segunda-feira, setembro 11, 2017

nInho

Foste
Assim, num repente 
tão antecipadamente programado e avisado

Foste
Assim, sozinho no mundo
que eu sei tão duro e capaz de magoar
assim, num instante
quando menos esperamos

Foste
Assim, com um sorriso 
feito abraço, hoje tão maior que eu
mas que sinto como ontem
ao meu colo, chorando, sorrindo
aprendendo a andar e a falar

Foste
Assim, tão crescido afinal
mas que eu sinto como ontem
tão frágil, tão meigo, tão decidido, tão teimoso

Foste,
Assim, com toda a confiança
e o mundo na palma da mão 

Foste
Assim, de mansinho
sem me dar tempo para te ver
para te dizer...
que foste
de mim
que foste
sem mim

Foste 
Assim, para o outro lado do mundo
onde não chego
não te posso embalar
nem aconchegar

Foste
E depois do adeus
tudo o que guardo em mim
os medos que tenhas medo
a minha mão que não chega a ti
a aflição da distância
o meu colo tão longe de ti

Foste
Assim, levando um pouco de mim 
o bebé que me ensinou a ser mãe
tão antes de mãe ser
e agora viaja na vida
sem precisar de mim

Foste
Assim, sorrindo, feliz

Vai
Voa
Corre
Ama
Descobre
Ri
Canta
Constrói
Aprende
Vive
E quando tiveres medo
lembra-te que te acendia a luz
E quando sentires frio
lembra-te que embalei no colo
E quando chorares
lembra-te do que te cantei

Vai...


Liliana Lima


sexta-feira, agosto 25, 2017

SEGUndos

Vejo
tudo centésimos de segundos antes de acontecer
E saio
de dentro de mim para me defender
Mas fico
imóvel, parada num tempo que não quero ver
Retiro
tudo de mim para fora da cena
E olho
para dentro dela, de fora, como num teatro de marionetas
Fecho
os sentimentos e as emoções no local mais escondido em mim, congelada na peça
E olho
para dentro dela, de fora, o mais friamente que consigo
Gravo
toda a acção de todos os actos que se seguirem
E revivo tudo
já de fora, segundos, minutos, semanas às vezes, depois da peça sair de cena

E sinto
todas as emoções numa espiral que mais ninguém vê
E demoro
muito tempo a encontrar a saída para dentro de mim
E desisto
de explicar esta complexa trama que bordo em torno de mim

Assusto-me
quando deixo escapar os milésimos de segundo de segurança
E não consigo sair
de mim, e deixar de sentir, e virar as costas, e defender-me a tempo
E então absorvo
todo o guião como barro girando que se vai moldando pelas mãos do artesão
E então salto
para outros filmes qual Alice caindo noutra dimensão
E então não controlo
a realidade que vivo, porque no palco um labirinto de espelhos faz-me perder de mim
E então assusto-me
com esta montagem desordenada que, tantas vezes, ultrapassa o que, na verdade, se passa nesses milésimos de segundo
Vivo
todas as cenas de uma só vez
Re.ajo
de acordo com o tamanho dos moinhos que rodam dentro de mim

E sinto
todas as emoções numa espiral que mais ninguém vê
E demoro
muito tempo a encontrar a saída para dentro de mim
E desisto
de explicar esta complexa trama que bordo em torno de mim


Liliana Lima


gAIvotas

Lá fora as gaivotas choram, ou riem (não lhes consigo distinguir a narrativa)
O mar ao fundo do fundo de todos os barulhos da noite, conta-me histórias de embalar
Mas desde cedo que não é com histórias que lá vou e o sono, acordado, diz-me que já é de madrugada

Antigamente era comum ficar em conversa com a lua
Espreitar-lhe o quarto e sentir-lhe o humor
Sentava-me ao pé da janela, sempre tive as escrivaninhas encostadas a uma janela
E escrevia com a cumplicidade silenciosa do luar
A noite sempre se mostrou mais próxima de mim, da minha essência, da minha verdade

#Uma moto ruidosa rasga a tranquilidade desta noite tão clara e os cães acordam assustados, sobressaltando os donos e vizinhos#

Mais tarde chegaram os filhos e, quem sabe, os anos e os médicos com as suas milagrosas teorias, diagnósticos e penitências
E fui como que obrigada a esquecer a noite e abraçar os dias e as suas longas horas claras
Quanto à lua, não deixei de lhe espreitar o quarto e dizer olá mas, no fundo, como que a abandonei

Hoje em dia já consigo escrever em plena praia ou até no meio do mais barulhento recreio
Nos cadernos, de capa preta, rabiscados, com setas, anotações e até flores secas
Ou num simples guardanapo que depois guardo bem dobrado na carteira
Ou cada vez mais, no teclado dum qualquer equipamento electrónico

#A passagem dum grupo animado e bem audível pelas ruas em volta, diz que a madrugada não tarda a acabar#

No entanto lá fora ainda as gaivotas que riem chorando, ou choram rindo
Mas ao fundo do fundo de todos os barulhos desta noite, deixo de ouvir os búzios contando histórias do mar

Tu dormes
Acho
Não te consigo chegar para me certificar
E, talvez, te queira assim, imaginando
A dormir
Para que eu possa velar o teu sono
Daqui, deste lado da noite

Levanto-me e vou à varanda, que não dá para o Tejo, que deixei lá atrás
E espreito a lua para lhe dizer desta minha noite tão clara
Não lhe encontro o quarto, era crescente, muito no início
Imagino-a então contigo, aninhada, a salpicar de estrelas os teu sonhos

#O barulho do carro do lixo e os vizinhos de cima na sua casa-de-banho, trazem-me de volta aqui, a esta folha de papel onde, na verdade, nada conto#

Lá fora as gaivotas já não cantam
E o céu, muito devagar vai deixando antever que, como sempre "amanhã será outro dia"
Volto para dentro num arrepio e olho sem grande intetesse para a cama, aberta, à minha espera

Resignada, abro a gaveta de cima da mesa-de-cabeceira e tiro um smarti com a promessa duma noite tranquila
Tomo o segundo da noite em deixo-me enganar pelas promessas que me faz

Tu dormes
Acho
Não tenho como saber
Antes de me deitar, olho para a fresta aberta da janela
E peço ao luar que te entregue o meu beijo

Recebeste?!


Liliana Lima