não há quando estamos sós?
Chegam os dias em que somos, cada um e deixamos de ser nós.
Solto o meu canto acordado por ti Canto este sonho tão vivo em mim Vives na minha voz Banho-me neste rio que canto contigo Abraço este canto que fala de nós Danço este beijo que te chama comigo Solto o meu canto acordado por ti Canto este sonho tão vivo em mim Vives na minha voz Onde me abraço Onde te beijo Banha-te neste rio que cantas comigo Abraça este canto que fala de nós Dança este beijo que me chama contigo Soltas o teu canto acordado por mim Cantas este sonho que vive por si Vives na minha voz Onde te canto Onde te solto Liliana Lima