sábado, agosto 17, 2019

COMigo

Vem comigo procurar os pássaros que habitam a noite. Deixa-me aproximar devagar e ensina-me como dizer o seu nome.

Vem comigo por este oceano dentro, saibamos esperar no vai e vem das ondas por aqueles que se deixarem mostrar, barbatana de fora, dançando a valsa dos peixes.

Vem comigo descobrir as entranhas desta terra cuidadosamente plantada no meio do mar. Mostra-me a respiração de Deus, que levanta um véu sobre estas flores de mil cores.

Vem comigo até ao alto das nuvens e lá de cima, como que planando sobre os campos, mostra-me a vista a perder de vista desta manta pelos anjos bordada.

Vem comigo mergulhar nas rochas e nadar com os peixes, sem acordar os caranguejos que descansam ao sol.

Vem comigo ao lado de lá, onde as rochas provocam o mar e o sol diariamente se deixa morrer de amor pelo horizonte azul. 

Deixemos as horas desacelerar que aqui o tempo anda mais devagar.

Em breve o dia adormecerá.
E as cagarras cantarão mais forte.
E as baleias mostrar-se-ão sem timidez.
E as grutas vestir-se-ão de negro.
E as fumarolas continuarão a respirar.
E os campos preparar-se-ão para o anoitecer.
E as piscinas deixar-se-ão cobrir pelas ondas.
E as praias desertas serão habitadas pelos sonhos de quem as avistou.
E tu virás comigo ver o luar que reflectirá nas águas desta praia à nossa janela plantada.

Vens?!...


Liliana Lima



terça-feira, agosto 13, 2019

MEnsagEM

Que sabes das mensagens vazias que chegam à praia em bonitas garrafas vestidas de festa?
Conheces-lhes o cheiro demasiadamente forte e as cores para lá do berrante?
Já ouviste o enorme silêncio que lhes habita as palavras, tão gastas de nada dizer?

Que sabes do lamento que vive nos búzios escondidos no meio das pedras do molhe que protege a praia?
Já o viste dançar sozinho nos reflexos com que a lua pinta o mar depois do pôr-do-sol?
Conheces-lhe as palavras tão gastas de tanto ecoar as suas mágoas ao luar?

Que sabes das mensagens que, em silêncio, são lançados ao mar e dentro de um simples olhar percorrem mares e marés até darem à costa no outro lado do horizonte?
Já lhes sentiste o rasto, perceptível apenas aos que um dia já lançaram, eles próprios, as suas mensagens ao mar?
Algum dia te cruzaste com as complexas palavras que as compõem, que rimam sempre com amor e que, dizem, são cantadas em noites de lua nova, em uníssono, por sereias encantadas e trovadores enamorados?

Que sabes do tanto que traz este mar?...


Liliana Lima


Foto: Carlos Alberto Moniz

quarta-feira, julho 31, 2019

hoRas

Sei que me espreitas a cada movimento de rotação em que, sobre os pés descalços, equilibro a paz com o caos.

Sei que me amparas, num abraço elíptico, suavizando cada cambalhota (que nunca soube dar).

Tenho certeza que me falas, em muitas línguas. Que me acolhes, em "muitas casas". 

Percebo o Teu sorriso no arrepio repentino e sinto-Te na lágrima teimosa, quando Te encontro no canto dos anjos. 

Sei que hoje me chegas nestas vozes que me trespassam, nesta sala escura onde a luz brinca com a cor e escreve o Teu nome dentro (e fora) do meu coração. 

E, por isso, sei-Te em mim em todas as horas de todos os relógios em todos os cantos do mundo. 


Liliana Lima