sábado, outubro 14, 2017

COR.tina

Abri a janela em vez da porta, na esperança de controlar a entrada das águas do rio que se adivinham. A medo, puxei a cortina meia desfeita, feita em farrapos, e tentei desviar o tanto tempo que passou para te ver chegar.

O rio galgou as ruas e calçadas e entrou de rompante por mim dentro. Acalmei a respiração, para não me afogar e impedir outras dores de me cegar. 

Avisaste que vinhas e anunciaste o teu chegar. Pediste que te sentisse e, "como sempre, como antes" não te soube negar. 

Chamaste-nos futuro e eu dei-te o presente. 

Abro a janela em vez da porta para não deixar sair a água enquanto, devagar, vou até ti. O rio corre no leito onde o amor se faz. Acalmo a respiração para não o gritar, mas sussurro que estou a chegar.

A medo, fecho a cortina meia desfeita, feita em farapos pelo tempo que passou, para marcar o tempo que ainda agora começou.

Liliana

   

segunda-feira, setembro 11, 2017

nInho

Foste
Assim, num repente 
tão antecipadamente programado e avisado

Foste
Assim, sozinho no mundo
que eu sei tão duro e capaz de magoar
assim, num instante
quando menos esperamos

Foste
Assim, com um sorriso 
feito abraço, hoje tão maior que eu
mas que sinto como ontem
ao meu colo, chorando, sorrindo
aprendendo a andar e a falar

Foste
Assim, tão crescido afinal
mas que eu sinto como ontem
tão frágil, tão meigo, tão decidido, tão teimoso

Foste,
Assim, com toda a confiança
e o mundo na palma da mão 

Foste
Assim, de mansinho
sem me dar tempo para te ver
para te dizer...
que foste
de mim
que foste
sem mim

Foste 
Assim, para o outro lado do mundo
onde não chego
não te posso embalar
nem aconchegar

Foste
E depois do adeus
tudo o que guardo em mim
os medos que tenhas medo
a minha mão que não chega a ti
a aflição da distância
o meu colo tão longe de ti

Foste
Assim, levando um pouco de mim 
o bebé que me ensinou a ser mãe
tão antes de mãe ser
e agora viaja na vida
sem precisar de mim

Foste
Assim, sorrindo, feliz

Vai
Voa
Corre
Ama
Descobre
Ri
Canta
Constrói
Aprende
Vive
E quando tiveres medo
lembra-te que te acendia a luz
E quando sentires frio
lembra-te que embalei no colo
E quando chorares
lembra-te do que te cantei

Vai...


Liliana Lima


sexta-feira, agosto 25, 2017

SEGUndos

Vejo
tudo centésimos de segundos antes de acontecer
E saio
de dentro de mim para me defender
Mas fico
imóvel, parada num tempo que não quero ver
Retiro
tudo de mim para fora da cena
E olho
para dentro dela, de fora, como num teatro de marionetas
Fecho
os sentimentos e as emoções no local mais escondido em mim, congelada na peça
E olho
para dentro dela, de fora, o mais friamente que consigo
Gravo
toda a acção de todos os actos que se seguirem
E revivo tudo
já de fora, segundos, minutos, semanas às vezes, depois da peça sair de cena

E sinto
todas as emoções numa espiral que mais ninguém vê
E demoro
muito tempo a encontrar a saída para dentro de mim
E desisto
de explicar esta complexa trama que bordo em torno de mim

Assusto-me
quando deixo escapar os milésimos de segundo de segurança
E não consigo sair
de mim, e deixar de sentir, e virar as costas, e defender-me a tempo
E então absorvo
todo o guião como barro girando que se vai moldando pelas mãos do artesão
E então salto
para outros filmes qual Alice caindo noutra dimensão
E então não controlo
a realidade que vivo, porque no palco um labirinto de espelhos faz-me perder de mim
E então assusto-me
com esta montagem desordenada que, tantas vezes, ultrapassa o que, na verdade, se passa nesses milésimos de segundo
Vivo
todas as cenas de uma só vez
Re.ajo
de acordo com o tamanho dos moinhos que rodam dentro de mim

E sinto
todas as emoções numa espiral que mais ninguém vê
E demoro
muito tempo a encontrar a saída para dentro de mim
E desisto
de explicar esta complexa trama que bordo em torno de mim


Liliana Lima