sábado, março 19, 2011

Fala-me do teu pai, Franz...


Posso sempre dizer que foi bom ter-te.

Sim, apesar dos pesares, posso dizer que me deste o amor pelos livros, a paixão pelo cinema e o desejo infindável pela música.

Posso dizer-me que foi contigo que conheci os "Cinco" que me maravilhei com o "Dune" ou que descobri o António Pinho Vargas... não estarei a mentir-me nem a colorir a história.

Aliás, posso dizer-me que foi contigo que aprendi o que são histórias, lidas vistas ou ouvidas (só muito mais tarde percebi que podiam ser contadas).

É também verdade que foi contigo que conheci pesadelos que inundam o quarto enquanto dormes, com tal força que não dão tempo para nadar e sair pela janela, afogando-te no sonho e levando-te para outro hemisfério tão absurdo como longínquo.

Mas posso dizer-me que foste tu que me ensinaste a escrever com os textos que publicavas no jornal e em relação aos quais fazias questão que eu lesse e, claro, opinasse.

Posso mesmo dizer-me que foste tu quem me ensinou que as opiniões podem ser diversas e que discuti-las pode ser um processo de aprendizagem para todos (embora sempre desconfiasse que pouco aprendias nessas tertúlias).

Foi contigo, posso dizê-lo igualmente, que me habituei a reparar nas incoerências das histórias, nas falhas das gravações, nos defeitos das projecções, no desequilíbrio sonoro dos equalizadores e colunas... foi contigo, portanto, que me descobri ser exigente com o que leio, oiço e vejo.

É também verdade, que foi contigo que aprendi uma certa forma de abandono pelo silêncio pela despreocupação pelo afastamento pela desatenção, no fundo, pelo absurdo.

Mas, há sempre um arco-íris que brilha algures no mundo. E, posso dizer, foi contigo que vi as várias versões de uma das histórias que mais me marcou e me acompanha desde sempre...
Soubera eu onde estão os sapatinhos vermelhos e, quem sabe num dia de pesadelos, entrava no teu quarto, batia os calcanhares e trazia-te de volta a casa. Até porque, como reza a história: "there's no place like home" (seja isso o que for...).
Liliana

"Claro que não quero dizer que aquilo que sou se deve apenas à tua influência. Seria um grande exagero (e eu até tenho tendência para estes exageros) (...)se tivesse crescido completamente fora da tua influência (...)ter-me-ia tornado um ser completamente diferente daquilo que sou(...)"

"Carta ao pai" de Franz Kafka

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