Sentei-me na MARGEM, esgotada, enervada e sem forças para continuar.
Todo o mundo me parecia estar na OUTRA MARGEM.
Mesmo tu, que sentia tocar-me, estavas lá do OUTRO lado.
As vozes chegavam de longe e a cidade parecia desaparecida.
Com o Tejo a desaguar em mim, ouvi a tua voz.
Com a Lua Nova a esconder-se comigo, senti a tua mão.
Com o corpo a tremer num turbilhão de sentimentos, reconheci o teu calor.
Levantei-me, esgotada, dESTA MARGEM.
Olhei à volta e decidi atravessar a ponte para o OUTRO lado e, num só passo, anular as MARGENS.
Liliana Lima
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terça-feira, junho 18, 2019
esta OUTRA margem
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sábado, junho 15, 2019
SAPI(paci)ÊNCIA
Só sei explicar o que sinto através do ritmo com que, nas entrelinhas, escrevo.
Sou sempre inteira, mas nem sempre me traduzo completamente para a linguagem corrente.
Não que não queira ser lida.
Não que me importe aparecer transparente.
Não que queira ser altiva ou, propositadamente, diferente.
Pelo contrário.
A batalha comigo trava-se dentro mim própria e o leito onde jazem os argumentos derrotados é um ringue de difícil saída.
É que é nas gavetas, que se escondem por dentro daquelas portas de vidro que guardam o comum e vulgar dos dias, que se sentam os meus fantasmas, tão educados e persistentemente presentes.
E é precisamente nos dias banais que, como um carro mal arrumado ou uma nota fora do tom, saem dos seus aposentos e se apresentam, em formação, marchando sobre o meu corpo.
É então que procuro guarida na escrita e passo outro dia completo a estudar táticas e movimentos, na esperança de ganhar a guerra que, resguardadamente, se debate em e sobre mim.
Um dia, ou dois, ou três, conforme a sapi(paci)ência dos outros de ler o tanto que, nas entrelinhas, escrevo.
É que, só mesmo assim me sei explicar.
Lili
Sou sempre inteira, mas nem sempre me traduzo completamente para a linguagem corrente.
Não que não queira ser lida.
Não que me importe aparecer transparente.
Não que queira ser altiva ou, propositadamente, diferente.
Pelo contrário.
A batalha comigo trava-se dentro mim própria e o leito onde jazem os argumentos derrotados é um ringue de difícil saída.
É que é nas gavetas, que se escondem por dentro daquelas portas de vidro que guardam o comum e vulgar dos dias, que se sentam os meus fantasmas, tão educados e persistentemente presentes.
E é precisamente nos dias banais que, como um carro mal arrumado ou uma nota fora do tom, saem dos seus aposentos e se apresentam, em formação, marchando sobre o meu corpo.
É então que procuro guarida na escrita e passo outro dia completo a estudar táticas e movimentos, na esperança de ganhar a guerra que, resguardadamente, se debate em e sobre mim.
Um dia, ou dois, ou três, conforme a sapi(paci)ência dos outros de ler o tanto que, nas entrelinhas, escrevo.
É que, só mesmo assim me sei explicar.
Lili
quarta-feira, março 27, 2019
mAR
É no fundo do mar
que me escondo de mim
e nas conchas procuro a paz
para me encontrar por ti
Sei do canto estridente das gaivotas
e do embalo sedutor das sereias
Sei do areal desnudado pela maré baixa
porque nele me enrosco em mim mesma
Conheço todas as conchas coloridas
que colecciono para te oferecer
É a elas que pergunto por mim
enquanto, escondida, falo de ti
Nado em círculos para te chamar
Mas carregando todo o oceano, receio
que em maré alta transborde
e o teu pé tão catraio, à beira-mar, se suje
Queria conhecer todos os barcos
e inventar uma vela que enfunasse
à força do meu suspiro
e, seca, ao teu lado me deixasse
Mas sempre que, em tornado te tornas
e a mesa reviras e as ideias me baralhas
É no fundo do mar que me escondo
para não desaguar em ti
E sem poderes saber
provocas a maré, que se agita dentro de mim
E sem conseguires entender
chamas a noite que se debate sobre mim
É no fundo do mar
que me escondo de mim
e me embalo na maré
que, espero, me leve a ti
Lili
que me escondo de mim
e nas conchas procuro a paz
para me encontrar por ti
Sei do canto estridente das gaivotas
e do embalo sedutor das sereias
Sei do areal desnudado pela maré baixa
porque nele me enrosco em mim mesma
Conheço todas as conchas coloridas
que colecciono para te oferecer
É a elas que pergunto por mim
enquanto, escondida, falo de ti
Nado em círculos para te chamar
Mas carregando todo o oceano, receio
que em maré alta transborde
e o teu pé tão catraio, à beira-mar, se suje
Queria conhecer todos os barcos
e inventar uma vela que enfunasse
à força do meu suspiro
e, seca, ao teu lado me deixasse
Mas sempre que, em tornado te tornas
e a mesa reviras e as ideias me baralhas
É no fundo do mar que me escondo
para não desaguar em ti
E sem poderes saber
provocas a maré, que se agita dentro de mim
E sem conseguires entender
chamas a noite que se debate sobre mim
É no fundo do mar
que me escondo de mim
e me embalo na maré
que, espero, me leve a ti
Lili
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sábado, fevereiro 09, 2019
estOU AQUI
Existo de verdade
Sim
Do lado de cá do espelho,
onde te vejo olhar para mim
e para ti
Estou no reflexo que aparece apenas
quando te aproximas
de mão dada a mim
E é por existires de verdade deste lado
onde nos olhamos
sem nos vermos espelhados,
que eu estou aqui
Existo de verdade
Sim
Para cá dos arco-íris que procuro
no céu como um sinal
que me levará(ou)
até ti
Entre as cores que escorrem
por todas as ruas da cidade
"em que te procuro",
colorida, estou
aqui
E mesmo quando não vejo os arcos
que sei nascer a cada momento,
estou na linha onde se deita
o teu mar
no meu céu
Existo de verdade
Sim
Do lado de cá do arco-íris
e por entre as cores do (teu)
espelho
Liliana Lima
Sim
Do lado de cá do espelho,
onde te vejo olhar para mim
e para ti
Estou no reflexo que aparece apenas
quando te aproximas
de mão dada a mim
E é por existires de verdade deste lado
onde nos olhamos
sem nos vermos espelhados,
que eu estou aqui
Existo de verdade
Sim
Para cá dos arco-íris que procuro
no céu como um sinal
que me levará(ou)
até ti
Entre as cores que escorrem
por todas as ruas da cidade
"em que te procuro",
colorida, estou
aqui
E mesmo quando não vejo os arcos
que sei nascer a cada momento,
estou na linha onde se deita
o teu mar
no meu céu
Existo de verdade
Sim
Do lado de cá do arco-íris
e por entre as cores do (teu)
espelho
Liliana Lima
quinta-feira, dezembro 27, 2018
O sim foi dado há muito tempo, Haden?
O sim já foi dado há muito tempo
O sim já foi dado há tanto tempo
e nem precisou de anel
O sim, já foi dado, faz muito tempo
Não veio embrulhado num anel
mas sim na tomada de consciência
O sim foi dado há muito tempo
E, mesmo sem a companhia do anel,
trouxe consigo a perfeita consciência
dum tratado cumplicemente firmado
O sim, já foi dado, faz muito tempo
Ainda sem certeza?
Nem precisou de anel
Ainda sem o conhecimento completo?
Com a perfeita consciência
Ainda sem o correr do tempo?
Cumplicemente firmado
Ainda sem toda a certeza?
Debaixo da pele de cada um
O sim já foi dado há muito tempo...
Já com toda a certeza?
Não veio embrulhado num anel
Já com o todo o conhecimento?
Trouxe a perfeita consciência
Já com tempo suficiente?
Um tratado cumplicemente firmado
Já toda a certeza?
Debaixo da pele de cada um
Com a certeza absoluta?
Para todos os embrulhos futuros
Porque... o sim...
O sim, já foi dado
há muito tempo.
Liliana Lima
O sim já foi dado há tanto tempo
e nem precisou de anel
O sim, já foi dado, faz muito tempo
Não veio embrulhado num anel
mas sim na tomada de consciência
O sim foi dado há muito tempo
E, mesmo sem a companhia do anel,
trouxe consigo a perfeita consciência
dum tratado cumplicemente firmado
O sim, já foi dado, faz muito tempo
Ainda sem certeza?
Nem precisou de anel
Ainda sem o conhecimento completo?
Com a perfeita consciência
Ainda sem o correr do tempo?
Cumplicemente firmado
Ainda sem toda a certeza?
Debaixo da pele de cada um
O sim já foi dado há muito tempo...
Já com toda a certeza?
Não veio embrulhado num anel
Já com o todo o conhecimento?
Trouxe a perfeita consciência
Já com tempo suficiente?
Um tratado cumplicemente firmado
Já toda a certeza?
Debaixo da pele de cada um
Com a certeza absoluta?
Para todos os embrulhos futuros
Porque... o sim...
O sim, já foi dado
há muito tempo.
Liliana Lima
sexta-feira, dezembro 14, 2018
ESCREVES com TUDO o que ÉS, José?
O que escrevo é triste?
Escrevo mais amargura que alegria?
É possível
Sempre que o que sinto assim o é
Não sei escever "alegrias de encomenda"
Cada palavra é arrancada de mim
E carrega em si tanto quanto o que sou
Sei descrever sorrisos e o som das cantigas
Sei contar risos e dizer o colorido das flores
Sei narrar gargalhadas e apagar sombras
Sei escrever
A L E G R I A
ou
F E L I C I D A D E
Porque também as sei sentir
Mas mais depressa visto o que não sinto, do que escrevo o que não sou
Porque a palavra, a palavra escrita, perdura e ecoa
Numa leitura que nos fotografa e emoldura para sempre
Por isso, talvez o que escrevo seja triste
Ou mostre mais ansiedade do que felicidade
Na verdade, nada posso alterar
Escrevo com tudo o que sou
Só posso escrever o que é meu
Liliana Lima
Não cantes alegrias a fingir
Se alguma dor existir
A roer dentro da toca
Deixa a tristeza sair
Pois só se aprende a sorrir
Com a verdade na boca
Quem canta uma alegria que não tem
Não conta nada a ninguém
Fala verdade a mentir
Cada alegria que inventas
Mata a verdade que tentas
Pois e tentar a fingir
Não cantes alegrias de encomenda
Que a vida não se remenda
Com morte que não morreu
Canta da cabeça aos pés
Canta com aquilo que és
Só podes dar o que é teu
José Mário Branco
in Ser Solidário 1982
Escrevo mais amargura que alegria?
É possível
Sempre que o que sinto assim o é
Não sei escever "alegrias de encomenda"
Cada palavra é arrancada de mim
E carrega em si tanto quanto o que sou
Sei descrever sorrisos e o som das cantigas
Sei contar risos e dizer o colorido das flores
Sei narrar gargalhadas e apagar sombras
Sei escrever
A L E G R I A
ou
F E L I C I D A D E
Porque também as sei sentir
Mas mais depressa visto o que não sinto, do que escrevo o que não sou
Porque a palavra, a palavra escrita, perdura e ecoa
Numa leitura que nos fotografa e emoldura para sempre
Por isso, talvez o que escrevo seja triste
Ou mostre mais ansiedade do que felicidade
Na verdade, nada posso alterar
Escrevo com tudo o que sou
Só posso escrever o que é meu
Liliana Lima
Não cantes alegrias a fingir
Se alguma dor existir
A roer dentro da toca
Deixa a tristeza sair
Pois só se aprende a sorrir
Com a verdade na boca
Quem canta uma alegria que não tem
Não conta nada a ninguém
Fala verdade a mentir
Cada alegria que inventas
Mata a verdade que tentas
Pois e tentar a fingir
Não cantes alegrias de encomenda
Que a vida não se remenda
Com morte que não morreu
Canta da cabeça aos pés
Canta com aquilo que és
Só podes dar o que é teu
José Mário Branco
in Ser Solidário 1982
sábado, outubro 06, 2018
Do La.Do esquerdo
às vezes confundo o lado esquerdo com o direito
diria mesmo que mudam de lado, num segundo incompleto
baralhando o lado em que estou e caindo a pique para o outro, tão imperfeito
às vezes confundo o lado em que bate, tranquilo, o meu coração
com o lado em que me enrosco para sentir o teu corpo
respirando, profundamente coordenados com o bater da ondulação
às vezes procuro-te no lado ao lado da vida que espera
num jardim que se encanta com tudo o que se canta
e expõe lado a lado, a vida, florida, em plena Primavera
às vezes o meu lado direito passa a ser esquerdo
diria mesmo que se fundem, num beijo quase perfeito
quando os corpos, abraçados, fazem do meu peito o teu lado direito
Liliana Lima
diria mesmo que mudam de lado, num segundo incompleto
baralhando o lado em que estou e caindo a pique para o outro, tão imperfeito
às vezes confundo o lado em que bate, tranquilo, o meu coração
com o lado em que me enrosco para sentir o teu corpo
respirando, profundamente coordenados com o bater da ondulação
às vezes procuro-te no lado ao lado da vida que espera
num jardim que se encanta com tudo o que se canta
e expõe lado a lado, a vida, florida, em plena Primavera
às vezes o meu lado direito passa a ser esquerdo
diria mesmo que se fundem, num beijo quase perfeito
quando os corpos, abraçados, fazem do meu peito o teu lado direito
Liliana Lima
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sexta-feira, setembro 28, 2018
TEMpo
Meto a mão na mala à procura dos minutos que tinha (tenho quase a certeza) guardado para te oferecer.
Este caos que vive comigo teima em se instalar por entre as chaves que não abrem a porta de casa, os lápis e os batôns meio-secos de tão pouco os usar, os cadernos pretos pequeninos sempre prontos para me deixar escrever as palavras que pedem para ser contadas, e os lenços e as toalhitas e o desodorizante e o leque florido e os cartões e... as chaves que nem a porta de casa abrem.
Encontro tudo, menos o tempo que queria para nós...
Tiro a agenda e peço-lhe, baixinho, que me deixe falar aos dias, contar às horas, pedir ao tempo que se aquiete e nos abra o espaço para sermos nós (não tu e eu, mas nós).
Nunca estou certa das suas respostas, conheço bem o seu mau-feitio e inconstância. Mas, pelo sim pelo não, espreito por sobre os sábados e procuro dentro das quartas-feiras e... às vezes dou por mim num dia-sim, outras encontro apenas nãos.
Mas, entre cada nascer e pôr-do-Sol, vou guardando carinhosamente na minha mala, todos os momentos que consigo libertar para juntar ao nosso tempo (não meu e teu, mas nosso).
Meto a mão no cesto, debroado a azul que trago hoje a consizer com a saia comprida e a blusa branca. Podia jurar que lá dentro pelo menos umas horas estavam guardadas para nós.
Mas o caos que teima em viver comigo diz-me que hoje não é o dia certo.
Suspiro e olho em frente com a certeza de que, mais dia menos noite, vamos encontrar O nosso tempo.
Liliana Lima
sexta-feira, setembro 21, 2018
grito MUDO
Há um desespero, tão fundo, tão profundo, que desaba em mim sem pedir licença
Há uma porta que se abre à minha frente, por muito que tente virar numa rua qualquer, longe da minha
Há um vazio que, de repente, preenche os dias cobrindo o rio e a ponte e toda a cidade
Há uma solidão tão antiga que canta uma cantiga que não consigo abafar
Há uma inquietação que me fere o peito e se instala sem me deixar respirar
E há um grito dado no alto do mais longo silêncio
E há uma mão que não deixo acenar
E há uma máscara pintada no espelho
E há um mar a pedir para nascer
E um enjoo pouco nítido no olhar
E há uma palavra que quer ser dita
E uma força que me faz calar
Há desespero e vazio e solidão
E tu, sem me saberes ouvir no barulho da distância
Há máscaras e silêncio onde grito
E tu, sem me conseguires ver no nevoeiro da manhã
E aquela inquietação que tudo turva
E não se diz, e não se vê
que só se canta
Há um silêncio onde grito tudo o que não te digo
E a minha mão, que procuro, para me aquietar
Liliana Lima
domingo, agosto 12, 2018
sabias MEU amor?
Hoje não há luar,
sabias meu amor?
E nas noites de Lua Nova, tu sabes,
tudo me parece mais estranho e assustador
todo o mundo parece girar em meu redor
e dos fantasmas que tão bem conheces.
Consegues alcançar o fumo que assalta o meu olhar?
Estás aí sequer?
Ou já dormes enrolado nas velas dos teus moinhos vento?
Hoje não há luar,
sabias meu amor?
O mar, desapareceu num horizonte profundo
e eu, (só tu sabes) que não gosto do escuro,
procurei na forma certa das estrelas o caminho
para me encontrar.
Dás-me a mão para me acalmar?
Tens calma sequer?
Ou procuras também a tua noite iluminar?
Hoje não há luar,
sabias meu amor?
E as luzes das casas, dos barcos, das fábricas,
parecem fugir de mim apenas para me assustar
e tu sabes que sem ver a estrada me sinto afundar.
Chamas o meu nome, para te encontrar?
Falas comigo sequer?
Ou estás ocupado com os teus fantasmas a conversar?
Hoje não há luar,
sabias meu amor?
E eu, tu sabes, não consigo dormir.
Gostava de estar ao lado e ver os teus olhos sorrir.
Liliana Lima
sabias meu amor?
E nas noites de Lua Nova, tu sabes,
tudo me parece mais estranho e assustador
todo o mundo parece girar em meu redor
e dos fantasmas que tão bem conheces.
Consegues alcançar o fumo que assalta o meu olhar?
Estás aí sequer?
Ou já dormes enrolado nas velas dos teus moinhos vento?
Hoje não há luar,
sabias meu amor?
O mar, desapareceu num horizonte profundo
e eu, (só tu sabes) que não gosto do escuro,
procurei na forma certa das estrelas o caminho
para me encontrar.
Dás-me a mão para me acalmar?
Tens calma sequer?
Ou procuras também a tua noite iluminar?
Hoje não há luar,
sabias meu amor?
E as luzes das casas, dos barcos, das fábricas,
parecem fugir de mim apenas para me assustar
e tu sabes que sem ver a estrada me sinto afundar.
Chamas o meu nome, para te encontrar?
Falas comigo sequer?
Ou estás ocupado com os teus fantasmas a conversar?
Hoje não há luar,
sabias meu amor?
E eu, tu sabes, não consigo dormir.
Gostava de estar ao lado e ver os teus olhos sorrir.
Liliana Lima
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sexta-feira, agosto 10, 2018
os DIAS em que (não) SOMOS
Olho para o jardim
onde a vida (de)corre dentro
da normalidade dos dias quentes.
Lá fora uma leve brisa
faz as folhas das árvores dançar.
Cá dentro uma ventania
despenteia ideias
e desarruma sentimentos.
Chegam os dias em que somos,
cada um
e deixamos de ser
nós.
Vês o Sol que anuncia
a sua chegada no alto de cada
alvorada?
Ouves o mar que canta
a morte anunciada na volta
de cada onda?
Olho o jardim e sei-te saíndo,
de malas feitas e vontade de silêncio.
fugindo dos dias, cansados, extenuados.
Lá fora o dourado da tarde
pinta a vida que vive no jardim.
Cá dentro um crescente vazio
afoga as palavras nascem em mim.
Vês as estrelas, altas
que te dizem a morada
das histórias em que estou?
Ouves os aviões, rasteiros
que abafam a vida que não há
quando estamos sós?
Chegam os dias em que somos,
cada um
e deixamos de ser
nós.
Liliana
onde a vida (de)corre dentro
da normalidade dos dias quentes.
Lá fora uma leve brisa
faz as folhas das árvores dançar.
Cá dentro uma ventania
despenteia ideias
e desarruma sentimentos.
Chegam os dias em que somos,
cada um
e deixamos de ser
nós.
Vês o Sol que anuncia
a sua chegada no alto de cada
alvorada?
Ouves o mar que canta
a morte anunciada na volta
de cada onda?
Olho o jardim e sei-te saíndo,
de malas feitas e vontade de silêncio.
fugindo dos dias, cansados, extenuados.
Lá fora o dourado da tarde
pinta a vida que vive no jardim.
Cá dentro um crescente vazio
afoga as palavras nascem em mim.
Vês as estrelas, altas
que te dizem a morada
das histórias em que estou?
Ouves os aviões, rasteiros
que abafam a vida que não há
quando estamos sós?
Chegam os dias em que somos,
cada um
e deixamos de ser
nós.
Liliana
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domingo, abril 29, 2018
fecha os OLHOS
Fecha os olhos para que se apague a luz e tudo o que parece possa ser.
Acende uma vela ao fundo para que o que é se possa mostrar.
Aproxima-te e, baixinho, junto do meu ouvido, diz-me as inverdades que conseguires manter como certas.
Aqui onde as formas dançam ao ritmo da luz da vela, tudo parece tão mais simples! O meu corpo que se entrega ao teu sem inibições ou medos. O mundo inteiro que fechamos fora da porta. E a cumplicidade entre o que é e o que apenas parece ser.
Fecha os olhos para que se apague a luz e deixa que acredite nas fadas da noite.
Mas amanhã, de olhos abertos e corpos vestidos, não deixes que o que é seja apenas o que parece.
Amanhã, na luz do dia, diz-me a cor do rio e a força do mar, por muito que não o queira ouvir.
E depois não te preocupes, haverá sempre um espaço onde, de olhos fechados, deixaremos que, o que parece possa ser.
Lili
Acende uma vela ao fundo para que o que é se possa mostrar.
Aproxima-te e, baixinho, junto do meu ouvido, diz-me as inverdades que conseguires manter como certas.
Aqui onde as formas dançam ao ritmo da luz da vela, tudo parece tão mais simples! O meu corpo que se entrega ao teu sem inibições ou medos. O mundo inteiro que fechamos fora da porta. E a cumplicidade entre o que é e o que apenas parece ser.
Fecha os olhos para que se apague a luz e deixa que acredite nas fadas da noite.
Mas amanhã, de olhos abertos e corpos vestidos, não deixes que o que é seja apenas o que parece.
Amanhã, na luz do dia, diz-me a cor do rio e a força do mar, por muito que não o queira ouvir.
E depois não te preocupes, haverá sempre um espaço onde, de olhos fechados, deixaremos que, o que parece possa ser.
Lili
sexta-feira, agosto 25, 2017
SEGUndos
Vejo
tudo centésimos de segundos antes de acontecer
E saio
de dentro de mim para me defender
Mas fico
imóvel, parada num tempo que não quero ver
Retiro
tudo de mim para fora da cena
E olho
para dentro dela, de fora, como num teatro de marionetas
Fecho
os sentimentos e as emoções no local mais escondido em mim, congelada na peça
E olho
para dentro dela, de fora, o mais friamente que consigo
Gravo
toda a acção de todos os actos que se seguirem
E revivo tudo
já de fora, segundos, minutos, semanas às vezes, depois da peça sair de cena
E sinto
todas as emoções numa espiral que mais ninguém vê
E demoro
muito tempo a encontrar a saída para dentro de mim
E desisto
de explicar esta complexa trama que bordo em torno de mim
Assusto-me
quando deixo escapar os milésimos de segundo de segurança
E não consigo sair
de mim, e deixar de sentir, e virar as costas, e defender-me a tempo
E então absorvo
todo o guião como barro girando que se vai moldando pelas mãos do artesão
E então salto
para outros filmes qual Alice caindo noutra dimensão
E então não controlo
a realidade que vivo, porque no palco um labirinto de espelhos faz-me perder de mim
E então assusto-me
com esta montagem desordenada que, tantas vezes, ultrapassa o que, na verdade, se passa nesses milésimos de segundo
Vivo
todas as cenas de uma só vez
Re.ajo
de acordo com o tamanho dos moinhos que rodam dentro de mim
E sinto
todas as emoções numa espiral que mais ninguém vê
E demoro
muito tempo a encontrar a saída para dentro de mim
E desisto
de explicar esta complexa trama que bordo em torno de mim
Liliana Lima
tudo centésimos de segundos antes de acontecer
E saio
de dentro de mim para me defender
Mas fico
imóvel, parada num tempo que não quero ver
Retiro
tudo de mim para fora da cena
E olho
para dentro dela, de fora, como num teatro de marionetas
Fecho
os sentimentos e as emoções no local mais escondido em mim, congelada na peça
E olho
para dentro dela, de fora, o mais friamente que consigo
Gravo
toda a acção de todos os actos que se seguirem
E revivo tudo
já de fora, segundos, minutos, semanas às vezes, depois da peça sair de cena
E sinto
todas as emoções numa espiral que mais ninguém vê
E demoro
muito tempo a encontrar a saída para dentro de mim
E desisto
de explicar esta complexa trama que bordo em torno de mim
Assusto-me
quando deixo escapar os milésimos de segundo de segurança
E não consigo sair
de mim, e deixar de sentir, e virar as costas, e defender-me a tempo
E então absorvo
todo o guião como barro girando que se vai moldando pelas mãos do artesão
E então salto
para outros filmes qual Alice caindo noutra dimensão
E então não controlo
a realidade que vivo, porque no palco um labirinto de espelhos faz-me perder de mim
E então assusto-me
com esta montagem desordenada que, tantas vezes, ultrapassa o que, na verdade, se passa nesses milésimos de segundo
Vivo
todas as cenas de uma só vez
Re.ajo
de acordo com o tamanho dos moinhos que rodam dentro de mim
E sinto
todas as emoções numa espiral que mais ninguém vê
E demoro
muito tempo a encontrar a saída para dentro de mim
E desisto
de explicar esta complexa trama que bordo em torno de mim
Liliana Lima
sábado, novembro 05, 2016
Chão
De quando te foge o chão, e o pé descalço bate no asfalto
De quando estendes a mão à procura da calma que não volta na palma vazia
De quando te foge o chão, e as paredes rodam à tua volta como slides envelhecidos e desconexos
De quando os gritos te assustam e te ferem, num loop de memórias escondidas debaixo do tapete
De quando o silêncio te invade, como a maré que revolve a areia e desenterra as conchas e arranca as algas
De quando o calor que te falta enregela a cama e arrefece os lençóis e te esvazia as emoções
De quando te foge o chão e os fantasmas, fechados nas arcas, se soltam numa dança de bruxas
De quando te sentes afundar em ti, e por momentos te perdes no poço onde moram os medos
De quando precisas duma palavra, abraço, duma palavra, mão, duma palavra, carinho , e te falta a voz para as pedires
De quando te foge o chão e, de repente escuro, de repente longe, de repente só, não o consegues agarrar
De quando te foge a paz, e "num segundo se envolam muitos anos"(*).
Liliana Lima
De quando estendes a mão à procura da calma que não volta na palma vazia
De quando te foge o chão, e as paredes rodam à tua volta como slides envelhecidos e desconexos
De quando os gritos te assustam e te ferem, num loop de memórias escondidas debaixo do tapete
De quando o silêncio te invade, como a maré que revolve a areia e desenterra as conchas e arranca as algas
De quando o calor que te falta enregela a cama e arrefece os lençóis e te esvazia as emoções
De quando te foge o chão e os fantasmas, fechados nas arcas, se soltam numa dança de bruxas
De quando te sentes afundar em ti, e por momentos te perdes no poço onde moram os medos
De quando precisas duma palavra, abraço, duma palavra, mão, duma palavra, carinho , e te falta a voz para as pedires
De quando te foge o chão e, de repente escuro, de repente longe, de repente só, não o consegues agarrar
De quando te foge a paz, e "num segundo se envolam muitos anos"(*).
Liliana Lima
" E por vezes”
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos
David Mourão-Ferreira
segunda-feira, setembro 05, 2016
MeRiDiAnO
Sem margem de erro, a minha rota leva-me sempre ao meridiano de mim mesma. Esta linha colorida que dança entre o cinza e o rosa que sou e me mergulha numa maré inconstante. A linha imaginária que liga a figura imaginada de mim e do seu contrário, que afinal também sou.
Podia jurar que quando me lanço ao mar levo a bússola e a rota delineada nas cores mais claras de mim. E de repente uma derrapagem vinda do nada, ou do tudo que se escondia no fundo do mar...
Podia jurar que ao sair levo os sapatinhos vermelhos bem aconchegados aos pés. Mas uns passos mais apressados e uma "pedra no meio do caminho", uns dias inesperada, outros dias tão previsível...
Podia jurar que sempre a vontade de me conter, de me calar, de me acalmar. Mas no lado de lá do espelho, eu, ou o contrário, a chorar, a gritar, a resmungar...
Sem margem de erro a minha rota leva-me sempre ao meridiano de mim mesma. Semi-círculo que me circunda nestes dois tons com que me pinto, rosa e cinza. Fé e medo. Paixão e frieza. Linha nascida numa corrente inquieta, que nasce e desagua dentro do meu peito, e me percorre o corpo, alterando-me a corrente sanguínea à força das vontades duma força que desconheço.
Liliana
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segunda-feira, agosto 15, 2016
Pra ia
Escorre-me a areia por entre os dedos ao sabor do vento
E no entanto podia jurar que ainda agora a tua mão na minha
O Sol consome todo o horizonte com o virar da ampulheta
São corpos recortados no prateado intenso que invadem a praia
Figuras indistintas que não consigo nomear
Semi-cerro os olhos doridos com a força da luz para te procurar
E no entanto ainda agora podia jurar que te estava a abraçar
Liliana Lima
segunda-feira, junho 06, 2016
Lou.Cura
Olho através do espelho redondo com uma pega trabalhada em prata e procuro a minha loucura dentro dum chapéu. Os ponteiros lembram-me que as horas fogem de mim e saio com o miúdo pela mão, saltitando pelo jardim de relógio em punho.
As minhas lutas jogam-se num tabuleiro de xadrez interno, onde as regras seguem as vontades voláteis duma rainha que, em mim, grita tão alto que quase deixo de ouvir o mundo fora do espelho.
Sento-me comigo, numa dimensão multi-temporal, e bebo chá com as loucuras passadas enquanto invento novos chapéus para as que estão por vir.
Sei há muito que o impossível é a desculpa que nos contamos, embrulhada num bolinho que nos faz diminuir, ao mesmo tempo que nos enroscamos num canto duma toca onde na verdade acabamos por cair.
O lado de lá(?) espelha o teu sorriso tranquilo, de quem nunca sentiu o cheiro da cola com que se faz um chapéu. Serás capaz de te sentar nesta mesa coberta de toda a loucura que, à hora do chá, se senta comigo?
Apareço e esfumo-me à força das verdades que, de sorriso esvoassante, atiro ao ar em forma de borboletas azuis. Será que me sentes, enrolada no teu pescoço, sussurrando que o caminho que escolhes é indiferente enquanto não souberes para onde queres ir? Conseguirás dar-me a mão e acompanhar-me nesta aventura de loucuras guardadas em castelos de cartas?
O lado de lá(?) espelha os chapéus que guardo em cima do roupeiro. Nunca saio com eles, mas teimo em coleccioná-los, embrulhados em papel de seda ou fechados em caixas redondas de cartão.
No lado de fora da janela voa uma borboleta azul e o relógio canta que são horas de sair. Guardo as cartas na caixa de madeira com um coração vermelho, apago o cachimbo que envolve de fumo a mesa do chá e desapareço por entre a loucura dos dias.
Olho através do espelho redondo com uma pega trabalhada em prata e vejo-te aproximar de chapéu na cabeça.
Liliana
As minhas lutas jogam-se num tabuleiro de xadrez interno, onde as regras seguem as vontades voláteis duma rainha que, em mim, grita tão alto que quase deixo de ouvir o mundo fora do espelho.
Sento-me comigo, numa dimensão multi-temporal, e bebo chá com as loucuras passadas enquanto invento novos chapéus para as que estão por vir.
Sei há muito que o impossível é a desculpa que nos contamos, embrulhada num bolinho que nos faz diminuir, ao mesmo tempo que nos enroscamos num canto duma toca onde na verdade acabamos por cair.
O lado de lá(?) espelha o teu sorriso tranquilo, de quem nunca sentiu o cheiro da cola com que se faz um chapéu. Serás capaz de te sentar nesta mesa coberta de toda a loucura que, à hora do chá, se senta comigo?
Apareço e esfumo-me à força das verdades que, de sorriso esvoassante, atiro ao ar em forma de borboletas azuis. Será que me sentes, enrolada no teu pescoço, sussurrando que o caminho que escolhes é indiferente enquanto não souberes para onde queres ir? Conseguirás dar-me a mão e acompanhar-me nesta aventura de loucuras guardadas em castelos de cartas?
O lado de lá(?) espelha os chapéus que guardo em cima do roupeiro. Nunca saio com eles, mas teimo em coleccioná-los, embrulhados em papel de seda ou fechados em caixas redondas de cartão.
No lado de fora da janela voa uma borboleta azul e o relógio canta que são horas de sair. Guardo as cartas na caixa de madeira com um coração vermelho, apago o cachimbo que envolve de fumo a mesa do chá e desapareço por entre a loucura dos dias.
Olho através do espelho redondo com uma pega trabalhada em prata e vejo-te aproximar de chapéu na cabeça.
Liliana
quarta-feira, janeiro 27, 2016
Terra do NUNCA
Onde foi que tropecei e deixei cair o xaile, ficando com os ombros ao frio?
Como foi que parti o relógio, ficando perdida nas horas descompassadas?
Porque foi que me perdi do caminho amarelo que trazia no mapa?
Ajuda-me a passar por cima do remoinho onde me vejo afogar.
Ajuda-me a não me ferir nas arestas que, afinal, sempre aqui estiveram.
Ajuda-me a olhar o horizonte evitando enfrentar o Sol.
Ajuda-me a pintar o mar sem deixar entrar, à força, a maré.
Ajuda-me a avançar sem carregar o peso das certezas antigas.
Ajuda-me a sorrir para o espelho sem lhe ver o que não quer mostrar.
Ajuda-me a dizer de mim, para não me amordaçar.
Ajuda-me a estar sem este peso apertado, este aperto pesado.
Ajuda-me a afastar esta zanga, de querer ao nunca chegar.
Ajuda-me a sorrir
Ajuda-me a cantar
Ajuda-me a ver
Ajuda-me a sentir
Ajuda-me a dançar
Ajuda-me a ser
Sem sombras
Nem medos
Sem fantasmas
Nem medos
Sem entrelinhas
Nem medos
Sem mágoas
Nem medos
Ajuda-me, sem medo.
Liliana
Como foi que parti o relógio, ficando perdida nas horas descompassadas?
Porque foi que me perdi do caminho amarelo que trazia no mapa?
Ajuda-me a passar por cima do remoinho onde me vejo afogar.
Ajuda-me a não me ferir nas arestas que, afinal, sempre aqui estiveram.
Ajuda-me a olhar o horizonte evitando enfrentar o Sol.
Ajuda-me a pintar o mar sem deixar entrar, à força, a maré.
Ajuda-me a avançar sem carregar o peso das certezas antigas.
Ajuda-me a sorrir para o espelho sem lhe ver o que não quer mostrar.
Ajuda-me a dizer de mim, para não me amordaçar.
Ajuda-me a estar sem este peso apertado, este aperto pesado.
Ajuda-me a afastar esta zanga, de querer ao nunca chegar.
Ajuda-me a sorrir
Ajuda-me a cantar
Ajuda-me a ver
Ajuda-me a sentir
Ajuda-me a dançar
Ajuda-me a ser
Sem sombras
Nem medos
Sem fantasmas
Nem medos
Sem entrelinhas
Nem medos
Sem mágoas
Nem medos
Ajuda-me, sem medo.
Liliana
sábado, dezembro 26, 2015
cinema
Sim, sei como o filme vai acabar. Não o soube imediatamente quando comprei o bilhete e entrei na sala, escura, já com o genérico no grande ecrã. Mas assim que encontrei o meu lugar e me sentei, vi o desfecho atrás do grande plano sobre o meu sentir.
Sim, é verdade que me encostei (encosto) no sofá projectando as cenas de cada capítulo, esperando que desse lado não me digas "corta" de cada vez que te levantas e me dizes adeus. Vou guardando as películas dos dias claros dentro duma lua sempre cheia, para nas noites escuras, iluminar os meus sonhos.
Sim, eu sei que os arco-íris que me transportam para lá da acção fazem parte duma realidade cinéfila pouco fiel à realidade. Reconheço os elementos cénicos no outro lado do espelho e até percebo o guarda-roupa que condiz com os sapatinhos vermelhos.
Mas é nesse filme que sinto o descompassar do palpitar do coração e o calor húmido das imagens sugeridas e até mesmo o amargo de boca que, às vezes, se prolonga até à próxima sessão.
É nele que sou e me dou em todas as sequências e sequelas. E é nele que escolho actuar. E, sei que, nele não se vive só de ilusão.
Mas, sim, sei como o filme vai acabar.
domingo, fevereiro 24, 2013
Dança
Queria
escrever... dizer... contar.... chorar, rir, aplaudir, zangar ou mesmo só
desabafar.... exorcizar os fantasmas. Afastar os medos, delinear um caminho com
início meio e fim e percorrê-lo sem receios de que o passado, não se limitando
a ficar lá atrás, tente sempre sem vergonha envolver-se no agora, no hoje e até
no amanhã....
Queria escrever... dizer... contar.... exorcizar os
fantasmas, saber o que quero e tentar obtê-lo; prometer a mim mesma e realizar;
querer e gozar; aprender a estar e a ser; e conseguir não falar, nem cantar,
a estar e a ouvir apenas o silêncio...
Queria escrever... exorcizar os fantasmas de tal
forma que os supere. Enfrentá-los até que eles murchem; conseguir abafar a sua
cor e suprimir os seus gritos. E então simplesmente viver. Com os medos, as
hesitações, as inseguranças, mas também com certezas, mas também com orgulho,
mas também com força para me amar a mim própria e dar-me ao trabalho de me
olhar, de me acarinhar, de me ver como realmente sou e gostar do que vejo “do
outro lado do espelho”, qual Alice após uma das suas incursões na 5ª
dimensão....
Queria escrever... poder fazê-lo sobre a minha
íntima dimensão sem me perder nela, sem ser apanhada pelas teias que tecem este
labirinto de intensa escuridão... Conseguir ver para além do corredor que
se adivinha, e escrever o que vejo, sem me deixar ferir pelas navalhas, imagino, me estão apontadas... Ter a força de dar o passo em direcção ao abismo e,
sem me magoar com a queda, escrever o que sinto... E logo de seguida saltar
para o desconhecido deste poço sem fundo, escavado no mais profundo do meu ser e,
sem me perder, descrever as suas paredes...
Queria escrever... e fazê-lo sem magoar ninguém.
Conseguir pintar as memórias com tais cores que assombrem os sentidos de quem
poderia ser afectado... Criar tais distracções que me permitam fintar quaisquer
abertas à autocrítica das personagens reais... Inventar novas melodias que
se distingam de todas as músicas jamais ouvidas... E captar de tal modo as
imagens, que nem o mais avançado sistema de projecção as consiga descodificar...
E então sim... escrever, escrever, escrever...
deixar-me levar pelas letras como a bailarina pelas sapatilhas vermelhas...
Envolver-me na melodia das palavras como se uma orquestra ouvisse... Enredar-me
de tal forma no inesperado ritmo das frases que os textos se assemelhem ao
rufar dos tambores africanos...
E nos manuscritos me perder até me encontrar na
magia da criação... E nas palavras me dissolver até me estruturar na elegância
das memórias... E nos textos me desintegrar até me converter, enfim, na mais
simples história duma flor colorida das que vivem apenas um dia...
Mas que palavras escreverei se elas próprias não rimam
com as imagens que quero passar, e que personagens criarei se, no fundo, elas
não passam de metáforas de si próprias, lutando para se libertarem das
mordaças e coletes que lhes amarrei?
Nesta dança à volta do lume, os corpos que se movem
são os meus medos e o ritmos que os envolvem são os dias passados em revista
pelas minhas mãos... As palavras envolvem-me numa espiral de loucura com
vontade própria e as letras fogem-me como grãos de areia procurando o
pôr-do-sol...
Será inevitável este encontro sistemático frente ao espelho?
Porque me persigo sem me dar tempo de me esconder?
De onde vem esta necessidade de me dar... e ser recebida?
Liliana
(07-07-2004)
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