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sábado, fevereiro 23, 2019

(des)CONSTRUÇÃO

Do tanto que fomos e construímos
Levo os vestidos, dos dias claros junto ao Tejo
Levo os sonhos, três vezes saídos de mim e embalados a dois
Levo os sapatos, os vermelhos com que bati os calcanhares
E deixo as lágrimas, deixo os pilares que mantêm a casa, que construímos

Do tanto que fomos e construímos
Levo os casacos, de Inverno que lá fora está frio
Levo todos e cada sorriso que partilhámos, à mesa da cozinha
Levo os livros, partes de mim de que não consigo separar-me
E deixo as angústias, deixo arrumada a casa, que construímos

Do tanto que fomos e construímos
Levo o blush, o baton e o rímel preto
Levo a cumplicidade, partilhada numa troca de olhares 
Levo os CD's, da música que se canta dentro e fora de mim
E deixo o silêncio, deixo o desencanto intruso nesta casa, que construímos

Do tanto que fomos e construímos
Levo as plantas que aprendi a cuidar
Levo o carinho servido num tabuleiro, numa manhã de domingo
Levo as malas, umas dentro das outras, as grande e as pequenas
E deixo as discussões, deixo as palavras amargas que ecoam na casa, que construímos

E deixo os quadros e as panelas 
Deixo os sofás e os candeeiros 
Deixo as televisões e os pratos
Deixo as estantes e as fotos nas paredes

Agora que abro a porta para sair
Guardo as noites e os beijos
Guardo os jantares e almoços a dois
Guardo os cheiros e os sabores 
Guardo os recortes e as memórias
Dum amor que nasceu, cresceu e deu frutos 
E, gradual e compassadamente, saiu pelas janelas e desaguou no Tejo 
Que o levou nas suas águas e, tenho a certeza que agora
Agora que abro a porta para saír
"o mar / tem mais peixinhos a nadar"

Liliana Lima



segunda-feira, fevereiro 04, 2019

TEjo

Quantos pôres-do-Sol te vi beijar 
Quantos fins-de-tarde passeei ao teu lado 

Hoje não acordo contigo
Como muitos anos, há muitos anos

Hoje vejo-te o nascer do Sol pintar as águas
E com ele aprendo a reconstruir os abraços 
Semi-cerro os olhos e revejo a esperança 
Sorrio-te e renovo as palavras
Doces


Liliana Lima 



sábado, junho 30, 2018

hoRas

Nem todos os dias a maré sobe e me beija os pés
Nem todas as noites a lua brilha no leito do rio

Há horas que se demoram
No sabor acre da tua ausência
No tocar áspero do teu silêncio
Na impensável ideia da tua indiferença

Nem todos os dias o meu rumo me leva ao Tejo
Nem todas as noites me descalço e entro no seu leito

Há horas que se demoram nos caminhos das marés


Liliana Lima


sábado, junho 16, 2018

c.ASA

A casa da minha avó tem uma arca de Noé, recheada com animais de cristal  (daquele que se parte se, nos dias maus, nos apertar o coração).

A casa da minha avó tem a cama para onde eu trepava enquanto repetia, inconsequentemente, a melodia repetitiva da tabuada (sempre seguida do ralhete por a letra não rimar com a conta).

A casa da minha avó tem os dias bons, com os pratos da sala devidamente espalhados na mesa de jantar, desta vez para almoçar.

A casa da minha avó tem as memórias trazidas da frente do Tejo directamente para as molduras espalhadas um pouco por todo o lado.

A casa da minha avó tem uma menina cheia de sonhos, que escrevia com muitos erros e fazia os acentos ao contrário (devidamente vestidos de flores coloridas), para desespero da professora que, sempre zangada, ia tentando desencorajar a escrita, as flores, as cores.... 
Mas nada disso importava , porque logo a seguir às aulas a menina voltava... para casa da minha avó!

Liliana Lima


sábado, junho 02, 2018

SuSpiro

No silêncio das palavras

Abraço
Vontade
Beijo
Tejo

Abraço
Querer
Tejo
Beijo

Abraço
Arrepio
Calor
Tejo
Abraço

Me perco e nos encontro

Seda
Suspiro
Humidade
Beijo
Tejo

Lua
Vontade
Lábios
Mãos
Abraço

Me sinto e nos uno

No silêncio das palavras


Liliana Lima


sábado, outubro 14, 2017

COR.tina

Abri a janela em vez da porta, na esperança de controlar a entrada das águas do rio que se adivinham. A medo, puxei a cortina meia desfeita, feita em farrapos, e tentei desviar o tanto tempo que passou para te ver chegar.

O rio galgou as ruas e calçadas e entrou de rompante por mim dentro. Acalmei a respiração, para não me afogar e impedir outras dores de me cegar. 

Avisaste que vinhas e anunciaste o teu chegar. Pediste que te sentisse e, "como sempre, como antes" não te soube negar. 

Chamaste-nos futuro e eu dei-te o presente. 

Abro a janela em vez da porta para não deixar sair a água enquanto, devagar, vou até ti. O rio corre no leito onde o amor se faz. Acalmo a respiração para não o gritar, mas sussurro que estou a chegar.

A medo, fecho a cortina meia desfeita, feita em farapos pelo tempo que passou, para marcar o tempo que ainda agora começou.

Liliana

   

terça-feira, outubro 25, 2016

neVOEIro

Em dias de nevoeiro, a outra margem do rio é apenas como a desenho
Pinto as casas de branco, as estradas de amarelo e recorto um arco no céu 

Em dias de nevoeiro, a distância é apenas a que eu imagino 
Reduzo a escala, diminuo o leito e zarpo num barco à vela 

Em dias de nevoeiro, a ponte desagua na tua janela
Sigo o voo duma gaivota, entrego-lhe um beijo e peço-lhe que to leve

Em dias de nevoeiro imagino tudo o que não vejo, sinto tudo o que me apetece, acredito em tudo o que sinto 

Liliana 



quarta-feira, maio 25, 2016

Sil ênc io

Nunca soube ouvir no silêncio,
arranha-se-me o corpo à ausência de sinais
legíveis nos simbolos mudos
desenhados pelos ponteiros do relógio.

Fico muito quieta à espera de ver
aparecer o som que me dirá tudo
o que o silêncio, teimosamente,
esconde dos meus olhos cansados.

Saberá ele o quanto vasculho e procuro,
nas gavetas da secretária,
nas prateleiras do escritório,
até mesmo nos armários da cozinha,
pelo manual que me permitirá
aprender os segredos
da comunicação
na total
ausência
de fonemas?

Nunca soube entender o silêncio,
marca-me a pele esta espera,
por uma palavra não
dita,
por uma resposta não
dada,
por uma explicação não
partilhada.

Desco pela cidade,
sento-me à beira-rio
e desenho letras na água
com os pés descalços.

Olho o silêncio, na outra margem,
que se estende
pelo Tejo
e abraça
Lisboa
num beijo sem som.

Pergunto-lhe se me pode ajudar
e ele
em silêncio
responde
com frases que
não
consigo ouvir,
nem
entender.

Nunca soube ouvir o silêncio.


Liliana


segunda-feira, maio 09, 2016

Aí/qui

Agora que me deito sobre as mágoas e me tapo com as inquietações
Agora que a noite ilumina os medos que apenas mostro ao luar
Agora que deixo de lutar contra as lágrimas que, todo o dia, prendi
Agora que procuro a calma que me falha, num frasco de berlindes arredondados
Agora que me viro de lado e tento pensar apenas em não pensar
Agora que fecho os olhos o oiço dentro de mim todos os sons que pintaram o dia
Agora que me permito zangar e resmungar e até praguejar
Agora que a lua me sussurra que as horas avançam e me pede para a embalar
Agora que não sei como começar o amanhã
Agora que sinto, tanto, tudo o há para sentir
Agora que não vejo como sair daqui
Agora que toda a cidade dorme embalada pela dança do Tejo
Agora que não sei de ti
Agora que me perco em mim
Agora que procuro por nós

Agora

Deitada no Tejo e embalada pelos medos
Pergunto à Lua se sabe de ti
Confesso à cidade que preciso de nós
E penso em voz alta porque estou aqui

Agora

Diz-me a noite que estás aí/qui
Asseguram-me os berlindes que me esperas aí/qui
Prometem-me as mágoas que me queres aí/qui


Liliana Lima


terça-feira, abril 12, 2016

caMinHo

Chega-te a mim e olha o rio comigo. Vês-nos ali, reflectidos nos espelhos reluzentes que o Sol ilumina? O que nós andámos para aqui chegar!
Ainda ontem um sorriso tímido, atrevido, uma palavra mais ousada entre outras tantas tão contidas, cuidadosas. 
Deste conta que aqui chegámos?

Chega-te a mim e dá-me mão, essa mão onde já cabe, perfeito, o meu coração. Espreita comigo pelo buraco da fechadura dos medos. Vês como fomos, um a um, embrulhando os meus na certeza de que o Sol sempre nasce, mesmo depois da mais escura noite de Lua nova? Como vamos desmontando os teus, sempre calados, velados ou disfarçados de falsas certezas?
Ainda ontem um quarto escuro onde as sombras, soltas de cada menino, saltavam à corda com as inseguranças de cada manhã. 
Percebeste que já aqui estamos?

Chega-te a mim e embrulha-me num abraço, daqueles onde me consigo enroscar longe de tudo e de todos menos de nós. Sentes como nos aproximámos muito para lá dos corpos que sempre se souberam um do outro? Como nos apendemos a ler e a reconhecer um no outro sem pudor de nos despirmos depois dos corpos nús, húmidos e amachucados?
Conheces o mapa que nos trouxe até aqui?

Chega-te a mim e olha o meu  rio, ouve a minha cidade e lê a minha Lua.
Sabes de onde viémos e onde estamos?
(não te preocupes com para onde vamos, isso só saberemos depois de aqui vivermos)

Liliana


quinta-feira, março 31, 2016

FanTasMas

Olho em volta, o espaço aberto parece encolher a cada suspiro meu. 

Não estou aqui e não me encontro na outra margem. 
As palavras ecoam no barulho dos carros que param nos sinais, tropeçam nas vozes que falam em segundo plano, escondem-se nas nuvens que brincam no céu azul e mergulham no ondular das águas que se espreguiçam no Tejo.

Estás ao meu lado, deveras. 
Sinto-o quando me tocas as mãos ao de leve para reforçares o que me dizes. Sei-o porque os meus olhos se encontram nos teus e se reveêm no teu carinho. Percebo-o mesmo quando não te mostro o mar que guardo dentro do peito.

Procuro uma ponte para fora de mim, mas a miragem desvanece-se com o vento.
Quanto mais me tento despir das sombras que arrasto, mais me fecho nesta concha que nunca me abandona.

Entro no jardim fechado na e da cidade. 
Aqui sou múltipla, nunca estou só e nem me é permitido sonhá-lo. Procuro-me em cada silhueta, mas perco-me em todas as faces.

Regresso a ti e, em surdina, pergunto por mim.
As palavras esfumam-se por entre os meus medos e espalham-se pelos fantasmas que acordo.

Olho em volta, o espaço aberto em roda de nós parece encolher a cada suspiro meu.

Liliana





"às vezes é no meio de tanta gente, que descubro afinal aquili que sou"
Maria Guinot

domingo, março 06, 2016

tornEIRA

Não abras a torneira que estou a suster a água dentro do peito. 
Não acendas a luz que o espelho olha fixamente para os olhos que não mostro a ninguém para esquecer que os tenho.
Não respondas que falo somente para me ouvir, pintando a verdade de aguarelas que escorrem pelo ralo e não tarda se juntam ao rio.
Não me dês a mão que ela só sabe amparar, e nunca foi amparada.

Que sabor amargo é este que se me cola à garganta e se recusa a ser diluído, pelos mil argumentos, que junto no guarda-joias para os dias de tempestade?

Que tremor é este que me impede até de falar, me embarga a voz e me aperta o peito?

Que tontura dança em mim, rodopiando os meus pensamentos, em volta da sala, do quarto, até mesmo da cama?

Que mágoa é esta que abre rachas mais antigas que o nascer dos tempos, e se confunde com as dores de ontem e multiplica as de hoje?

Que solidão é esta que se senta ao meu lado, por muito que me confortem em abraços ocos do calor de quem sabe ler as entrelinhas?

Que vazio é este que me consome, e devora cada nova alvorada?

Abre a torneira que me afogo na água que trago no peito...
Acende a luz que preciso encontrar no espelho os olhos que a ninguém mostro...
Responde-me que preciso ouvir a verdade para além da que pinto com aguarelas no rio...
Dá-me a mão, devagar, como quem é amparado, para que não perceba que é a tua que me ampara...

Liliana


segunda-feira, janeiro 18, 2016

cAOs

Sento-me no chão da cozinha com a água para a massa a ferver em cacho e a frigideira com o azeite quente à espera da carne. Cá fora nem uma onda a mais no Tejo, nenhum carro a derrapar junto à passadeira, nem uma só criança a chorar pela mãe. Lá dentro um furacão capaz de arasar a cidade e engolir o rio dum só trago.

Sentada no chão da cozinha, com o jantar a chamar por mim, sinto-me perdida entre o que sinto e o que acho que devo sentir. Levanto-me e jogo à apanhada com tudo o que sei que não devia fazer, com todas as palavras que, acho, não devia dizer. Um passo para a frente, um salto para trás e o mundo ao contrário numa sucessão de sentimentos que não consigo controlar e que se espalham à minha volta, na água que ferve e na frigideira quente.

Levanto-me guardando a tempestade num aperto de coração, o mundo cá fora não vê o caos lá dentro. Hesito entre apagar o lume e pôr a massa a cozer, mas o espectáculo não pode parar e os ventos são contidos num novo aperto. Uma leve tontura lembra-me tudo em que, agora, não posso pensar e solta o bater do coração que segue o ritmo frenético interior.

O jantar está pronto e o ritual é cumprido como se um bailado, onde os receios e as inquietações e a dúvida dançam comigo à volta da mesa onde não consigo jantar. Sinto-me perdida entre o ritmo acelerado do coração e a calma aparente com que arrumo a loiça. 

Sento-me no chão da cozinha com os talheres na mão e os pratos arrumados. Cá fora a noite avança tranquilamente com os pijamas e os sacos de água quente e as escovas de dentes. Lá dentro um rufar de tambores descompassados .

O tempo segue o seu rumo, indiferente às minhas dúvidas, e de novo uma tontura que me pede para soltar as emoções que não sei dizer. Procuro as palavras para descrever o que sinto sem espelhar os destroços do marmorto. Não sei o que fazer, mas sei que não posso soltar os ventos que aperto lá dentro, sob pena de deitar por terra as construções que erguemos cá fora.

Sentada no chão da cozinha, com o silêncio do luar que entra pela janela, meço os adjectivos e conto os verbos. Sinto-me perdida entre o que sou lá dentro e o que acho que devo ser cá fora. Digo-me com muito cuidado e espero que me acolhas com todo o carinho.


Liliana


sábado, janeiro 16, 2016

aVÔ

Não sei onde estás. 
Pergunto-me todas as semanas, onde será que descansas? 

Questiono-me vezes sem fim... 

Será que olhas por mim nas noites brancas que partilho com os meus fantasmas? 
Conhecer-me-ás os passos nesta cidade que me acolhe e me oprime numa história de amor à beira-rio, vivida de costas para Lisboa? 
Saberás dos meus medos ao apagar a luz do corredor que acaba no meu quarto? 
Ouvir-me-ás cantar, ainda e sempre a cantar, as tardes de domingo passadas na cozinha no meio de tantas receitas que não poderias comer, mesmo se ao meu lado? 
Reconhecer-me-ás nas palavras que escrevo, nesta história que embalo, conto e reconto em mil e uma formas que vou baptizando com mil e um nomes?
Encontrar-me-ás neste caminho tão comprido, nesta viagem tão longa e, decerto, tão distante do que sonhaste, um dia, para mim?

Rever-te-ás nos pequenos nadas, tudos enfim, em que no dia-a-dia te trago comigo?
Nos tamanhos das minhas saias, nunca muito acima do joelho...
No arroz, quase sempre presente na mesa de jantar...
No sorriso espontâneo ao ouvir, por exemplo, o Variações...
Na vontade de paz a acompanhar o almoço....
Nas torradas partilhadas com os meus (será que me reconheces neles?) a fazer lembrar os nossos lanches....
Nos dedos, livres há tantos anos, que eternamente procuram o cigarro...
No gozo de estar com outros, comer com muitos, em casa de preferência....
No fado, o de Coimbra, trauteado com saudades de ti....

Não sei onde estás. 
Pergunto-me todas as semanas, onde será que descansas?

Será que sabes que escrevo, tantas vezes de ti e para ti?
Será que viste que tive filhos, homens que tanto querias?
Será que leste o livro que escrevi?
Será que me viste plantar um pinheiro para ti?
Será que já me cumpri?
Será que um dia me deixas ir até ti?

Não sei onde estás.
Sei que ficaste sempre comigo, aqui.


Liliana


quinta-feira, dezembro 10, 2015

pRoMeSsA

Abro a janela, alta, sob o céu baço de Lisboa. Ao fundo uma promessa de Tejo fala-me de ti. Há dias em que o longe que estamos se torna tão mais longínquo do que a distância que nos divide.

Há uma gaivota pousada em cima da chaminé do telhado em frente. Há uma mágoa que se estende por cima da ponte e apaga o rio. E há um choro, ou um canto, de mar fora do mar. E há uma gaivota que canta o meu inquieto olhar.

Abro a janela, alta, e atiro ao vento as palavras que não quero ouvir. Procuro as marcas dos dias claros e pinto o mapa das nossas Primaveras. É sempre mais difícil encontrar o teu norte quando o céu se veste de cinza.

Há uma chaminé e muitos telhados à minha frente. Há ruas e pessoas e carros, que passam, alheios a mim. E há uma promessa dum Tejo, ao fundo, que se esconde de mim.

E há uma gaivota que canta o meu inquieto olhar.


Liliana


terça-feira, novembro 10, 2015

L. U. A.

Sorrio com a luz parda do fim-do-dia e pinto a minha história com uma aguarela encantada. Olho a cidade beijada pelo Tejo e peço-lhe emprestados os acobreados que a abraçam. 

É tão bonita a vida vista do alto do meu sorriso! 

Procuro o espelho em forma de coração que guardo na mala, e penteio o teu carinho com as mãos. Todos os teus gestos ganham um brilho novo quando olhados com um sorriso. Escolho as palavras em que te quero ouvir e mergulho tudo o resto no rio. 

É tão macio o tempo que passa sorrindo! 

Dispo-me muito devagar, ao ritmo do cair do Sol, e procuro o calor do teu abraço. Lisboa espera, ansiosa, que a Lua se levante e a cubra com o seu olhar velado com que sorri para mim. 

É tão sensual o respirar da cidade nas noites em que sorrimos! 

Fecho a janela do quarto e deixo-me embalar no teu sorriso quente. O teu corpo envolve o meu no ondular prateado do Tejo e a cidade afasta-se para não nos incomodar. 

É tão real o amor que fazemos quando a Lua sorri! 


Liliana 






quarta-feira, agosto 12, 2015

Dos dias sem pôr-do-Sol

Como dizer dos dias claros que nascem na janela do quarto que dá para rua, por entre os carros e as pessoas e as crianças que passam e ecoam em sons que reflectem no tecto, enquanto, tranquila, me deixo acordar?

Como dizer dessas manhãs tranquilas, esperançosas até, que em tardes de Sol se transformam num 'tu cá, tu lá' com o Tejo como pano de fundo e os veleiros como pontos cardeais?

Como dizer das tardes doces em húmidos lábios abertos que se juntam, dedos singelos que percorrem os rios da vontade e levam os corpos até ao cume do desejo, que se esgota e se conjuga num singular a dois?

Como dizer do sorriso, ligeiramente encoberto, agora que olhamos para trás, que se enrosca na cumplicidade das horas que, afinal já são demais?

Como dizer do não dito mas tão bem entendido, tão visível e, no entanto, encoberto por um Sol que teima apagar-se antes do tempo para não iluminar o que, calado, grita em todas as ruas da cidade, rebolando até ao Tejo onde se repete em remoinhos circulares que se estendem até à outra margem? 

Como dizer da surpresa, que o é, não por inesperada, mas por esperançosamente adiada, do absoluto silêncio duma casa virada do avesso, onde todos comem à mesa no tecto sem que se assuma a intensa dor de cabeça associada ao absurdo aceite?

Como dizer da mágoa que magoa lá no fundo do corredor, à porta do quarto onde a janela virada para a rua, espera um pôr-do-Sol que não chega apesar do avançado da hora?

E o grito do silêncio
E o absurdo avesso
E a surpresa da aceitação
E o pôr-do-Sol da mágoa

Como dizer dos dias em que, podíamos jurar, vemos o Sol nascer "como sempre, como antes" e, com o correr dos ponteiros, o vemos girar em torno da realidade até que esta, de pernas para o ar, cai desastrosa e estrondosamente sobre nós, acordando a mágoa do absurdo que, afinal, esperávamos não mais encontrar?

Como?

Liliana
 
 
 


 

Moro numa casa inacabada
Feita de terra molhada
Com o céu às cavalitas
Entra, mas desculpa a confusão;
Anda tudo pelo chão,
Não contava com visitas

Comigo mora gente tão diferente
Que às vezes, pontualmente,
Só falamos por sinais;
Cada um tem na sua bagagem
Um bilhete de passagem
Pelos pontos cardeais

Na sala, uma velha cartomante
Lê ao cavaleiro errante
Um destino vencedor;
As cartas falam de perdas e danos
Para, no correr dos panos,
Encontrar o seu amor

Ao fundo, dorme um soldado sisudo
Com umas botas de faz-tudo
E uma paixão de aluguer;
O bêbado que está no quarto ao lado
Chora sempre em tom de fado
O amor de uma mulher

Aquela que tem o corpo na esquina
Diz que também foi menina
Há-de um dia ser feliz
O homem que a usou pelos quintais,
Como é norma entre iguais,
Compreende o que ela diz

Em cima fica o quarto dos amantes,
Dos poetas, viajantes
E dos loucos sem lugar;
Pintaram um baloiço na janela
Com a luz de uma aguarela
Para a lua baloiçar

Assim somos vizinhos de outras crenças,
De outros livros e sentenças
Outras formas de oração;
Mas quando a noite traz os seus momentos
Escapa destes aposentos
Um bater de coração

Revela-se a verdade nua e crua:
Chove mais do que na rua
Trago o fato ensopado
Aqui qualquer um é vagabundo,
Esta casa é todo o mundo
Falta só pôr o telhado

 "Casa inacabada"
Sérgio Godinho/Camané
Letra: João Monge
Música: Manuel Paulo
In: 'O Assobio da Cobra'

terça-feira, julho 21, 2015

Mornas

Nas noites mornas de Verão, o Sol dança com o horizonte numa tela de laranjas-rosadas, e a Lua acende os teus olhos.
Ainda que por breves momentos.
Iluminas com um só olhar o tanto que guardo no cesto das aguarelas por pintar.
O luar espreita timidamente pelo véu da noite recém-pintada e sorri para a mão que apertas em volta da minha, que se torna, de repente, o centro do meu centro nevrálgico.

O tempo, que agora dança com as estrelas, avança num ritmo mais lento que o ritmo certo e diz-me do teu tempo, que corre atrás das horas mas que, agora, páras só para mim.

O rio embala os sonhos que, nos teus lábios nos meus, se tornam súbita e urgentemente reais. O teu calor no calor morno da noite aquece as vontades que acordam desalinhadas com a corrente.

No teu corpo o meu corpo floresce. Aqui já não sei do cesto das aguarelas por pintar. Todas as formas são delicadamente desenhadas pelos dedos que num arrepio húmido forçam o respirar e soltam a energia embriagante apaga todas as sombras.

Nas noites mornas de Verão.
Os sonhos no meu centro nevrálgico.
Ainda que por breves momentos páras o teu tempo só para mim.
Com um só olhar, as formas delicadamente desenhadas. 
A tua mão no meu corpo que floresce. 
Os dedos num arrepio húmido que espreita timidamente pelo véu da noite...


Liliana

terça-feira, julho 07, 2015

pôr DO tempo

O dia seguinte (há sempre um dia seguinte) correu descompassado pelas horas que se atropelavam nos minutos que se atrasavam. 

O relógio onde a engrenagem rodava sem rodar e uma mão cheia de areia sem espaço para descansar, com um. A ampulheta que se virava sem nada correr e os ponteiros cansados de tanto esperar, com outro.

Combinaram encontrar-se junto ao Tejo, ao pôr do sol, com a cidade como moldura e um abraço como promessa.

À medida que sol se aproximou do rio, assim o relógio se inquietou com a impossibilidade de marcar a hora combinada. Com o céu a corar e o rio a brilhar, o tempo avançou sem forma da ampulheta o contar. Foram andando pelas estradas, percorrendo os caminhos, resolvendo os desafios que se colocavam entre eles e a hora a que cada um previa o pôr do sol. 

Sem ponteiros ou areia, avançar nas horas tornou-se numa navegação à vista, sem vela nem remos. Um correndo pelas docas e o outro sentado a meio da rosa dos ventos. 

Os minutos certos, aqueles certinhos em que lhes tinham prometido que o sol beijaria o Tejo, chegaram alternados a cada um. E o sol, esse, abrandou teimosamente, baralhando horários e convenções e previsões. Abraçando o Tejo esperou que a hora certa, a deles, se encontrasse na correria das horas marcadas. 

Acertaram os ponteiros e guardaram a areia, ao ritmo inquieto de quem não quer saber quanto demora o tempo, fora do tempo, de um abraço.

Liliana


domingo, setembro 07, 2014

Perto de ti

Estou aqui (ou deveria dizer aí?)
porque cada célula do meu corpo teu
me diz que este é o meu lugar
perto de ti, por pouco que tenhas para me dar

Estou ali (ou deveria dizer aqui?)
em busca da força para me sentir de cá
apesar da vontade de ser rio
e água límpida correndo para perto de ti

Estou aí, onde os dias são compridos
e cheios de agendas que não se amparam
e silêncios que rompem estradas feridos
por fantasmas e medos que não saram

Estou, perto de ti, na mão que estendes
quando o sol brilha no Tejo
e a ponte liga as nossas margens
numa cumplicidade difícil mas que entendes

Estou em mim, sabendo que não sou daí
consciente do dia em que "se descaia o meu pé de catraia
e óleo suja a beira mar"
mas é aqui, perto de ti, que quero estar

Liliana