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domingo, outubro 22, 2017

o que É o TEMPO?


-Já foi há muito tempo. 
Digo-te eu, ao fundo do corredor. 
-O que é o tempo? 
Perguntas-me em silêncio enquanto me dizes,
-Já não te lembras de mim?
Com uma estranheza sincera espelhada nos olhos que me espreitam, ao fundo do corredor.
-Claro que sim! Lembro-me muito bem de ti. Embora tenha passado tanto tempo.
-O que é o tempo? Voltas a perguntar-me em silêncio enquanto me dás um beijo e me deixas abraçar-te.

Eras uma menina tão pequenina que cabias no meu colo mesmo quando eu chegava carregada dos pesos que os dias constroem. E, de sorriso rasgado, desmontavas os muros e deixavas-me abraçar-te.
Depois corrias de um lado para o outro, brincavas com tudo e com nada e deixavas o Francisco cheio de ciúmes, a tentar ocupar todo o espaço do meu colo onde, por muito cheio que estivesse, havia sempre espaço para ti. 

Mas isso já foi há muito tempo. Hoje és uma menina crescida e se calhar já nem cabes no meu colo. 
-O que é o tempo? 
Repetes em silêncio enquanto me mostras que este abraço é verdadeiro e caberá sempre no teu colo.

Foi há muito pouco tempo. Tão pouco que quase não chegava a tempo de te dizer que me lembrarei sempre de ti. 
-O que é o tempo? 
Perguntas-me enquanto aí, ao fundo do corredor, sorris e me dizes, 
-Até já! 

E sais para outro tempo. Aquele que nunca foi nem será. Aquele que não distingue o hoje do ontem, nem do amanhã. 
Ao fundo do corredor, vejo-te entrar num tempo que simples e eternamente É. 

E enquanto te vejo afastar, menina pequenina que cabe no meu colo, de sorriso rasgado que faz ciúmes ao Francisco, respondo-te,
-Até já!

Liliana Lima 



domingo, agosto 14, 2016

branco E preto

Ela não sabia se os camaleões conseguiam vestir-se de todas as cores. Ela queria ser capaz de se tornar no arco-íris sem esborratar a sua cor, única e verdadeira. 

Uma noite de Lua cheia, em que o Luar apagava as estrelas com a sua luz branca e toda a vida lhe parecia fugazes diferenças entre cinzas claros e escuros, o peso das horas pediu um novo vestido, não verde nem rosa, não roxo ou vermelho, mas preto, branco e preto apenas. 

Procurou no baú do guarda-roupa dos muitos teatros levados a cena em tantos palcos quantos a vida aplaudiu, ou correu o pano mesmo antes do final. Nos fatos e vestidos, por estrear pendurados por tons, ou espalhados e já gastos em muitos monólogos, nenhum branco e preto. 

Sem camuflagem, não conseguia entrar sem ser vista. Sem conseguir vestir-se das cores da noite, não conseguiria estar sem estar, olhar sem sentir, falar sem contradizer. 

Ela não sabia em quantas cores conseguiam os camaleões camuflar-se. Ela apenas queria ser capaz de vestir a cor certa para passar por entre o peso das horas num mundo a preto e branco. 

Liliana Lima 


quarta-feira, agosto 03, 2016

AMAnhã

Tenho uma urgência de viver que faz o meu tempo rolar como um cometa que rasga os ceus e, mais cedo ou mais tarde, embate na velocidade cruzeiro das tuas palavras. Vivo em aparente agitação, na verdade apenas a vontade de me/te dizer, saber, sentir, partilhar.

Tenho uma urgência de me dar que me atira sobre a areia ou recolhe de volta para o mar, conforme os teus olhos me vêm a mim, ou através de mim diluida numa maré baixa onde não estás. 

Tenho uma urgência em amar que me leva a bater-te à porta com tudo o que tenho, o bom e o mau, o bonito e o feio. Deitar-me nas tuas mãos e esperar que me saibas acolher.

Tenho uma urgência em dizer-me, ser em palavras, nas minhas palavras tão longe e tão perto das tuas, que por vezes pareço estrangeira. Eu que pensava a língua do amor universal e no entanto esta diversidade de sentires e quereres que urge entender.

Tenho uma urgência no estar, partilhar o espaço e as ideias e o banal de cada dia. Navego neste barco que não consigo parar e que segue a com corrente do meu tempo e a força dos ventos em que me dou e, na verdade, (sei-o tão bem) acaba sempre por zarpar antes do teu.


Esta urgência de mim choca com a velocidade cruzeiro de ti. Estudo o mapa e procuro os pontos cardeais da vida.

Quem sabe amanhã nos reencontremos num mundo só nosso "que pula e avança como bola colorida ente as mãos de uma criança"? 


Liliana







sexta-feira, fevereiro 12, 2016

TEMpo

-Tenho saudades tuas. 
Dizia ela quase em surdina, com o telemóvel encaixado entre o ouvido e a almofada. 
Dizia-o muitas vezes, mas nunca da boca para fora. Sempre que o dizia sentia-o, mas não o chegava a dizer todas as vezes que o sentia. 
Do outro lado da linha, um calmo:
-Ainda não passou assim tanto tempo, meu amor. 
Era claro para ela, que ele lhe respondia com toda a tranquilidade e carinho de quem não teme que o chão abata de um dia para o outro. Mas, habituada aos absurdos da vida, cada dia que passava pesava-lhe no corpo, prendia-lhe os movimentos e toldava-lhe o sentir. 
No entanto, apenas um:
-Pois, tens razão. 
Que caia no silêncio da almofada e ecoava pela cama, dele, e a imediata percepção da mágoa, dela. 
Ela sabia que nunca o tempo que passavam afastados seria assim, tão penoso, para ele. E ele também. E, ele sabia também que esse era, talvez, o motivo que mais pesava no tempo que corria do lado dela. 
E por isso um atenuar, um encerrar sem deixar pousar as palavras nos lençóis, de cada um:
-Cada pessoa vive o tempo de forma diferente, intrínseca. A noção de muito ou pouco tempo é dúbia e muito questionável. 
Mas de lá já uma voz ligeiramente embargada e de cá já um travo amargo na boca. 
E, nenhum a querer pisar o chão, o tal que ela tão bem sabia que a qualquer momento podia desabar. Nenhum a querer sentir os absurdos da vida, das vidas dos dois e de cada um. Nenhum a saber como embalar aquele fantasma que toda a conversa, de almofada para almofada que diariamente trocavam antes de dormir, absorvia. 

O tempo, esse, passava imune aos medos, às mágoas e às certezas dos dois e, num silêncio ensurdecedor, forçava a despedida. Do lado dela, sentida. Do lado dele, perdido. 

Entre uma cama e outra, um mundo de vivências diferentes, um oceano de experiências díspares, uma ilha de tempo comum que os unia e que, de duas maneiras, os ajudava a passar o tempo que não era deles. 

"Descansa. Bjnh"
"Noite tranquila. Bjnhs"


Liliana Lima