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segunda-feira, novembro 27, 2017

CORpo

Do sentimento de dever cumprido 

Da tranquilidade de todas as mãos que se deram em comunhão e amizade
Da alegre surpresa ao ouvir as minhas palavras noutro corpo

Da paz de dizer até já a quem já está noutro tempo

Do orgulho dos dedos que soltam as notas do piano
Do prazer de ver tantos olhos conhecidos a descobrir o Corpo, que afinal já não é meu

Do agradecimento sincero, puro, às mãos que me ensinaram a andar

Da procura da palavra certa para dedicar a cada um em particular
Do cansaço do corpo que já espera outro amanhã 

Do sorriso grato a todos os que fizeram deste dia, este dia

Do sentimento de dever cumprido

Obrigada!

Liliana Lima



'Corpo'
de Liliana Lima
com ilustrações de José Pádua 
Editora: CEMD
10,00€ (portes de envio grátis)
Pedidos por mensagem / Facebook
www.facebook.com/LilianaLimaCorpo/

domingo, janeiro 31, 2016

hiaTO

Rodas a chave na fechadura e fechas tudo lá fora. Enquanto a cidade se apaga, cá dentro abrimos um hiato de tempo num mundo só nosso.

Estendes-me a mão, como pedi, e levas-me e até ti. Debaixo dos lençóis, que já me tratam por tu, os corpos encostam-se com a calma de quem conhece de cor as curvas do caminho. A minha pele, quente, arrepia-se ao toque da tua e um ligeiro tremor percorre-me o corpo. Estou deitada ao teu lado e todos os meus poros te sentem aproximar.

Desligas o candeeiro e sussurras que o faça também, mas com a tua mão a passear pelo meu corpo não consigo (nem tento) esticar o braço, e a luz, alada, fica por apagar.

Nunca consegui resistir ao toque dos teus dedos e sem esforço deixo-me ir, contigo, em mim. Sei-te aqui quando a tua cintura, aos poucos, inicia uma dança de ida e volta numa maré que já deixa adivinhar o maremoto que seremos. Entre as pernas que se confundem com os braços e as línguas que se trocam em beijos, a respiração do quarto adensa o ambiente húmido do tango que dançamos.

Os corpos misturados, feitos um, desfeitos em dois e novamente unos, deslizam por entre os gemidos ora audíveis, ora calados. O meu coração encontra o bater do teu e, a par, acertam a cadência das pulsações. As mãos, as minhas nas tuas, agarram o momento que sustêm juntamente com a respiração, até que desabam as paredes e as janelas e a luz e o quarto inteiro que se faz corpo, nosso.

Perco-me em ti todas as vezes que te encontro em mim. E é em mim que te sou, numa maré viva que rasga a carne à força duma vontade ancestral e nos faz onda que rebenta na rocha e se desfaz em espuma na areia cor da pele.

Estendes-me a mão, como te pedi, e trazes-me de ti. Debaixo dos lençóis que tão bem me conhecem, o meu corpo acorda do calor do teu, com a calma de quem sabe de cor as curvas do caminho de regresso.

Esticas o braço e apagas a luz.  

Estou deitada ao teu lado e a respiração, a par, volta aos poucos ao normal, até que, aos poucos também, se atrasa e arrasta num sono leve, livre. Lá fora, fechado à chave, suponho o mundo. Mas cá dentro, com a cidade apagada, um hiato de tempo só nosso.

Liliana



terça-feira, novembro 17, 2015

NaDaS

Levantas-te dos nadas que partilhamos lado a lado e chamas-me para nós
Levantas-te de nós e chamas-me para dentro
Algo se perde na passagem para o quarto
Algo fica por sentir no sofá que deixo a olhar para a televisão acesa
Algo se apaga no corredor que percorro, sozinha, até ti

Entro descalça no quarto onde a cama, há muito, me trata por tu
Os lençóis, contigo por baixo, conhecem de cor o meu cheiro
E o livro que lês por cima da almofada está gasto de tanto o folhearmos
Num remoinho de sentimentos dispo-me, sozinha, para ti
Deito-me ao teu lado e procuro por mim nas palavras que lês

Falta algo neste quarto para que seja nosso
Falta a magia dos olhos e a sensualidade das vontades
Procuras-me debaixo dos lençóis e puxas-me para ti
A tua mão encontra o meu corpo e pergunta-lhe por mim
Nunca consegui congelar o calor do teu corpo no meu

Sorris para mim num beijo quente
os passos perdidos a perder importância 
Embalas-me numa dança de roda 
as sensações que balançam em mim
Desenhas-me o corpo com a ponta dos dedos
o calor a inundar os corpos e a acender
 as vontades

A cama e a almofada macia, abafam os gemidos que cortam a noite
E a torneira ao fundo, marca o ritmo das ondas
ora rápido como uma cascata, ora calmo como a chuva de outono
Os braços e as pernas confundem-se por entre os lençóis 
E eu esqueço-me para me reencontrar em ti dentro de mim

Os nadas que partilhamos e o livro que relemos esperam à porta 
As roupas espalham-se no chão como as migalhas de Hänsel
E as palavras apagam-se por não serem necessárias 

Enrosco-me no teu abraço e não deixo que nada interrompa o nada que partilhamos


Liliana 


terça-feira, novembro 10, 2015

L. U. A.

Sorrio com a luz parda do fim-do-dia e pinto a minha história com uma aguarela encantada. Olho a cidade beijada pelo Tejo e peço-lhe emprestados os acobreados que a abraçam. 

É tão bonita a vida vista do alto do meu sorriso! 

Procuro o espelho em forma de coração que guardo na mala, e penteio o teu carinho com as mãos. Todos os teus gestos ganham um brilho novo quando olhados com um sorriso. Escolho as palavras em que te quero ouvir e mergulho tudo o resto no rio. 

É tão macio o tempo que passa sorrindo! 

Dispo-me muito devagar, ao ritmo do cair do Sol, e procuro o calor do teu abraço. Lisboa espera, ansiosa, que a Lua se levante e a cubra com o seu olhar velado com que sorri para mim. 

É tão sensual o respirar da cidade nas noites em que sorrimos! 

Fecho a janela do quarto e deixo-me embalar no teu sorriso quente. O teu corpo envolve o meu no ondular prateado do Tejo e a cidade afasta-se para não nos incomodar. 

É tão real o amor que fazemos quando a Lua sorri! 


Liliana 






terça-feira, julho 21, 2015

Mornas

Nas noites mornas de Verão, o Sol dança com o horizonte numa tela de laranjas-rosadas, e a Lua acende os teus olhos.
Ainda que por breves momentos.
Iluminas com um só olhar o tanto que guardo no cesto das aguarelas por pintar.
O luar espreita timidamente pelo véu da noite recém-pintada e sorri para a mão que apertas em volta da minha, que se torna, de repente, o centro do meu centro nevrálgico.

O tempo, que agora dança com as estrelas, avança num ritmo mais lento que o ritmo certo e diz-me do teu tempo, que corre atrás das horas mas que, agora, páras só para mim.

O rio embala os sonhos que, nos teus lábios nos meus, se tornam súbita e urgentemente reais. O teu calor no calor morno da noite aquece as vontades que acordam desalinhadas com a corrente.

No teu corpo o meu corpo floresce. Aqui já não sei do cesto das aguarelas por pintar. Todas as formas são delicadamente desenhadas pelos dedos que num arrepio húmido forçam o respirar e soltam a energia embriagante apaga todas as sombras.

Nas noites mornas de Verão.
Os sonhos no meu centro nevrálgico.
Ainda que por breves momentos páras o teu tempo só para mim.
Com um só olhar, as formas delicadamente desenhadas. 
A tua mão no meu corpo que floresce. 
Os dedos num arrepio húmido que espreita timidamente pelo véu da noite...


Liliana

segunda-feira, março 23, 2015

pa.lavra

Esta pele que me contém cheira a ti. 
Aconchego-me dentro dela e sinto-te envolver todo o meu espaço.
Procuro-te em mim, nas marcas que pintaste no meu corpo, no calor com que me embrulhaste no teu abraço, no gesto impensado com que passo a mão no meu cabelo à procura do macio do teu.

Estas cores que despontam à minha volta, pintam uma aguarela de ti. 
O sol matinal e a lua ao entardecer, contam-me das tuas sombras e do recorte do teu corpo quando olhas o horizonte. 
O céu, azul, reflectido em flashes na ondulação do rio, traz-te numa brisa suave e as flores sorriem com o mesmo brilho dos teus olhos e o mar invade o horizonte com a mesma cadência com que me invades a mim.

Esta palavra que me pede para ser dita, fala de ti.
Enrola-se-me na língua e perde-se no meu corpo, espalhando as letras num remoinho interno.
Solto-a momentânea e cuidadosamente, quase em surdina, na mesa de cabeceira no instante em que me entrego a ti e embrulho-a com todo o carinho na valsa desenfreada dos dias que correm sem ti.

Esta pele,
Estas cores,
Esta palavra,
Este sentir.

Este sentir que me arrebata num só sorriso e me empurra na corrente revolta do rio num não dito velado.
Embalo-o todas as madrugadas, na esperança de te guardar os sonhos e proteger o sono. E de manhã, ao nascer do dia, pinto na pele as palavras com que te sinto.

A vida lembra-me de ti.

Liliana Lima


quinta-feira, janeiro 08, 2015

mar.és vivas

Quando o meu e o teu corpo se tocam, diluo-me em ti.
Sangue quente que corre à força do bater da tua pulsação, humedecendo as margens e preparando a chegada das marés vivas.

Meus olhos o teu olhar que me afaga o corpo, tão mais teu que meu.
E no entanto tu, em mim comigo fora, respirando através dos meus suspiros descompassados.

Eu e tu, muito mais que um nós.
Envolvidos, amassados, moldados, recriados a cada movimento. Perdidos e reencontrados ao ritmo, uníssono, dos dois corações.

Onda e areia, leito e maré, rebentação e espuma.
Maré que se agita, onda levantada que rebenta na areia e volta ao leito que a acolhe para novamente a devolver às marés vivas que provocam as ondas e as erguem desde o leito e as rebentam na areia e de novo as recolhem para mais uma vez as erguerem e atirarem sobre a mesma areia onde rebentam e, por fim, se desfazem em espuma...

Silêncio e os meus olhos, agora nos teus.
Silêncio e nós em conjunto.
Silêncio e dois corpos abraçados.
Silêncio e a pulsação ainda acelerada.
Silêncio e o meu corpo tão perto do teu.


Liliana



segunda-feira, junho 09, 2014

onda

Deito-me ao teu lado como uma onda que se entrega à maré. Calma, ansiosa, sedutora ou apaixonada, a maré comanda o ritmo do meu suspirar.

O toque acontece antes de ser, o teu corpo embala o meu antes mesmo de puxares para ti a minha cintura. A onda quente que nasce no mais íntimo de mim, ganha forma ao aproximarmo-nos da cama que já nos conhece doutros oceanos.

O meu e o teu corpo na maré revolta da pele húmida. O teu corpo meu na entrega da onda que se desfaz em espuma e volta ao oceano ganhado força para, em nova onda se formar e novamente se desfazer em espuma que volta ao oceano e retorna para, por fim desaguar toda a água do mar na areia branca da praia deserta.

Deito-me ao teu lado e deixo que a cama seja praia, ilha que nos refugia do mundo e das horas e das agendas e das convenções. Deito-me e, devagar, com todo o tempo do mundo, enrolo-me em ti, qual areia molhada onde descansa a maré.


Liliana




segunda-feira, maio 12, 2014

fantasmas

Apago a luz e fecho a porta sempre que me dás a mão, não sei se para conter o mundo lá fora se para deixar de me ver.

Entro devagar para fora dos fantasmas antigos e troco-os pelos que acabei de conhecer. Aqui no escuro, entre mim e ti, no espaço cada vez mais ínfimo que separa os nossos corpos, procuro deixar de me ver.

Fecho os olhos e vejo as tuas mãos que percorrem o meu corpo com a certeza de quem já conhece o mapa astral e identifica cada constelação noturna. Procuro-te entre os lençóis e por entre os suspiros que dançam no ar e, quando os meus lábios encontram a tua pele, escolho deixar de me ver.

Apago a luz e fecho a porta sempre que te dou a mão, não sei se para conter o mundo lá fora se para te tentar ver.

Liliana



sábado, maio 03, 2014

Mastro despido

Navego à deriva com um mastro despido, num Tejo sem margens para aportar. Foste tu que me ensinaste a navegar com a força dos humores do vento.

Mas sozinha no barco, rasguei as velas onde bordei histórias de dias claros. Dias num Tejo meu, ou nosso, onde as palavras rodopiavam na água baralhando as gaivotas.

Agora, parada sem maré que me embale, espero por ti numa estrela cadente. Não estás ou não te vejo no céu, nesta noite de lua nova. Não é aqui o teu ninho, não é esta a tua rota. Foi esse o nosso compromisso, acaso um faltar, o combinado é zarpar.

Navego, ainda, à deriva neste barco instável que, sem vela não me deixa avançar, neste rio parado que não me permite aproximar. 'A noite, que a seu costume tudo transfigura' traz-me à memória outros céus de outros mundos e, em menos de nada, sentada no chão agarro os joelhos com força para afastar os medos.

Sob o céu escuro e o rio cinzento vejo uma figura recortada na margem que me puxa como se um peixe fosse. Encontro o teu sorriso e enrosco-me no teu abraço, este é o nosso Tejo e nele nos encontramos. Enrolo as pernas à tua volta e fundimo-nos num mergulho urgente que agita as àguas e acorda as estrelas. Sou o teu corpo e tu no meu, os braços que se perdem, os corpos que se tocam e se apertam e se dão até que, feito Tejo, desaguas em mim. A ondulação abranda ao ritmo do nosso respirar e toda a cidade se retira para o acordar dos corpos, enquanto a mãos ainda aninhadas nos mantêm seguros num Tejo que é nosso.

O clarear das águas denuncia o amanhecer e os nossos corpos, cansados, voltam a si. Deixo-me embalar mais um pouco no teu sorriso enquanto me ajudas a levantar a vela, uma nova vela que fizeste para mim. Entro para o barco e despeço-me de ti. Sorris e partes pelas ruas da cidade. Não é aqui o teu ninho, não é esta a tua rota.

Navego nas águas cristalinas do Tejo, baixo a vela e rasgo-a em pedacinhos onde bordo histórias de noites claras. A maré embala-me e os dias sorriem. Até que um dia sem ventos nem marés me veja sozinha à deriva com um mastro despido...


Liliana




terça-feira, março 18, 2014

Farrapos

Tocas-me ao de leve, quase como uma pluma,
quase nem chegando a tocar. 
Será que me tocas a mim ou a um passado 
com farrapos no presente?

E por isso a leveza, o quase receio... 
De me tocar, neste corpo 
que vês tão diferente do passado (sempre) perfeito
De me perceber, a mim, à tua frente 
no corpo onde, se tocares, só o presente vais encontrar

Tocas-me ao de leve...
É a mim que estás a tocar?


Liliana


segunda-feira, fevereiro 17, 2014

Sorriso

Chego, estás no lado oposto do jardim olhando as árvores que já viveram tantas vidas. Vou-me aproximando com um sorriso de menina, matreiro, de quem sente já o teu abraço muito antes de nos tocarmos. Não consigo assustar-te, o teu olhar encontrou o meu a meio do percurso. Penso andar mais depressa para te chegar, mas atraso o passo qual raposa à espera dos cabelos d'oiro, e faço-te esperar, escondendo o sorriso num andar quase dançado.

Encontramo-nos por fim, não no jardim, nas paredes que nos acolhem e nos embalam com os ponteiros, cúmplices dum tempo que se demora desde que entrámos em casa.

Não temos pressa, os dias de grandes nervosismos já lá vão, e nós não os revivemos nem queremos. Queremos e temos as mãos que se apertam e abrem caminho para os corpos se despirem sem vergonhas e se entregarem sem reservas numa comunhão de quereres e sentires que nos envolve junto à cama.

Sou-me em ti e sinto o contrário sem palavras no meio. Lá fora chove, ou está enevoado, ou até faz sol. Aqui dentro estamos nós, e o tempo é o que nós fizermos dele. Há ventos suaves à força duma mão que se passeia em dunas ondulantes. Há vales onde a primavera faz nascer flores e correr um riacho por entre leves pulsares. Há montes que se acomodam à forma de uma mão que traz com ela o calor. Há planícies que se contorcem em movimentos cíclicos que vão aumentando de velocidade e intensidade conforme os corações assim o comandam e a respiração assim obedece e os braços assim os envolvem... Até que uma onda de lava se entrega ao mar provocando o fervilhar das águas até ao fundo dos corais.

Somo-nos nos lençóis suados, nas caras coradas, na respiração descontrolada, nos corpos ainda um, num não-local onde nos deixamos ficar durante muito tempo.

Com o despertar dos ponteiros, devagar, voltamos a nós. Eu contigo e tu com um pouco de mim. E um sorriso de meninos, matreiros, de quem sabe que o abraço se soltou, mas não acabou.


Liliana



sábado, janeiro 25, 2014

Escadas

As escadas escuras que sobem sobem sobem.
O quarto demasiado desprotegido, exposto ao mundo
ao fundo do corredor, cinzento, sem face.
Lá dentro um homem e uma mulher
sentados frente-a-frente, dizem tudo o que as palavras não dizem e,
tentam esquecer a cidade a quem fecharam a porta.

A tarde, espreguiça-se, vagarosa pelos céus
e os amantes despem-se das vidas, dos medos e dos receios
à medida que o calor dos corpos se toca e troca de boca 
pela humidade quente dos lábios que se juntam.

Com uma hesitação de adolescentes, as mãos
vão-se encontrando aqui e ali, deslizando ou demorando,
até que a respiração embala os movimentos e a cama e o quarto,
que os acompanha, agora, numa cumplicidade que os contém e os liberta,
num mundo feito corpo de dois corações em sintonia
num crescendo de respiração, calor, desejo e movimentos.

Os corpos feitos um, respondem a esse encontro último,
rebentar de onda que escorre pelas rochas, em espuma,
para se reencontrar com a maré e mergulhar até ao fundo do mar.

As escadas escuras calam a fala das madeiras.
O quarto, ao fundo do corredor sem face,
acolhe um homem e uma mulher que,
deitados ainda um no outro, 
sem precisar de dizer palavra
ouvem ao fundo a cidade que sorri com eles.


Liliana




domingo, janeiro 19, 2014

Lençóis

Dás-me a mão
e eu entrego-me nos teus braços 
envolvida pelos lençóis da noite.
O teu sorriso, 
libertado no lusco-fusco 
reflecte os corpos que comunicam 
e se unem nos lençóis da cama.

A tensão 
que se adensa, nas paredes, nas cortinas,
na respiração, no conjunto de todos os sons,
no pulsar dos corpos e do coração,
acaba num remoinho de ventos e chuvas
e ondas até nos afogar,
num arrepio quente.

As mãos soltam-se
suavemente ao mesmo tempo que a música dos corpos
volta ao compasso e volume normal.
Enrosco-me em ti
enquanto me sinto voltar ao meu corpo
ao quarto e aos lençóis amassados.

Olho para ti,
sorrio e até me devolves o olhar
distante, vazio quase, longínquo.

Estou ao teu lado nos lençóis brancos,
mas tu estás não aqui, não nestes lençóis,
não comigo.

Dás-me a mão
mas deixo-me ficar, como estive afinal,
não contigo, apenas comigo.


Liliana



terça-feira, janeiro 07, 2014

Mar

Da tua mão enlaçada na minha, onde
os dedos se confundem e se misturam
as veias com o correr do sangue.

Do teu corpo que se aproxima 
do meu e que, devagar, aumenta o ritmo 
da respiração e do bater do coração.

Da cama onde as nossas pernas se
enlaçam e os braços se fazem âncoras 
quando nos damos e desaguas no meu mar.

Dos lençóis, brancos, enxovalhados 
da tempestade, que fazem o ninho dos corpos 
suados, cansados. 

Dos dois corpos juntos que, devagar 
voltam a si recuperando 
a respiração e bater do coração.

Das mãos que se passeiam 
pelos lençóis, dunas e planícies 
em paz, sem ventos nem marés, 
estendidas apenas à beira-mar.


Liliana



sexta-feira, novembro 29, 2013

Casa

Estou em casa, em ti.
O meu corpo responde ao teu, que me chama, com calma.
Dou-me(-te) na humidade ofegante do sangue que corre nas veias, sem pressa.
Recebo o teu corpo no colo do meu que se fez nosso e, tranquilamente, nos sinto cúmplices no caminhar ritmado pelo bater do coração dos dois.

Estou em casa, em ti.
Não há dragões nem medos, aliás, não há para além de nós.
Os lábios que se cruzam, os corpos que se tocam, os gemidos que se perdem, ficam ali, contidos, como num ninho, abrigados do mundo.

Estou em casa, em ti.
Sentindo-nos e sendo-nos na euforia dos corpos que se dão em ondas que rebentam nas rochas e se fazem mil gotas até voltar ao embalo do mar.
E nesse embalo me deixo levar, em ti, até desaguar na areia serena da nossa praia.
E então, juntos os corpos, estás em casa, em mim.


Liliana



quinta-feira, novembro 21, 2013

Espera...

Guarda a vontade que eu estou quase a chegar
Embrulha-a no calor da tua pele
E não a deixes apagar

Guarda a vontade para mim, 
Fecha-a bem em várias gavetas
Que não demoro nestas ruas incertas

Guarda a vontade dentro de ti
Deixa-a correr por todo o teu corpo
E para não arrefecer fala-lhe de mim

Guarda essa vontade partilhada
Embala-a na lua que tudo ilumina
E espera-me na hora mais sossegada

Guarda a vontade que eu chego não tarda nada
E nos teus braços me enrolarei
Neste rio que em que me desaguei


Liliana


segunda-feira, novembro 04, 2013

Relógios...

Segura nos números que eu agarro os ponteiros.
Baixa os estores e corre as cortinas para que tudo o mais fique lá fora.
Agora ficamos sós, a sós um com o outro.

Assim, no lusco-fusco, consegues olhar para mim?
Assim, no vazio do peito, consegues chegar-te a mim?
Assim, no limiar do silêncio, consigo entregar-me a ti?

E a casa e os filhos e as escolas e a roupa estendida e o almoço e as mochilas e loiça suja e os horários e as noites mal dormidas e a roupa estendida, e tudo o resto que gira em torno de nós à espera de uma só deixa para cair nas nossas costas....
Assim, consegues entregar-te a mim?

Largo os ponteiros para te tocar, deixas cair os números para me abraçar.
Viramos o relógio para baixo e sorrimos...
Estamos prontos para nos encontrar.


Liliana



sexta-feira, fevereiro 01, 2013

Meu corpo teu

Deixaste o meu corpo marcado com o desenho do teu.
Agora, não consigo olhar para mim sem te ver decalcado, como um carimbo na minha pele.

No mapa do meu corpo vislumbro um pouco de nós.
Um nós efémero como o pôr-do-sol em pleno Inverno, mas ainda assim um nós que se estende por mim, nas marcas desenhadas por ti.
Vejo estrelas e constelações, vejo os corpos que se juntam enquanto se afastam do mundo.
Vejo um caminho verdadeiro, sem falsas esperanças e de olhos expressivos.
Vejo uma mão aberta para outra, sem juramentos ou promessas.
No mapa do meu corpo vislumbro um pouco de nós.

Deixaste o meu corpo marcado com o desenho do teu.
Será que no teu deixei alguma coisa de meu?!


Liliana





sábado, janeiro 26, 2013

Espiral...

A espiral 
avança devagar, 
quase que tímida, 
quase que indecisa, 
quase que contrariada, 
reprimida.
O toque 
desbloqueia a timidez,
e deixa deslizar as mãos
que se encontram
e se perdem pelos 
dois corpos.

A respiração 
aumenta a velocidade
e a espiral roda 
com ela e através dela.
Quero-te.
Não tenho dúvidas, 
todo o meu corpo o grita 
no silêncio da lua.
Queres-me.
Sinto-o também, 
nas tuas mãos que 
me percorrem, 
no teu corpo que
se junta ao meu.

Os lençóis 
enrolam-se em nós 
enquanto na 
sala, a televisão 
projecta um filme
para um público inexistente.
Ali, no quarto, 
os dois 
vamo-nos tornando num.
As pernas 
que se enrolam
e se baralham.
As mãos 
que percorrem 
toda a pele 
e se juntam 
e se afastam.
Os dois corpos, 
um que se tornam,
no ritmo que aumenta
com o bater do coração.
O atingir do auge e
o retomar dos ritmos
e das formas. 

A espiral 
abranda calmamente,
até parar por fim
num suspiro profundo.


Liliana