segunda-feira, março 20, 2017

_ti

Passam os dias pela minha janela sem olhar para mim. Pergunto-lhes para onde vão, dizem-me que apenas sabem que não param aqui, onde, em frente ao espelho, me arranjo para ti.

Rolam os sonhos por sobre a minha almofada sem, contudo, me tocarem na noite que custa a passar. Peço-lhes que se aninhem a mim, respondem-me que não se deitam ali, onde, no escuro, procuro por ti.

Correm as horas e as datas e o desejos que a eles se colam. Chamo-os para o meu lado, abro-lhes um abraço, contam-me que não têm espaço ali, onde, sozinha, espero por ti.


Liliana Lima



segunda-feira, janeiro 09, 2017

pLuRaL

Como ser plural se sonhamos no singular? 
Dias e dias que se tornam meses e acabam, de repente, em anos vividos a par. Numa soma de momentos a dois, isolados numa distorção temporal, e recriados em cenários "pré-vistos" num argumento com a duração máxima de uma semana.

Como multiplicar amor quando uma das suas múltiplas incógnitas é, à partida, igual a zero?
Vivemos um romance ou uma série de contos que, com base nas mesmas personagens, vão avançando, sem rumo nem rota, atrás dos humores duma audiência invisível?

A que aspiram as duas mãos que se enroscam para combater o frio?
Que sentido segue o suor quente das noites brancas, se ao nascer do Sol os corpos arrefecem frios em camas distantes?

Que procuram as perguntas numa narrativa que não aceita dúvidas? 
De que sentido tão profundo nasce a inquietação da distância, da ausência, do silêncio?
Para onde correm as lágrimas que teimam em existir numa tentativa amarga de entender o que não se quer explicado?

É possível um amor que não sonha em conjunto?

Liliana Lima





sábado, dezembro 24, 2016

ABismo

Chegas, e a inquiétude da espera foge para o lado errado 
abre-se em mim um rio que me atira para a outra nargem
me afasta de ti à força da maré cheia 

As flores que outrora trazia com um sorriso 
fecham-se no fundo da mala 
embrulhadas na insegurança de quem acaba de sentir 
partir a espontâneadade no voo duma gaivota 

Há o sol, há o rio (sempre o rio) e há nós dois 
num tu e eu separados de braço dado

Caio num abismo interno onde me sento em frente ao espelho 
e luto comigo mesma como num jogo de computador 

A saudade, a vontade, a tranquilidade 
a afundarem-se no meu mar
e um silêncio estéril que esconde 
a inquietação, a insegurança e a zanga 
que enchem o espaço com a maré que enche

Não gosto de silêncio, nunca gostei 
tiram-me as palavras e perco o norte 
Sempre me assustou esse abismo de possibilidades 
que nascem do silêncio de outra pessoa 
Mas este silêncio é meu
sou eu que o digo quando ao pé de ti 

Quando chegas a inquiétude da espera foge para o lado errado 
Abro a Caixa de Pandora e deixo sair o vazio
que tu, do teu lado do rio tentas encher e preencher 

E por isso usas muitas palavras e dizes muitas coisas
talvez porque sabes que não gosto de silêncio 
talvez porque te entreténs saltando entre conversas 
talvez apenas para passar o tempo 

E eu, da margem do meu rio, 
vejo-te longe, muito longe, 
num barco que zarpou sem mim
e ao qual não consigo chegar 

Não fales 
Não, se falares sem dizer nada 
Não, se for sobre tudo menos o que nos diz respeito 
Não me digas a mesma coisa repetidamente 
Não, se essa coisa não nos está ligada

Não tenhas, tu agora, medo do meu vazio
Preciso de espaço para lidar com as minhas inquietações 
e preciso de ti para diminuir o caudal do rio que nos separa 



Liliana Lima