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segunda-feira, julho 04, 2011

Onde começa o voo do Adeus, Mia?!

Partes nestes dias de calado silêncio
sei que tens de o fazer, avançar, correr...
Vejo-te ao fundo, na avenida das lembranças,
pequenas flores que abrem quando andas.
E eu que não te quero perder...

Sinto-te longe, distante
e sei que tens de o fazer, parar e viver.
O meu coração grita, explode, triste visitante
das terras de quem tem de te largar.
E eu que te continuo a querer, amar.

O meu corpo parte-se, desfaz-se,
nestas ondas rasgadas do nosso profundo mar,
onde ainda oiço o gemido que me fez transpirar.
Será que o teu corpo, sente o meu chamar?
Mas eu sei, tenho de te deixar voar...

Liliana






"Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo"

"Poema do adeus" de Mia Couto

sexta-feira, março 12, 2010

Como, Mia?...

Como contar este rio que me atravessa nas noites prateadas de lua insegura?
Como conter este grito que me rasga por entre palavras tão sábias sempre tão certas da Estrela Polar?
Como dizer esta força que me abandona com os solavancos da barca onde me sento, enrolada nos joelhos, à tua espera?

Como?
Como medir o tamanho da dor de quem chora?
Como quantificar a ferida das palavras que caem no precipício dos silêncios impostos?
Como pesar as lágrimas que escorrem dos dias em que as paredes são frias e apertam o coração?

Como?
Como contar esta alegria tamanha que vibra num olhar cúmplice?
Como conter este sorriso que espreita no canto duma carta de amor?
Como dizer esta força que me seduz e me empurra ao encontro do outro?

Como?
Como avançar com o peso da desilusão que vive dia-a-dia no bolso da mala onde guardo a luz dos olhos?
Como continuar sem a rede que me promete apoio no salto mais torto?
Como cantar se a música me escorre pelos dedos em busca do sonho que acaba sentado, enrolado aos joelhos, à tua espera?

Mas como?
Como remar contra esta corrente que nasce cá dentro e inunda todo o mundo com as cores do arco-íris?
Como negar esta certeza que sussurra à almofada que posso caminhar?
Como esconder esta inquietação de me faz levantar e acenar ao vento que trás outros contos que sei, também, meus?
Como apagar esta palavra que se forma no meu corpo e me usa como ferramenta numa história que desconheço, mas da qual sei que faço parte?
Como fingir que não sinto todos os poros da minha pele apontando o horizonte onde o sol se põe e eu já vejo uma nova madrugada?

Como?...

Liliana



"Fui sabendo de mim
por aquilo que perdia

pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia

fui ficando
por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei

eu vi
a árvore morta
e soube que mentia"

"Fui Sabendo de Mim" de Mia Couto
in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

quinta-feira, novembro 19, 2009

Contas-me uma história, Mia?!

Há um Conto que me tem perseguido nestes últimos tempo. Aliás, desde que tropecei nele parece que se me colou à pele, anda atrás de mim como uma sombra que, conforme a orientação do Sol ora me antecede ora me persegue, mas não me deixa esquecer que está ali...

Andei meio perdida, sem perceber muito bem o que ele queria comigo. É que ser "assombrada" por um Conto pode ser muito imcomodativo, principalmente quando ele descobre o caminho para as nossas ideias e as invade com as suas palavras, frustrando qualquer tentativa de pensamento estruturado e aparecendo nas alturas menos apropriadas, como no meio de uma conversa com a velhota do andar de cima que me pedia para apanhar o pano da loiça que lhe caiu quando o estendia e se enrolou, confortavelmente na minha corda da roupa.

Um dia, cansada com a intrusão e já sem saber o que fazer, resolvi sentar-me na sala, abrir o livro na página certa, e olhá-lo olhos nos olhos. Deixei-o sair com calma sem o interromper, e no meio das entrelinhas (porque os contos, os bons contos estão recheados dessas mensagens subliminares que vivem nas entrelinhas e só se mostram aos mais atentos) lá entendi que o me pedia.

Falava tranquila e pausadamente, sentado no sofá em frente de pernas cruzadas. Repetia cada frase de varias formas diferentes, como quem fala com uma criança. Foi-se tornando claro que falava tanto dele como de mim, chamava-me irmã, personagem de um grande conto que, não cumprindo o seu papel, deixara toda a acção suspensa num limbo temporal. (Sabem que a função dos Contadores de Histórias é libertar contos, ajudá-los a seguir caminho - livres, espalhá-los como quem lança sementes ao vento...). E, lançando assim as palavras em forma de bombas que rebentavam dentro de mim e ecoavam pela sala, foi-se deixando apagar, voltando para o livro onde, confortavelmente, se instalava de novo nas imagens e personagens e figuras de estilo de Mia Couto.

Fiquei muito tempo sozinha na sala, com o livro no colo, aberto na página certa, e o conto ao fundo da sala, olhando para mim pelo "rabinho do olho" enquanto se misturava com lembranças de outras histórias que dançavam alegres dentro de mim.

Levantei-me num remoinho de palavras soltas que saltitavam dos fios condutores das muitas histórias que me assaltavam a memória. Peguei em cada uma com muito cuidado para não as magoar, e enrolei cada história num novelo colorido que guardei no baú da imaginação. Tinha pressa, não queria demorar (são assim os Contadores de Histórias, lentos no processo de identificação, mas impacientes assim que sentem um conto "re"nascer em si), tinha um Conto para libertar e o mundo inteiro a quem o contar...
Liliana Lima
"(...)
- Posso pedir uma qualquer coisa?
- Peça.
- Me dê um pouco mais da sua acompanhia. Só isso: acompanhia.
Ainda hesitei, inesperando aquele pedido. O homem nem me fitava, estivesse envergonhado. E assim, de cabeça baixa, insistiu:
- É que, sabe, eu não tenho ninguém. Antes ainda tinha quem me dispensasse migalha de conversa. Mas, agora, já nem. E me dá um medo de me sozinhar por esses aís.
(...)"
"O Homem da Rua" de Mia Couto

segunda-feira, setembro 28, 2009

Ajudas-me a traduzir o silêncio, Mia?


Levanta um bocadinho mais o véu, que assim só vejo esgares que nada me dizem.
Mostra-te! Ainda que só por um momento... ah! breve eternidade em que não fecharei os olhos para nada fugir na corrente das horas!
Nestas entrelinhas, que de lupa na mão leio e releio tentando descodificar a própria matriz, não te encontro, não te reconheço, não te aprendo. Apenas me perco mais e mais.

E se, decidida por fim a revelares-te-me, aparecesses como o sol que cintila no rio ao cair da tarde em Lisboa?
Conseguiria reconhecer-te no meio de tantos recortes encriptados que envias desse longínquo farol nas noites de lua nova?
Conseguiria sentir-te real, dar-te a mão e, por fim, descobrir-te tão igual?

Como poderia então, assim somente com um mapa de caminhos nunca antes navegados, encontrar-te perdida da tua estrada?
Como poderia então, com apenas uma fotografia de imaginação feita, saber-te do outro lado da rua, cantando cantigas de amigo?

Levanta um bocadinho mais o véu, que os traços misturam-se e não te consigo desenhar o rosto, límpido, nítido, genuíno...
Mostra-te! Ainda que só por um momento... ah! breve eternidade em que não respirarei para que o bater do coração não apresse o desenrolar da fita!
Nestas entrelinhas em que me enrolo, já não sei onde acabas e começa a figura que compus de ti, embebida nas linhas que vou tecendo dos silêncios em que penso que te oiço, nos vazios onde, juro! te vejo...
Liliana Lima





Nunca escrevi
sou
apenas um tradutor de silêncios
a vida
tatuou-me nos olhos
janelas
em que me transcrevo e apago sou
um soldado
que se apaixona
pelo inimigo que vai matar

de Mia Couto