É no fundo do mar
que me escondo de mim
e nas conchas procuro a paz
para me encontrar por ti
Sei do canto estridente das gaivotas
e do embalo sedutor das sereias
Sei do areal desnudado pela maré baixa
porque nele me enrosco em mim mesma
Conheço todas as conchas coloridas
que colecciono para te oferecer
É a elas que pergunto por mim
enquanto, escondida, falo de ti
Nado em círculos para te chamar
Mas carregando todo o oceano, receio
que em maré alta transborde
e o teu pé tão catraio, à beira-mar, se suje
Queria conhecer todos os barcos
e inventar uma vela que enfunasse
à força do meu suspiro
e, seca, ao teu lado me deixasse
Mas sempre que, em tornado te tornas
e a mesa reviras e as ideias me baralhas
É no fundo do mar que me escondo
para não desaguar em ti
E sem poderes saber
provocas a maré, que se agita dentro de mim
E sem conseguires entender
chamas a noite que se debate sobre mim
É no fundo do mar
que me escondo de mim
e me embalo na maré
que, espero, me leve a ti
Lili
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quarta-feira, março 27, 2019
mAR
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segunda-feira, fevereiro 04, 2019
TEjo
Quantos pôres-do-Sol te vi beijar
Quantos fins-de-tarde passeei ao teu lado
Hoje não acordo contigo
Como muitos anos, há muitos anos
Hoje vejo-te o nascer do Sol pintar as águas
E com ele aprendo a reconstruir os abraços
Semi-cerro os olhos e revejo a esperança
Sorrio-te e renovo as palavras
Doces
Liliana Lima
Quantos fins-de-tarde passeei ao teu lado
Hoje não acordo contigo
Como muitos anos, há muitos anos
Hoje vejo-te o nascer do Sol pintar as águas
E com ele aprendo a reconstruir os abraços
Semi-cerro os olhos e revejo a esperança
Sorrio-te e renovo as palavras
Doces
Liliana Lima
quinta-feira, agosto 30, 2018
REdoMA
Estou presa numa redoma que tinge o mundo dum tom esverdeado
Estou dentro duma casa que se vira do avesso como uma onda que embate no paredão e muda os sentidos e me deixa em contra mão
Sinto uma força de ciclone que me arranca de onde estou e me abandona num mundo sem coração com um colete apertado de lata e um monte de palha no avental
Estou presa numa órbita muito para além da Lua, que me aproxima ou afasta duma terra onde não encontro lugar
Baloiço na corda que me devia equilibrar, mas que não pára e nunca me deixa levantar
Vou de barco sem mastro nem velas nem estrelas para me guiar, vou apesar do medo de nunca saber se, algum dia vou chegar
Tenho a chuva toda da Terra agarrada aos olhos que, cansados, me pedem para simplesmente a soltar
Construí um muro feito de legos para me proteger do sismo que sinto cá dentro e que, só pode vir de fora, seja do ontem ou do agora
Decidi que não posso pedir desculpa a cada hora por actos ou omissões que me vejo fazer como uma marioneta nas mãos de um qualquer alguém
Estou presa numa redoma que, com a água da chuva, tinge o mundo dum tom esverdeado
Vivo numa casa ao contrário que me enjoa e desalinha
Aperto com força, tanta força, este tornado que vive em mim e que acredito capaz de destruir até a muralha mais longa
Vejo a Lua numa dança elíptica e com ela aprendo a nascer e a morrer em volta da mesma terra
Não me ponho em pé com medo dos solavancos com que a vida me embala
Navego pelos oceanos num barco de papel feito das muitas linhas que escrevo e acabo por riscar
Construo castelos de areia, mil e uma vezes levados pelo mar
E peço desculpa por tudo o que digo mesmo depois de avisar que o guião que se me cola à pele, poderia magoar
Estou presa numa redoma
Estrou presa dentro de mim
Liliana Lima
Estou dentro duma casa que se vira do avesso como uma onda que embate no paredão e muda os sentidos e me deixa em contra mão
Sinto uma força de ciclone que me arranca de onde estou e me abandona num mundo sem coração com um colete apertado de lata e um monte de palha no avental
Estou presa numa órbita muito para além da Lua, que me aproxima ou afasta duma terra onde não encontro lugar
Baloiço na corda que me devia equilibrar, mas que não pára e nunca me deixa levantar
Vou de barco sem mastro nem velas nem estrelas para me guiar, vou apesar do medo de nunca saber se, algum dia vou chegar
Tenho a chuva toda da Terra agarrada aos olhos que, cansados, me pedem para simplesmente a soltar
Construí um muro feito de legos para me proteger do sismo que sinto cá dentro e que, só pode vir de fora, seja do ontem ou do agora
Decidi que não posso pedir desculpa a cada hora por actos ou omissões que me vejo fazer como uma marioneta nas mãos de um qualquer alguém
Estou presa numa redoma que, com a água da chuva, tinge o mundo dum tom esverdeado
Vivo numa casa ao contrário que me enjoa e desalinha
Aperto com força, tanta força, este tornado que vive em mim e que acredito capaz de destruir até a muralha mais longa
Vejo a Lua numa dança elíptica e com ela aprendo a nascer e a morrer em volta da mesma terra
Não me ponho em pé com medo dos solavancos com que a vida me embala
Navego pelos oceanos num barco de papel feito das muitas linhas que escrevo e acabo por riscar
Construo castelos de areia, mil e uma vezes levados pelo mar
E peço desculpa por tudo o que digo mesmo depois de avisar que o guião que se me cola à pele, poderia magoar
Estou presa numa redoma
Estrou presa dentro de mim
Liliana Lima
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sexta-feira, agosto 24, 2018
não CONSIGO
Não consigo dizer que, não consigo
E enrolo-me numa teia de histórias que separo por cores
Não consigo dizer que, não consigo
E afundo-me num pântano escuro onde não vejo nada
Mas a ti, digo
Não sei pintar as palavras sem que as percebas falsas
Não sei fingir o sorriso que conheces de cor
Mas a ti, digo
Que não consigo avançar
Que não consigo (re)começar
Que nem me consigo levantar
Não consigo dizer que, não consigo
Mas a casa por arrumar
E os filhos para almoçar
E as certezas que devo inspirar
E as peças com que devo jogar
E a vida, enfim, por encarar
Levanto-me
Visto o vestido mais leve
Penteio aquele olhar
Reinvento aquele sorriso
E...
Não consigo dizer
O que dentro de mim está a gritar
Não consigo continuar
Liliana Lima
E enrolo-me numa teia de histórias que separo por cores
Não consigo dizer que, não consigo
E afundo-me num pântano escuro onde não vejo nada
Mas a ti, digo
Não sei pintar as palavras sem que as percebas falsas
Não sei fingir o sorriso que conheces de cor
Mas a ti, digo
Que não consigo avançar
Que não consigo (re)começar
Que nem me consigo levantar
Não consigo dizer que, não consigo
Mas a casa por arrumar
E os filhos para almoçar
E as certezas que devo inspirar
E as peças com que devo jogar
E a vida, enfim, por encarar
Levanto-me
Visto o vestido mais leve
Penteio aquele olhar
Reinvento aquele sorriso
E...
Não consigo dizer
O que dentro de mim está a gritar
Não consigo continuar
Liliana Lima
quinta-feira, junho 07, 2018
REALidade
Deixei de te dizer de mim
Da falta de vontade
de contar, sequer
E do caos instalado no fim
de tantos dias em que
em vez de descansar
me obriga a revirar o mundo interno
que se queria encerrar na concha
deitada ao mar
Porque demora a explicar
(e a entender...)
Porque cada palavra,
soletrada,
no seu mais baixo volume,
um dia, uma tarde,
uma noite qualquer
Será virada do avesso,
despida, interrogada e,
sempre sem querer,
rejeitada, incompreendida
fechada
Porque é este o signo
da loucura
trazermos em nós a semente
da mais pura clarividência
e com ela a sua irmã solidão
É que é não é possível
a (sobre)vivência
ao comum espectador, são,
aos maleficios da realidade
nua e crua
E por isso hoje,
esta noite pelo menos,
deixarei de te dizer de mim
Para que, em paz, possas dormir
por fim
Liliana Lima
Da falta de vontade
de contar, sequer
E do caos instalado no fim
de tantos dias em que
em vez de descansar
me obriga a revirar o mundo interno
que se queria encerrar na concha
deitada ao mar
Porque demora a explicar
(e a entender...)
Porque cada palavra,
soletrada,
no seu mais baixo volume,
um dia, uma tarde,
uma noite qualquer
Será virada do avesso,
despida, interrogada e,
sempre sem querer,
rejeitada, incompreendida
fechada
Porque é este o signo
da loucura
trazermos em nós a semente
da mais pura clarividência
e com ela a sua irmã solidão
É que é não é possível
a (sobre)vivência
ao comum espectador, são,
aos maleficios da realidade
nua e crua
E por isso hoje,
esta noite pelo menos,
deixarei de te dizer de mim
Para que, em paz, possas dormir
por fim
Liliana Lima
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domingo, abril 02, 2017
manter PERTO
Afasto(-me) depois de tantos ameaços gritados no espaço vazio que separa as palavras que (te) continuo a dizer
Afasto(-te) em cada silêncio que continuas a fazer ecoar dentro do meu ser
Afasto(-me) das palavras que já não consigo encaixar no fundo do meu reflexo nas águas
Afasto(-te) com medo das letras que unes e me ofereces em palavras ditas com uma incerteza que se me crava na pele
Afasto(-nos) de todo meu querer, o meu sentir, a mimha vontade, que antes repetia para nos aproximar, mas que hoje retraio com medo de tudo o que não me dizes
Afasto(-nos) das palavras amor, carinho, olhos, mãos, corpo... com receio das palavras fantasma, ainda, quase, acho, não sei
Afasto(-me), porque me parece ser a única forma de me manter perto
Liliana Lima
quinta-feira, março 31, 2016
FanTasMas
Olho em volta, o espaço aberto parece encolher a cada suspiro meu.
Não estou aqui e não me encontro na outra margem.
As palavras ecoam no barulho dos carros que param nos sinais, tropeçam nas vozes que falam em segundo plano, escondem-se nas nuvens que brincam no céu azul e mergulham no ondular das águas que se espreguiçam no Tejo.
Estás ao meu lado, deveras.
Sinto-o quando me tocas as mãos ao de leve para reforçares o que me dizes. Sei-o porque os meus olhos se encontram nos teus e se reveêm no teu carinho. Percebo-o mesmo quando não te mostro o mar que guardo dentro do peito.
Procuro uma ponte para fora de mim, mas a miragem desvanece-se com o vento.
Quanto mais me tento despir das sombras que arrasto, mais me fecho nesta concha que nunca me abandona.
Entro no jardim fechado na e da cidade.
Aqui sou múltipla, nunca estou só e nem me é permitido sonhá-lo. Procuro-me em cada silhueta, mas perco-me em todas as faces.
Regresso a ti e, em surdina, pergunto por mim.
As palavras esfumam-se por entre os meus medos e espalham-se pelos fantasmas que acordo.
Olho em volta, o espaço aberto em roda de nós parece encolher a cada suspiro meu.
Liliana
"às vezes é no meio de tanta gente, que descubro afinal aquili que sou"
Maria Guinot
quarta-feira, março 16, 2016
conCHA
A minha concha tem paredes feitas de giz. Brancas como a cal, pintam-me as mãos quando as tento afastar.
A minha concha tem paredes de vidro. Levo-a comigo onde quer que vá e, escondo-me nelas sempre que o vento norte me arrepia.
Boneca de loiça a dançar a valsa que eu própria canto. É dentro do búzio que me protejo dos barcos fantasma que, "a noite, ao seu costume transfigura".
Desenho vestidos madrepérola cosidos nas abas da minha concha. Enfeito-me com eles e mergulho num cenário colorido à força dos sonhos que guardo na palma da mão.
Oculto a concha até de mim, escondo-a quando sorrio e abafo-a sempre que falo. Se não te mostro que a tenho é porque nem eu a vejo ao espelho.
Vou-me enrolando nas margens em caracol e quando me encontro é bem no fundo do coração que estou. Espreito a cada alvorada mas recolho-me ao nascer do Sol.
A minha concha é feita de recortes dos dias que se dizem nossos. Colo-os na parede que me rodeia e embalo-me com as ondas do mar.
A minha concha tem paredes feitas de nuvens. Voo no branco-cinzento da sua forma desenhada sobre os azuis do céu primaveril. Afago os verdes das copas das árvores que se reflectem nos meus olhos e, nua de medos, acordo nos castanho-esverdeado dos teus.
Liliana
quinta-feira, março 03, 2016
Chuva
Deixo cair uma pinga de chuva em cima do cetim rosa que coso em forma de envelope, onde penso guardar o meu livro.
Nos ouvidos dizem-me "why worry.. and all the rest is by the way". É de noite e a paz que não consigo agarradar, espalha-se pelos quartos dos miúdos e espelha-se nas suas respirações. É tão bom conseguir deitar a cabeça na almofada e ir, sem fantasmas, nem medos, nem inquietações.
Arrumo-me na escrivaninha antiga de madeira escura e volto para os tecidos e as agulhas e as linhas coloridas. Sinto um arrepio dentro do corpo, nos ossos, nos músculos. O frio que sinto por dentro consegue tomar conta de todo o quarto.
E mais um gota de chuva que molha o cetim rosa. Largo as agulhas e procuro o calor de alguém que não está.
Visto tão profundamente as personagens que crio, que já ninguém me reconhece.
A lua, indiferente a mim e à chuva que vai manchando os tecidos, diz-me que estou presa à minha máscara. E nos ouvidos "anoiteceu no neu olhar de feiticeira de estrela do mar".
Não consigo ir deitar-me e não me interessa já a bolsa para o livro.
Não, aqui onde estou, não está ninguém e provavelmente ninguém cá chega.
Deixo cair uma pinga de chuva na mão e encosto a cabeça na escrivaninha antiga de madeira escura.
Está frio, cá dentro.
Estou só, cá fora.
Liliana
segunda-feira, junho 15, 2015
BorBoleta
Acordei esta manhã e encontrei-me escaqueirada pelo chão do quarto. Levantei-me muito devagar e um-a-um peguei em todos os cacos que de mim choveram.
Lembrei-me de outras manhãs, outras chuvas, os mesmos cacos.
Lembrei-me dos mesmo braços esticados para o chão refazendo-me a mim mesma em pequenos puzzles diferentes e tão iguais.
Com muito cuidado, pousei os bocadinhos que de mim se soltaram à força dos ventos e, antes de os colar, guardei-os na concha madre-pérola onde me deito quando não quero ver o mundo. O tempo correu, e eu ainda que meia-desfeita (ou meia por fazer) fui obrigada a seguir, avançar, ou melhor, a acolher.
Vem-me de há muito, esta capacidade circense de me dar apenas com a cara metade (ou metade da cara) da imagem no espelho. E por isso desci o Jardim sem sobressaltos grandes. E por lá serpenteei, sem olhar os cacos que me espreitaram entre os livros que toquei, e me chamaram nas sílabas das palavras que fui trocando, entre sorrisos fugazes.
Às mágoas que correram colina abaixo pelo jardim e às que, mais tarde, dançaram nas águas salpicando a noite de notas coloridas, acolhi como se minhas fossem, guardando-as no meu colo embrulhadas num aconchego rendado. Embalei-as na canção da lua e deitei-as no berço do carinho.
Acordei esta manhã e, depois da tempestade, da acalmia dum tempo que se quer de bonança, do jardim e da cara metade, das mágoas e da canção que lhes cantei, encontrei-me escaqueirada pelo chão do quarto.
Procurei a concha madre-pérola que me protege do mundo e percebi-lhe o aroma do mar e ouvi as ondas desfazerem-se na areia e senti o calor do sol na pele. Lá dentro, feita areia que se desfaz, feita rocha que resiste, descobri-me refeita pela enésima vez.
Peguei-me com todo o cuidado e vi-me, cara completa de corpo inteiro. Vesti-me uma saia rodada e uns sapatinhos vermelhos, e abri as asas em direcção ao mundo.
Quando acordar amanhã, não verei cacos nem mágoas espalhados pelo chão, estarei igual a mim "como sempre como antes", tirando a pequena cicatriz em forma de lua que esconderei no lado esquerdo do peito.
Liliana
quarta-feira, novembro 19, 2014
con.CHAS
A chuva lava as ruas da cidade e leva os meus olhos com ela.
Diz-me das cores dos arcos que brilham sobre o mar
e fala-me das dores que nos dias frios ajuda a apagar.
Ofereço-lhe as minhas enquanto a espreito pela janela
e sinto-a escorrer por mim para, em lágrimas, me libertar.
Pergunto-lhe 'onde me levas neste remoinho que me embrulha
numa água gelada e me ensurdece os sentidos?'.
Entre o correr das águas e os gritos das ondas que morrem nas rochas
oiço-a dizer que é no meio dos sonhos perdidos,
por entre os despojos dos sentimentos naufragados,
que se escondem as dores que silenciámos, fechadas, em conchas.
A chuva lava as ruas da cidade e leva os meus olhos com ela.
Procuro as vieiras, os búzios, as ostras que me embalam,
guardo-as na roda da minha saia e saio, escorrendo com ela.
Chego a uma praia onde outros temporais falam,
pego nas conchas, uma a uma, enterro-as na areia molhada
e espero que cada dor se mantenha assim escondida, fechada.
Com a cara molhada, as mãos vazias e os pés descalços
estou pronta para ver as cores dos arcos, que sobre o mar, brilham.
Liliana
Diz-me das cores dos arcos que brilham sobre o mar
e fala-me das dores que nos dias frios ajuda a apagar.
Ofereço-lhe as minhas enquanto a espreito pela janela
e sinto-a escorrer por mim para, em lágrimas, me libertar.
Pergunto-lhe 'onde me levas neste remoinho que me embrulha
numa água gelada e me ensurdece os sentidos?'.
Entre o correr das águas e os gritos das ondas que morrem nas rochas
oiço-a dizer que é no meio dos sonhos perdidos,
por entre os despojos dos sentimentos naufragados,
que se escondem as dores que silenciámos, fechadas, em conchas.
A chuva lava as ruas da cidade e leva os meus olhos com ela.
Procuro as vieiras, os búzios, as ostras que me embalam,
guardo-as na roda da minha saia e saio, escorrendo com ela.
Chego a uma praia onde outros temporais falam,
pego nas conchas, uma a uma, enterro-as na areia molhada
e espero que cada dor se mantenha assim escondida, fechada.
Com a cara molhada, as mãos vazias e os pés descalços
estou pronta para ver as cores dos arcos, que sobre o mar, brilham.
Liliana
quarta-feira, agosto 06, 2014
Auroras
Faz-me falta o teu sorriso
ainda que por um dia só
As horas arrastadas que passam
nas horas de estar só,
comigo, no fundo
mais fundo do fundo
da minha concha
Olho o horizonte com os olhos
semi-cerrados à procura dos teus,
aconchegados ao lado de uma ternura,
que me ofereces, mesmo sem saber,
na luz que sabes acender
Em mim,
no fundo
mais fundo
do fundo,
da minha
concha
Faz-me falta o teu sorriso,
nas horas que passam
à procura, aconchegadas,
do horizonte das auroras criadas
no colo da tua ternura.
Liliana
ainda que por um dia só
As horas arrastadas que passam
nas horas de estar só,
comigo, no fundo
mais fundo do fundo
da minha concha
Olho o horizonte com os olhos
semi-cerrados à procura dos teus,
aconchegados ao lado de uma ternura,
que me ofereces, mesmo sem saber,
na luz que sabes acender
Em mim,
no fundo
mais fundo
do fundo,
da minha
concha
Faz-me falta o teu sorriso,
nas horas que passam
à procura, aconchegadas,
do horizonte das auroras criadas
no colo da tua ternura.
Liliana
quarta-feira, julho 30, 2014
madrepérola AZUL
Sim, é verdade que os ventos do oriente me balançam e me embalam quando estou contigo. Mesmo que, quando olho para ti o sorriso se agarre à face e, teimoso, não se deixe mostrar.
Sim, é verdade que quando as tuas mãos, ao cruzarem-se com as minhas, ocasionalmente se tocam, as minhas tremem por dentro. Ainda que demorem o dia inteiro a ganhar coragem para, às tuas, responder.
Sim, é verdade que fujo do teu olhar, desenhando voos de gaivotas no céu por mais longe que estejamos do mar. Mesmo que, fugindo, te espere encontrar num virar de face.
Sim, é verdade que te espero numa praia com pedras e um mar disfarçado de rio, para que me encontres dentro duma madrepérola perdida na areia. Ainda que pareça que enterro os pés e olho o pôr do Sol com toda a calma do mundo.
Num sonho de verão sentámo-nos na areia, com a ponte de um lado e o mar a nascer do outro e, sem carros nem telefones nem pessoas nem barcos nem aviões, saí da concha e olhei-te sorrindo.
Num sonho de verão em que o Sol me aqueceu a pele e me ajudou a entrelaçar os dedos nos teus, chegar-me a ti e, sem medos, deixar que os meus lábios muito lentamente tocassem os teus.
Num sonho de verão, em que as palavras e as intenções e as expressões e... os silêncios, eram apenas aquilo que pareciam ser. E nada mais fazia falta.
Num sonho, num daqueles sonhos de verão que, de tão organizados, mesmo depois de acordada consegui lembrar uma madrepérola azul que me protegia do mundo.
Liliana
sexta-feira, maio 04, 2012
Casulo
Abriu a janela e o ar quente invadiu a sala sem pedir licença. Uma luz forte varria as ruas, e toda a cidade sorria, primaveril. Sentou-se em cima da cama e deixou-se vestir pelo sol, enquanto recordava o espelho do rio nas janelas dos avós, embalando as estações num corropio de barcos. Tinha de sair do casulo, abrir as asas, romper as amarras.
Forçou-se a arranjar-se, inventando razões para se despachar, mas sempre que se aproximava da porta perdia a vontade. Combinou um almoço, marcou um passeio, prometeu uma visita. A proximidade da entrada empurrava todos os compromissos borda fora. Estava dentro duma bolha insuflada por fantasmas tão subtis que, quase, invisíveis. A casa era uma protecção por oposição ao desagasalho da rua. Era um colo, uma fuga sem corrida, um risco anulado. Despiu-se e voltou à cama.
O sol avançava lentamente pelo horizonte enquanto, no tecto, a cidade projectava a sua vida, indiferente ao quarto e à casa e à reclusão voluntária que, por lá, se mantinha. Inspirou profundamente, não havia sinal visível de inquietude, o ar estava calmo, pacífico e tranquilo. Não estava infeliz, nem o contrário, limitava-se a estar, na sua luta interior para não sair para o exterior.
A necessidade, normal, de sobrevivência forçou a saída. Dançando com a roupa e com as desistências foi-se aproximando da porta, até que a chave acabou por girar. Já na rua sentiu-se mergulhar numa onda de tranquilidade, sorria aos canteiros e cumprimentava os vizinhos. Afinal nada lhe parecia perigoso, quanto mais avançava mais lhe apetecia avançar. Mas atrás de todos os sons e barulhos de fundo, lá mesmo atrás de tudo e de todos, escondido debaixo do cenário, um qualquer e incompreensível medo sussurrava-lhe que voltasse para casa.
Fez as compras, bebeu um café, comprou o jornal e começou a sentir-se impaciente. Tinha pensado que, depois de sair, ia ver o rio, lembrar o espelho da cidade e as suas ondas. Mas aos poucos tudo lhe começava a parecer tão longe, tão difícil, tão inacessível que a única coisa que queria era voltar para casa, para o seu canto, recanto do mundo, do seu mundo. A caixa dos medos ficara aberta.
Recuando no caminho percorrido, tentava perceber o porquê deste desalinho. Já em casa, depois de se despir, com a tranquilidade reposta e de novo na cama, olhava pela janela aberta para uma realidade tão distante como a margem sul do Tejo. Arrastava os móveis vezes sem conta como encaixando legos à toa e, arrumava as gavetas e as prateleiras com uma ansiedade despropositada, como que tentando desesperadamente uma organização interna que sustentasse o castelo de cartas das vontades e processos que conduzem à estabilidade.
Não, não era normal que só se sentisse bem estando em casa. De que fugia? Que medo lhe assombrava o céu que o tornava tão impenetrável? Que força estabilizadora procurava na rotina do quotidiano, que tantas vezes achara monótono e asfixiante?
Liliana
sexta-feira, março 02, 2012
Dentro da concha...
Estou dentro da concha. Enrolada, encolhida neste espiral côncavo salgado dos meus olhos.
Escondo-me do mundo para fintar a realidade, brinco ao faz-de-conta com os medos e fujo dos fantasmas. Aqui, dentro do búzio onde me deito, o mar está sempre calmo e as ondas não inundam o chão.
Não me perguntes quando entrei, não me questiones porque aqui estou. Dá-me apenas a tua mão. O teu ombro. E diz-me baixinho que tudo vai correr bem.
Estou dentro da concha. Fechada. Fora do mundo. Fora dos dias e das horas que correm em busca dos ponteiros. Escondida. Enfrentando o vazio com um grito mudo.
As palavras não dizem o seu significado e eu falo numa língua estranha que me empurra para fora das conversas. Encosto-me nas curvas do chão e embalo-me com os joelhos encostados ao peito, estou cansada... de tudo até de mim.
Estou dentro da concha e brinco com as horas que passam devagar sem olhar para mim. Peço licença para fechar os olhos (é tão mais fácil ver o mundo assim!) e deixo-me levar pelo barulho do vento que sopra de mansinho e ecoa nas espirais.
A maré balança numa canção de embalar tranquila, mas falsa, que dura apenas até ao nascer do Sol. A luz acorda-me e mostra-me a rua pelas rachas laterais. Volto a ouvir os ponteiros e os carros e as crianças que gritam. Encolho-me o mais que posso e tapo os ouvidos com força.
Estou dentro da concha...
Escondo-me do mundo para fintar a realidade, brinco ao faz-de-conta com os medos e fujo dos fantasmas. Aqui, dentro do búzio onde me deito, o mar está sempre calmo e as ondas não inundam o chão.
Não me perguntes quando entrei, não me questiones porque aqui estou. Dá-me apenas a tua mão. O teu ombro. E diz-me baixinho que tudo vai correr bem.
Estou dentro da concha. Fechada. Fora do mundo. Fora dos dias e das horas que correm em busca dos ponteiros. Escondida. Enfrentando o vazio com um grito mudo.
As palavras não dizem o seu significado e eu falo numa língua estranha que me empurra para fora das conversas. Encosto-me nas curvas do chão e embalo-me com os joelhos encostados ao peito, estou cansada... de tudo até de mim.
Estou dentro da concha e brinco com as horas que passam devagar sem olhar para mim. Peço licença para fechar os olhos (é tão mais fácil ver o mundo assim!) e deixo-me levar pelo barulho do vento que sopra de mansinho e ecoa nas espirais.
A maré balança numa canção de embalar tranquila, mas falsa, que dura apenas até ao nascer do Sol. A luz acorda-me e mostra-me a rua pelas rachas laterais. Volto a ouvir os ponteiros e os carros e as crianças que gritam. Encolho-me o mais que posso e tapo os ouvidos com força.
Estou dentro da concha...
Liliana
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