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quarta-feira, novembro 28, 2012

Não tenhas medo, Manuel

Dou voltas sobre mim à procura de uma mão para agarrar antes de saltar, e por fim é também a minha que me toca de mansinho, 
calma estou aqui, maternal, 
está tudo bem, meiga, 
tu consegues. 
Aperto-a com força e fecho os olhos enquanto me aproximo da linha que divide o aqui do ali, o certo do desconhecido, o seguro do até agora ainda só sonhado e esbarro numa parede de medos e receios.

Eu, que acredito no arco-íris que me aponta a estrada e mostra a estrela e baloiça as árvores de onde crescem as palavras que voam ao vento e se espalham como sementes que acordam os sonhos que acendem, novamente o arco-íris... 
Eu, parada no medo e a parede a avançar... 
calma estou aqui, 
aperto ainda mais as mãos e fecho novamente os olhos à procura das cores...

Eu, que me sirvo da palavra sem correntes nem amarras, para com ela voar e num esgar de liberdade a multiplicar por mil olhares que valem muito mais que todas as imagens do mundo a rodar num ecran de pano branco... 
Eu, a esbarrar no medo e na parede... 
está tudo bem, 
uma tranquilidade que se impoem e as palavras a dançar à minha volta numa cantiga de roda...

Eu, que sinto as histórias vivas a sussurrar aos meus ouvidos, a pedirem para serem contadas na minha voz, vividas no meu corpo e acreditadas no mais íntimo de mim, obediente, deixando-as tomar o castelo e atacar os moinhos, ao mesmo tempo que as conto ao mundo ao abrigo das cumplicidades que nascem dos olhos e se espalham pelo ar... 
Eu, imobilizada com a ideia do vazio... 
tu consegues, 
uma certeza tímida que espreita por trás da chuva e lembra o sol de verão...

E eu, que sei que consigo, a duvidar, 
calma estou aqui, 
a hesitar, 
está tudo bem, 
a recuar, 
tu consegues, 
a parar... 
Uma brisa suave empurra-me, embala-me e recorda-me que eu sou eu, e que eu acredito na utopia, sirvo a palavra livre e sinto as histórias vivas! 
Dou-me novamente a mão e, com a ajuda do vento, retomo o caminho. 
Ao fundo, quase imperceptível, um arco-íris brilha sob o céu lisboeta...

Liliana


"Ninguém me roubará algumas coisas,
nem acerca de elas saberei transigir;
um pequeno morto morre eternamente
em qualquer sítio de tudo isto.

É a sua morte que eu vivo eternamente
quem quer que eu seja e ele seja.
As minhas palavras voltam eternamente a essa morte
como, imóvel, ao coração de um fruto.

Serei capaz de não ter medo de nada,
nem de algumas palavras juntas?"

"O Medo" de Manuel António Pina, in "Nenhum Sítio"
 

terça-feira, março 29, 2011

Estás aí, Manuel?!

Estás aí?!

Pergunto eu baixinho com medo de acordar a lua e precipitar a resposta. Conheço bem o eco da minha voz no silêncio da noite. Abro as portas da varanda em par e repito a pergunta numa teimosia que serve apenas para manter viva a esperança da resposta...


Estás aí?!

Sussurro, articulo as palavras sem deixar sair o som, não quero assustar as estrelas. Sei da cumplicidade da noite e é nela que me envolvo enquanto a minha voz, em silêncio, percorre as ruas até chegar ao Tejo. As luzes reflectem-me nas águas que se agitam em pequenas ondulações e espalham a pergunta até à outra margem.


Estás aí?!... Estás aí?!...

Desde as esquinas apertadas de Alfama até às muralhas altas do Castelo, a brisa embala a minha voz e semeia nas pedras da calçada a pergunta feita em silêncio. O eco de uma árvore acorda as estrelas no escuro da noite e, cúmplices também, replicam em código Morse pelos céus...


Estás aí?!

Encosto-me na varanda banhada pelo luar e escuto a cidade que te chama comigo. Em todas as ruas os candeeiros esforçam-se por iluminar a esperança, e as árvores abanam os seus ramos enquanto perguntam às flores dos canteiros se sabem de ti. A madrugada acalma o silêncio em que a cidade cantava encoberta pela noite e, aos poucos, as águas do Tejo pintam-se de azul em sinal de um novo dia que nasce.


Na varanda, espreguiço-me e acordo de um sonho agitado. Volto para dentro e, enquanto fecho as portas de vidro, avisto na outra margem uma gaivota que parece perguntar...


Estás aí?!

Liliana Jan/2009


"Há muito tempo

era uma vez

um homem que se perdeu

da sua amada

e vagueou

por entre as nuvens do céu.

Perguntou

à mais pequenina

se a tinha visto ao passar

depois à nuvem

mais carregada

nenhuma o podia ajudar.

E assim passou tanto tempo

tecendo mil planos

em fios de algodão

que se desvaneciam

em nuvens no seu coração.

Todas as nuvens

da sua rua

foram à sua janela

escureceu, adormeceu

ficou a sonhar com ela.

E o mau tempo passou

o sol despontou

numa festa de cor

de manhã todas as flores

sabiam de cor

onde estava o seu amor."


"Pelas Nuvens" de Manuel Paulo

(interpretado por Graça Reis, no álbum Assobio da Cobra)

segunda-feira, janeiro 11, 2010

Porque escreves, Manuel?

Porque escreves? Perguntas-me tu ò vento do oriente...

Se escreves para te ouvires para te sentires para, por fim, te encontrares no emaranhado de letras que vivem apenas nas entrelinhas e que, acreditas tu, mostrarão um dia a tua imagem reflectida nas águas do Tejo, desilude-te. O Tejo mostra apenas as linhas que com as águas dançam.

Se escreves para ti, destilando os sentimentos e as vontades numa folha de papel, como que exorcizando os fantasmas e os medos que moram contigo, para que ao virar da esquina não te assaltem e roubem as palavras, desiste. As folhas apenas revelam o que nelas queremos pintar.

Para que escreves então?

Mais valia deitar as palavras ao vento que até as varre e as leva para longe.

Melhor seria sussurrá-las ao canto da sala no silêncio da noite que cúmplicemente as abafaria.

Porque escrevo, afinal?

Para me encontrar no remoinho de palavras que gira em volta das letras que se penduram nas entrelinhas e rodam em volta dos silêncios não ditos.

Porque escrevo, afinal?

Para ouvir o mundo que não consigo entender com o barulho da cidade.

Para olhar tudo o que não chego a ver com a pressão dos ponteiros do relógio.

Para me sentir inteira, ainda que perdida.

Para me saber verdade.

Para me saber sonho.

Para os distinguir.

Porque escrevo, afinal?

Para que me leias e te encontres onde eu, quem sabe, nunca me procurei.

Liliana Lima




"O leitor põe-se a escrever. Escreve para ti – coisa terrível; como se pode? Aceitemos mesmo que este saber se partilha e que o leitor avance. Já antes era assim que o leitor era: escrevia. Mas digamos que a partir de um determinado momento, por razões alheias à sua vontade, inerentes ao que de ti nele chama, o leitor diz: «o leitor põe-se a escrever».
(...)


Se o leitor escreve, tu escreves, meu amor, meu amor, e então perguntar-te-ás como é que te podes erguer nestas frases, como é que tu própria, quer dizer, o teu corpo e o nome que tu usas e com que te usam, como é que esse teu corpo e esse teu nome podem ser furiosamente aqueles que esse tu designa e desdiz, se só assim te pode dizer. Que me inventes! que me inventes! O leitor abana a cabeça, sempre ferido desta dor e quem sabe se desta alegria. Como te há-de ter viva se logo tu já o morreste? Percebes quando o jogo é aqui só um alibi e é do outro lado que as coisas se lêem. E esse lado é o teu, nome vazio, escritor ao contrário, leitor ao contrário, tu que com o apagaras-me a voz tudo decides destas letras. Que as apagues também! Que me devores! que então correrei em ti, diz o leitor, como se diz, com o coração a sangrar um veneno sem remédio. O leitor escrevendo sabe que alguma coisa o risca como ele risca as frases por cima das quais escreve, que alguma coisa lhe embarga o nome, a voz, o corpo, o desejo, e que só enlouquecendo numa única letra, a tua, é que tudo pode entretanto irromper. Lê:

De alguma maneira o leitor escreve para que seja possível...."

de Manuel Gusmão,
in «As Posições do Leitor» (1971)

quinta-feira, outubro 01, 2009

Não tenhas medo, Manuel

Dou voltas sobre mim à procura de uma mão para agarrar antes de saltar, e por fim é também a minha que me toca de mansinho, calma estou aqui, maternal, está tudo bem, meiga, tu consegues. Aperto-a com força e fecho os olhos enquanto me aproximo da linha que divide o aqui do ali, o certo do desconhecido, o seguro do até agora ainda só sonhado e esbarro numa parede de medos e receios.

Eu, que acredito no arco-íris que me aponta a estrada que me mostra a estrela que baloiça as árvores de onde crescem as palavras que voam ao vento que espalha as sementes que acordam os sonhos que acendem o arco-íris... Eu, parada no medo e a parede a avançar... calma estou aqui, aperto ainda mais as mãos e fecho novamente os olhos à procura das cores...

Eu, que me sirvo da palavra sem correntes nem amarras para com ela voar e num esgar de liberdade a multiplicar por mil olhares que valem muito mais que todas as imagens do mundo a rodar num ecran de pano branco... Eu, a esbarrar no medo e na parede... está tudo bem, uma tranquilidade que se impoem e as palavras a dançar à minha volta numa cantiga de roda...

Eu, que sinto as histórias vivas a sussurrar aos meus ouvidos, a pedirem para serem contadas na minha voz e vividas no meu corpo e acreditadas no mais íntimo de mim, obediente, deixando-as tomar o castelo e atacar os moinhos ao mesmo tempo que as conto ao mundo ao abrigo das cumplicidades que nascem dos olhos e se espalham pelo ar... Eu, imobilizada com a ideia do vazio... tu consegues, uma certeza tímida que espreita por trás da chuva e lembra o sol de verão...

E eu, que sei que consigo, a duvidar, calma estou aqui, a hesitar, está tudo bem, a recuar, tu consegues, a parar... Uma brisa suave empurra-me, embala-me e recorda-me que eu sou eu, e que eu acredito no arco-íris, sirvo a palavra livre e sinto as histórias vivas! Dou-me novamente a mão e, com a ajuda do vento, retomo o caminho. Ao fundo, quase imperceptível, um arco-íris brilha sob o céu lisboeta...

Liliana Lima



"Ninguém me roubará algumas coisas,
nem acerca de elas saberei transigir;
um pequeno morto morre eternamente
em qualquer sítio de tudo isto.

É a sua morte que eu vivo eternamente
quem quer que eu seja e ele seja.
As minhas palavras voltam eternamente a essa morte
como, imóvel, ao coração de um fruto.

Serei capaz de não ter medo de nada,
nem de algumas palavras juntas?"

"O Medo" de Manuel António Pina, in "Nenhum Sítio"

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Estás aí Manuel?!


Estás aí?!



Pergunto eu baixinho com medo de acordar a lua e precipitar a resposta. Conheço bem o eco da minha voz no silêncio da noite. Abro as portas da varanda em par e repito a pergunta numa teimosia que serve apenas para manter viva a esperança da resposta...



Estás aí?!




Sussurro, articulo as palavras sem deixar sair o som, não quero assustar as estrelas. Sei da cumplicidade da noite e é nela que me envolvo enquanto a minha voz, em silêncio, percorre as ruas até chegar ao Tejo. As luzes reflectem-me nas águas que se agitam em pequenas ondulações e espalham a pergunta até à outra margem.



Estás aí?!... Estás aí?!...



Desde as esquinas apertadas de Alfama até às muralhas altas do Castelo, a brisa embala a minha voz e semeia nas pedras da calçada a pergunta feita em silêncio. O eco de uma árvore acorda as estrelas no escuro da noite e, cúmplices também, replicam em código Morse pelos céus...



Estás aí?!



Encosto-me na varanda banhada pelo luar e escuto a cidade que te chama comigo. Em todas as ruas os candeeiros esforçam-se por iluminar a esperança, e as árvores abanam os seus ramos enquanto perguntam às flores dos canteiros se sabem de ti.



A madrugada acalma o silêncio em que a cidade cantava encoberta pela noite e, aos poucos, as águas do Tejo pintam-se de azul em sinal de um novo dia que nasce.



Na varanda, espreguiço-me e acordo de um sonho agitado. Volto para dentro e, enquanto fecho as portas de vidro, avisto na outra margem uma gaivota que parece perguntar...



Estás aí?!



Liliana - Jan/2009



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"Há muito tempo


era uma vez


um homem que se perdeu


da sua amada


e vagueou


por entre as nuvens do céu.


Perguntou à mais pequenina


se a tinha visto ao passar


depois à nuvem mais carregada


nenhuma o podia ajudar.


E assim passou tanto tempo


tecendo mil planos


em fios de algodão


que se desvaneciam


em nuvens no seu coração.


Todas as nuvens


da sua rua


foram à sua janela


escureceu, adormeceu


ficou a sonhar com ela.


E o mau tempo passou


o sol despontou


numa festa de cor


de manhã todas as flores


sabiam de cor


onde estava o seu amor."


"Pelas Nuvens" de Manuel Paulo

(interpretado por Graça Reis, no álbum Assobio da Cobra)