Nunca mais fui ver o Tejo.
Costumava ir contigo para lhe falar de mim.
Sabemos que a Terra gira e com ela as vontades e intenções e necessidades.
O Tejo perdido nos afazeres, que deixou de ser meu para passar a ser teu, nunca mais fui ver.
E faz-me falta, disso sabes tu que me levavas até à margem de cá e me deixavas reter as diferentes cores e disposições que nele ondulam.
Sabemos que quando te dei AO rio numa manhã fria de Sol, te dei O Tejo. Ficando, por isso, mais longe do "mais belo rio que corre na minha aldeia".
Nunca mais fui ver o Tejo.
Vamos ver o rio num destes dias? Podemos não pensar em nada e ficar assim, "só ao pé dele" (só ao pé de ti).
Liliana Lima
* Alberto Caeiro
in Guardador de Rebanhos
Átila, 1993
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sábado, maio 25, 2019
sábado, abril 13, 2019
MARgens
É cá dentro que continuas a dizer-me bom dia
É cá dentro que me acompanhas na eterna correria
É cá dentro que me visto de ti para me construir a mim
Querias ficar no Tejo, disseste-me um dia
Querias ficar nas águas que tantos anos te banharam
Querias ficar ali
Podem as margens conter-te de uma só vez?
Podem as águas embalar o teu sono de vez?
Posso largar-te sem quebrar os laços que nos juntaram?
E, por consequência, perder-me nas lágrimas que se afundaram?
Quantas vezes choramos um adeus?
Queria deixar-te no Tejo, como pediste um dia
Deixar-te em paz nas águas que tão bem conhecias
Queria deixar-te ali
Se é cá dentro que continuas a florir
Nas receitas
Nas feições
Nos dizeres
Nas graças
Nas roupas
Nos gostos
Nas escolhas
Nas canções
Nos caminhos
Porque pesavas tanto, quando te deixei cair?
Podem as margens conter-te de uma só vez?
Podem as águas embalar o teu sono de vez?
Posso largar-te sem quebrar os laços que nos juntaram?
E, por consequência, perder-me nas lágrimas que se afundaram?
Quantas vezes choramos um adeus?
Liliana Lima
É cá dentro que me acompanhas na eterna correria
É cá dentro que me visto de ti para me construir a mim
Querias ficar no Tejo, disseste-me um dia
Querias ficar nas águas que tantos anos te banharam
Querias ficar ali
Podem as margens conter-te de uma só vez?
Podem as águas embalar o teu sono de vez?
Posso largar-te sem quebrar os laços que nos juntaram?
E, por consequência, perder-me nas lágrimas que se afundaram?
Quantas vezes choramos um adeus?
Queria deixar-te no Tejo, como pediste um dia
Deixar-te em paz nas águas que tão bem conhecias
Queria deixar-te ali
Se é cá dentro que continuas a florir
Nas receitas
Nas feições
Nos dizeres
Nas graças
Nas roupas
Nos gostos
Nas escolhas
Nas canções
Nos caminhos
Porque pesavas tanto, quando te deixei cair?
Podem as margens conter-te de uma só vez?
Podem as águas embalar o teu sono de vez?
Posso largar-te sem quebrar os laços que nos juntaram?
E, por consequência, perder-me nas lágrimas que se afundaram?
Quantas vezes choramos um adeus?
Liliana Lima
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sábado, fevereiro 23, 2019
(des)CONSTRUÇÃO
Do tanto que fomos e construímos
Levo os vestidos, dos dias claros junto ao Tejo
Levo os sonhos, três vezes saídos de mim e embalados a dois
Levo os sapatos, os vermelhos com que bati os calcanhares
E deixo as lágrimas, deixo os pilares que mantêm a casa, que construímos
Do tanto que fomos e construímos
Levo os casacos, de Inverno que lá fora está frio
Levo todos e cada sorriso que partilhámos, à mesa da cozinha
Levo os livros, partes de mim de que não consigo separar-me
E deixo as angústias, deixo arrumada a casa, que construímos
Do tanto que fomos e construímos
Levo o blush, o baton e o rímel preto
Levo a cumplicidade, partilhada numa troca de olhares
Levo os CD's, da música que se canta dentro e fora de mim
E deixo o silêncio, deixo o desencanto intruso nesta casa, que construímos
Do tanto que fomos e construímos
Levo as plantas que aprendi a cuidar
Levo o carinho servido num tabuleiro, numa manhã de domingo
Levo as malas, umas dentro das outras, as grande e as pequenas
E deixo as discussões, deixo as palavras amargas que ecoam na casa, que construímos
E deixo os quadros e as panelas
Deixo os sofás e os candeeiros
Deixo as televisões e os pratos
Deixo as estantes e as fotos nas paredes
Agora que abro a porta para sair
Guardo as noites e os beijos
Guardo os jantares e almoços a dois
Guardo os cheiros e os sabores
Guardo os recortes e as memórias
Dum amor que nasceu, cresceu e deu frutos
E, gradual e compassadamente, saiu pelas janelas e desaguou no Tejo
Que o levou nas suas águas e, tenho a certeza que agora
Agora que abro a porta para saír
"o mar / tem mais peixinhos a nadar"
Liliana Lima
Levo os vestidos, dos dias claros junto ao Tejo
Levo os sonhos, três vezes saídos de mim e embalados a dois
Levo os sapatos, os vermelhos com que bati os calcanhares
E deixo as lágrimas, deixo os pilares que mantêm a casa, que construímos
Do tanto que fomos e construímos
Levo os casacos, de Inverno que lá fora está frio
Levo todos e cada sorriso que partilhámos, à mesa da cozinha
Levo os livros, partes de mim de que não consigo separar-me
E deixo as angústias, deixo arrumada a casa, que construímos
Do tanto que fomos e construímos
Levo o blush, o baton e o rímel preto
Levo a cumplicidade, partilhada numa troca de olhares
Levo os CD's, da música que se canta dentro e fora de mim
E deixo o silêncio, deixo o desencanto intruso nesta casa, que construímos
Do tanto que fomos e construímos
Levo as plantas que aprendi a cuidar
Levo o carinho servido num tabuleiro, numa manhã de domingo
Levo as malas, umas dentro das outras, as grande e as pequenas
E deixo as discussões, deixo as palavras amargas que ecoam na casa, que construímos
E deixo os quadros e as panelas
Deixo os sofás e os candeeiros
Deixo as televisões e os pratos
Deixo as estantes e as fotos nas paredes
Agora que abro a porta para sair
Guardo as noites e os beijos
Guardo os jantares e almoços a dois
Guardo os cheiros e os sabores
Guardo os recortes e as memórias
Dum amor que nasceu, cresceu e deu frutos
E, gradual e compassadamente, saiu pelas janelas e desaguou no Tejo
Que o levou nas suas águas e, tenho a certeza que agora
Agora que abro a porta para saír
"o mar / tem mais peixinhos a nadar"
Liliana Lima
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sábado, outubro 20, 2018
papeLAria
Lembro-me de ti sempre na papelaria, por entre os livros que chegavam em grandes caixas e faziam parte de grandes listas de pais e mães que esperavam em grandes filas que circundavam o balcão e acabavam no passeio de onde via o café com mesas redondas à volta das quais corria e brincava com a minha prima
Lembro-me de ti sempre na papelaria, ou na sala mesmo por cima sentada com a manta nas pernas ao lado da "avó uma" que sem sucesso me tentava ensinar o ponto de meia com o qual deveria tricotar um cachecolpara um cuco que nunca entendi de onde apareceria mas que o levaria algures para um ninho
Lembro-me de ti sempre na papelaria, onde me apaixonei pelo cheiro dos lápis de carvão todos do mesmo tamanho perfeitamente afiados e as sebentas e os cadernos embalados em papel creme que como prendas desembrulhavamos e guardavamos nas prateleiras do fundo
Lembro-me de ti sempre na papelaria, ou em tua casa no cimo das escadas íngremes nas noites quentes e nas trovoadas secas de Verão onde aprendi a medir a distância da trovoada pelo número de segundos que cabem entre o relâmpago e o trovão
Passei há pouco pela papelaria e apenas porta e montra, tapadas, fechadas
sem o cheiro a livros e a lápis
nem o toque do relógio dos avós que rivalizava com o da igreja
nem as janelas da frente abertas por onde o acaso uma noite deixou entrar o caos nas asas de um morcego
nem a mesa encostada à parede vestida de branco e coberta de festa onde não podíamos tocar até à visita do Sr Padre
nem o cheiro a livros e a lápis
Não sei qual é agora a tua morada. Sei que não estás onde te deixei
Suspeito que já chegaste algures a uma papelaria
Acredito que vais organizar lápis e embrulhar cadernos
Espero que um dia, outro dia, te encontre assim, numa papelaria
Liliana Lima
quinta-feira, agosto 23, 2018
UM dia
Um dia, quando deixares de gostar de mim
Que seja a primeira a saber
Que nada me escondas porque posso chorar
E mo digas, boca-boca,
Que já não gostas de mim
Um dia, quando deixares de me querer
Que me digas o nome que em ti suspira
Que aquece o corpo que ficou marcado em mim
Que o meu lugar, na almofada da tua cama, ocupa
Um dia, quando te libertares de mim
Que eu te veja, pela calçada, a sair
Que te despeças com leve acenar
E te afastes sem desviar olhar
Um dia, quando deixares de gostar de mim
Que eu seja a primeira a sentir
Que deixes a chave de mim, no portão
E que me sejas meigo no despedir
Um dia, quando deixares de me desejar a mim
Liliana Lima
Que seja a primeira a saber
Que nada me escondas porque posso chorar
E mo digas, boca-boca,
Que já não gostas de mim
Um dia, quando deixares de me querer
Que me digas o nome que em ti suspira
Que aquece o corpo que ficou marcado em mim
Que o meu lugar, na almofada da tua cama, ocupa
Um dia, quando te libertares de mim
Que eu te veja, pela calçada, a sair
Que te despeças com leve acenar
E te afastes sem desviar olhar
Um dia, quando deixares de gostar de mim
Que eu seja a primeira a sentir
Que deixes a chave de mim, no portão
E que me sejas meigo no despedir
Um dia, quando deixares de me desejar a mim
Liliana Lima
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