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sexta-feira, setembro 28, 2018

TEMpo

Meto a mão na mala à procura dos minutos que tinha (tenho quase a certeza) guardado para te oferecer. 

Este caos que vive comigo teima em se instalar por entre as chaves que não abrem a porta de casa, os lápis e os batôns meio-secos de tão pouco os usar, os cadernos pretos pequeninos sempre prontos para me deixar escrever as palavras que pedem para ser contadas, e os lenços e as toalhitas e o desodorizante e o leque florido e os cartões e... as chaves que nem a porta de casa abrem.
Encontro tudo, menos o tempo que queria para nós...

Tiro a agenda e peço-lhe, baixinho, que me deixe falar aos dias, contar às horas, pedir ao tempo que se aquiete e nos abra o espaço para sermos nós (não tu e eu, mas nós).
Nunca estou certa das suas respostas, conheço bem o seu mau-feitio e inconstância. Mas, pelo sim pelo não, espreito por sobre os sábados e procuro dentro das quartas-feiras e... às vezes dou por mim num dia-sim, outras encontro apenas nãos.

Mas, entre cada nascer e pôr-do-Sol, vou guardando carinhosamente na minha mala, todos os momentos que consigo libertar para juntar ao nosso tempo (não meu e teu, mas nosso).

Meto a mão no cesto, debroado a azul que trago hoje a consizer com a saia comprida e a blusa branca. Podia jurar que lá dentro pelo menos umas horas estavam guardadas para nós. 
Mas o caos que teima em viver comigo diz-me que hoje não é o dia certo.

Suspiro e olho em frente com a certeza de que, mais dia menos noite, vamos encontrar O nosso tempo.

Liliana Lima




sexta-feira, novembro 10, 2017

pA.cI.êN.cI.A


pa·ci·ên·ci·a
(latim patientia, -ae)

substantivo feminino

1. Capacidade de tolerar contrariedades, dissabores, infelicidades.

2. Sossego com que se espera uma coisa desejada.

3. Perseverança.

4. Demora nas coisas que se deviam executar prontamente.

5. Sofrimento em pontos de honra.

6. Passatempo ou jogo de uma pessoa .

7. [Botânica]  Labaça.

interjeição

8. Designativa de resignação, conformidade.
____________________________________ 

pA.cI.êN.cI.a

Paciência, pedes-me tu.
Outra vez. Mais uma vez.
Toda a do mundo
digo-te eu. Repito eu.

Quanta paciência o mundo tem?
Pergunto eu a Jó
que me olha com desdém
ao cimo de uma nova subida.

Jogo de cartas, diz minha mãe
sorrindo debaixo de uma libelinha.

Sofrimento, sofrimento, sofrimento...

Procuro o sossego da espera.
Debaixo da almofada
não encontro nada.
  As bolinhas brancas  
  deste frasco fechado na gaveta
recusam-se a tolerar
a dor de cabeça que se demora
debaixo de uma libelinha.

Sofrimento, sofrimento, sofrimento...

Paciência, dizes-me tu.
Jogo de cartas, sorri minha mãe.

Peço a Jó que me deixe jogar 
a sua resignação
no tabuleiro do meu tempo.
Olha-me com desdém 
ao fundo de mais uma hora
que passa a ser dia
e se repete em semanas
que se demoram
nas Damas de copas 
que conversam debaixo de uma libelinha.

Resignação, resignação, resignação
Jogo de cartas, repete minha mãe


Liliana Lima
 

domingo, agosto 14, 2016

branco E preto

Ela não sabia se os camaleões conseguiam vestir-se de todas as cores. Ela queria ser capaz de se tornar no arco-íris sem esborratar a sua cor, única e verdadeira. 

Uma noite de Lua cheia, em que o Luar apagava as estrelas com a sua luz branca e toda a vida lhe parecia fugazes diferenças entre cinzas claros e escuros, o peso das horas pediu um novo vestido, não verde nem rosa, não roxo ou vermelho, mas preto, branco e preto apenas. 

Procurou no baú do guarda-roupa dos muitos teatros levados a cena em tantos palcos quantos a vida aplaudiu, ou correu o pano mesmo antes do final. Nos fatos e vestidos, por estrear pendurados por tons, ou espalhados e já gastos em muitos monólogos, nenhum branco e preto. 

Sem camuflagem, não conseguia entrar sem ser vista. Sem conseguir vestir-se das cores da noite, não conseguiria estar sem estar, olhar sem sentir, falar sem contradizer. 

Ela não sabia em quantas cores conseguiam os camaleões camuflar-se. Ela apenas queria ser capaz de vestir a cor certa para passar por entre o peso das horas num mundo a preto e branco. 

Liliana Lima 


segunda-feira, junho 06, 2016

Lou.Cura

Olho através do espelho redondo com uma pega trabalhada em prata e procuro a minha loucura dentro dum chapéu. Os ponteiros lembram-me que as horas fogem de mim e saio com o miúdo pela mão, saltitando pelo jardim de relógio em punho. 

As minhas lutas jogam-se num tabuleiro de xadrez interno, onde as regras seguem as vontades voláteis duma rainha que, em mim, grita tão alto que quase deixo de ouvir o mundo fora do espelho. 

Sento-me comigo, numa dimensão multi-temporal, e bebo chá com as loucuras passadas enquanto invento novos chapéus para as que estão por vir. 

Sei há muito que o impossível é a desculpa que nos contamos, embrulhada num bolinho que nos faz diminuir, ao mesmo tempo que nos enroscamos num canto duma toca onde na verdade acabamos por cair.

O lado de lá(?) espelha o teu sorriso tranquilo, de quem nunca sentiu o cheiro da cola com que se faz um chapéu. Serás capaz de te sentar nesta mesa coberta de toda a loucura que, à hora do chá, se senta comigo? 

Apareço e esfumo-me à força das verdades que, de sorriso esvoassante, atiro ao ar em forma de borboletas azuis. Será que me sentes, enrolada no teu pescoço, sussurrando que o caminho que escolhes é indiferente enquanto não souberes para onde queres ir? Conseguirás dar-me a mão e acompanhar-me nesta aventura de loucuras guardadas em castelos de cartas?

O lado de lá(?) espelha os chapéus que guardo em cima do roupeiro. Nunca saio com eles, mas teimo em coleccioná-los, embrulhados em papel de seda ou fechados em caixas redondas de cartão. 

No lado de fora da janela voa uma borboleta azul e o relógio canta que são horas de sair. Guardo as cartas na caixa de madeira com um coração vermelho, apago o cachimbo que envolve de fumo a mesa do chá e desapareço por entre a loucura dos dias.

Olho através do espelho redondo com uma pega trabalhada em prata e vejo-te aproximar de chapéu na cabeça.

Liliana



segunda-feira, dezembro 23, 2013

Dos Natais de outros anos...

Acreditas no Pai Natal?

Pego no pinheiro enrolado numa espécie de meia de rede, daquelas que antigamente as senhoras ousavam usar para provocar os cavalheiros, e tento a custo equilibrar-lhe o tronco entre as duas pedras grandes que de ano para ano servem de apoio à tão esperada árvore de natal. Entre desequilíbrios e quedas, dou um salto na memória e vejo os pinheiros da minha infância. Sem esforço aparente apareciam prontos a decorar na sala de jantar onde eu e a minha prima mergulhávamos nas caixas de enfeites e descobríamos as bolas decoradas, ainda de vidro, que diminuíam de número à força das nossas tão delicadas mãos, as luzes em feitio de vela que se apagavam sempre que uma das lâmpadas se fundisse e até as faixas farfalhudas douradas e prateadas com que, literalmente, vestíamos o coitado do pinheiro...

De repente o meu pinheiro, este verdadeiro, com resina e folhas que se espalham pelo chão da sala e tudo o que a natureza nos dá, parece-me tão pequeno. Os enfeites e bolas, estas de plástico para sobreviverem aos assaltos anuais dos miúdos, olham-me tristes e desengraçados. Até as luzes, que piscam e mudam de cor, me parecem desengraçadas.

Quando eu tinha o tamanho dos meus filhos mais velhos, o Natal estava coberto de um manto mágico que nem a mais dura realidade conseguia romper ou corromper. Via a azáfama e correria na cozinha com os olhos de quem quer acreditar no Pai Natal mesmo quando me diziam que ele não existia. Tudo me parecia um bailado de movimentos alegres e criadores, de onde nasciam filhoses e leite-creme e embrulhos e aletria e bacalhau e embrulhos e mesas arranjadas com copos de pé e embrulhos...

Enrolo o alguidar com a massa das filhoses numa manta e deixo-a fintar perto do aquecedor. Com as mãos cheias de farinha vejo-me do lado de dentro do teatro, onde as luzes estão penduradas por cabos pretos e o cenário colorido está debotado e remendado. A minha avó à porta da cozinha, também com as mãos enfarinhadas, suspira cansada. A minha mãe na sala, arruma as lágrimas ao lado dos copos de pé enquanto arranja os presentes em volta da árvore. Os meus tios, atrasados para o jantar, batem à porta com olhos cansados da correria e do trânsito.

Ao fundo do palco, o meu avô sorri. Olha-me através dos tempos e das luzes e das árvores de muitos natais. Ao fundo do corredor grande e comprido, da cozinha ao escritório, chama-me ao seu lado. Sou do tamanho dos meus filhos mais velhos e está na hora de lhe dar a prenda que a minha mãe comprou. Ele dá-me a mão e abre o embrulho de mais um lenço com um "F" bordado. Está tudo tão perfeito que nem as lágrimas, nem os suspiros, nem os cansaços se atrevem a interromper, apenas a mesa com os copos de pé e o leite-creme e os embrulhos ainda à volta da árvore.

Ao fundo do corredor, do meu corredor, o meu avô sorri e os seus olhos azuis iluminam o palco, dão cor ao cenário e alegram os focos.

Os meus filhos correm e brincam em volta do pinheiro que, aos poucos, se veste de festa. As filhoses estão prontas e luzidias no centro da mesa vestida, também, de Natal. Os embrulhos vão-se juntando longe da vista das crianças e na manhã de Natal aparecem, como que por magia, em volta da lareira. Afinal sempre me disseram que o Pai Natal não existe, apesar de o ter visto passar em frente da lua todas as vésperas de Natal!


Liliana a 22/Dez/2009


terça-feira, novembro 19, 2013

À minha avó

A nossa recordação mais antiga que guardo na caixa das horas vividas, é a mesa da cozinha cheia de púcaros onde, a par contigo, cozinhava as cascas das ervilhas que eu detestava, ou das cenouras que davam uma cor linda aos meus cozinhados depois de bem esborrachadas, ou ainda os talos dos grelos que eu desesperadamente tentava migar com a faca de sobremesa que me davas como utensílio. No fim das contas o mais importante de tudo era mesmo o avental, teu, que dobravas para eu não tropeçar e apertavas com um laço digno de uma princesa.

A cozinha foi, de facto, o centro das nossas memórias, aliás era o centro nevrálgico de toda a casa e família, que giravam à sua volta de acordo com as horas, os dias da semana, as festividades anuais e toda a logística que ali tratavas e resolvias com as tuas próprias mãos.

Nas grandes janelas, rasgadas sobre o Tejo, da sala de estar, aprendi a contar os carros que, apressados corriam na marginal nos fins de tarde de Primavera, com um Sol preguiçoso que se despedia da cidade beijando o rio.

Ao som dos Parodiantes de Lisboa faziam-se os trabalhos de casa, difíceis por ter vindo coxa (ou nem isso) da Primeira Classe. A tabuada espalhava-se por toda a casa, seguia pelo corredor até ao banho, abria a porta do quarto para se vestir, parava no sofá da sala da televisão e voltava à cozinha, sempre com os mesmos erros e os respectivos ralhetes.

Fora de casa, seguíamos até Algés com o rio como companheiro e as conversas inesgotáveis de quem descobria o mundo inteiro numa folha do jardim, e tu paciente, atenta, respondendo àquele enorme entusiasmo até às montras e montras com muito mais do que conseguia imaginar e, por fim, o café e o bolinho antes do eléctrico de regresso.

E ainda os Natais, e ainda o sótão com os brinquedos, e ainda as saias e os vestidos, e ainda as conversas de "mulheres", e ainda os outros dias todos de que não guardo memória...

A tua recordação mais antiga que guardo é tão antiga que não me lembro dela, mas sei que está dentro de mim, a primeira vez que te vi e te percebi minha... para sempre.

Liliana



Parabéns pelos 88 anos, obrigada!

domingo, dezembro 23, 2012

Dos Natais de outros anos...

Acreditas no Pai Natal, António?

Pego no pinheiro enrolado numa espécie de meia de rede, daquelas que antigamente as senhoras ousavam usar para provocar os cavalheiros, e tento a custo equilibrar-lhe o tronco entre as duas pedras grandes que de ano para ano servem de apoio à tão esperada árvore de natal. Entre desequilíbrios e quedas, dou um salto na memória e vejo os pinheiros da minha infância. Sem esforço aparente apareciam prontos a decorar na sala de jantar onde eu e a minha prima mergulhávamos nas caixas de enfeites e descobríamos as bolas decoradas, ainda de vidro, que diminuíam de número à força das nossas tão delicadas mãos, as luzes em feitio de vela que se apagavam sempre que uma das lâmpadas se fundisse e até as faixas farfalhudas douradas e prateadas com que, literalmente, vestíamos o coitado do pinheiro...

De repente o meu pinheiro, este verdadeiro, com resina e folhas que se espalham pelo chão da sala e tudo o que a natureza nos dá, parece-me tão pequeno. Os enfeites e bolas, estas de plástico para sobreviverem aos assaltos anuais dos miúdos, olham-me tristes e desengraçados. Até as luzes, que piscam e mudam de cor, me parecem desengraçadas.

Quando eu tinha o tamanho dos meus filhos mais velhos, o Natal estava coberto de um manto mágico que nem a mais dura realidade conseguia romper ou corromper. Via a azáfama e correria na cozinha com os olhos de quem quer acreditar no Pai Natal mesmo quando me diziam que ele não existia. Tudo me parecia um bailado de movimentos alegres e criadores, de onde nasciam filhoses e leite-creme e embrulhos e aletria e bacalhau e embrulhos e mesas arranjadas com copos de pé e embrulhos...

Enrolo o alguidar com a massa das filhoses numa manta e deixo-a fintar perto do aquecedor. Com as mãos cheias de farinha vejo-me do lado de dentro do teatro, onde as luzes estão penduradas por cabos pretos e o cenário colorido está debotado e remendado. A minha avó à porta da cozinha, também com as mãos enfarinhadas, suspira cansada. A minha mãe na sala, arruma as lágrimas ao lado dos copos de pé enquanto arranja os presentes em volta da árvore. Os meus tios, atrasados para o jantar, batem à porta com olhos cansados da correria e do trânsito.

Ao fundo do palco, o meu avô sorri. Olha-me através dos tempos e das luzes e das árvores de muitos natais. Ao fundo do corredor grande e comprido, da cozinha ao escritório, chama-me ao seu lado. Sou do tamanho dos meus filhos mais velhos e está na hora de lhe dar a prenda que a minha mãe comprou. Ele dá-me a mão e abre o embrulho de mais um lenço com um "F" bordado. Está tudo tão perfeito que nem as lágrimas, nem os suspiros, nem os cansaços se atrevem a interromper, apenas a mesa com os copos de pé e o leite-creme e os embrulhos ainda à volta da árvore.

Ao fundo do corredor, do meu corredor, o meu avô sorri e os seus olhos azuis iluminam o palco, dão cor ao cenário e alegram os focos.

Os meus filhos correm e brincam em volta do pinheiro que, aos poucos, se veste de festa. As filhoses estão prontas e luzidias no centro da mesa vestida, também, de Natal. Os embrulhos vão-se juntando longe da vista das crianças e na manhã de Natal aparecem, como que por magia, em volta da lareira. Afinal sempre me disseram que o Pai Natal não existe, apesar de o ter visto passar em frente da lua todas as vésperas de Natal!
Liliana a 22/Dez/2009
 













"Venho, torna-me velho esta lembrança!
D'um enterro d'anjinho, nobre e puro:
Infancia, era este o nome da criança
Que, hoje, dorme entre os bichos, lá no escuro...

Trez anjos, a Chymera, o Amor, a Esperança
Acompanharam-n'o ao jazigo obscuro,
E recebeu, segundo a velha usança,
A chave do caixão o meu Futuro.

Hoje, ambulante e abandonada Ermida,
Leva-me o fado, á bruta, aos empurrões,
Vá para a frente! Marcha! Á Vida! Á Vida!

Que hei-de fazer, Senhor! o qu'é que espera
Um bacharel formado em illuzões
Pela Universidade da Chymera?"

"Ai de Mim! "
António Nobre, in 'Só'

quarta-feira, outubro 17, 2012

Fica um bocadinho mais, Fausto...

Chove com força lá fora, as árvores dos jardins abanam os ramos para poupar as folhas que pingam gotas enormes que se esborracham no chão da calçada e correm para o Tejo.

Cá dentro a luz é fina, quase cinza, entrando pelas janelas altas que olham o rio. O gira-discos toca sem cessar "Por este rio acima" e as folhas com as letras das canções esvoaçam pela sala e aterram amachucadas no sofá. Fernão Mendes Pinto passa-me ao lado, cada palavra é apenas aquela palavra cantada naquele determinado tom e com aquele exacto ritmo, a que tento, repetidamente, chegar. 

As portas da sala são em par, brancas como as janelas que contrastam com o papel de parede em tons de amarelo. Abro-as e fecho-as conforme as canções começam ou acabam. Estou num palco e o meu público é o mundo todo, a vida por viver e os sonhos por criar, à minha frente, naquela sala, sentados no sofá grande ou empoleirados nas prateleiras dos livros e dos bichos de cristal da avó ou ainda espreitando pelas janelas, à chuva com pena de não conseguir entrar. Canto com Fausto como quem se senta à conversa com um velho amigo. As letras das canções, caídas no sofá, já estão misturadas de tanto terem sido lidas e relidas, agora conheço o disco como a palma das mãos. 

O Tejo, enche-se com a chuva que chega das ruas da cidade e bate-me palmas para incentivar a mais uma rodada. Na marginal os carros encavalitam-se e as buzinas animam a minha actuação. Lisboa está atrás do palco, escondida pelas portas em par que dão para o quarto dos avós. É-me, ainda, indiferente a cidade, sinto-a apenas nos cheiros do meu rio e nas suas mudanças de humor, mas não a convido para o concerto.

Chove e o meu bisavô, o "avô velhinho", já cego e com muita dificuldade em andar, acaba o lanche, corro pelo corredor para o agarrar antes da minha bisavó, a "avó uma" assim baptizada por mim em pequenina, e levo-o para junto do meu palco. Ficará sentado na primeira fila, no sofá pequeno, virado para mim para me ouvir melhor a mim que ao meu colega Fausto. Ri-se e bate palmas sempre que acabo uma canção com a paciência que apenas um bisavô pode ter, num final de tarde chuvoso. No fim do concerto enrosca-me no colo e diz-me "cantas melhor que ele!"

Chove com força, lá fora já não tenho o Tejo mas Lisboa. Também já não tenho o avô velhinho para me enroscar, mas continuo a ter janelas altas, que olham para a cidade, e portas em par que dão duma sala para a outra. Levanto-me devagar, quase como num ritual e procuro o CD "Por este rio acima". Ligo a aparelhagem, sento-me no sofá, fecho os olhos e, por momentos, podia jurar que ouvia o Tejo a bater palmas e o meu bisavô a dizer que canto muito melhor que o Fausto...

Liliana



Por este rio acima
Deixando para trás
A côncava funda
Da casa do fumo
Cheguei perto do sonho
Flutuando nas águas
Dos rios dos céus
Escorre o gengibre e o mel
Sedas porcelanas
Pimenta e canela
Recebendo ofertas
De músicas suaves
Em nossas orelhas
leve como o ar
A terra a navegar
Meu bem como eu vou
Por este rio acima
Por este rio acima
Os barcos vão pintados
De muitas pinturas
Descrevem varandas
E os cabelos de Inês
Desenham memórias
Ao longo da água
Bosques enfeitiçados
Soutos laranjeiras
Campinas de trigo
Amores repartidos
Afagam as dores
Quando são sentidos
Monstros adormecidos
Na esfera do fogo
Como nasce a paz
Por este rio acima
Meu sonho
Quanto eu te quero
Eu nem sei
Eu nem sei
Fica um bocadinho mais
Que eu também
Que eu também
meu bem
Por este rio acima
isto que é de uns
Também é de outros
Não é mais nem menos
Nascidos foram todos
Do suor da fêmea
Do calor do macho
Aquilo que uns tratam
Não hão-de tratar
Outros de outra coisa
Pois o que vende o fresco
Não vende o salgado
Nem também o seco
Na terra em harmonia
Perfeita e suave
das margens do rio
Por este rio acima
Meu sonho
Quanto eu te quero
Eu nem sei
Eu nem sei
Fica um bocadinho mais
Que eu também
Que eu também
meu bem
Por este rio acima
Deixando para trás
A côncava funda
Da casa do fumo
Cheguei perto do sonho
Flutuando nas águas
Dos rios dos céus
Escorre o gengibre e o mel
Sedas porcelanas
Pimenta e canela
Recebendo ofertas
De músicas suaves
Em nossas orelhas
leve como o ar
A terra a navegar
Meu bem como eu vou
Por este rio acima

segunda-feira, fevereiro 27, 2012

Andar... Lembras-te?!

Andar, andar... Lembras-te de andar até ao farol nos dias de nevoeiro? Quando as nuvens eram tantas que nem a força do Sol era suficiente para as afastar e mostrar o azul-claro do céu. Lembras-te? Lá íamos nós, saltitando, em frente à avó que, sempre muito bem apresentada com a sua saia às riscas e a uma blusa branca imaculada muito bem engomada e "encorpada", nos seguia atenta e desperta.

Olhar o mar ao fundo, as marés vivas batendo nas rochas e, de manhã, "quem se lixa é o mexilhão" dizia ela ao descer até à praia, os destroços duma noite agitada espalhados pela areia em forma de conchas e algas, com que brincávamos aos restaurantes na eterna espera pela bandeira verde, que nunca chegava.

Correr pelas ruas subindo até à pensão São Pedro onde o avô, pontualíssimo, esperava por nós já sentado à mesa para o almoço. Depois as esperas, tempo que pingava tão devagar na ampulheta das férias realmente grandes. Esperas pela sesta, pela hora menos quente, numa terra tão pouco quente, pela volta à praia. Esperas feitas lanches no hall, com os pãezinhos e os bolos da padaria e as manteigas do pequeno-almoço. A criatividade meiga dela. A sua forma de nos abraçar sem enlaçar os braços à nossa volta, mas amparando a ansiedade e tornando o tempo num aliado.

Voltar à praia, sempre fresca e de bandeira quase sempre vermelha, sozinhas, num inspirar de liberdade misturada maresia e um chapéu-de-Sol às flores. Voltar à praia ao nosso ritmo, à nossa responsabilidade de quase-adolescentes conquistada a ferros por muitos "por favor!!!!" e "qual é o problema?!?!?" choramingados aos ouvidos dela....

Os jantares, com os primos do Porto e os vestidos aprovados pelo seu olhar exigente e o casaco, claro, sempre acompanhado de muitas resmunguices e alguns ralhetes. A noite ainda tão criança, e os passeios com o mar ao fundo e os concertos de verão. Lembras-te? Andar pelas ruas ao luar, comendo colares de pinhões e cantando os gingles da rádio...

Andar... Andar, pela estrada à beira-mar, sair da vila e correr com o sal do oceano na cara e o Sol filtrado pela neblina. Andar até ao farol com a avó que inventava lanches e super-visionava vestidos... Lembras-te?

Liliana


sábado, dezembro 24, 2011

dos Natais de outros anos....

Acreditas no Pai Natal, António?

Pego no pinheiro enrolado numa espécie de meia de rede, daquelas que antigamente as senhoras ousavam usar para provocar os cavalheiros, e tento a custo equilibrar-lhe o tronco entre duas pedras grandes que de ano para ano servem de apoio à tão esperada árvore de natal. Entre desequilíbrios e quedas dou um salto na memória e vejo os pinheiros da minha infância que, sem esforço aparente, apareciam prontos a decorar na sala de jantar, onde eu e a minha prima mergulhávamos nas caixas de enfeites e descobríamos as bolas decoradas, e ainda de vidro, que diminuíam de número à força das nossas tão delicadas mãos, as luzes em feitio de vela que se apagavam se alguma lâmpada se fundisse e até as faixas farfalhudas douradas e prateadas com que, literalmente, vestíamos o coitado do pinheiro...

De repente o meu pinheiro, este verdadeiro, com resina e folhas que se espalham e tudo o que a natureza nos dá, parece-me tão pequeno. Os enfeites e bolas, estas de plástico para sobreviverem aos assaltos anuais dos miúdos, olham-me tristes e desengraçados. Até as luzes, que piscam e mudam de cor, me parecem demasiadamente impessoais.

Quando eu tinha o tamanho dos meus filhos mais velhos, o Natal estava coberto de um manto mágico que nem a mais dura realidade conseguia romper ou corromper. Via a azáfama e correria na cozinha com os olhos de quem quer acreditar no Pai Natal mesmo quando me diziam que ele não existia, e tudo me parecia um bailado de movimentos alegres e criadores, de onde nasciam filhoses e leite-creme e embrulhos e aletria e bacalhau e embrulhos e mesas arranjadas com copos de pé e embrulhos...

Enrolo o alguidar com a massa das filhoses e deixo-a fintar ao lado do aquecedor. Com as mãos cheias de farinha vejo-me do lado de dentro do teatro, onde as luzes estão penduradas por cabos pretos e o cenário colorido está debotado e remendado. A minha avó à porta da cozinha, também com as mãos enfarinhadas, suspira cansada. A minha mãe na sala, arruma as lágrimas ao lado dos copos de pé enquanto arranja os presentes em volta da árvore. Os meus tios, atrasados para o jantar, batem à porta com olhos cansados da correria e do trânsito.

Ao fundo do palco, o meu avô sorri. Olha-me através dos tempos e das luzes e das árvores de muitos natais. Ao fundo do corredor grande e comprido da cozinha ao escritório, chama-me ao seu lado. Sou do tamanho dos meus filhos mais velhos e está na hora de lhe dar a prenda que a minha mãe comprou. Ele dá-me a mão e abre o embrulho de mais um lenço com um "F" bordado. Está tudo tão perfeito que nem as lágrimas, nem os suspiros, nem os cansaços se atrevem a interromper, apenas a mesas com os copos de pé e o leite-creme e os embrulhos ainda à volta da árvore.

Ao fundo do corredor, o meu avô sorri e os seus olhos azuis iluminam o palco, dão cor ao cenário e alegram os focos.

Os meus filhos correm e brincam em volta do pinheiro que, aos poucos, se veste de festa. As filhoses estão prontas e luzidias no centro da mesa vestida, também, de Natal. Os embrulhos vão-se juntando longe da vista das crianças e na manhã de Natal aparecem, como que por magia, em volta da lareira. Afinal sempre me disseram que o Pai Natal não existe, apesar de o ter visto passar em frente da lua todas as vésperas de Natal!

Liliana a 22/Dez/2009



"Venho, torna-me velho esta lembrança!
D'um enterro d'anjinho, nobre e puro:
Infancia, era este o nome da criança
Que, hoje, dorme entre os bichos, lá no escuro...

Trez anjos, a Chymera, o Amor, a Esperança
Acompanharam-n'o ao jazigo obscuro,
E recebeu, segundo a velha usança,
A chave do caixão o meu Futuro.

Hoje, ambulante e abandonada Ermida,
Leva-me o fado, á bruta, aos empurrões,
Vá para a frente! Marcha! Á Vida! Á Vida!

Que hei-de fazer, Senhor! o qu'é que espera
Um bacharel formado em illuzões
Pela Universidade da Chymera?"

"Ai de Mim! " de António Nobre, in 'Só'

segunda-feira, maio 31, 2010

Segredos, leva-os a corrente, Nuno!

Há uma caixa de cartão no sótão da minha avó que outrora guardou chapéus e a nós serviu de caixa-forte aos segredos que eu e a minha prima não ousámos contar nem a nós próprias.

Todas as tardes subíamos as escadas de madeira, mal pintadas e gastas pelos muitos sapatos que por ela passaram, com a pressa de quem não tem tempo a perder porque todo o mundo é descoberta novidade espanto e exaltação. Ao subir, deixávamos do mundo um saco cheio de dúvidas e entrávamos nas certezas dos nossos poucos anos, degrau a degrau encarnávamos o nosso desenho, a nossa história.

Brincávamos com todas as "tralhas" que à minha avó pareciam inúteis e a nós surgiam como mágicas, num cenário protegido pelas telhas que deixavam passar o calor do sol e duas janelas redondas com vista para o céu. Brincávamos com as imagens do que vivíamos, com os sentimentos, com um arco-íris inteiro de novidades que se seguiam dia após dia. E depois, quando nas janelas começáva a espreitar o azul baço do fim de tarde, pegávamos na caixa - a dos chapéus - e contávamos-lhe o indizível, as certezas que no fundo eram um sem fim de dúvidas, as alegrias tão inconstantes como as paixões e desamores, os segredos dos 12 e 10 anos que fechávamos a sete chaves numa caixa de cartão no sótão da minha avó.

O sótão da minha avó já não existe (para a minha avó pelo menos), hoje é um terraço com vista para o Tejo duma família que desconheço. A caixa de cartão, que outrora guardava os nossos segredos em forma de sonhos de encantar perdeu-se, e até os chapéus deixaram de ter lugar na nova casa.

Podia jurar que nos dias de primavera, quando o sol deixa de queimar as telhas e o céu azul claro vai escurecendo ao entrar pelas janelas, dezenas de chapéus boiando pelo rio levam os nossos risos nervosos de meninas contando o indizível dos dias...

Liliana


"Abraça-me a bruma, envolve-me
a névoa, como se amágoa fosse
nenhuma; mas devolvo-as ao rio,
para que as leve, como leve espuma.
(...)
Sinto-me livre, vendo-as partir:
como se elas me deixassem, como se
o rio não tivesse parado de correr.

Peço ao vento que me ajude, soprando
para as afastar, mas elas prendem-se
a mim, serve-lhes o poema de açude."

"Corrente" de Nuno Júdice

in "O breve sentimento do eterno"

terça-feira, outubro 20, 2009

Que horas são, Alberto?


Na casa dos meus bisavós havia um relógio que tocava a cada meia hora, imitando o verdadeiro, o da igreja, que se via da janela da sala que dava para o quintal outrora com porcos e galinhas, que eu nunca cheguei a conhecer, e hoje com uma selva de ervas e restos de memórias há muito esquecidas numa espécie de cemitério de trastes velhos e partidos. A hora certa era precedida dos ding-dongs da praxe e anunciada com a pompa e circunstância das batidas certas. Já a meia-hora, menos conceituada, tinha direito à cantoria mas sem anúncio especial.

Lembro-me de contar as batidas depois dos ding-dongs desafinados que acordavam o silêncio nocturno e ecoavam pela casa estremecendo os corpos encolhidos debaixo dos cobertores de papa. Gostava daquele ritual, as horas que pediam licença antes de passar, fazendo questão de perguntar - a senhora dá licença? quantos são?... Todo o mundo girava a um ritmo diferente, mais educado, sem pressas nem precipitações. Até o sol, que em Lisboa se perdia de vista muito antes da hora certa, ali parecia tão correcto, tão cavalheiro abrindo a porta à hora que, educadamente, entrava antes dele anunciando a sua saída.

A porta da loja, ao lado da que dava acesso à casa, também dançava ao ritmo das horas que o velho relógio cantava. Logo depois das nove batidas, a minha tia descia as escadas a correr e tirava os tapumes verdes que tapavam a montra que mais não era que os vidros da porta que dava directamente para a escola, que parecia esperar também pelas batidas certas antes de deixar entrar os miúdos barulhentos que se empurravam à frente do portão. Depois, assim que os ding-dongs da "meia-hora", que era como o meu avô chamava ao meio-dia e meia, soavam, logo os passos da minha tia pela escada acima denunciavam que era hora de almoço. E ao fim dia, mesmo sem clientes na loja, eram as sete badaladas que autorizavam o fecho das portas, e de novo os tapumes verdes a encher a grande papelaria de um escuro impenetrável.

As brincadeiras, as casinhas e as lojas que montava com a minha prima na escada da entrada ou no canto do balcão, essas passavam com a maré dos amuos e das gargalhadas estridentes, aparentemente alheias às batidas do relógio mas totalmente controladas por elas. Ainda não são horas de ter fome! Está na hora do almoço! Quietas que já não são horas de fazer barulho!...

Na casa dos meus bisavós havia um relógio que tocava a cada meia-hora e que me dava a sensação de ser o centro da terra a partir do qual tudo e todos rodavam numa dança coordenada, como nos musicais, mas em versão lenta tipo "une valse à trois temps" onde nada ficava por fazer e a ninguém faltavam horas em cada dia que acabava com as doze badaladas que ecoavam pela casa estremecendo os corpos encolhidos debaixo dos cobertores de papa...

Liliana



"Acordo de noite subitamente,
E o meu relógio ocupa a noite toda.
Não sinto a Natureza lá fora.
O meu quarto é uma cousa escura com paredes vagamente brancas.
Lá fora há um sossego como se nada existisse.
Só o relógio prossegue o seu ruído.
E esta pequena cousa de engrenagens que está em cima da minha mesa
Abafa toda a existência da terra e do céu...
Quase que me perco a pensar o que isto significa,
Mas estaco, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca,
Porque a única cousa que o meu relógio simboliza ou significa
Enchendo com a sua pequenez a noite enorme
É a curiosa sensação de encher a noite enorme
Com a sua pequenez..."

Alberto Caeiro,
in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLIV"

quarta-feira, março 18, 2009

Quem dança para ti ao luar, Rui?

Eu fui um dia o teu cavaleiro andante, tu eras a minha bailarina. 
Lembras-te? 
Quando os dias eram longos e as manhãs demoradas. 
Espalhávamos os legos e os carecas, as tuchas e os carros, os camiões e os lápis, inventávamos histórias e corríamos o mundo no teu cavalo de pau... no teu quarto.

Às vezes chegavas aflita a minha casa, a correr, chorando porque a lua não iluminava a tua dança. 
Eu subia para o cavalo, dobrava oceanos e cruzava desertos para te devolver o luar. E tu, então, dançavas feliz com as estrelas que brilhavam, e esquecias as mágoas e as desventuras que te assaltavam as noites frias.

Eu cavalgava ao teu lado, e jurava que seria, para sempre, o teu cavaleiro andante e tu a minha bailarina. Até nas tardes de chuva, em que te encostavas ao meu peito enquanto te contava histórias das minhas aventuras, loucas mentiras que inventava para te ver sorrir. 

Lembras-te? 
Tu dançavas ao som das músicas mal sintonizadas no rádio do teu quarto e eu, feliz, cavalgava ao teu lado afastando os ventos e as chuvas que o teu medo trazia. 
Quando os dias eram longos...

Eu fui um dia o teu cavaleiro andante. 
E hoje ainda guardo o cavalo, o teu velho cavalo de pau, no sótão encavalitado por cima dum caixote de discos antigos e riscados. 
Soubesse eu em que ruas te encontraria e, sem demora, montava nele e cavalgava até ti, só para te ver dançar à luz do luar!

Liliana Lima - 19 de Março de 2009







"Porque sou o cavaleiro andante
Que mora no teu livro de aventuras
Podes vir chorar no meu peito
As mágoas e as desventuras


Sempre que o vento te ralhe
E a chuva de maio te molhe
Sempre que o teu barco encalhe
E a vida passe e não te olhe


Porque sou o cavaleiro andante
Que o teu velho medo inventou
Podes vir chorar no meu peito
Pois sabes sempre onde estou


Sempre que a rádio diga
Que a américa roubou a lua
Ou que um louco te persiga
E te chame nomes na rua


Porque sou o que chega e conta
Mentiras que te fazem feliz
E tu vibras com histórias
De viagens que eu nunca fiz


Podes vir chorar no meu peito
Longe de tudo o que é mau
Que eu vou estar sempre ao teu lado
No meu cavalo de pau"


Rui Veloso - Cavaleiro Andante (in Rui Veloso 1986)