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terça-feira, outubro 30, 2018

Dançamos, Chico?...

Os corpos encontram-se no sofá num abraço longo que se estende com a sombra do Sol, que se retira
As mãos encontram-se a meio caminho do quarto onde as ondas já esperam, aconchegando os lençóis
Os olhos fecham-se para ver melhor tudo o que só se consegue ver fora do grande écran

E os lábios levando no beijo toda a carga dos sentimentos que cantam, desde a praia até ao alto da cidade
Os sentidos (con)fudem-se numa mistura de odores húmidos que se concentram nas quatro paredes sem pudor do espelho
E a respiração, ignorando o compasso, deixa-se levar pelas marés vivas que cobrem a praia e escondem a areia

O tempo pára. De verdade. E na rua todos se recolhem, respeitando o amor que ali se vive

Os corpos mantêm-se juntos, sem pressa, enquanto as ondas acalmam e se abafam na areia e a agulha chega ao fim do disco e o tempo retoma onde tinha parado
O Sol despede-se num longo abraço laranja e a cidade adormece em paz

Liliana Lima






Um dia ele chegou tão diferente
Do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente
Do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto
Quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto
Pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar
E então ela se fez bonita
Como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado
Cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços
Como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça
Foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança
Que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade
Que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu em paz
Composição: Chico Buarque / Vinícius de Moraes

domingo, outubro 28, 2012

Pelo que esperas, Chico?

Esperando que o amanhecer não caia em cima dela com força demais, capaz de deitar abaixo os sonhos da noite.
Esperando que os ventos não abanem o seu tronco de forma a danificar as raízes que a prendem ao seu solo interno.
Esperando que as estrelas não deixem de iluminar o seu lado mais alegre.
Esperando que a lua mantenha a ligação secreta que sempre a levou para lá do arco-íris.
Esperando acordar com um suspiro sincero, profundo, de respeito por si mesma.
Esperando encontrar-se, um dia, certa de si e das suas convicções, capaz de se pensar longe e inventar outros horizontes.
Esperando conseguir olhar para o copo e vê-lo sempre vazio, pronto a encher-se para novamente se esvaziar, num movimento perpétuo.
Esperando fintar a inquietação e olhar os fantasmas olhos nos olhos até lhes retirar toda a energia.
Esperando adormecer com a tranquilidade dum dia atrás do qual não precisou de correr.
Esperando olhar para o espelho e ver-se sorrir, sem reservas, para e de si mesma.
Esperando esperar...
Esperando apenas...
Esperando por si.
Liliana
17-10-2010





"Pedro pedreiro penseiro
esperando o trem
Manhã parece, carece
de esperar também para o bem
de quem tem bem
de quem não tem vintém

Pedro pedreiro fica assim pensando
Assim pensando o tempo passa
e a gente vai ficando prá trás
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
esperando o trem,
esperando aumento
desde o ano passado
para o mês que vem

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
Pedro pedreiro espera o carnaval

E a sorte grande do bilhete pela federal todo mês
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
Esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem
Esperando a festa, esperando a sorte
E a mulher de Pedro está esperando um filho prá esperar também

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
Pedro pedreiro fica assim pensando

Pedro pedreiro está esperando a morte
Ou esperando o dia de voltar pro Norte
Pedro não sabe mas talvez no fundo espere alguma coisa mais linda que o mundo
Maior do que o mar, mas prá que sonhar se dá o desespero de esperar demais
Pedro pedreiro quer voltar atrás, quer ser pedreiro pobre e nada mais, sem ficar
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
Esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem
Esperando um filho prá esperar também
Esperando a festa, esperando a sorte, esperando a morte, esperando o Norte
Esperando o dia de esperar ninguém, esperando enfim, nada mais além
Que a esperança aflita, bendita, infinita do apito de um trem
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando o trem
Que já vem...
Que já vem
Que já vem
Que já vem
Que já vem
Que já vem"
"Pedro pedreiro" de Chico Buarque

quarta-feira, outubro 24, 2012

Vamos lá Geni!

Agora vou tomar um calmante, vestir um sorriso e servir o jantar. Disse ela em frente ao espelho, mal iluminado e já descascado como o tronco duma velha árvore, da casa de banho.

Não era a primeira vez que se vestia de alegria, de paz, de confiança, de fé apenas para embalar os outros numa dança onde cada passo era cautelosamente conduzido por ela mesma.

Ali, em frente ao espelho que tão bem a conhecia que já não a conseguia enganar, procurava a força para se despir de si e enfeitar-se com os restos dum mundo que desde cedo lhe mostrara a face estranha de palhaço pobre.

Abriu o pequeno frasquinho com comprimidos cor-de-rosa e tirou um que engoliu sem água e sem cerimónia. Suspirou fundo, tão fundo que, a casa de banho com loiças antigas e um poliban de canto, quase ficou sem ar. Abanou a cabeça, penteou o cabelo e tentou até sorrir ao espelho que se recusava a reflectir uma falsa imagem.

Abriu a porta decidida e dirigiu-se à sala onde o mundo ficara suspenso à sua espera. Entrou, fez uma festa ao filho mais novo e, com um sorriso, serviu o jantar.

Liliana




De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina
Atrás do tanque, no mato
É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato
E também vai amiúde
Co'os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir
Joga pedra na Geni
Joga pedra na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante
Um enorme zepelim
Pairou sobre os edifícios
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo - Mudei de idéia
- Quando vi nesta cidade
- Tanto horror e iniqüidade
- Resolvi tudo explodir
- Mas posso evitar o drama
- Se aquela formosa dama
- Esta noite me servir

Essa dama era Geni
Mas não pode ser Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Mas de fato, logo ela
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro
O guerreiro tão vistoso
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro
Acontece que a donzela
- e isso era segredo dela
Também tinha seus caprichos
E a deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão
Vai com ele, vai Geni
Vai com ele, vai Geni
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um
Bendita Geni

Foram tantos os pedidos
Tão sinceros, tão sentidos
Que ela dominou seu asco
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco
Ele fez tanta sujeira
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir
Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni


Chico Buarque/1977-1978
Para a peça Ópera do malandro, de Chico Buarque

http://www.youtube.com/watch?v=jsB--twZgng&feature

sábado, julho 28, 2012

Sabes o que é First flush, Chico?!...

Apanho as folhas frescas pela madrugada, enquanto a minha pele ainda te retém. Tiro-as uma-a-uma com muito cuidado, para que a humidade da noite não se esfume no amanhecer. Sinto-te ainda enquanto a água as envolve no fundo da chávena.

Torno-me real, a cada vez que os teu dedos tocam a minha pele e reflicto-me na luz da lua, abafada no violeta dos cortinados que dá ao quarto uma cor acetinada.

Ao fundo uma torneira chora devagar. D e v a g a r.

Mexo ligeiramente as folhas para as ajudar a aceitar o calor da água. Fecho os olhos e revejo-me nos braços onde me perco, na pulsação em que me embalo, no corpo com me misturo.

A torneira e o seu choro procuram seguir a respiração do quarto, que aumenta de ritmo enquanto o aroma do chá invade a cama e os lençóis e as paredes e os cortinados e o luar e os nossos corpos que se entregam sem medo.
Já não há pingos, nem leitos calmos. Um rio revolto parte da nascente em busca da fóz onde, por fim, desagua nas areias salgadas que me envolvem em ti e te confundem comigo, no nosso mar mais íntimo.

Ao fundo, as lágrimas da torneira caem cada vez mais espaçadas, até que se apagam na noite. O luar sorri, "o mundo compreende, e o dia amanhece em paz".

No silêncio da manhã a água desabrocha o sabor e o cheiro e a cor do chá, que me espera na chávena, tranquilo.

Liliana



"Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar
E então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça, foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu, e o dia amanheceu em paz"
Valsinha - Chico Buarque

sexta-feira, maio 27, 2011

Dorme a cidade, Chico?

A cidade dorme. As janelas fecham-se como pálpebras cansadas depois de mais um dia de correria e burburinho. As casas, paradas e apagadas, respiram tranquilas na calma dum sono profundo.

Ela senta-se na varanda e acende um cigarro, deixou de fumar há mais de dez anos mas aquela noite pede algo que a reconforte e nada mais há para além dum copo mal cheio e dois cubos de gelo. O fumo sobe sem esforço no ar estanque da noite como quem vai até à lua e, lá em cima, vê toda a vida com a distância necessária para reconhecer os erros e os caminhos certos. Pudesse ela subir com ele...

O silêncio perturbador duma cidade inteira de olhos fechados assalta-a como um fantasma teimoso que espreita por entre os carros estacionados e os passeios vazios. Nunca gostou do silêncio, cresceu no meio dele e da solidão e sabe que, para ela, trará sempre um presente amargo. Encolhe-se no cadeirão e procura a manta como um bebé que se aninha no colo da mãe. "Está tudo bem", diz baixinho para se convencer a si própria, enquanto o cigarro a reconforta pela última vez antes de se apagar na sua insignificância.

Olha para o quarto, ele dorme com a cidade, calmo e tranquilo, tão longe dos seus silêncios e das suas solidões e dos seus fantasmas e dos seus medos. Pode quase chegar-lhe com uma mão ou acordá-lo com uma palavra e, no entanto, um imenso mar de desconhecimento os separa. Que faz ela ali?!

Pega no copo e roda-o fazendo os gelos bater entre si e cantar um baixíssimo tilintar que ecoa pelas ruas da cidade. Assusta-se "vou acordar toda a gente", pensa. Mas apenas um suspiro mais fundo se ouve e até o rio se mantém imperturbável, espelho calmo da sua solidão.

Daquela varanda pode sentir todos os sonhos que são sonhados. Pega nos mais risonhos e experimenta-os, como quem veste um vestido na loja, procurando um pouco de calma. Alguns de tão justos não a deixam respirar, outros são tão grandes e abrangentes que lhe escorregam pelos ombros e acabam caídos no chão e amassados num monte. Não, os sonhos alheios nada lhe dizem. Tem de ser ela própria a descobrir o seu sonho calmo e alegre. Mas o medo do silêncio, os fantasmas teimosos que a vigiam... não tem coragem de fechar os olhos e deixar-se adormecer naquele embalo ondulante da cidade. Não ela, que nunca se achou capaz de deixar fechar as janelas como pálpebras cansadas dos dias que correm em horas sobressaltadas.

O céu ainda não confessa o nascer do sol e já o chilrear tímido dos pássaros o denuncia. Apenas uma pequena claridade ao fundo, no seu lado direito, atrás das casas adormecidas dá a perceber que, como sempre, o sol voltará a nascer nesta madrugada.

Enquanto as janelas, muito devagar, se começam a abrir, e a cidade se espreguiça e pensa em acordar, ela pousa o copo e, inspirando fundo, sente o silêncio e os fantasmas e o vazio e o medo desvanecer.

No cadeirão da varanda embrulhada na manta permite-se, por fim, fechar os olhos ao mesmo tempo que sol se levanta e a cidade acorda.



Liliana


"Dorme a cidade
Resta um coração
Misterioso
Faz uma canção
Soletra um verso
Lá na melodia
Singelamente
Dolorosamente
Doce a música
Silenciosa
Larga o meu peito
Solta-se no espaço
Faz-se certeza
Minha canção
Réstia de luz onde
Dorme o meu irmão"





"Minha canção" de Chico Buarque
(LP Saltimbancos de 1977 - adaptação dos Músicos de Bremen)

domingo, março 20, 2011

Pelo que esperas Chico?


Há uma hora em que os ponteiros deixam de contar o tempo do meu tempo. Sais, e contigo saem as horas, os dias, os minutos, que te seguem até ser tempo de voltares.

Todas as vidas têm tempos distintos. Tempo de sonhar, tempo de avançar, tempo de mudar, tempo de esperar. Eu espero o tempo em que o relógio das marés recomeça a andar. A lua força as ondas para que rebentem ora tímidas ora estrondosas na areia que vai escorrendo pela ampulheta até chegar o último grão. Tempo que me foge pelas mão por muito que o tente agarrar.

Há uma hora em que, podia jurar, todos os relógios do mundo se recusam a seguir viagem. O tempo pára quando te afastas. A lua, enregela e deixa de chamar o mar que pára a corrente, transformando o oceano num enorme mar morto.

Todas as vidas têm tempos diferentes, cíclicos, que se sucedem com o passar dos dias. Eu espero pelo tempo em que o mar se balança num suspiro e se espalha, dançando, enquanto se mistura com a areia...
Liliana


"Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
Pedro pedreiro fica assim pensando

Assim pensando o tempo passa e a gente vai ficando prá trás
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol esperando o trem, esperando aumento desde o ano passado para o mês que vem

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
Pedro pedreiro espera o carnaval

E a sorte grande do bilhete pela federal todo mês
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
Esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem
Esperando a festa, esperando a sorte
E a mulher de Pedro, esperando um filho prá esperar também

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém

Pedro pedreiro tá esperando a morte
Ou esperando o dia de voltar pro Norte
Pedro não sabe mas talvez no fundo espere alguma coisa mais linda que o mundo
Maior do que o mar, mas prá que sonhar se dá o desespero de esperar demais
Pedro pedreiro quer voltar atrás, quer ser pedreiro pobre e nada mais, sem ficar
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
Esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem
Esperando um filho prá esperar também
Esperando a festa, esperando a sorte, esperando a morte, esperando o Norte
Esperando o dia de esperar ninguém, esperando enfim, nada mais além
Da esperança aflita, bendita, infinita do apito de um trem
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando o trem
Que já vem...
Que já vem
Que já vem
Que já vem
Que já vem
Que já vem"

"Pedro pedreiro" de Chico Buarque

quinta-feira, janeiro 13, 2011

E se pudesses entrar na minha vida, Chico?!


Espreito pelas janelas esverdeadas o imenso mundo que me envolve. Vejo as pessoas que me interpelam, sinto as que me tocam, doem-me as que não me vêem, e conto-lhes, conto-lhes histórias das mil e uma noites que sonhei nas luas com que não dormi.

Espreito as janelas abertas, iluminadas por dentro com o calor das vidas que se cruzam, e oiço os rios de histórias que escorrem de cada uma em pequenas cascatas e desaguam na calçada. Pego nelas e levo-as comigo, para mais tarde retocar.

Percorro as ruas estreitas e escuras que envolvem o Castelo e salpico as roupas penduradas com as histórias que inventei ao descer as escadas. Todos me cumprimentam e me conhecem na minha história. Mudo de roupa, troco palavras por sorrisos e apago os carros mal estacionados as chuvas que inundam a cidade a lama que suja as botas o trânsito infernal e os medos que teimam entrar na história.

Desço à baixa e danço ao som da banda-sonora da história que conto de mão dada com o Tejo. Como gosto deste rio! Imagino-me gaivota e levanto-me num voo em contra-corrente "por este rio acima", enquanto as margens se sucedem e alteram a meu bel-prazer.

Volto à cidade que me chama no corropio do dia-a-dia. Entro na minha história com outra no bolso (só para o caso de necessidade). Aponto, programo, sorrio, projecto, avalio, corrijo, sorrio, recomeço, apresso-me, compreendo, sorrio, altero, faço pontes, defendo, sorrio, sublinho, explico, procuro... e sorrio.

Volto para casa com uma história (às vezes mal) arrumada e outra prestes a nascer. Alguém ao fundo da rua, mesmo no meio da passadeira, acena um adeus e diz "está sempre tão bem disposta!"
Sorrio para dentro e espreito pelas janelas esverdeadas o imenso mundo que me envolve e invejo a forma como os outros me vêem das suas janelas. Entro no carro e enquanto dou à chave, dou início a uma nova história.
Era uma vez...

Liliana





"Olha...
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da actriz?
Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro paí­s
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida...

Olha...
Será que é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da actriz?
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida...

Sim, me leva para sempre, Beatriz!
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Ai, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz

Olha...
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divina
A vida da actriz?
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se um arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida..."

"Beatriz" de Chico Buarque

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Há tanto mar Chico!

Corremos às voltas duma verdade universal, duma realidade que está sempre, ainda por concretizar.
Corremos, quais borboletas rodando em roda do candeeiro, procurando a lua que imita o sol no frio da noite.
Levantamos a mão para chegar ao arco-íris, mesmo sabendo que se desvanece assim que nos aproximamos.
Levantamo-nos ainda que a força de o fazer nos obrigue a colorir o peso que carregamos aos ombros.
Sorrimos até para quem não nos vê, esperando que no meio da multidão alguém, um dia, nos ofereça as flores de que mais gostamos.
Sorrimos quando queremos fugir e como não sabemos mudar o cenário, mudamos de personagem.
Acarinhamos a mão ao nosso lado ainda que saibamos, lá no fundo, que amanhã nos pode afastar.
Acarinhamos alguém apenas para sentir que, alguém nos consegue amar.
Cantamos para apagar o silêncio e pintar o que sentimos com a forma híbrida dos sonhos.
Cantamos para nos embalar quando o sono nos acorda do dia que sonhávamos.
E sonhamos, sonhamos mesmo quando estamos acordados, de olhos bem abertos para o que nos rodeia.

Porque sabemos que há muito mais mundo do que aquele que sentimos nas nossas mãos gastas.
Há muito mais realidade do a que, através da rede dos olhos, conseguimos ver.
Há muito mais música do que algum dia poderemos absorver, ouvir, dançar, cantar ou tocar...

Há tanto mar...
Liliana





"Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo pra mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também que é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim"
"Tanto mar" de Chico Buarque

domingo, outubro 17, 2010

Pelo que esperas, Chico?

Esperando que o amanhecer não caia em cima dela com força demais, capaz de deitar abaixo os sonhos da noite.
Esperando que os ventos não abanem o seu tronco de forma a danificar as raízes que a prendem ao seu solo interno.
Esperando que as estrelas não deixem de iluminar o seu lado mais alegre.
Esperando que a lua mantenha a ligação secreta que sempre a levou para lá do arco-íris.
Esperando acordar com um suspiro sincero, profundo, de respeito por si mesma.
Esperando encontrar-se, um dia, certa de si e das suas convicções, capaz de se pensar longe e inventar outros horizontes.
Esperando conseguir olhar para o copo e vê-lo sempre vazio, pronto a encher-se para novamente se esvaziar, num movimento perpétuo.
Esperando fintar a inquietação e olhar os fantasmas olhos nos olhos até lhes retirar toda a energia.
Esperando adormecer com a tranquilidade dum dia atrás do qual não precisou de correr.
Esperando olhar para o espelho e ver-se sorrir, sem reservas, para e de si mesma.
Esperando esperar...
Esperando apenas...
Esperando por si.
Liliana





"Pedro pedreiro penseiro
esperando o trem
Manhã parece, carece
de esperar também para o bem
de quem tem bem
de quem não tem vintém

Pedro pedreiro fica assim pensando
Assim pensando o tempo passa
e a gente vai ficando prá trás
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
esperando o trem,
esperando aumento
desde o ano passado
para o mês que vem

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
Pedro pedreiro espera o carnaval

E a sorte grande do bilhete pela federal todo mês
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
Esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem
Esperando a festa, esperando a sorte
E a mulher de Pedro está esperando um filho prá esperar também

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
Pedro pedreiro fica assim pensando

Pedro pedreiro está esperando a morte
Ou esperando o dia de voltar pro Norte
Pedro não sabe mas talvez no fundo espere alguma coisa mais linda que o mundo
Maior do que o mar, mas prá que sonhar se dá o desespero de esperar demais
Pedro pedreiro quer voltar atrás, quer ser pedreiro pobre e nada mais, sem ficar
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
Esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem
Esperando um filho prá esperar também
Esperando a festa, esperando a sorte, esperando a morte, esperando o Norte
Esperando o dia de esperar ninguém, esperando enfim, nada mais além
Que a esperança aflita, bendita, infinita do apito de um trem
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando o trem
Que já vem...
Que já vem
Que já vem
Que já vem
Que já vem
Que já vem"

"Pedro pedreiro" de Chico Buarque

domingo, julho 04, 2010

Diz-me o que vês no espelho, Chico?!

Diz-me espelho, diz-me o que vês do lado de cá das águas?
Dias há em que vês a sombra de algo que está para ser ou que já foi um dia, uma sombra sem corpo, sem forma certa, mas que caminha como quem busca o seu Peter Pan.
Nas noites escuras podias jurar que vês brilhar uma luz, pequenina, que te embala e te inspira, como um farol longínquo que guia os barcos perdidos no oceano até bom porto, riscando o caminho seguro pelas ondas e marés.
Nas tardes frias de inverno ofuscam-se as águas e tudo fica baço, pouco definido, inconstante, queres ver quem lá está mas os olhos estão vazios, sem voz e, por isso nada vês neles que valha a pena espelhar.
Mas quando o Sol se levanta nas planícies alentejanas, descobrindo o manto da noite e deixando a nu a enorme linha do horizonte, a luz que te enche é uma força que se faz palavra e intenção e emoção e gesto num só sorriso.

Diz-me espelho, diz-me o que vês do lado de cá das águas?
Verás o castelo de areia em que me refugio durante as tempestades?
E a muralha de dominó que vou erguendo em volta dos meus sonhos para que não caiam das nuvens e se estatelem no chão, também vês?
E estas tintas com que me pinto para cumprir o papel certo, sem sair do guião?
Verás ainda, depois de tudo isto, os olhos que te olham esperando resposta?

Diz-me espelho, diz-me se sou eu quem vês quando espreito do lado de cá das águas?

Liliana


"Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz

Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Olha
Será que ela é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Sim, me leva pra sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Aí, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz

Olha
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divina
A vida da atriz
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se o arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida"


"Beatriz" de Chico Buarque

domingo, dezembro 13, 2009

Perdoa-me Chico...

Perdoa-me, mas não quero ser igual a ti.

Não tenho nada contra ti, nem contra o teu aspecto, nem contra as tuas ideias, nem contra a tua atitude, nem mesmo contra a tua vontade que eu seja... igual a ti. Não tenho nada contra nada de ti.

Peço, simplesmente o direito a não te ser igual.

Sei que te parece impossível este caminho que trilho todos os dias debaixo do sol que, teimosamente se ergue dia após dia após dia. Sim, eu sei que te é duro ver-me correr deste lado da lua. Eu sei, e por isso te peço que não tentes compreender, não queiras explicar, não te preocupes em entender.

Acolhe-me simplesmente, nesta possibilidade de ser não igual a ti.

Dá-me a mão e senta-te comigo sem que a minha diferença te magoe. Chega-te a mim e deixa-me encostar a ti, aqui neste bocadinho de mundo onde tudo é vago e pouco concreto, aqui onde a luz não deixa ver as cores, nem as formas, nem os gostos, aqui onde todos podemos ser diferentes.

Acolhe simplesmente, esta possibilidade de ser não igual.

É aqui que te quero encontrar, neste lugar que procuro há mil anos sem nunca chegar a encontrar. Neste lugar onde eu continuo a acreditar que todos nos podemos cruzar, sem atropelos, nem pressões, nem feridas, nem mágoas. Neste lugar onde me sento descalça e te peço perdão ao mesmo tempo que te estendo a mão e te perdoo, por não seres igual a mim.

Liliana


"Te perdôo
Por fazeres mil perguntas
Que em vidas que andam juntas
Ninguém faz
Te perdôo
Por pedires perdão
Por me amares demais

Te perdôo
Te perdôo por ligares
Pra todos os lugares
De onde eu vim
Te perdôo
Por ergueres a mão
Por bateres em mim

Te perdôo
Quando anseio pelo instante de sair
E rodar exuberante
E me perder de ti
Te perdôo
Por quereres me ver
Aprendendo a mentir (te mentir, te mentir)

Te perdôo
Por contares minhas horas
Nas minhas demoras por aí
Te perdôo
Te perdôo porque choras
Quando eu choro de rir
Te perdôo
Por te trair"
"Mil perdões" de Chico Buarque

domingo, dezembro 21, 2008

São precisos dois para dançar a Valsa, Chico...

(segundo de três ensaios para "Valsinha" de Chico Buarque)


Sinto-me esgotada… há uma sensação de cansaço profundo que me invade desde há dias (ou serão anos?!)... Não é cansaço físico, estou em plena forma, faço exercício todos os dias, alimento-me bem, durmo sete horas por dia, mas... sinto-me desanimada!

Trabalho no Ministério da Justiça, tenho um horário óptimo que me permite sair às 17:00 e fazer o que me apetece. Saio e vou ao Ginásio, faço yoga, pilates, alongamentos, sei lá, faço tudo o que há para fazer. Mas ultimamente sinto-me sem vontade… não sei o que se passa, ando assim há dias (ou serão anos?!)… Tinha outros planos para estes finais de tarde, pensava que ficaria a tomar conta dos filhos, mas eles nunca aconteceram...

O meu marido trabalha num banco, é gerente de balcão, e nunca chega a casa antes das 21:00, acabo sempre por jantar antes dele chegar. Quando casámos fazíamos tudo em conjunto, parecíamos umas lapas! Queríamos ter três filhos, casa de férias e fazer muitas viagens!

Costumo ir ao ginásio ao fim da tarde, adoro descer a Infante Santo e olhar o Tejo! Nos dias de Sol tem um azul cintilante, e nos dias de nevoeiro parece uma passagem para a “Quinta Dimensão” com um manto cinzento que flutua em cima das águas. Nestes dias nem tenho ido ao Ginásio, nem tenho visto o Tejo, ando desanimada, sem vontade de fazer nada…

O meu marido nunca chega cedo, por isso faço o jantar, arranjo-lhe o prato e vou para o sofá com um tabuleiro fazer zapping pelos canais do costume, à procura das séries do costume, sozinha comme d'habitude… Quando casámos íamos ao cinema todas as semanas!

Este cansaço imenso que me invade desde os últimos dias (ou serão anos?!) é que me está a atrapalhar a vida… Já nem ao Ginásio me apetece ir. Quando casei pensava ter três filhos, um é pouco, dois é piroso, três é o número certo! mas nunca aconteceu...

Sinto-me esgotada, não fisicamente, estou em boa forma. Mas não sei o que se passa, tenho andado triste, invade-me uma falta de ânimo a cada minuto (ou será a cada ano?!)…

Quando o meu marido chega, estou tão cansada que muitas vezes já adormeci. Ainda nem lhe consegui falar deste assunto, não tive tempo, ele tem uns horários horríveis… Quando casámos parecíamos duas lapas, fazíamos tudo juntos!

Quem sabe um destes dias lhe telefono e ele vem mais cedo para casa e janta comigo e vamos os dois ver o Tejo à noite espelhar as luzes da cidade… E se ligar hoje?!


LL 19-04-2006

(para não perder de vista a "banda sonora", aqui fica novamente)

"Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar
Então ela se fez bonita com há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços com há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhanca toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz"


Valsinha - Chico Buarque

quinta-feira, dezembro 18, 2008

Como se dança a Valsa, Chico?!

(primeiro de três ensaios para a "Valsinha" de Chico Buarque)



Não somos um casal diferente dos outros...

Estamos casados há 20 (serão 23?) anos. Conhecemo-nos no último ano do Liceu, ela era linda, alegre, cheia de vida! Casámos cheios de planos, três filhos, casa de férias, muitas viagens.

Não somos um casal diferente dos outros...

Acabámos os cursos já casados, eu Economia, ela Direito. Temos bons empregos, também trabalhámos para isso, a nossa situação económica é muito confortável.

Casámos cheios de planos…

Trabalho num banco, sou Gerente de Balcão, os meus horários são um bocado exigentes. Ela trabalha no Ministério da Justiça, tem horário flexível e um montão de férias.

Era linda, alegre, cheia de vida!

Chego a casa muito tarde e normalmente janto sozinho, ela vai ao ginásio e fica cheia de fome, deixa-me o prato com o jantar servido e acaba por se deitar e adormecer.

Não somos um casal diferente dos outros…

Acabámos por nunca ter filhos, primeiro os cursos, depois os empregos, depois os novos empregos e acabou por não acontecer, não foi uma opção… simplesmente não aconteceu.

Conhecemo-nos no último ano do liceu, ela era linda!

Hoje temos uma situação económica muito confortável. Costumamos tirar duas semanas de férias juntos em Janeiro, vamos sempre para o Brasil.

Ela tem um montão de dias de férias…

Casámos cheios de planos, ela era alegre, linda e cheia de vida!

Chego a casa muito tarde, ela deixa-me o prato com o jantar servido e acaba por adormecer. Os meus horários são um bocado exigentes…

Não somos um casal diferente dos outros… Casámos cheios de planos...

Estamos casados há 20 (ou serão 23?) anos. Ela era linda, alegre… cheia de planos!

Não somos um casal diferente dos outros… Chego a casa muito tarde… Ela era linda, alegre…

Se sair agora, será que ainda vou a tempo de não jantar sozinho?!


LL - 23-03-2006














"Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar
Então ela se fez bonita com há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços com há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhanca toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz"

Valsinha - Chico Buarque

quarta-feira, agosto 02, 2006

Esperando - Chico Buarque


"Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã, parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem
De quem não tem vintém
Pedro pedreiro fica assim pensando
Assim pensando o tempo passa
E a gente vai ficando pra trás
Esperando, esperando, esperando
Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando o aumento
Desde o ano passado
Para o mês que vem

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã, parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem
De quem não tem vintém
Pedro pedreiro espera o carnival
E a sorte grande no bilhete pela federal
Todo mês
Esperando, esperando, esperando
Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando aumento
Para o mês que vem
Esperando a festa
Esperando a sorte
E a mulher de Pedro
Está esperando um filho
Pra esperar também

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã, parece, carece de sperar também
Para o bem de quem tem bem
De quem não tem vintém
Pedro pedreiro está esperando a morte
Ou esperando o dia de voltar pro norte
Pedro não sabe mas talvez no fundo
Espera alguma coisa mais linda que o mundo
Maior do que o mar
Mas pra que sonhar
Se dá o desespero de esperar demais
Pedro pedreiro quer voltar atrás
Quer ser pedreiro pobre e nada mais
Sem ficar esperando, esperando, esperando
Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando aumento para o mês que vem
Esperando um filho pra esperar também
Esperando a festa
Esperando a sorte
Esperando a morte
Esperando o norte
Esperando o dia de esperar ninguém
Esperando enfim nada mais além
Da esperança aflita, bendita, infinita
Do apito do trem

Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando o trem
Que já vem, que já vem, que já vem (etc.)"


Pedro Pedreiro
Chico Buarque/1965