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sábado, junho 15, 2019

SAPI(paci)ÊNCIA

Só sei explicar o que sinto através do ritmo com que, nas entrelinhas, escrevo. 
Sou sempre inteira, mas nem sempre me traduzo completamente para a linguagem corrente.
Não que não queira ser lida. 
Não que me importe aparecer transparente. 
Não que queira ser altiva ou, propositadamente, diferente. 
Pelo contrário. 
A batalha comigo trava-se dentro mim própria e o leito onde jazem os argumentos derrotados é um ringue de difícil saída. 
É que é nas gavetas, que se escondem por dentro daquelas portas de vidro que guardam o comum e vulgar dos dias, que se sentam os meus fantasmas, tão educados e persistentemente presentes. 
E é precisamente nos dias banais que, como um carro mal arrumado ou uma nota fora do tom, saem dos seus aposentos e se apresentam, em formação, marchando sobre o meu corpo. 
É então que procuro guarida na escrita e passo outro dia completo a estudar táticas e movimentos, na esperança de ganhar a guerra que, resguardadamente, se debate em e sobre mim. 
Um dia, ou dois, ou três, conforme a sapi(paci)ência dos outros de ler o tanto que, nas entrelinhas, escrevo. 
É que, só mesmo assim me sei explicar. 

Lili








sexta-feira, dezembro 14, 2018

ESCREVES com TUDO o que ÉS, José?

O que escrevo é triste?
Escrevo mais amargura que alegria?
É possível
Sempre que o que sinto assim o é

Não sei escever "alegrias de encomenda"
Cada palavra é arrancada de mim
E carrega em si tanto quanto o que sou

Sei descrever sorrisos e o som das cantigas
Sei contar risos e dizer o colorido das flores
Sei narrar gargalhadas e apagar sombras

Sei escrever 

A L E G R I A 
ou 
F E L I C I D A D E

Porque também as sei sentir

Mas mais depressa visto o que não sinto, do que escrevo o que não sou
Porque a palavra, a palavra escrita, perdura e ecoa 
Numa leitura que nos fotografa e emoldura para sempre   

Por isso, talvez o que escrevo seja triste
Ou mostre mais ansiedade do que felicidade
Na verdade, nada posso alterar
Escrevo com tudo o que sou
Só posso escrever o que é meu

Liliana Lima


Não cantes alegrias a fingir
Se alguma dor existir
A roer dentro da toca
Deixa a tristeza sair
Pois só se aprende a sorrir
Com a verdade na boca

Quem canta uma alegria que não tem
Não conta nada a ninguém
Fala verdade a mentir
Cada alegria que inventas
Mata a verdade que tentas
Pois e tentar a fingir

Não cantes alegrias de encomenda
Que a vida não se remenda
Com morte que não morreu
Canta da cabeça aos pés
Canta com aquilo que és 
Só podes dar o que é teu


José Mário Branco
in Ser Solidário 1982

quinta-feira, outubro 18, 2018

que NÃO

Que não penses que, por não falar, não sinto
                                       por não dizer, não questiono
                                       por não escrever, não temo

Encosta-te, mas lembra-te de não esquecer
Que não deixa de ler quem cala

Abraça-me, mas não esqueças de te lembrar
Que não deixa de ouvir quem não escreve


Liliana Lima



sábado, junho 16, 2018

c.ASA

A casa da minha avó tem uma arca de Noé, recheada com animais de cristal  (daquele que se parte se, nos dias maus, nos apertar o coração).

A casa da minha avó tem a cama para onde eu trepava enquanto repetia, inconsequentemente, a melodia repetitiva da tabuada (sempre seguida do ralhete por a letra não rimar com a conta).

A casa da minha avó tem os dias bons, com os pratos da sala devidamente espalhados na mesa de jantar, desta vez para almoçar.

A casa da minha avó tem as memórias trazidas da frente do Tejo directamente para as molduras espalhadas um pouco por todo o lado.

A casa da minha avó tem uma menina cheia de sonhos, que escrevia com muitos erros e fazia os acentos ao contrário (devidamente vestidos de flores coloridas), para desespero da professora que, sempre zangada, ia tentando desencorajar a escrita, as flores, as cores.... 
Mas nada disso importava , porque logo a seguir às aulas a menina voltava... para casa da minha avó!

Liliana Lima


quinta-feira, abril 05, 2018

O canto DA papOILA

Fui descendo a calçada
Por entre carros fora dos carris
E respostas por aparecer
E palavras que esperava ler

Os sorrisos primaveris
Fogem rápido como balões
E as promessas que nos fazemos
Borboletas inquietas a esvoaçar

Fui subindo a avenida
Com os sacos cheios de promessas
Quase todas por começar
E um cansaço, enjoativo, pesado
Com o poder de tudo apagar

As tardes de Primavera
Cantam canções de embalar
Mesmo quando o silêncio que ecoa
Não nos deixa avançar

No canto dum passeio
Perdida num canteiro
Uma papoila chama por mim
Tráz-me à terra, e neste dia louco
Lembra-me de ti

Liliana Lima


sexta-feira, agosto 25, 2017

gAIvotas

Lá fora as gaivotas choram, ou riem (não lhes consigo distinguir a narrativa)
O mar ao fundo do fundo de todos os barulhos da noite, conta-me histórias de embalar
Mas desde cedo que não é com histórias que lá vou e o sono, acordado, diz-me que já é de madrugada

Antigamente era comum ficar em conversa com a lua
Espreitar-lhe o quarto e sentir-lhe o humor
Sentava-me ao pé da janela, sempre tive as escrivaninhas encostadas a uma janela
E escrevia com a cumplicidade silenciosa do luar
A noite sempre se mostrou mais próxima de mim, da minha essência, da minha verdade

#Uma moto ruidosa rasga a tranquilidade desta noite tão clara e os cães acordam assustados, sobressaltando os donos e vizinhos#

Mais tarde chegaram os filhos e, quem sabe, os anos e os médicos com as suas milagrosas teorias, diagnósticos e penitências
E fui como que obrigada a esquecer a noite e abraçar os dias e as suas longas horas claras
Quanto à lua, não deixei de lhe espreitar o quarto e dizer olá mas, no fundo, como que a abandonei

Hoje em dia já consigo escrever em plena praia ou até no meio do mais barulhento recreio
Nos cadernos, de capa preta, rabiscados, com setas, anotações e até flores secas
Ou num simples guardanapo que depois guardo bem dobrado na carteira
Ou cada vez mais, no teclado dum qualquer equipamento electrónico

#A passagem dum grupo animado e bem audível pelas ruas em volta, diz que a madrugada não tarda a acabar#

No entanto lá fora ainda as gaivotas que riem chorando, ou choram rindo
Mas ao fundo do fundo de todos os barulhos desta noite, deixo de ouvir os búzios contando histórias do mar

Tu dormes
Acho
Não te consigo chegar para me certificar
E, talvez, te queira assim, imaginando
A dormir
Para que eu possa velar o teu sono
Daqui, deste lado da noite

Levanto-me e vou à varanda, que não dá para o Tejo, que deixei lá atrás
E espreito a lua para lhe dizer desta minha noite tão clara
Não lhe encontro o quarto, era crescente, muito no início
Imagino-a então contigo, aninhada, a salpicar de estrelas os teu sonhos

#O barulho do carro do lixo e os vizinhos de cima na sua casa-de-banho, trazem-me de volta aqui, a esta folha de papel onde, na verdade, nada conto#

Lá fora as gaivotas já não cantam
E o céu, muito devagar vai deixando antever que, como sempre "amanhã será outro dia"
Volto para dentro num arrepio e olho sem grande intetesse para a cama, aberta, à minha espera

Resignada, abro a gaveta de cima da mesa-de-cabeceira e tiro um smarti com a promessa duma noite tranquila
Tomo o segundo da noite em deixo-me enganar pelas promessas que me faz

Tu dormes
Acho
Não tenho como saber
Antes de me deitar, olho para a fresta aberta da janela
E peço ao luar que te entregue o meu beijo

Recebeste?!


Liliana Lima