Lembras-te que os caminhos
que hoje escolhemos
amarelos e seguros amanhã se continuam a desenhar?
Lembras-te de cada beijo
que as nossas bocas já têm
para dar?
Lembras-te das mãos
que ontem aprendiam a silhueta um do outro
e já nos afagam nas noites que vão chegar?
Lembras-te das manhãs
que vamos acordar?
Lembras-te como o teu corpo
húmido e cansado de trocar de corpo um com o meu
se enrosca em mim nos lençóis que vamos comprar?
Lembras-te das palavras
que em todas as conversas que partilhamos
já repetes de hoje em diante?
Lembras-te de cada zanga
que trocamos amiúde
por carícias futuras?
Lembras-te das velas
que vamos acender?
Lembras-te dos brincos
a condizer com o anel
que me vais oferecer?
Lembras-te das canções
que vais compor com os poemas
que vou escrever?
Lembras-te das lágrimas
que no teu ombro
novamente vou secar?
Lembras-te das noites
que vamos embalar?
Lembras-te dos sorrisos
que um com o outro
vamos trocar?
Lembras-te dos tantos concertos, filmes, peças
que de mãos dadas
vamos partilhar?
Lembras-te dos caminhos
sempre amarelos e seguros
que vamos calcorrear?
Lembras-te dos dias e das noites
que vamos viver?
Lembras-te de te lembrares
das memórias conjuntas
que vamos construir?
Liliana Lima
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quinta-feira, maio 16, 2019
MEMÓRIAS... do futuro
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quinta-feira, outubro 18, 2018
que NÃO
Que não penses que, por não falar, não sinto
por não dizer, não questiono
por não escrever, não temo
Encosta-te, mas lembra-te de não esquecer
Que não deixa de ler quem cala
Abraça-me, mas não esqueças de te lembrar
Que não deixa de ouvir quem não escreve
Liliana Lima
por não dizer, não questiono
por não escrever, não temo
Encosta-te, mas lembra-te de não esquecer
Que não deixa de ler quem cala
Abraça-me, mas não esqueças de te lembrar
Que não deixa de ouvir quem não escreve
Liliana Lima
quarta-feira, agosto 23, 2017
as VELHAS da praia
Sei que voltas. Mas ainda agora saíste e já algo de nós ficou. Um nó, uma rede, que caiu no porão com o embate das tuas malas.
Sei que voltas. Mas os minutos estendem-se para além das horas. E lá fora podia jurar que "as velhas da praia" a gritar... Mas, "São loucas! São loucas?"
Sei que voltas. Mas dói esta presença ausente que me faz esperar junto à janela desta lua que me/te ilumina como que numa promessa velada.
Sei que voltas. Mas não posso continuar a pedir às gaivotas que me guardem, "perfeito, o meu coração".
Sei que voltas. Mas tenho de me proteger, e ainda que 'tudo em meu redor me diga que estás sempre comigo', não te vejo, não te oiço, não te sei.
Sei que voltas. Mas quem és quando aqui não estás, não é quem por cá se instalou de pedra e cal 'dentro do meu coração'.
Sei que voltas. Mas pergunto ao luar como se volta depois deste afastar.
Sei que voltas. Mas sei também da surpresa, da interrogação, da não compreensão. E sei o quanto marcam a ferro e fogo o fundo do meu coração.
Sei que voltas. Sei até que já tentaste encurtar o caminho desenhado por ti a lápis azul no mapa astral dos planetas e constelações.
Sei que voltaste.
Mas como aquecer o vazio se "acordei tremendo deitada na areia"?
Sei que voltaste.
"Como sempre, como antes". Como se o tempo aqui tivesse congelado à espera do teu olá.
Sei que voltaste.
E foi no momento em que pegaste nas malas que me apercebi que quem fica não tem uma redoma onde pára os ponteiros e abafa os sentimentos.
Sei que voltaste.
Diz-me, então, que faço eu agora com a bagagem que nestas noites carreguei?...
Liliana Lima
Sei que voltas. Mas os minutos estendem-se para além das horas. E lá fora podia jurar que "as velhas da praia" a gritar... Mas, "São loucas! São loucas?"
Sei que voltas. Mas dói esta presença ausente que me faz esperar junto à janela desta lua que me/te ilumina como que numa promessa velada.
Sei que voltas. Mas não posso continuar a pedir às gaivotas que me guardem, "perfeito, o meu coração".
Sei que voltas. Mas tenho de me proteger, e ainda que 'tudo em meu redor me diga que estás sempre comigo', não te vejo, não te oiço, não te sei.
Sei que voltas. Mas quem és quando aqui não estás, não é quem por cá se instalou de pedra e cal 'dentro do meu coração'.
Sei que voltas. Mas pergunto ao luar como se volta depois deste afastar.
Sei que voltas. Mas sei também da surpresa, da interrogação, da não compreensão. E sei o quanto marcam a ferro e fogo o fundo do meu coração.
Sei que voltas. Sei até que já tentaste encurtar o caminho desenhado por ti a lápis azul no mapa astral dos planetas e constelações.
Sei que voltaste.
Mas como aquecer o vazio se "acordei tremendo deitada na areia"?
Sei que voltaste.
"Como sempre, como antes". Como se o tempo aqui tivesse congelado à espera do teu olá.
Sei que voltaste.
E foi no momento em que pegaste nas malas que me apercebi que quem fica não tem uma redoma onde pára os ponteiros e abafa os sentimentos.
Sei que voltaste.
Diz-me, então, que faço eu agora com a bagagem que nestas noites carreguei?...
Liliana Lima
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segunda-feira, maio 09, 2016
Aí/qui
Agora que me deito sobre as mágoas e me tapo com as inquietações
Agora que a noite ilumina os medos que apenas mostro ao luar
Agora que deixo de lutar contra as lágrimas que, todo o dia, prendi
Agora que procuro a calma que me falha, num frasco de berlindes arredondados
Agora que me viro de lado e tento pensar apenas em não pensar
Agora que fecho os olhos o oiço dentro de mim todos os sons que pintaram o dia
Agora que me permito zangar e resmungar e até praguejar
Agora que a lua me sussurra que as horas avançam e me pede para a embalar
Agora que não sei como começar o amanhã
Agora que sinto, tanto, tudo o há para sentir
Agora que não vejo como sair daqui
Agora que toda a cidade dorme embalada pela dança do Tejo
Agora que não sei de ti
Agora que me perco em mim
Agora que procuro por nós
Agora
Deitada no Tejo e embalada pelos medos
Pergunto à Lua se sabe de ti
Confesso à cidade que preciso de nós
E penso em voz alta porque estou aqui
Agora
Diz-me a noite que estás aí/qui
Asseguram-me os berlindes que me esperas aí/qui
Prometem-me as mágoas que me queres aí/qui
Liliana Lima
Agora que a noite ilumina os medos que apenas mostro ao luar
Agora que deixo de lutar contra as lágrimas que, todo o dia, prendi
Agora que procuro a calma que me falha, num frasco de berlindes arredondados
Agora que me viro de lado e tento pensar apenas em não pensar
Agora que fecho os olhos o oiço dentro de mim todos os sons que pintaram o dia
Agora que me permito zangar e resmungar e até praguejar
Agora que a lua me sussurra que as horas avançam e me pede para a embalar
Agora que não sei como começar o amanhã
Agora que sinto, tanto, tudo o há para sentir
Agora que não vejo como sair daqui
Agora que toda a cidade dorme embalada pela dança do Tejo
Agora que não sei de ti
Agora que me perco em mim
Agora que procuro por nós
Agora
Deitada no Tejo e embalada pelos medos
Pergunto à Lua se sabe de ti
Confesso à cidade que preciso de nós
E penso em voz alta porque estou aqui
Agora
Diz-me a noite que estás aí/qui
Asseguram-me os berlindes que me esperas aí/qui
Prometem-me as mágoas que me queres aí/qui
Liliana Lima
quarta-feira, janeiro 27, 2016
Terra do NUNCA
Onde foi que tropecei e deixei cair o xaile, ficando com os ombros ao frio?
Como foi que parti o relógio, ficando perdida nas horas descompassadas?
Porque foi que me perdi do caminho amarelo que trazia no mapa?
Ajuda-me a passar por cima do remoinho onde me vejo afogar.
Ajuda-me a não me ferir nas arestas que, afinal, sempre aqui estiveram.
Ajuda-me a olhar o horizonte evitando enfrentar o Sol.
Ajuda-me a pintar o mar sem deixar entrar, à força, a maré.
Ajuda-me a avançar sem carregar o peso das certezas antigas.
Ajuda-me a sorrir para o espelho sem lhe ver o que não quer mostrar.
Ajuda-me a dizer de mim, para não me amordaçar.
Ajuda-me a estar sem este peso apertado, este aperto pesado.
Ajuda-me a afastar esta zanga, de querer ao nunca chegar.
Ajuda-me a sorrir
Ajuda-me a cantar
Ajuda-me a ver
Ajuda-me a sentir
Ajuda-me a dançar
Ajuda-me a ser
Sem sombras
Nem medos
Sem fantasmas
Nem medos
Sem entrelinhas
Nem medos
Sem mágoas
Nem medos
Ajuda-me, sem medo.
Liliana
Como foi que parti o relógio, ficando perdida nas horas descompassadas?
Porque foi que me perdi do caminho amarelo que trazia no mapa?
Ajuda-me a passar por cima do remoinho onde me vejo afogar.
Ajuda-me a não me ferir nas arestas que, afinal, sempre aqui estiveram.
Ajuda-me a olhar o horizonte evitando enfrentar o Sol.
Ajuda-me a pintar o mar sem deixar entrar, à força, a maré.
Ajuda-me a avançar sem carregar o peso das certezas antigas.
Ajuda-me a sorrir para o espelho sem lhe ver o que não quer mostrar.
Ajuda-me a dizer de mim, para não me amordaçar.
Ajuda-me a estar sem este peso apertado, este aperto pesado.
Ajuda-me a afastar esta zanga, de querer ao nunca chegar.
Ajuda-me a sorrir
Ajuda-me a cantar
Ajuda-me a ver
Ajuda-me a sentir
Ajuda-me a dançar
Ajuda-me a ser
Sem sombras
Nem medos
Sem fantasmas
Nem medos
Sem entrelinhas
Nem medos
Sem mágoas
Nem medos
Ajuda-me, sem medo.
Liliana
terça-feira, dezembro 02, 2014
a.meias, amei.as
Não, não sou um castelo sentado na colina vestido de torres e ameias, protegendo a cidade, que dança "une valse à mille temps" sem medo da noite.
Não, não sou um pontão rasgando o mar e contendo a força das águas para salvar a baía, onde tão tranquilamente o verão segue o seu rumo, num filme colorido de fim-de-semana.
Não, não consigo pintar arco-íris no céu, que brilham mesmo nos dias de chuva e que quase ninguém vê, ou quer ver pelo meio das nuvens cinzentas.
Sou uma casa que abana e range à força do vento, onde as telhas se partem com a força da chuva e os vidros, embaciados, não deixam ver a luz do sol.
Sou um bote sem remos e de vela rasgada, perdido numa corrente que o leva e empurra para tão longe da costa.
Sou uma nuvem carregada, que junta energia dia-a-dia dentro do seu corpo, até deixar de haver mais espaço em si para uma só palavra mais.
Escrevo versos nas paredes da cidade, para conseguir soltar as palavras que não sei dizer, se não me ouvem para lá do que ecoa.
Mascaro-me de fortaleza se não sentem os meus medos.
Faço-me passar por muro erguido sob as águas revoltas se não vêem as minhas lágrimas.
E por isso sou castelo e casa, sou pontão e bote, sou arco-íris e nuvem de trovoada.
Mas não, não sou uma rocha.
Mas não, não sou uma rocha.
Liliana
quinta-feira, novembro 08, 2012
Posso ser quem nunca fui, Sérgio?!
Ah! Não
me toques na noite suave, levantando o lençol dos sonhos que pedem para
ser vividos, para quando nasce o sol me deixares assim as mãos frias,
desamparadas, sós, como um ninho vazio.
Ah! Não me cantes ao ouvido de mansinho neste leito iluminado pelas estrelas, esculpindo as palavras letra a letra no meu corpo, para quando as nuvens cobrem o céu me escureceres com o silêncio da ausência que se instala em mim sem pedir licença.
Ah! Não me beijes os seios num nascer de Sol matinal que acorda os sentidos e os sentires se, quando o dia se mostra, foges numa barca invisível que te afasta do rio dos afectos e te leva para o oceano desconhecido deixando a marca da rejeição rasgada nas águas.
Ah! Não encostes o teu corpo ao meu nesta onda que acelera a respiração e me leva na maré se, quando a lua se transfigura, me deixas sentada à beira-mar procurando na areia, ainda húmida, a concha onde te escondes.
Diz-me, posso ser quem nunca fui?!
Ah! Deixa-me manter o espanto, o encanto, a capacidade de sonhar e acreditar... Que é possível ser, querer, sentir, viver... sem me ver só, no caminho dos campos.
Vem! Abre portas e janelas, se conseguires deixar a luz iluminar os corpos que somos(?) e fomos(?)!
Mas parte! Se enrolado num mar de dúvidas, perdido por entre hesitações, me negas e rejeitas.
Mas parte! Se apenas velado por um luar inaudito que só tu conheces e imaginas, consegues querer(ter)-me.
Diz-me, posso ser quem nunca fui?!
Ah! Não me cantes ao ouvido de mansinho neste leito iluminado pelas estrelas, esculpindo as palavras letra a letra no meu corpo, para quando as nuvens cobrem o céu me escureceres com o silêncio da ausência que se instala em mim sem pedir licença.
Ah! Não me beijes os seios num nascer de Sol matinal que acorda os sentidos e os sentires se, quando o dia se mostra, foges numa barca invisível que te afasta do rio dos afectos e te leva para o oceano desconhecido deixando a marca da rejeição rasgada nas águas.
Ah! Não encostes o teu corpo ao meu nesta onda que acelera a respiração e me leva na maré se, quando a lua se transfigura, me deixas sentada à beira-mar procurando na areia, ainda húmida, a concha onde te escondes.
Diz-me, posso ser quem nunca fui?!
Ah! Deixa-me manter o espanto, o encanto, a capacidade de sonhar e acreditar... Que é possível ser, querer, sentir, viver... sem me ver só, no caminho dos campos.
Vem! Abre portas e janelas, se conseguires deixar a luz iluminar os corpos que somos(?) e fomos(?)!
Mas parte! Se enrolado num mar de dúvidas, perdido por entre hesitações, me negas e rejeitas.
Mas parte! Se apenas velado por um luar inaudito que só tu conheces e imaginas, consegues querer(ter)-me.
Diz-me, posso ser quem nunca fui?!
Liliana
'- Senhora de preto
diga o que lhe dói
é dor ou saudade
que o peito lhe rói
o que tem, o que foi
o que dói no peito?
- É que o meu homem partiu
Disse-me na praia
frente ao paredão
“tira a tua saia
dá-me a tua mão
o teu corpo, o teu mar
teu andar, teu passo
que vai sobre as ondas, vem”
Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?
Seja um bom agoiro
ou seja um mau presságio
sonhei com o choro
de alguém num naufrágio
não tenho confiança
já cansa este esperar
por uma carta em vão
“por cá me governo”
escreveu-me então
“aqui é quase Inverno
aí quase Verão
mês d’Abril, águas mil
no Brasil também tem
noites de S. João e mar”
Pode alguém ser quem não é?...
É estranho no ventre
ser de outro lugar
e tão confusamente
ver desmoronar
um a um sonhos sãos
duas mãos
passando da alegria ao desamor
Pode alguém ser livre
se outro alguém não é
a algema dum outro
serve-me no pé
nas duas mãos,
sonhos vãos, pesadelos
diz-me:
Pode alguém ser quem não é?'
Sérgio Godinho (do "Pré-Histórias")
diga o que lhe dói
é dor ou saudade
que o peito lhe rói
o que tem, o que foi
o que dói no peito?
- É que o meu homem partiu
Disse-me na praia
frente ao paredão
“tira a tua saia
dá-me a tua mão
o teu corpo, o teu mar
teu andar, teu passo
que vai sobre as ondas, vem”
Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?
Seja um bom agoiro
ou seja um mau presságio
sonhei com o choro
de alguém num naufrágio
não tenho confiança
já cansa este esperar
por uma carta em vão
“por cá me governo”
escreveu-me então
“aqui é quase Inverno
aí quase Verão
mês d’Abril, águas mil
no Brasil também tem
noites de S. João e mar”
Pode alguém ser quem não é?...
É estranho no ventre
ser de outro lugar
e tão confusamente
ver desmoronar
um a um sonhos sãos
duas mãos
passando da alegria ao desamor
Pode alguém ser livre
se outro alguém não é
a algema dum outro
serve-me no pé
nas duas mãos,
sonhos vãos, pesadelos
diz-me:
Pode alguém ser quem não é?'
Sérgio Godinho (do "Pré-Histórias")
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