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terça-feira, agosto 13, 2019

MEnsagEM

Que sabes das mensagens vazias que chegam à praia em bonitas garrafas vestidas de festa?
Conheces-lhes o cheiro demasiadamente forte e as cores para lá do berrante?
Já ouviste o enorme silêncio que lhes habita as palavras, tão gastas de nada dizer?

Que sabes do lamento que vive nos búzios escondidos no meio das pedras do molhe que protege a praia?
Já o viste dançar sozinho nos reflexos com que a lua pinta o mar depois do pôr-do-sol?
Conheces-lhe as palavras tão gastas de tanto ecoar as suas mágoas ao luar?

Que sabes das mensagens que, em silêncio, são lançados ao mar e dentro de um simples olhar percorrem mares e marés até darem à costa no outro lado do horizonte?
Já lhes sentiste o rasto, perceptível apenas aos que um dia já lançaram, eles próprios, as suas mensagens ao mar?
Algum dia te cruzaste com as complexas palavras que as compõem, que rimam sempre com amor e que, dizem, são cantadas em noites de lua nova, em uníssono, por sereias encantadas e trovadores enamorados?

Que sabes do tanto que traz este mar?...


Liliana Lima


Foto: Carlos Alberto Moniz

quarta-feira, março 27, 2019

mAR

É no fundo do mar 
que me escondo de mim
e nas conchas procuro a paz
para me encontrar por ti 

Sei do canto estridente das gaivotas
e do embalo sedutor das sereias
Sei do areal desnudado pela maré baixa
porque nele me enrosco em mim mesma

Conheço todas as conchas coloridas 
que colecciono para te oferecer 
É a elas que pergunto por mim
enquanto, escondida, falo de ti 

Nado em círculos para te chamar 
Mas carregando todo o oceano, receio 
que em maré alta transborde
e o teu pé tão catraio, à beira-mar, se suje

Queria conhecer todos os barcos 
e inventar uma vela que enfunasse
à força do meu suspiro 
e, seca, ao teu lado me deixasse 

Mas sempre que, em tornado te tornas
e a mesa reviras e as ideias me baralhas
É no fundo do mar que me escondo 
para não desaguar em ti

E sem poderes saber
provocas a maré, que se agita dentro de mim 
E sem conseguires entender 
chamas a noite que se debate sobre mim

É no fundo do mar 
que me escondo de mim 
e me embalo na maré 
que, espero, me leve a ti

Lili



segunda-feira, abril 10, 2017

GAveTA

Vivemos numa gaveta cada vez mais delimitada. Reservada. Supostamente aberta mas a cada dia mais fechada. Apertada.


Lá dentro, a sós, a música toca sempre certa no rádio que canta tudo o que não vivemos enquanto avisa que a cidade, adormecida, está pronta para nós. 



Cá fora, fora do tempo e da música e da gaveta, com a cidade acordada, trocamos palavras invisíveis sobre sentimentos amordaçados. Cada vez mais limitados às paredes desta gaveta feita cama.



Cá dentro, nesta cama-gaveta cumpre-se a coreografia perfeita, de tantas vezes dançada. O ar é quente e os corpos dão-se sem pudores ou receios. 



Mas sempre que pela fresta aberta entra a luz lá de fora, todo o espaço se preenche com os fantasmas e as feridas e os receios que tingem os silêncios, cortam as horas e consomem o ar.


Estamos numa gaveta cada vez mais delimitada. Eu finjo que não sinto. Tu finges que não sabes. 

Liliana Lima


segunda-feira, janeiro 09, 2017

pLuRaL

Como ser plural se sonhamos no singular? 
Dias e dias que se tornam meses e acabam, de repente, em anos vividos a par. Numa soma de momentos a dois, isolados numa distorção temporal, e recriados em cenários "pré-vistos" num argumento com a duração máxima de uma semana.

Como multiplicar amor quando uma das suas múltiplas incógnitas é, à partida, igual a zero?
Vivemos um romance ou uma série de contos que, com base nas mesmas personagens, vão avançando, sem rumo nem rota, atrás dos humores duma audiência invisível?

A que aspiram as duas mãos que se enroscam para combater o frio?
Que sentido segue o suor quente das noites brancas, se ao nascer do Sol os corpos arrefecem frios em camas distantes?

Que procuram as perguntas numa narrativa que não aceita dúvidas? 
De que sentido tão profundo nasce a inquietação da distância, da ausência, do silêncio?
Para onde correm as lágrimas que teimam em existir numa tentativa amarga de entender o que não se quer explicado?

É possível um amor que não sonha em conjunto?

Liliana Lima





quarta-feira, setembro 14, 2016

n.i.n.h.o.s

Ninhos de ideias escondidos nos ramos mais altos
Ovos onde se geram as vontades e nascem os quereres
Palavras que não dizem o que querem dizer
E espelhos que apenas reflectem metade do que se é 

Árvores que não consigo subir
Ideias fechadas dentro da casca 
Espelhos que não me querem ver

Ninhos de ideias que não consigo ver 
Vontades que não posso conhecer 
Palavras que não se deixam dizer

Liliana 



quarta-feira, agosto 03, 2016

AMAnhã

Tenho uma urgência de viver que faz o meu tempo rolar como um cometa que rasga os ceus e, mais cedo ou mais tarde, embate na velocidade cruzeiro das tuas palavras. Vivo em aparente agitação, na verdade apenas a vontade de me/te dizer, saber, sentir, partilhar.

Tenho uma urgência de me dar que me atira sobre a areia ou recolhe de volta para o mar, conforme os teus olhos me vêm a mim, ou através de mim diluida numa maré baixa onde não estás. 

Tenho uma urgência em amar que me leva a bater-te à porta com tudo o que tenho, o bom e o mau, o bonito e o feio. Deitar-me nas tuas mãos e esperar que me saibas acolher.

Tenho uma urgência em dizer-me, ser em palavras, nas minhas palavras tão longe e tão perto das tuas, que por vezes pareço estrangeira. Eu que pensava a língua do amor universal e no entanto esta diversidade de sentires e quereres que urge entender.

Tenho uma urgência no estar, partilhar o espaço e as ideias e o banal de cada dia. Navego neste barco que não consigo parar e que segue a com corrente do meu tempo e a força dos ventos em que me dou e, na verdade, (sei-o tão bem) acaba sempre por zarpar antes do teu.


Esta urgência de mim choca com a velocidade cruzeiro de ti. Estudo o mapa e procuro os pontos cardeais da vida.

Quem sabe amanhã nos reencontremos num mundo só nosso "que pula e avança como bola colorida ente as mãos de uma criança"? 


Liliana







sexta-feira, junho 10, 2016

noVelos

Enrolando o novelo com as horas vazias do absurdo emaranhado de linhas da alma

Bordando o lenço com que a mão acena no cais a cada despedida que corta o rumo da gaivota

Embalando o vazio tão cheio de palavras cosidas em cima umas das outras para abafar as que não se querem dizer 

Alinhavando o alvoroço interno que tropeça no cais e se faz cascata abrupta rompendo as veias e queimando a pele

Retrocedendo os pontos para voltar à rota inicial antes das "chuvas de Maio fechando o Verão" 

Enrolando o novelo com os sonhos pintados outra e outra e outra vez porque o Sol sempre nasce quando a Lua se deita


Liliana Lima 


segunda-feira, maio 09, 2016

Aí/qui

Agora que me deito sobre as mágoas e me tapo com as inquietações
Agora que a noite ilumina os medos que apenas mostro ao luar
Agora que deixo de lutar contra as lágrimas que, todo o dia, prendi
Agora que procuro a calma que me falha, num frasco de berlindes arredondados
Agora que me viro de lado e tento pensar apenas em não pensar
Agora que fecho os olhos o oiço dentro de mim todos os sons que pintaram o dia
Agora que me permito zangar e resmungar e até praguejar
Agora que a lua me sussurra que as horas avançam e me pede para a embalar
Agora que não sei como começar o amanhã
Agora que sinto, tanto, tudo o há para sentir
Agora que não vejo como sair daqui
Agora que toda a cidade dorme embalada pela dança do Tejo
Agora que não sei de ti
Agora que me perco em mim
Agora que procuro por nós

Agora

Deitada no Tejo e embalada pelos medos
Pergunto à Lua se sabe de ti
Confesso à cidade que preciso de nós
E penso em voz alta porque estou aqui

Agora

Diz-me a noite que estás aí/qui
Asseguram-me os berlindes que me esperas aí/qui
Prometem-me as mágoas que me queres aí/qui


Liliana Lima


sábado, abril 16, 2016

se me SEM TE

Se acordasse sem te trazer do sonho
Se me olhasse sem a tua sombra 
Se corresse sem a tua força 
Se amasse sem o ter ser
Se me aquecesse sem o teu suor
Se me vestisse sem a tua cor
Se me encantasse sem os teus olhos
Se sorrisse sem a tua voz
Se cantasse sem o teu assobio
Se lesse sem a tua mão 
Se contasse sem os teus dedos
Se me deitasse sem o teu corpo
Se adormecesse sem o teu respirar
Se te sonhasse sem estar acordada

Liliana 


domingo, março 06, 2016

tornEIRA

Não abras a torneira que estou a suster a água dentro do peito. 
Não acendas a luz que o espelho olha fixamente para os olhos que não mostro a ninguém para esquecer que os tenho.
Não respondas que falo somente para me ouvir, pintando a verdade de aguarelas que escorrem pelo ralo e não tarda se juntam ao rio.
Não me dês a mão que ela só sabe amparar, e nunca foi amparada.

Que sabor amargo é este que se me cola à garganta e se recusa a ser diluído, pelos mil argumentos, que junto no guarda-joias para os dias de tempestade?

Que tremor é este que me impede até de falar, me embarga a voz e me aperta o peito?

Que tontura dança em mim, rodopiando os meus pensamentos, em volta da sala, do quarto, até mesmo da cama?

Que mágoa é esta que abre rachas mais antigas que o nascer dos tempos, e se confunde com as dores de ontem e multiplica as de hoje?

Que solidão é esta que se senta ao meu lado, por muito que me confortem em abraços ocos do calor de quem sabe ler as entrelinhas?

Que vazio é este que me consome, e devora cada nova alvorada?

Abre a torneira que me afogo na água que trago no peito...
Acende a luz que preciso encontrar no espelho os olhos que a ninguém mostro...
Responde-me que preciso ouvir a verdade para além da que pinto com aguarelas no rio...
Dá-me a mão, devagar, como quem é amparado, para que não perceba que é a tua que me ampara...

Liliana


quarta-feira, dezembro 03, 2014

porta ao la.do

Na porta ao lado estão duas pessoas, frente a frente, cheias de vida, despidas das mascaras do dia-a-dia, na porta ao lado.

Na porta ao lado ecoam palavras destemidas longe da timidez normal das que só se lêem olhando para as entrelinhas, na porta ao lado.

Na porta ao lado os silêncios são cúmplices sem arestas dolorosas ou sombras duvidosas, na porta ao lado.

Na porta ao lado os corpos não se escondem para se aproximar e tocam-se com a naturalidade só possível aos que se dão sem dúvidas ou hesitações, na porta ao lado.

Na porta ao lado também há dores e lamentações resolvidas com a certeza da verdade nua e (mesmo que) crua, na porta ao lado.

Na porta ao lado, nem sempre a presença é constante, mas o vazio conhece o sabor tranquilo do regresso e não acende medos nem inquietações, na porta ao lado.

Na porta ao lado as mãos entrelaçam-se sem receio de acordar compromissos implicitamente aceites com o simples gesto de abrir... a porta, na porta ao lado.

Na porta ao lado os gestos são decididos e não questionam a sua legitimidade a cada passo, na porta ao lado.

Na porta ao lado, não existe tecto nem chão nem paredes nem janelas, porque não existe... a porta ao lado.


Liliana



segunda-feira, abril 23, 2012

Mar sonhado

Espreito-me por baixo dos medos que me assaltam os sonhos nas noites de lua nova e escurecem as ruas e apagam as sombras. Levanto a cabeça e vejo o sol que brilha naquele horizonte onde, ainda ontem, me via em contra-luz.

Estendo a mão para proteger os olhos da claridade e os fios do sorriso sobem com ela. Quanto mais alto a levanto, mais a minha expressão se abre... Testo os movimentos, no meio de fios que me prendem as pernas e levantam o corpo, e aprendo a mover-me com a maré.

Um final de tarde dourado levanta-se ao mesmo tempo que eu e procuramos o ritmo comum nesta estranha dança que iniciamos. 

Pergunto às ondas porque devolvem à praia, desfigurado, aquilo que antes levaram, perfeito, num rodopio de espuma. Porque engolem nas suas águas revoltas retratos e pinturas que depois, secam desfigurados na areia como um desfile de roupa velha que já ninguém quer.

O mar responde-me num ondular brilhante que o seu trabalho é lavar a praia de cada um de nós. Leva o que adornamos, embelezamos, retocamos ou até remodelamos, e devolve apenas e só aquilo que é verdadeiro e real.

- Levas-me os sonhos... "apenas as ilusões".
- Roubas-me as fantasias... "somente as mágoas".
- Magoas-me... "tu é que te enganas, eu só te mostro a verdade vista com olhos lavados".

Esperneio e grito a um sol que se esconde. E o mar... olha-me, sereno e liso como um espelho, e devolve-me a imagem duma marioneta, refém da minha zanga. Sento-me à beira-mar e deixo que se inundam os olhos.

Apanho as memórias espalhadas pela areia e guardo-as no coração. 

A noite está a nascer e com ela a lua que me fala de mundos que nunca vi. Abeiro-me dum velho barco e deixo que o vento me embale na esperança dum novo olhar. Os remos são pesados e a noite arrefece. Deito-me na madeira e sinto o luar que me beija e embala os sonhos. 

Acordo com uma melodia suave que vem do areal, espreito a medo e vejo ao fundo um corpo recortado na sombra da areia. Aproximo-me da praia e estendo a mão. Retoco os seus traços, amacio-lhe o canto e adoço os seus gestos. Uma nova dança começa.

Até que um dia o mar me invada os sonhos...

Liliana


"O mar azul e branco e as luzidias
Pedras – O arfado espaço
Onde o que está lavado se relava
Para o rito do espanto e do começo
Onde sou a mim mesma devolvida
Em sal espuma e concha regressada
À praia inicial da minha vida.
"

Mar-Poesia, 2001 de Sophia M.B. Andresen