às vezes confundo o lado esquerdo com o direito
diria mesmo que mudam de lado, num segundo incompleto
baralhando o lado em que estou e caindo a pique para o outro, tão imperfeito
às vezes confundo o lado em que bate, tranquilo, o meu coração
com o lado em que me enrosco para sentir o teu corpo
respirando, profundamente coordenados com o bater da ondulação
às vezes procuro-te no lado ao lado da vida que espera
num jardim que se encanta com tudo o que se canta
e expõe lado a lado, a vida, florida, em plena Primavera
às vezes o meu lado direito passa a ser esquerdo
diria mesmo que se fundem, num beijo quase perfeito
quando os corpos, abraçados, fazem do meu peito o teu lado direito
Liliana Lima
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sábado, outubro 06, 2018
sábado, junho 02, 2018
flor.es
Se um dia eu te der flores,
vai ser num
vaso pronto
a plantar.
Serão rosa-velho,
pequeninas e só te
chamarão pr'ás
regar.
Se um dia eu te der flores,
vai ser
numa manhã para
lembrar.
Serão muitas,
abertas,
de pétalas brancas
e, no teu
canteiro,
eu mesma
as vou
guardar.
vai ser num
vaso pronto
a plantar.
Serão rosa-velho,
pequeninas e só te
chamarão pr'ás
regar.
Se um dia eu te der flores,
vai ser
numa manhã para
lembrar.
Serão muitas,
abertas,
de pétalas brancas
e, no teu
canteiro,
eu mesma
as vou
guardar.
Se um dia eu te der flores,
vai ser ainda
por semear.
Estarão
numa caixinha
fechada
à espera que,
delas,
te decidas
lembrar.
Se um dia eu te der flores,
tenho certeza,
que vais por elas
olhar.
É que,
nos dias em que me deste flores,
em botão, vasos
ou ramos,
plantadas, secas
ou regadas,
por mim,
todas elas
são para
acarinhar.
Liliana Lima
domingo, maio 20, 2018
pa.REDE
Qualquer dia vou pendurar um jardim na parede. Quero flores lilás em cima para lembrar o céu e muitas folhas verdes a descer numa cascata salpicada de botões amarelos até desaguar num manto branco que lembrará nuvens, sentadas na terra. E sim, também vos quero lá, papoilas de mim, desenhando a vermelho o caminho concêntrico onde te perco e me encontro.
Quando eu tiver um jardim na parede, ficará logo à entrada, para todos o verem e por ele passearem. É que uma parede assim, cheia de vida, olha-nos olhos-nos-olhos a cada encontro e diz-nos tudo o que a vida não diz ou esconde debaixo da terra.
Quando tiver um jardim pendurado, convido-te para um chá. E logo à entrada, antes de qualquer palavra, ficarás a saber tudo o que não te sei contar. É que um jardim assim, com o céu colado ao tecto, alto que é, e uma manta branca a tocar o chão, deixa à vista o sangue que escondemos de cada ferida que se fez cicatriz e que, juntas, desenham o caminho concêntrico onde me perco e te encontro.
Qualquer dia, quando eu tiver um jardim na parede da entrada, deixará de haver entre-linhas, ausências ou silêncios confusos. Porque as flores tudo mostram nas suas pétalas e nada escondem por entre as folhas. E então conseguirei ver, desenhado a vermelho, o caminho concêntrico onde não me perderei e, com certeza, te encontrarei. Quando eu tiver um jardim pendurado na parede...
Lili
quarta-feira, maio 16, 2018
verde, QUE TE QUERO verde....
Vou calcando a terra
semando flores que só
nascem no próximo ano
Afago as folhas verdes
e vou multiplicando os vasos
que arrumo, empilho, penduro
Corto as folhas secas
tiro as flores murchas
E rego, com um regador
azul claro que trago d'outros poemas
Avanço revolvendo a terra
semeando flores que só
nascem no próximo ano
Tiro todas as ervas daninhas
e ajudo as raízes a rasgar a terra
onde se tornarão raízes seguras
E calco a terra, cheirando
o verde que me seduz
E rego, com um regador
azul claro que trouxe d'outros poemas
Lili
semando flores que só
nascem no próximo ano
Afago as folhas verdes
e vou multiplicando os vasos
que arrumo, empilho, penduro
Corto as folhas secas
tiro as flores murchas
E rego, com um regador
azul claro que trago d'outros poemas
Avanço revolvendo a terra
semeando flores que só
nascem no próximo ano
Tiro todas as ervas daninhas
e ajudo as raízes a rasgar a terra
onde se tornarão raízes seguras
E calco a terra, cheirando
o verde que me seduz
E rego, com um regador
azul claro que trouxe d'outros poemas
Lili
quinta-feira, abril 05, 2018
O canto DA papOILA
Fui descendo a calçada
Por entre carros fora dos carris
E respostas por aparecer
E palavras que esperava ler
Os sorrisos primaveris
Fogem rápido como balões
E as promessas que nos fazemos
Borboletas inquietas a esvoaçar
Fui subindo a avenida
Com os sacos cheios de promessas
Quase todas por começar
E um cansaço, enjoativo, pesado
Com o poder de tudo apagar
As tardes de Primavera
Cantam canções de embalar
Mesmo quando o silêncio que ecoa
Não nos deixa avançar
No canto dum passeio
Perdida num canteiro
Uma papoila chama por mim
Tráz-me à terra, e neste dia louco
Lembra-me de ti
Liliana Lima
Por entre carros fora dos carris
E respostas por aparecer
E palavras que esperava ler
Os sorrisos primaveris
Fogem rápido como balões
E as promessas que nos fazemos
Borboletas inquietas a esvoaçar
Fui subindo a avenida
Com os sacos cheios de promessas
Quase todas por começar
E um cansaço, enjoativo, pesado
Com o poder de tudo apagar
As tardes de Primavera
Cantam canções de embalar
Mesmo quando o silêncio que ecoa
Não nos deixa avançar
No canto dum passeio
Perdida num canteiro
Uma papoila chama por mim
Tráz-me à terra, e neste dia louco
Lembra-me de ti
Liliana Lima
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quarta-feira, abril 04, 2018
ABRAço
E quando uma noite branca escurece num qualquer chão de cozinha desarrumada?
Quando uma flor aberta murcha num vaso esquecido?
Quando uma cama quente se deixa esfriar num milésimo de segundo?
Quando os lábios que recebem um beijo se não se permitem descongelar?
Quando o abraço que se levanta deixa vazio o corpo que fica deitado?
O que fazer com o branco da noite que nos escorre pelss mãos abertas?
Como semear uma nova flor num vaso sem água nem terra?
Como manter quentes os lençóis de seda azul celeste desmanchados pelo amor que ali se fez?
Como prolongar o beijo para lá dos lábios?
Como deixar um pouco do calor, da paixão, da alegria dum abraço, num corpo que se mantém só ao nosso lado?
Como ser suficiente quando a ferida vai para além dos limites dos mapas estelares que conhecemos?
Como amar alguém que teima em sentir-se abandonado?
Liliana Lima
Quando uma flor aberta murcha num vaso esquecido?
Quando uma cama quente se deixa esfriar num milésimo de segundo?
Quando os lábios que recebem um beijo se não se permitem descongelar?
Quando o abraço que se levanta deixa vazio o corpo que fica deitado?
O que fazer com o branco da noite que nos escorre pelss mãos abertas?
Como semear uma nova flor num vaso sem água nem terra?
Como manter quentes os lençóis de seda azul celeste desmanchados pelo amor que ali se fez?
Como prolongar o beijo para lá dos lábios?
Como deixar um pouco do calor, da paixão, da alegria dum abraço, num corpo que se mantém só ao nosso lado?
Como ser suficiente quando a ferida vai para além dos limites dos mapas estelares que conhecemos?
Como amar alguém que teima em sentir-se abandonado?
Liliana Lima
sábado, março 31, 2018
PAR.is
Ela chamou-o para jantar
Abriu um abraço de par em par
e disse tudo o que há muito ele esperava ouvir
No seu corpo, há tanto tempo sedento do dela, aceitou,
num beijo doce em que se permitiu fugir,
e na manta de retalhos, por fim, se entregou
Ela chegou num remoinho
e abanou o seu coração
Falou do futuro, alegre,
olhando um postal de Paris
e cantou feliz, gravando, a sua canção
Rasgou-se-lhe o peito e o céu choveu noites sem fim
Ele deu-lhe a mão e tentou acender flores
Abriu um abraço e deu-se como queria, por fim
Mas sem nunca lhe conseguir afastar as dores
Ela chegou com o passado atrás de si
Ele fechou os olhos, e fingiu,
embalando-os, que não o viu
As noites frias acenderam fagulhas
e arranharam-lhe bem fundo muitas palavras cruas
Ela pediu-lhe espaço, tempo e paz
com um tom grave e frio na voz
Ele tentou entender o que fazer,
mas perdeu-se no escuro que o silêncio faz
E esperou que novamente ela o decidisse querer
Chegou decidida depois do tempo que passou
Abriu-lhe um abraço onde ele se entregou
Deu-se e recebeu-a em corpo e poesia
E, despido do mundo, ao seu lado se deitou
numa calma e meiga suspirada melodia
Ele sentiu o vento norte nas suas velas soprar
e as palavras, ainda a arranhar
e o passado sempre a avisar
na maresia salgada das lágrimas que choveu
nos tantos anos que sem ela viveu
Ela chegou depois do tempo
Com o corpo dele dela sedento
mas sem calor suficiente para a acalmar
nem tempo, nem paz, para a abraçar
Apesar de hoje e sempre a continuar a amar
Liliana Lima
Abriu um abraço de par em par
e disse tudo o que há muito ele esperava ouvir
No seu corpo, há tanto tempo sedento do dela, aceitou,
num beijo doce em que se permitiu fugir,
e na manta de retalhos, por fim, se entregou
Ela chegou num remoinho
e abanou o seu coração
Falou do futuro, alegre,
olhando um postal de Paris
e cantou feliz, gravando, a sua canção
Rasgou-se-lhe o peito e o céu choveu noites sem fim
Ele deu-lhe a mão e tentou acender flores
Abriu um abraço e deu-se como queria, por fim
Mas sem nunca lhe conseguir afastar as dores
Ela chegou com o passado atrás de si
Ele fechou os olhos, e fingiu,
embalando-os, que não o viu
As noites frias acenderam fagulhas
e arranharam-lhe bem fundo muitas palavras cruas
Ela pediu-lhe espaço, tempo e paz
com um tom grave e frio na voz
Ele tentou entender o que fazer,
mas perdeu-se no escuro que o silêncio faz
E esperou que novamente ela o decidisse querer
Chegou decidida depois do tempo que passou
Abriu-lhe um abraço onde ele se entregou
Deu-se e recebeu-a em corpo e poesia
E, despido do mundo, ao seu lado se deitou
numa calma e meiga suspirada melodia
Ele sentiu o vento norte nas suas velas soprar
e as palavras, ainda a arranhar
e o passado sempre a avisar
na maresia salgada das lágrimas que choveu
nos tantos anos que sem ela viveu
Ela chegou depois do tempo
Com o corpo dele dela sedento
mas sem calor suficiente para a acalmar
nem tempo, nem paz, para a abraçar
Apesar de hoje e sempre a continuar a amar
Liliana Lima
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remoinho,
saudade,
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