segunda-feira, janeiro 08, 2018

de DENTRO para FORA

Gosto que olhes para mim.
Gosto de ver os teus olhos olhar-me. Perto dos meus.
Nua das tantas camadas que trago comigo.

Gosto de olhar para ti.
Gosto de sentir os meus olhos olhar-te. Junto dos teus.
Enquanto te aproximas de mim. 

Gosto que me olhes, olhos nos olhos.
De perto.
De tão perto que, quando olho para ti, sinto que me vês, assim, de dentro para fora. 


Liliana Lima 



(* oferecido e pintado pela minha prima Luísa Bruno)

segunda-feira, dezembro 25, 2017

SERra

Lembras-te quando me dizias "Vamos para a Serra, ficamos no Hotel lá no alto, levamos uns bolos, uns sumos e pão. Esperamos que estes dois dias passem e, lá no alto onde há ninguém, respiramos a paz de quebrar as algemas. Vamos?"

Lembras-te? 

E eu; que no alto do monte das ilusões, onde tudo o que via eram fitas farfalhudas e coloridas, e a mesa que se enchia até ao auge da magia, quando os embrulhos apareciam com tudo o que queria e ainda mais; franzia o sobrolho e até me zangava com a tua displicência em relação a momentos tão vivos, tão alegres, tão mágicos. 

Lembras-te?

E tu, sentada no alto das obrigações, onde as horas comandavam toda a acção duma peça sem guião assinado, mas onde cada personagem conhecia de cor a sua deixa e nenhuma ousava sair do compasso, marcado pelo que era porque tinha de ser e sempre assim tinha sido. Vestias o teu papel e sorrias.

Lembras-te? 

Há um ano em que o teatro, agora escrito e controlado por mim, deixa de encontrar palco para se pôr em cena...

Há um dia em que a tradição com cheiro a canela e água ardente, deixa de nascer na cozinha...

Há um ano em que esta procura do embrulho certo que, afinal sempre preferi distribuir pelos outros dias do ano "só porque sim", deixa de ser um prazer e passa a ser raiz de instabilidade e conflito...

Há um ano em que o pinheiro, morto e seco, espalha todas as folhas em forma de agulha pelo chão e as luzes se enrolam e deixam de piscar as lâmpadas coloridas...

Há um ano  em que tudo o que quero é ir para a Serra da Estrela, ficar num qualquer quarto do Hotel, levar um cesto com pão e queijo e bolo rei e, lá no alto onde não há mais ninguém, respirar a paz de quebrar as algemas.

Lembras-te? 

Podes vir. Faço a mala e arranjo a lancheira num minuto. E, enfim, partimos as duas para a Serra, onde não há ninguém. 

Lembras-te, mãe? 

Podes vir.


Liliana Lima 




sábado, dezembro 02, 2017

poeMas de aMor

Nunca me escreveram poemas de amor
Uma carta passada por entre as mesas da sala de aula
Um postal deixado na secretária
Um ramo de rosas vermelhas entregues à porta...
Mas nunca um poema de amor

Eu já escrevi algo parecido com poemas de amor
Aliás, quase tudo o que escrevo é um poema de amor
se o souberes ler, entenderás que o é, meu amor

É que a palavra AMOR não se diz na correria das horas
É feita dum cristal tão fino como o teu olhar, 
quando me olhas de perto, quase de dentro
A palavra AMOR, meu amor, é feita de muitas histórias
que se contam em todas as ruas e em todos os fados
e embora se pareçam iguais, são únicas e irrepetíveis

Nunca me escreveram um poema de amor
E agora que penso nisso, nem sei o que faria para o agarrar

É que o poema tem em si a força de todas as marés 
que se elevam nos oceanos ou se estendem na areia
E o peso absurdo de todos os luares 
que beijam a Terra e iluminam cada história
E a palavra, quando cantada, como poema,
torna-se fogo ou ventania, medo ou alegria

Nunca me escreveram poemas de amor
Nunca me disseram AMOR, assim com todas as letras
e por escrito, que tem sempre uma força maior do que o dito

Se um dia me escreveres um poema de amor, meu amor,
que seja alegre e suave, doce e leve
se diga, "cantando a toda a gente"
e se espalhe pelo mundo, assim, num vôo livre de andorinha
que abraça o céu azul e nele escreve, dançando
leve e inquieta, a nossa canção, AMOR 

Liliana Lima

 Baragem do Alvor, Igrejinha, Arraiolos