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quinta-feira, agosto 30, 2018

REdoMA

Estou presa numa redoma que tinge o mundo dum tom esverdeado 
Estou dentro duma casa que se vira do avesso como uma onda que embate no paredão e muda os sentidos e me deixa em contra mão
Sinto uma força de ciclone que me arranca de onde estou e me abandona num mundo sem coração com um colete apertado de lata e um monte de palha no avental
Estou presa numa órbita muito para além da Lua, que me aproxima ou afasta duma terra onde não encontro lugar
Baloiço na corda que me devia equilibrar, mas que não pára e nunca me deixa levantar
Vou de barco sem mastro nem velas nem estrelas para me guiar, vou apesar do medo de nunca saber se, algum dia vou chegar
Tenho a chuva toda da Terra agarrada aos olhos que, cansados, me pedem para simplesmente a soltar
Construí um muro feito de legos para me proteger do sismo que sinto cá dentro e que, só pode vir de fora, seja do ontem ou do agora
Decidi que não posso pedir desculpa a cada hora por actos ou omissões que me vejo fazer como uma marioneta nas mãos de um qualquer alguém 
Estou presa numa redoma que, com a água da chuva, tinge o mundo dum tom esverdeado 
Vivo numa casa ao contrário que me enjoa e desalinha
Aperto com força, tanta força, este tornado que vive em mim e que acredito capaz de destruir até a muralha mais longa
Vejo a Lua numa dança elíptica e com ela aprendo a nascer e a morrer em volta da mesma terra
Não me ponho em pé com medo dos solavancos com que a vida me embala
Navego pelos oceanos num barco de papel feito das muitas linhas que escrevo e acabo por riscar
Construo castelos de areia, mil e uma vezes levados pelo mar
E peço desculpa por tudo o que digo mesmo depois de avisar que o guião que se me cola à pele, poderia magoar
Estou presa numa redoma
Estrou presa dentro de mim

Liliana Lima


domingo, agosto 12, 2018

sabias MEU amor?

Hoje não há luar,
sabias meu amor?
E nas noites de Lua Nova, tu sabes,
tudo me parece mais estranho e assustador
todo o mundo parece girar em meu redor
e dos fantasmas que tão bem conheces.
Consegues alcançar o fumo que assalta o meu olhar?
Estás aí sequer? 
Ou já dormes enrolado nas velas dos teus moinhos vento?

Hoje não há luar,
sabias meu amor?
O mar, desapareceu num horizonte profundo 
e eu, (só tu sabes) que não gosto do escuro,
procurei na forma certa das estrelas o caminho
para me encontrar.
Dás-me a mão para me acalmar?
Tens calma sequer?
Ou procuras também a tua noite iluminar?

Hoje não há luar,
sabias meu amor?
E as luzes das casas, dos barcos, das fábricas,
parecem fugir de mim apenas para me assustar
e tu sabes que sem ver a estrada me sinto afundar.
Chamas o meu nome, para te encontrar?
Falas comigo sequer?
Ou estás ocupado com os teus fantasmas a conversar?

Hoje não há luar,
sabias meu amor?
E eu, tu sabes, não consigo dormir. 
Gostava de estar ao lado e ver os teus olhos sorrir.

Liliana Lima 


quinta-feira, março 22, 2018

ó MAR SALgado

Diz ao mar que pare de balançar o barco
Pede às ondas que não me desequilibrem no caminho
Convence o vento a soprar de mansinho
Que a minha rota é marítima e é difícil dobrar, da boa esperança, o cabo

A maré que me ameaça não vem da lua nem do sol
vem com a força da inquietação que em mim se faz onda e rebentação
Ah! Soubera eu acalmar esta corrente e, juro, nadaria até à beira-mar
correria pela areia e brincaria nas pequenas ondas da maré vazia

Diz ao mar que me embale o meu canto
Pede às ondas que me afaguem o cabelo
Convence o vento a enrolar-me, dançando
Que nesta rota marítima é em ti que me encanto

Sopram, decididos, os medos do vento norte
Eu, parada, não grito ao mar... nunca lhe soube falar
E o barco agita-se, desce e sobe por entre vagas de amor e morte
enquanto canto à lua para que, em sonhos, me venhas salvar

Diz ao mar que acalme estes medos
Pede às ondas que não espalhem meus segredos
Convence o vento às minhas velas soprar
para esta rota marítima em teu porto atracar

Liliana
21-03-2016


sexta-feira, agosto 25, 2017

SEGUndos

Vejo
tudo centésimos de segundos antes de acontecer
E saio
de dentro de mim para me defender
Mas fico
imóvel, parada num tempo que não quero ver
Retiro
tudo de mim para fora da cena
E olho
para dentro dela, de fora, como num teatro de marionetas
Fecho
os sentimentos e as emoções no local mais escondido em mim, congelada na peça
E olho
para dentro dela, de fora, o mais friamente que consigo
Gravo
toda a acção de todos os actos que se seguirem
E revivo tudo
já de fora, segundos, minutos, semanas às vezes, depois da peça sair de cena

E sinto
todas as emoções numa espiral que mais ninguém vê
E demoro
muito tempo a encontrar a saída para dentro de mim
E desisto
de explicar esta complexa trama que bordo em torno de mim

Assusto-me
quando deixo escapar os milésimos de segundo de segurança
E não consigo sair
de mim, e deixar de sentir, e virar as costas, e defender-me a tempo
E então absorvo
todo o guião como barro girando que se vai moldando pelas mãos do artesão
E então salto
para outros filmes qual Alice caindo noutra dimensão
E então não controlo
a realidade que vivo, porque no palco um labirinto de espelhos faz-me perder de mim
E então assusto-me
com esta montagem desordenada que, tantas vezes, ultrapassa o que, na verdade, se passa nesses milésimos de segundo
Vivo
todas as cenas de uma só vez
Re.ajo
de acordo com o tamanho dos moinhos que rodam dentro de mim

E sinto
todas as emoções numa espiral que mais ninguém vê
E demoro
muito tempo a encontrar a saída para dentro de mim
E desisto
de explicar esta complexa trama que bordo em torno de mim


Liliana Lima


segunda-feira, setembro 05, 2016

MeRiDiAnO

Sem margem de erro, a minha rota leva-me sempre ao meridiano de mim mesma. Esta linha colorida que dança entre o cinza e o rosa que sou e me mergulha numa maré inconstante. A linha imaginária que liga a figura imaginada de mim e do seu contrário, que afinal também sou. 

Podia jurar que quando me lanço ao mar levo a bússola e a rota delineada nas cores mais claras de mim. E de repente uma derrapagem vinda do nada, ou do tudo que se escondia no fundo do mar... 

Podia jurar que ao sair levo os sapatinhos vermelhos bem aconchegados aos pés. Mas uns passos mais apressados e uma "pedra no meio do caminho", uns dias inesperada, outros dias tão previsível...

Podia jurar que sempre a vontade de me conter, de me calar, de me acalmar. Mas no lado de lá do espelho, eu, ou o contrário, a chorar, a gritar, a resmungar... 

Sem margem de erro a minha rota leva-me sempre ao meridiano de mim mesma. Semi-círculo que me circunda nestes dois tons com que me pinto, rosa e cinza. Fé e medo. Paixão e frieza. Linha nascida numa corrente inquieta, que nasce e desagua dentro do meu peito, e me percorre o corpo, alterando-me a corrente sanguínea à força das vontades duma força que desconheço. 

Liliana 


domingo, abril 17, 2016

paLAVRAS

Dói-me o que trago para te dizer
aperta-se-me a garganta enquanto te canto a canção que embrulhei para te aninhar

Dói-me o que trago para te dar 
queima-me este embrulho que abro minuto - a - minuto para ti

Dói-me o que trago para te entregar 
foge-me este balão que solto no ar para que voes sem mim

Dói-me esta certeza que trago para partilhar 
este saber que recuso mas que se me cola à pele num vestido que, afinal, não é meu

Dói-me! 
Ah! Dói-me esta palavra que tenho de soletrar para que possas voar

Dói-me! 
Ah! Doem-me estas asas
que guardo num frasco de vidro e me gritam para ir, ir ter contigo 

Dói-me! 

Dói-me saber-te quase tão bem como a mim 
e sentir que te doem as palavras que trazes sem me dizer

Liliana 


quinta-feira, março 31, 2016

FanTasMas

Olho em volta, o espaço aberto parece encolher a cada suspiro meu. 

Não estou aqui e não me encontro na outra margem. 
As palavras ecoam no barulho dos carros que param nos sinais, tropeçam nas vozes que falam em segundo plano, escondem-se nas nuvens que brincam no céu azul e mergulham no ondular das águas que se espreguiçam no Tejo.

Estás ao meu lado, deveras. 
Sinto-o quando me tocas as mãos ao de leve para reforçares o que me dizes. Sei-o porque os meus olhos se encontram nos teus e se reveêm no teu carinho. Percebo-o mesmo quando não te mostro o mar que guardo dentro do peito.

Procuro uma ponte para fora de mim, mas a miragem desvanece-se com o vento.
Quanto mais me tento despir das sombras que arrasto, mais me fecho nesta concha que nunca me abandona.

Entro no jardim fechado na e da cidade. 
Aqui sou múltipla, nunca estou só e nem me é permitido sonhá-lo. Procuro-me em cada silhueta, mas perco-me em todas as faces.

Regresso a ti e, em surdina, pergunto por mim.
As palavras esfumam-se por entre os meus medos e espalham-se pelos fantasmas que acordo.

Olho em volta, o espaço aberto em roda de nós parece encolher a cada suspiro meu.

Liliana





"às vezes é no meio de tanta gente, que descubro afinal aquili que sou"
Maria Guinot

sábado, novembro 14, 2015

uToPiAs (paris)

Deito a cabeça na almofada vestida de branco. Lá fora o mundo grita e sangra as lágrimas que não pensávamos que pudessem chover. 
A inquietação espreita à porta do quarto, transfigurando as sombras que se erguem em mim. 

Procuro a tua mão, para me acalmar, sabendo tão bem que aqui não está. 
O silêncio das mortes, que sei, acabaram de nascer, ecoa nas minhas ilusões. 

Procuro o teu corpo, para me proteger, ainda que saiba que não o vou encontrar. 
A solidão das ruas arrefece o meu coração e esta cama vestida de branco onde, sozinha, me deito. 

Procuro as tuas palavras para me aninhar, mas não chegam com o luar que me olha pela janela.

Deito a cabeça na almofada vestida de branco. 
Lá fora a morte cobre a lua e, como num nevoeiro cerrado, deixo de ver o lado de lá da ponte. 

Dou-me a mão enquanto me deito abraçando as pernas dobradas junto ao peito. 

Fecho os olhos e digo baixinho, quase em surdina, "dorme bem"... 



Liliana




sexta-feira, dezembro 05, 2014

AlarmE

- Estás aqui? Porque vieste?
- Porque te ouvi, à minha espera...
- Sim, e estava, ou estou. Mas não aqui.
- Foi esta a morada que me deste.
  ...
  Preferes que vá?
- Não, fica. Mas antes deixa que te mostre as paredes e te explique as rachas e manchas que vês.
- Humidade? Sismos?... Vais pintar?
- Não! Fazem parte da casa e não as quero disfarçar. Mas quero dizer-te que a porta fica sempre aberta, se soar o alarme, sairei e pouco mais terei tempo para te dizer do que adeus.
- Mas chamaste-me? Ou vim, pelo caminho iluminado pelo luar, à tua procura?
- Acho que é mais ou menos a mesma coisa...
- A porta também está aberta para mim? Ou só se abre por dentro?
- Tens a chave da porta por onde entraste.



- Não estás cá... Esqueceste-te que vinha?
- Estou! Mas não aí. Anda cá.
- Para esse lado? Mas não sou daí. 
- Claro que és! Não foi aqui que nos conhecemos?!
  Vá, anda lá.
- Não... (Deste-me a chave desta porta... Porque me chamas para aí?)
  Vou-me embora, desse lado já não sou e aqui estou a mais.
  Desculpa, não ouvi o alarme.
- Que alarme, que porta, que chave?!
  Está tudo na mesma, estás a ver mal as imagens no espelho. Anda.
   ...
  Pronto, eu vou ter contigo.
  Desculpa não estar cá sempre que chegas...
  Melhor?!
- Sim.



- Ouvi-te á minha espera, verdade?
- Sim, esperando...
- Não vim mais cedo, porque não sabia se era para vir, se cá estavas...
- Estou sempre, vou estar sempre. Posso é estar mais longe, mas estou.
- Sim?! E o alarme e as rachas e as manchas e a porta?.... 
  Pois...
- Mas estou....
  Mas posso ter de sair, já sabes...
  ...
  Enquanto vieres, estou à tua espera.
- Nem sim nem não, antes pelo contrário...
  Tenho a chave da porta por onde entrei. Fico aqui muito quieta a olhar-te pelo "canto do olho". Enquanto te ouvir à minha espera, abro a porta e entro!


Liliana



sexta-feira, março 02, 2012

Dentro da concha...

Estou dentro da concha. Enrolada, encolhida neste espiral côncavo salgado dos meus olhos.

Escondo-me do mundo para fintar a realidade, brinco ao faz-de-conta com os medos e fujo dos fantasmas. Aqui, dentro do búzio onde me deito, o mar está sempre calmo e as ondas não inundam o chão.

Não me perguntes quando entrei, não me questiones porque aqui estou. Dá-me apenas a tua mão. O teu ombro. E diz-me baixinho que tudo vai correr bem.

Estou dentro da concha. Fechada. Fora do mundo. Fora dos dias e das horas que correm em busca dos ponteiros. Escondida. Enfrentando o vazio com um grito mudo.

As palavras não dizem o seu significado e eu falo numa língua estranha que me empurra para fora das conversas. Encosto-me nas curvas do chão e embalo-me com os joelhos encostados ao peito, estou cansada... de tudo até de mim.

Estou dentro da concha e brinco com as horas que passam devagar sem olhar para mim. Peço licença para fechar os olhos (é tão mais fácil ver o mundo assim!) e deixo-me levar pelo barulho do vento que sopra de mansinho e ecoa nas espirais.

A maré balança numa canção de embalar tranquila, mas falsa, que dura apenas até ao nascer do Sol. A luz acorda-me e mostra-me a rua pelas rachas laterais. Volto a ouvir os ponteiros e os carros e as crianças que gritam. Encolho-me o mais que posso e tapo os ouvidos com força.

Estou dentro da concha...




Liliana