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sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Não chores Cecília...

Não te magoes.
Não te envolvas.
Não chores!
Não sintas.
Não fales.
Não te mostres.
Não olhes.
Não chores!
Não oiças.
Não penses.
Não perguntes.
Não magoes.
Não desejes.
Não chores!
Não esperes.
Não ouses.
Não sonhes.
Não falhes.
Não faltes.
Não chores!
Não te apoies.
Não respondas.
Não decidas.
Não chores!
Não pares, avança...
Não chores!
Não te curves, corre...
Não chores!
Não te queixes, vai...
Não chores!
Não chores!
Não chores!


Liliana



"Minha primeira lágrima caiu dentro dos teus olhos.

Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caido."

Cecília Meireles (Elegia 1933-1937, 1)

in Antologia Poética

terça-feira, junho 23, 2009

Vamos sonhar à beira mar, Cecília?!


Alimento-me dos olhares alheios. Não de qualquer olhar, mas daqueles que me devolvem paz e alegria quando, com o meu olhar, se cruzam. É com essa paz e alegria que protejo os castelos de areia que construo à beira-mar. E de cada vez que os vejo cair à força das ondas, afasto-me um pouco, sento-me mais acima e recomeço uma nova construção.

Às vezes tenho o privilégio de estar rodeada de gente bonita, que se passeia sorrindo no mesmo cumprimento de onda que eu. Nessas alturas, a energia que recebo é tão positiva que os castelos ganham asas e, sem aviso prévio, vejo-os erguer-se no céu azul como balões que voam para longe, até passarem a linha do horizonte.

Às vezes o olhar é acompanhado de uma palavra. Então, vejo nascer no meio do castelo, verdadeiros moinhos de vento, contra os quais o mar nada pode. Por entre algas e conchas partidas, as suas rodas giram com o vento e espalham no ar um sem número de cores saltitantes, que brincam nas ondas até formarem um arco sobre as águas.

Alimento-me dos olhares alheios, mas também dos sorrisos e das palavras que conseguem sobrepor-se ao barulho do mar e me sussurram ao ouvido velhas cantigas de embalar, como borboletas nas tardes de primavera ou pirilampos nas noites de verão.

Os castelos que derretem e se espalham no mar, não se perdem, são areias que viajam com a maré e que um dia, quando menos esperar, encontrarei na roda de num moinho de vento que, acima da rebentação, espalha palavras, sorrisos e olhares a quem lhe der a devida atenção.


Liliana Lima




"Pus o meu sonho num navio

e o navio em cima do mar;

— depois, abri o mar com as mãos,

para o meu sonho naufragar.


Minhas mãos ainda estão molhadas

do azul das ondas entreabertas,

e a cor que escorre dos meus dedos

colore as areias desertas.



O vento vem vindo de longe,

a noite se curva de frio;

debaixo da água vai morrendo

meu sonho, dentro de um navio..."


"Canção" de Cecília Meireles, in "Viagem"



sábado, dezembro 06, 2008

A janela de Cecília Meireles...




Houve um tempo em que a minha janela dava para o céu, era tão alta, tão alta que não tive tempo de crescer para nela me abeirar e descobrir o que escondia para além das nuvens de Inverno que me diziam de manhã "vamos chover", ou dos nevoeiros Outonais que a empalideciam como a um espelho de casa-de-banho depois de um duche que, ao invés de nos reflectir o corpo nu embirra num sombrio, cinzento e macilento esgar que nada transpõe, ou da luz clara, límpida e forte que me acordava nas manhãs de Verão.

Houve um tempo em que a minha janela se abria sobre uma floresta de prédios, telhados sem telhas bonitas como as que daqui avisto, apenas cinzentos, cobertos de antenas desarrumadas como se bailarinos de dança moderna, daquelas em que cada um se move devagarinho sincronizado com o seu par num palco que se assemelha a um arranjo de entulho, delicadamente embalado pela brisa marinha. Janelas e janelas sem fim, com roupa que parecia também cinzenta, poluída, numa monotonia quebrada aqui e ali por uma ou outra floreira que, timidamente tentava sobreviver no meio do betão.

Houve um tempo em que a minha janela dava para um mosaico de quintais, alguns bonitos e arranjados com flores, vasos, banquinhos e churrasqueira para os almoços de domingo, em que filhos e netos se iam multiplicando e enchendo todo o mosaico numa azáfama de sons, cheiros e cores. Outros carrancudos, moribundos e sem graça, como os seus donos, senhores de roupão cinzento e senhoras de avental branco imaculado que a eles se abeiravam apenas às segundas de manhã, para a limpeza semanal (longe da azáfama dos almoços de domingo).

Houve um tempo, ainda, em que a minha janela se abria em par para o Tejo e dele sugava a claridade e a vivacidade suficientes para dar cor aos muitos e muitos carros que dela contabilizava enquanto os via passar, num constante frenesim de carreirinho de formigas incansáveis e imparáveis na sua lufa-lufa diária.

Hoje, quando abro a janela, às vezes encontro o canto de um galo tropeçando na buzina de um carro mais apressado. Às vezes, no Verão, quase que me invadem os troncos cobertos de folhas que teimam em atravessar a rua e entrar janela dentro. Outras vezes, no Inverno, os mesmo troncos já despidos fitam-me como que num lamurio de frio, que o cacarejar de outra galinha se apressa a abafar...

LL 16-11-2005


segunda-feira, julho 31, 2006

A arte de ser feliz - Cecília Meireles


"Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.

Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Ás vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim. "

Cecília Meireles