sábado, junho 16, 2018

c.ASA

A casa da minha avó tem uma arca de Noé, recheada com animais de cristal  (daquele que se parte se, nos dias maus, nos apertar o coração).

A casa da minha avó tem a cama para onde eu trepava enquanto repetia, inconsequentemente, a melodia repetitiva da tabuada (sempre seguida do ralhete por a letra não rimar com a conta).

A casa da minha avó tem os dias bons, com os pratos da sala devidamente espalhados na mesa de jantar, desta vez para almoçar.

A casa da minha avó tem as memórias trazidas da frente do Tejo directamente para as molduras espalhadas um pouco por todo o lado.

A casa da minha avó tem uma menina cheia de sonhos, que escrevia com muitos erros e fazia os acentos ao contrário (devidamente vestidos de flores coloridas), para desespero da professora que, sempre zangada, ia tentando desencorajar a escrita, as flores, as cores.... 
Mas nada disso importava , porque logo a seguir às aulas a menina voltava... para casa da minha avó!

Liliana Lima


quarta-feira, junho 13, 2018

promESSA

Quando me ofereceste o vaso com um laço e um beijo, vi que dos quatro pés que trazia plantados, dois eram rosas vermelhas e outros dois eram, redundantemente, cor-de-rosa.

Escolhi um novo vaso, "a sério", de barro para deixar transpirar a terra e juntei fertilizante. E esperei.

Dois dos pés deixaram cair as rosas que traziam ainda por abrir e as outras choveram pétalas em excesso. Tirei todos os ramos mortos e folhas secas. E esperei. 

Quando o sol resolveu espreitar reguei e vi que, três dos quatro pés eram habitados por uns estranhos bichos microscópicos que os rodeavam numa espécie de rede  quase transparente. A medo, usei o insecticida em toda a planta. E esperei.

Com a mesma teimosia com que o Sol deixou de brilhar os bichos, quase microscópicos, mantiveram-se tecendo redes de comunicação entre folhas e ramos, apesar dos sprays e das lavagens. Cortei os três ramos quase pela raiz. E esperei.

O único pé que não cortei, continuou a crescer, alheio à aridez envolvente. Vi o nascer de uma promessa de botão. E esperei.

Hoje, com o Sol finalmente a banhar o vaso de barro, o botão abriu em rosa e, a toda a volta dos ramos cortados, nasceram pequenas folhas dum verde muito claro.

Olhei para a rosa e para os futuros ramos e para toda a simbologia que ali cresce neste preciso momento e sorri. Tirei uma fotografia, e registei a memória "para mais tarde recordar". E espero.

Liliana Lima 


segunda-feira, junho 11, 2018

aqui!

Espreito o Sol que pede licença para me aquecer a alma.
Olho o céu azul, do azul dos dias mais claros.
E deixo-me levar pelo vento suave.
Onde estou? Aqui! 
É aqui que me encontro, me recomeço e me remendo. 
É aqui que sou!



Liliana Lima