Mostrar mensagens com a etiqueta zanga. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta zanga. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, outubro 18, 2018

que NÃO

Que não penses que, por não falar, não sinto
                                       por não dizer, não questiono
                                       por não escrever, não temo

Encosta-te, mas lembra-te de não esquecer
Que não deixa de ler quem cala

Abraça-me, mas não esqueças de te lembrar
Que não deixa de ouvir quem não escreve


Liliana Lima



quarta-feira, agosto 23, 2017

as VELHAS da praia

Sei que voltas. Mas ainda agora saíste e já algo de nós ficou. Um nó, uma rede, que caiu no porão com o embate das tuas malas.

Sei que voltas. Mas os minutos estendem-se para além das horas. E lá fora podia jurar que "as velhas da praia" a gritar... Mas, "São loucas! São loucas?"

Sei que voltas. Mas dói esta presença ausente que me faz esperar junto à janela desta lua que me/te ilumina como que numa promessa velada.

Sei que voltas. Mas não posso continuar a pedir às gaivotas que me guardem, "perfeito, o meu coração".

Sei que voltas. Mas tenho de me proteger, e ainda que 'tudo em meu redor me diga que estás sempre comigo', não te vejo, não te oiço, não te sei.

Sei que voltas. Mas quem és quando aqui não estás, não é quem por cá se instalou de pedra e cal 'dentro do meu coração'.

Sei que voltas. Mas pergunto ao luar como se volta depois deste afastar.

Sei que voltas. Mas sei também da surpresa, da interrogação, da não compreensão. E sei o quanto marcam a ferro e fogo o fundo do meu coração.

Sei que voltas. Sei até que já tentaste encurtar o caminho desenhado por ti a lápis azul no mapa astral dos planetas e constelações.

Sei que voltaste.
Mas como aquecer o vazio se "acordei tremendo deitada na areia"?

Sei que voltaste.
"Como sempre, como antes". Como se o tempo aqui tivesse congelado à espera do teu olá.

Sei que voltaste.
E foi no momento em que pegaste nas malas que me apercebi que quem fica não tem uma redoma onde pára os ponteiros e abafa os sentimentos.

Sei que voltaste.
Diz-me, então, que faço eu agora com a bagagem que nestas noites carreguei?...


Liliana Lima



segunda-feira, maio 09, 2016

Aí/qui

Agora que me deito sobre as mágoas e me tapo com as inquietações
Agora que a noite ilumina os medos que apenas mostro ao luar
Agora que deixo de lutar contra as lágrimas que, todo o dia, prendi
Agora que procuro a calma que me falha, num frasco de berlindes arredondados
Agora que me viro de lado e tento pensar apenas em não pensar
Agora que fecho os olhos o oiço dentro de mim todos os sons que pintaram o dia
Agora que me permito zangar e resmungar e até praguejar
Agora que a lua me sussurra que as horas avançam e me pede para a embalar
Agora que não sei como começar o amanhã
Agora que sinto, tanto, tudo o há para sentir
Agora que não vejo como sair daqui
Agora que toda a cidade dorme embalada pela dança do Tejo
Agora que não sei de ti
Agora que me perco em mim
Agora que procuro por nós

Agora

Deitada no Tejo e embalada pelos medos
Pergunto à Lua se sabe de ti
Confesso à cidade que preciso de nós
E penso em voz alta porque estou aqui

Agora

Diz-me a noite que estás aí/qui
Asseguram-me os berlindes que me esperas aí/qui
Prometem-me as mágoas que me queres aí/qui


Liliana Lima


quarta-feira, janeiro 27, 2016

Terra do NUNCA

Onde foi que tropecei e deixei cair o xaile, ficando com os ombros ao frio?

Como foi que parti o relógio, ficando perdida nas horas descompassadas?

Porque foi que me perdi do caminho amarelo que trazia no mapa?

Ajuda-me a passar por cima do remoinho onde me vejo afogar.
Ajuda-me a não me ferir nas arestas que, afinal, sempre aqui estiveram.
Ajuda-me a olhar o horizonte evitando enfrentar o Sol.
Ajuda-me a pintar o mar sem deixar entrar, à força, a maré.
Ajuda-me a avançar sem carregar o peso das certezas antigas.
Ajuda-me a sorrir para o espelho sem lhe ver o que não quer mostrar.
Ajuda-me a dizer de mim, para não me amordaçar.
Ajuda-me a estar sem este peso apertado, este aperto pesado.
Ajuda-me a afastar esta zanga, de querer ao nunca chegar.

Ajuda-me a sorrir
Ajuda-me a cantar
Ajuda-me a ver
Ajuda-me a sentir
Ajuda-me a dançar
Ajuda-me a ser

Sem sombras
Nem medos
Sem fantasmas
Nem medos
Sem entrelinhas
Nem medos
Sem mágoas
Nem medos

Ajuda-me, sem medo.


Liliana


terça-feira, dezembro 02, 2014

a.meias, amei.as

Não, não sou um castelo sentado na colina vestido de torres e ameias, protegendo a cidade, que dança "une valse à mille temps" sem medo da noite.

Não, não sou um pontão rasgando o mar e contendo a força das águas para salvar a baía, onde tão tranquilamente o verão segue o seu rumo, num filme colorido de fim-de-semana.

Não, não consigo pintar arco-íris no céu, que brilham mesmo nos dias de chuva e que quase ninguém vê, ou quer ver pelo meio das nuvens cinzentas.


Sou uma casa que abana e range à força do vento, onde as telhas se partem com a força da chuva e os vidros, embaciados, não deixam ver a luz do sol.

Sou um bote sem remos e de vela rasgada, perdido numa corrente que o leva e empurra para tão longe da costa.

Sou uma nuvem carregada, que junta energia dia-a-dia dentro do seu corpo, até deixar de haver mais espaço em si para uma só palavra mais.


Escrevo versos nas paredes da cidade, para conseguir soltar as palavras que não sei dizer, se não me ouvem para lá do que ecoa.

Mascaro-me de fortaleza se não sentem os meus medos.

Faço-me passar por muro erguido sob as águas revoltas se não vêem as minhas lágrimas. 


E por isso sou castelo e casa, sou pontão e bote, sou arco-íris e nuvem de trovoada.
Mas não, não sou uma rocha.


Liliana


quinta-feira, novembro 08, 2012

Posso ser quem nunca fui, Sérgio?!

Ah! Não me toques na noite suave, levantando o lençol dos sonhos que pedem para ser vividos, para quando nasce o sol me deixares assim as mãos frias, desamparadas, sós, como um ninho vazio.

Ah! Não me cantes ao ouvido de mansinho neste leito iluminado pelas estrelas, esculpindo as palavras letra a letra no meu corpo, para quando as nuvens cobrem o céu me escureceres com o silêncio da ausência que se instala em mim sem pedir licença.

Ah! Não me beijes os seios num nascer de Sol matinal que acorda os sentidos e os sentires se, quando o dia se mostra, foges numa barca invisível que te afasta do rio dos afectos e te leva para o oceano desconhecido deixando a marca da rejeição rasgada nas águas.

Ah! Não encostes o teu corpo ao meu nesta onda que acelera a respiração e me leva na maré se, quando a lua se transfigura, me deixas sentada à beira-mar procurando na areia, ainda húmida, a concha onde te escondes.

Diz-me, posso ser quem nunca fui?!

Ah! Deixa-me manter o espanto, o encanto, a capacidade de sonhar e acreditar... Que é possível ser, querer, sentir, viver... sem me ver só, no caminho dos campos.

Vem! Abre portas e janelas, se conseguires deixar a luz iluminar os corpos que somos(?) e fomos(?)!

Mas parte! Se enrolado num mar de dúvidas, perdido por entre hesitações, me negas e rejeitas.
Mas parte! Se apenas velado por um luar inaudito que só tu conheces e imaginas, consegues querer(ter)-me.

Diz-me, posso ser quem nunca fui?!
                                                                         Liliana


'- Senhora de preto
diga o que lhe dói
é dor ou saudade
que o peito lhe rói
o que tem, o que foi
o que dói no peito?
- É que o meu homem partiu

Disse-me na praia
frente ao paredão
“tira a tua saia
dá-me a tua mão
o teu corpo, o teu mar
teu andar, teu passo
que vai sobre as ondas, vem”

Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?

Seja um bom agoiro
ou seja um mau presságio
sonhei com o choro
de alguém num naufrágio
não tenho confiança
já cansa este esperar
por uma carta em vão

“por cá me governo”
escreveu-me então
“aqui é quase Inverno
aí quase Verão
mês d’Abril, águas mil
no Brasil também tem
noites de S. João e mar”

Pode alguém ser quem não é?...

É estranho no ventre
ser de outro lugar
e tão confusamente
ver desmoronar
um a um sonhos sãos
duas mãos
passando da alegria ao desamor

Pode alguém ser livre
se outro alguém não é
a algema dum outro
serve-me no pé
nas duas mãos,
sonhos vãos, pesadelos
diz-me:
Pode alguém ser quem não é?'

Sérgio Godinho (do "Pré-Histórias")