segunda-feira, maio 29, 2017

SER.á

E de repente as palavras caem no silêncio e ecoam no mar inesperado dos sentidos
(Percebeste o peso do que disseste?)
E de repente o sorriso aberto rasgando o dique que continha os sentimentos abafados 
(Apercebeste-te que o disseste?)
E de repente as memórias guardadas na caixa dos sinais de perigo, a desfocar, a perder a côr, a esconder a dor
(Sabes da fragilidade que, ao conjugar o verbo, desnudaste?)

E uma calma que se instala num querer subitamente, e apesar dos pesares, possível 
(Será que o disseste?)

E um medo que se amaina numa vontade que diz real
(Será que o sentes?)

E o silêncio que ecoa no corpo depois do reboliço no coração 
(Será que te ouvi dizê-lo?)

E a dúvida que espreita atrás de cada silêncio 
(Será que acredito?)

E a espera da confirmação na volta de cada palavra, em busca do sorriso que denuncia a fragilidade e desfoca a dor
(Será que o vais repetir?)

Liliana Lima 


quarta-feira, maio 03, 2017

Rea li da de

A realidade força a entrada através dos meus sentidos. Finjo desconhecê-la. Olho para dentro e nomeio todos os portos seguros onde sei que posso atracar sem licença ou marcação. Mas a tarde voa solta e a brisa primaveril que arrefece a tarde teima entrar na sala.

Um instante de distracção e o barulho a ecoar dentro de mim, abalando a calma, a pouca, que hoje em dia consigo, a custo, embalar. Olho para dentro e rodo as maçanetas da porta que não me ajuda a conter a areia que enche a ampulheta e se espalha pêlo chão.

Escorrego num sonho mal arrumado e baralho as cartas passadas com os jogos de faz de conta do dia-a-dia.

Sento-me e vejo ao fundo o Tejo, que galga a cidade e desagua a meus pés, molhando a areia e afundando qualquer promessa de normalidade.

A realidade força a entrada através dos meus sentidos. Sei que não a consigo absorver, apaziguar, iludir.

Levanto-me numa tranquilidade inventada e arrumo as cadeiras, recolho as tintas e guardo os trabalhos enquanto, olhando para dentro, lhe viro as costas.

Liliana Lima





segunda-feira, abril 10, 2017

GAveTA

Vivemos numa gaveta cada vez mais delimitada. Reservada. Supostamente aberta mas a cada dia mais fechada. Apertada.


Lá dentro, a sós, a música toca sempre certa no rádio que canta tudo o que não vivemos enquanto avisa que a cidade, adormecida, está pronta para nós. 



Cá fora, fora do tempo e da música e da gaveta, com a cidade acordada, trocamos palavras invisíveis sobre sentimentos amordaçados. Cada vez mais limitados às paredes desta gaveta feita cama.



Cá dentro, nesta cama-gaveta cumpre-se a coreografia perfeita, de tantas vezes dançada. O ar é quente e os corpos dão-se sem pudores ou receios. 



Mas sempre que pela fresta aberta entra a luz lá de fora, todo o espaço se preenche com os fantasmas e as feridas e os receios que tingem os silêncios, cortam as horas e consomem o ar.


Estamos numa gaveta cada vez mais delimitada. Eu finjo que não sinto. Tu finges que não sabes. 

Liliana Lima