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sábado, abril 13, 2019

MARgens

É cá dentro que continuas a dizer-me bom dia
É cá dentro que me acompanhas na eterna correria
É cá dentro que me visto de ti para me construir a mim

Querias ficar no Tejo, disseste-me um dia
Querias ficar nas águas que tantos anos te banharam
Querias ficar ali

Podem as margens conter-te de uma só vez?
Podem as águas embalar o teu sono de vez?
Posso largar-te sem quebrar os laços que nos juntaram?
E, por consequência, perder-me nas lágrimas que se afundaram?

Quantas vezes choramos um adeus?

Queria deixar-te no Tejo, como pediste um dia
Deixar-te em paz nas águas que tão bem conhecias
Queria deixar-te ali

Se é cá dentro que continuas a florir
Nas receitas
Nas feições
Nos dizeres
Nas graças
Nas roupas
Nos gostos
Nas escolhas
Nas canções
Nos caminhos
Porque pesavas tanto, quando te deixei cair?

Podem as margens conter-te de uma só vez?
Podem as águas embalar o teu sono de vez?
Posso largar-te sem quebrar os laços que nos juntaram?
E, por consequência, perder-me nas lágrimas que se afundaram?

Quantas vezes choramos um adeus?


Liliana Lima




sábado, dezembro 08, 2018

SEMpre TUA, Sérgio

"Este é o último dia do resto das vossas vidas
como as viveram até agora"
podia jurar te ouvi sussurrar, quando saíste
Foram os dias da tua vida todos juntos num quase mês
que se fizeram tardes e manhãs e noites, algumas 

Foram duas mais duas que se fizeram quatro
na cumplicidade de quem se sente 
igualmente despida, igualmente forte
igualmente fraca sem o mostrar, mostrando

Foram as chuvas que se seguiram ao Sol
que em Lua se fez e a céu cinzento voltou
numa sequência no centro do palco principal
sem intervalos nem cenas fora de cena

Foram as lágrimas, as que ali se choveram 
e as que precisaram da nuvem certa para cair
Os sorrisos e os disparates que dissemos e pensámos
partilhados a oito mãos no piano do teu corpo

Foram as dores e a dormência do nada sentir
enquanto lutavas, uma guerra perdida, até ao último suspiro
Foram as horas que demoraram muitos dias a passar
e o repetir do apitar da morfina a acabar

Foram duas filhas e duas netas 
que em quatro mães se tornaram
à força dum adeus que as fez nascer
e nem a vida jamais irá desfazer 

"Este é o último dia do resto das vossas vidas
como as viveram até agora"
podia jurar ouvir-te sussurrar, quando saíste

É verdade, vó...
"Este foi o primeiro dia do resto das nossas vidas"

Vês como correu tudo bem?!
Descansa em paz, sem medo
Até logo! 

Beijo com saudade,
Sempre tua,
Liliana



A princípio é simples anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no borborinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo e dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se e come-se se alguém nos diz bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vem cansaços e o corpo frequeja
molha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso por curto que seja
apagam-se duvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Entretanto o tempo fez cinza da brasa
outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida 

Sérgio Godinho
in Pano Cru (1978)

sábado, dezembro 01, 2018

LImbo

Estás a prender-te aqui?
Ou estás presa dentro de ti?

Não queres ir?
Ou não sabes como sair?

Seja como for já não te posso ajudar...
Seja como for já não há ajuda que te pudesse dar...

Sento-me aqui, ao fundo da cama, todos os dias
ao entrar arranjo-te o (pouco) cabelo
E lembro-te que não precisas acreditar
   eu acredito por nós duas
   e,sei, podes seguir em paz

Ficas imóvel
olhando o tecto 
ou de olhos cemi-cerrados

Inspiras
Expiras

E continuas imóvel
sem me ver

Falo contigo, digo disparates...
Entramos e saímos 
e todas fazemos o mesmo..

Nada

Velamos a tua luta, estóica,
com um final à vista
e um porto pronto a aportar

Estás a prender-te aqui?
Ou estás presa dentro de ti?


Liliana Lima