Sentei-me na MARGEM, esgotada, enervada e sem forças para continuar.
Todo o mundo me parecia estar na OUTRA MARGEM.
Mesmo tu, que sentia tocar-me, estavas lá do OUTRO lado.
As vozes chegavam de longe e a cidade parecia desaparecida.
Com o Tejo a desaguar em mim, ouvi a tua voz.
Com a Lua Nova a esconder-se comigo, senti a tua mão.
Com o corpo a tremer num turbilhão de sentimentos, reconheci o teu calor.
Levantei-me, esgotada, dESTA MARGEM.
Olhei à volta e decidi atravessar a ponte para o OUTRO lado e, num só passo, anular as MARGENS.
Liliana Lima
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terça-feira, junho 18, 2019
esta OUTRA margem
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quinta-feira, maio 16, 2019
MEMÓRIAS... do futuro
Lembras-te que os caminhos
que hoje escolhemos
amarelos e seguros amanhã se continuam a desenhar?
Lembras-te de cada beijo
que as nossas bocas já têm
para dar?
Lembras-te das mãos
que ontem aprendiam a silhueta um do outro
e já nos afagam nas noites que vão chegar?
Lembras-te das manhãs
que vamos acordar?
Lembras-te como o teu corpo
húmido e cansado de trocar de corpo um com o meu
se enrosca em mim nos lençóis que vamos comprar?
Lembras-te das palavras
que em todas as conversas que partilhamos
já repetes de hoje em diante?
Lembras-te de cada zanga
que trocamos amiúde
por carícias futuras?
Lembras-te das velas
que vamos acender?
Lembras-te dos brincos
a condizer com o anel
que me vais oferecer?
Lembras-te das canções
que vais compor com os poemas
que vou escrever?
Lembras-te das lágrimas
que no teu ombro
novamente vou secar?
Lembras-te das noites
que vamos embalar?
Lembras-te dos sorrisos
que um com o outro
vamos trocar?
Lembras-te dos tantos concertos, filmes, peças
que de mãos dadas
vamos partilhar?
Lembras-te dos caminhos
sempre amarelos e seguros
que vamos calcorrear?
Lembras-te dos dias e das noites
que vamos viver?
Lembras-te de te lembrares
das memórias conjuntas
que vamos construir?
Liliana Lima
que hoje escolhemos
amarelos e seguros amanhã se continuam a desenhar?
Lembras-te de cada beijo
que as nossas bocas já têm
para dar?
Lembras-te das mãos
que ontem aprendiam a silhueta um do outro
e já nos afagam nas noites que vão chegar?
Lembras-te das manhãs
que vamos acordar?
Lembras-te como o teu corpo
húmido e cansado de trocar de corpo um com o meu
se enrosca em mim nos lençóis que vamos comprar?
Lembras-te das palavras
que em todas as conversas que partilhamos
já repetes de hoje em diante?
Lembras-te de cada zanga
que trocamos amiúde
por carícias futuras?
Lembras-te das velas
que vamos acender?
Lembras-te dos brincos
a condizer com o anel
que me vais oferecer?
Lembras-te das canções
que vais compor com os poemas
que vou escrever?
Lembras-te das lágrimas
que no teu ombro
novamente vou secar?
Lembras-te das noites
que vamos embalar?
Lembras-te dos sorrisos
que um com o outro
vamos trocar?
Lembras-te dos tantos concertos, filmes, peças
que de mãos dadas
vamos partilhar?
Lembras-te dos caminhos
sempre amarelos e seguros
que vamos calcorrear?
Lembras-te dos dias e das noites
que vamos viver?
Lembras-te de te lembrares
das memórias conjuntas
que vamos construir?
Liliana Lima
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quinta-feira, dezembro 27, 2018
O sim foi dado há muito tempo, Haden?
O sim já foi dado há muito tempo
O sim já foi dado há tanto tempo
e nem precisou de anel
O sim, já foi dado, faz muito tempo
Não veio embrulhado num anel
mas sim na tomada de consciência
O sim foi dado há muito tempo
E, mesmo sem a companhia do anel,
trouxe consigo a perfeita consciência
dum tratado cumplicemente firmado
O sim, já foi dado, faz muito tempo
Ainda sem certeza?
Nem precisou de anel
Ainda sem o conhecimento completo?
Com a perfeita consciência
Ainda sem o correr do tempo?
Cumplicemente firmado
Ainda sem toda a certeza?
Debaixo da pele de cada um
O sim já foi dado há muito tempo...
Já com toda a certeza?
Não veio embrulhado num anel
Já com o todo o conhecimento?
Trouxe a perfeita consciência
Já com tempo suficiente?
Um tratado cumplicemente firmado
Já toda a certeza?
Debaixo da pele de cada um
Com a certeza absoluta?
Para todos os embrulhos futuros
Porque... o sim...
O sim, já foi dado
há muito tempo.
Liliana Lima
O sim já foi dado há tanto tempo
e nem precisou de anel
O sim, já foi dado, faz muito tempo
Não veio embrulhado num anel
mas sim na tomada de consciência
O sim foi dado há muito tempo
E, mesmo sem a companhia do anel,
trouxe consigo a perfeita consciência
dum tratado cumplicemente firmado
O sim, já foi dado, faz muito tempo
Ainda sem certeza?
Nem precisou de anel
Ainda sem o conhecimento completo?
Com a perfeita consciência
Ainda sem o correr do tempo?
Cumplicemente firmado
Ainda sem toda a certeza?
Debaixo da pele de cada um
O sim já foi dado há muito tempo...
Já com toda a certeza?
Não veio embrulhado num anel
Já com o todo o conhecimento?
Trouxe a perfeita consciência
Já com tempo suficiente?
Um tratado cumplicemente firmado
Já toda a certeza?
Debaixo da pele de cada um
Com a certeza absoluta?
Para todos os embrulhos futuros
Porque... o sim...
O sim, já foi dado
há muito tempo.
Liliana Lima
sábado, junho 02, 2018
SuSpiro
No silêncio das palavras
Abraço
Vontade
Beijo
Tejo
Abraço
Querer
Tejo
Beijo
Abraço
Arrepio
Calor
Tejo
Abraço
Me perco e nos encontro
Seda
Suspiro
Humidade
Beijo
Tejo
Lua
Vontade
Lábios
Mãos
Abraço
Me sinto e nos uno
No silêncio das palavras
Liliana Lima
Abraço
Vontade
Beijo
Tejo
Abraço
Querer
Tejo
Beijo
Abraço
Arrepio
Calor
Tejo
Abraço
Me perco e nos encontro
Seda
Suspiro
Humidade
Beijo
Tejo
Lua
Vontade
Lábios
Mãos
Abraço
Me sinto e nos uno
No silêncio das palavras
Liliana Lima
quinta-feira, abril 26, 2018
.AL.vo.ra.DA.
A cada alvorada algo em mim se apaga
O caminho não foi de tijolos amarelos construido
E o meu vestido já não é cor-de-rosa
Sabias que cheguei cá muito antes de ti?
Sim, o banco onde te sentas fui eu que o construí
Carreguei cada mágoa durante a madrugada
E fiz delas as tábuas com que me protegi
A cada alvorada algo em mim se perde
A terra em que ando descalça magoa-me os pés
Está coberta de pedras trazidas por outras marés
Sabias que todas as flores que nascem no caminho
Fui eu que as plantei, semente a semente
Regadas com as lágrimas dos anos
Que outros barcos levaram na corente
A cada alvorada algo de mim se tolda
Uma seda branca que me abafa e amordaça
Enrolando-me numa rede que me envelhece e descolora
Sabias que já não sou quem tu conheceste?
Deste conta que a areia caiu tantas vezes em vão?
Se antes sabia o que era sem sombra nem dúvida
Hoje tudo não passa duma ampulheta que rodo na minha mão
A cada alvovarada algo em mim se apaga
Liliana Lima
O caminho não foi de tijolos amarelos construido
E o meu vestido já não é cor-de-rosa
Sabias que cheguei cá muito antes de ti?
Sim, o banco onde te sentas fui eu que o construí
Carreguei cada mágoa durante a madrugada
E fiz delas as tábuas com que me protegi
A cada alvorada algo em mim se perde
A terra em que ando descalça magoa-me os pés
Está coberta de pedras trazidas por outras marés
Sabias que todas as flores que nascem no caminho
Fui eu que as plantei, semente a semente
Regadas com as lágrimas dos anos
Que outros barcos levaram na corente
A cada alvorada algo de mim se tolda
Uma seda branca que me abafa e amordaça
Enrolando-me numa rede que me envelhece e descolora
Sabias que já não sou quem tu conheceste?
Deste conta que a areia caiu tantas vezes em vão?
Se antes sabia o que era sem sombra nem dúvida
Hoje tudo não passa duma ampulheta que rodo na minha mão
A cada alvovarada algo em mim se apaga
Liliana Lima
quarta-feira, abril 18, 2018
soL de priMAveRA
O vazio enche os silêncios que se sentam comigo ao Sol tímido de Primavera.
Falo com ele como se contigo converssasse. Às vezes é mais fácil dizer-me assim, aos silêncios. Deles não espero resposta e por isso não me desapontam, nem pelos vazios que acordam, nem por não me entenderem o olhar, ou não perceberam o ton de voz, ou não anteverem o que me faz falta (que nem sempre é animar a malta).
Deixo o sol, atrasado, aquecer-me o corpo, cansado, enquanto procuro a tua mão nos silêncios que me abraçam por entre o vazio que, aqui, se senta comigo.
Liliana
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terça-feira, fevereiro 20, 2018
mi nu tos
Pergunta aos minutos se vêm que as horas não chegam
Pede à vontade que se arrume ao lado do bule que o chá está servido
Senta-te ao meu lado, sem cerimónia, que os bolos não têm de estar inteiros no prato
Tira os ponteiros que correm ao contrário no relógio que o barulho do tempo invade o espaço
Olha para mim e deixa os olhos falar que da boca só saem palavras mudas
Estende o sonho até mim e promete que tudo vai correr bem
Mata o silêncio que o medo invade a saudade
Pergunta aos minutos se os segundos vêm que as horas nunca chegam
Liliana
sábado, dezembro 02, 2017
poeMas de aMor
Nunca me escreveram poemas de amor
Uma carta passada por entre as mesas da sala de aula
Um postal deixado na secretária
Um ramo de rosas vermelhas entregues à porta...
Mas nunca um poema de amor
Eu já escrevi algo parecido com poemas de amor
Aliás, quase tudo o que escrevo é um poema de amor
se o souberes ler, entenderás que o é, meu amor
É que a palavra AMOR não se diz na correria das horas
É feita dum cristal tão fino como o teu olhar,
quando me olhas de perto, quase de dentro
A palavra AMOR, meu amor, é feita de muitas histórias
que se contam em todas as ruas e em todos os fados
e embora se pareçam iguais, são únicas e irrepetíveis
Nunca me escreveram um poema de amor
E agora que penso nisso, nem sei o que faria para o agarrar
É que o poema tem em si a força de todas as marés
que se elevam nos oceanos ou se estendem na areia
E o peso absurdo de todos os luares
que beijam a Terra e iluminam cada história
E a palavra, quando cantada, como poema,
torna-se fogo ou ventania, medo ou alegria
Nunca me escreveram poemas de amor
Nunca me disseram AMOR, assim com todas as letras
e por escrito, que tem sempre uma força maior do que o dito
Se um dia me escreveres um poema de amor, meu amor,
que seja alegre e suave, doce e leve
se diga, "cantando a toda a gente"
e se espalhe pelo mundo, assim, num vôo livre de andorinha
que abraça o céu azul e nele escreve, dançando
leve e inquieta, a nossa canção, AMOR
Liliana Lima
Uma carta passada por entre as mesas da sala de aula
Um postal deixado na secretária
Um ramo de rosas vermelhas entregues à porta...
Mas nunca um poema de amor
Eu já escrevi algo parecido com poemas de amor
Aliás, quase tudo o que escrevo é um poema de amor
se o souberes ler, entenderás que o é, meu amor
É que a palavra AMOR não se diz na correria das horas
É feita dum cristal tão fino como o teu olhar,
quando me olhas de perto, quase de dentro
A palavra AMOR, meu amor, é feita de muitas histórias
que se contam em todas as ruas e em todos os fados
e embora se pareçam iguais, são únicas e irrepetíveis
Nunca me escreveram um poema de amor
E agora que penso nisso, nem sei o que faria para o agarrar
É que o poema tem em si a força de todas as marés
que se elevam nos oceanos ou se estendem na areia
E o peso absurdo de todos os luares
que beijam a Terra e iluminam cada história
E a palavra, quando cantada, como poema,
torna-se fogo ou ventania, medo ou alegria
Nunca me escreveram poemas de amor
Nunca me disseram AMOR, assim com todas as letras
e por escrito, que tem sempre uma força maior do que o dito
Se um dia me escreveres um poema de amor, meu amor,
que seja alegre e suave, doce e leve
se diga, "cantando a toda a gente"
e se espalhe pelo mundo, assim, num vôo livre de andorinha
que abraça o céu azul e nele escreve, dançando
leve e inquieta, a nossa canção, AMOR
Liliana Lima
Baragem do Alvor, Igrejinha, Arraiolos
quarta-feira, agosto 03, 2016
AMAnhã
Tenho uma urgência de viver que faz o meu tempo rolar como um cometa que rasga os ceus e, mais cedo ou mais tarde, embate na velocidade cruzeiro das tuas palavras. Vivo em aparente agitação, na verdade apenas a vontade de me/te dizer, saber, sentir, partilhar.
Tenho uma urgência de me dar que me atira sobre a areia ou recolhe de volta para o mar, conforme os teus olhos me vêm a mim, ou através de mim diluida numa maré baixa onde não estás.
Tenho uma urgência em amar que me leva a bater-te à porta com tudo o que tenho, o bom e o mau, o bonito e o feio. Deitar-me nas tuas mãos e esperar que me saibas acolher.
Tenho uma urgência em dizer-me, ser em palavras, nas minhas palavras tão longe e tão perto das tuas, que por vezes pareço estrangeira. Eu que pensava a língua do amor universal e no entanto esta diversidade de sentires e quereres que urge entender.
Tenho uma urgência no estar, partilhar o espaço e as ideias e o banal de cada dia. Navego neste barco que não consigo parar e que segue a com corrente do meu tempo e a força dos ventos em que me dou e, na verdade, (sei-o tão bem) acaba sempre por zarpar antes do teu.
Esta urgência de mim choca com a velocidade cruzeiro de ti. Estudo o mapa e procuro os pontos cardeais da vida.
Quem sabe amanhã nos reencontremos num mundo só nosso "que pula e avança como bola colorida ente as mãos de uma criança"?
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segunda-feira, junho 06, 2016
Lou.Cura
Olho através do espelho redondo com uma pega trabalhada em prata e procuro a minha loucura dentro dum chapéu. Os ponteiros lembram-me que as horas fogem de mim e saio com o miúdo pela mão, saltitando pelo jardim de relógio em punho.
As minhas lutas jogam-se num tabuleiro de xadrez interno, onde as regras seguem as vontades voláteis duma rainha que, em mim, grita tão alto que quase deixo de ouvir o mundo fora do espelho.
Sento-me comigo, numa dimensão multi-temporal, e bebo chá com as loucuras passadas enquanto invento novos chapéus para as que estão por vir.
Sei há muito que o impossível é a desculpa que nos contamos, embrulhada num bolinho que nos faz diminuir, ao mesmo tempo que nos enroscamos num canto duma toca onde na verdade acabamos por cair.
O lado de lá(?) espelha o teu sorriso tranquilo, de quem nunca sentiu o cheiro da cola com que se faz um chapéu. Serás capaz de te sentar nesta mesa coberta de toda a loucura que, à hora do chá, se senta comigo?
Apareço e esfumo-me à força das verdades que, de sorriso esvoassante, atiro ao ar em forma de borboletas azuis. Será que me sentes, enrolada no teu pescoço, sussurrando que o caminho que escolhes é indiferente enquanto não souberes para onde queres ir? Conseguirás dar-me a mão e acompanhar-me nesta aventura de loucuras guardadas em castelos de cartas?
O lado de lá(?) espelha os chapéus que guardo em cima do roupeiro. Nunca saio com eles, mas teimo em coleccioná-los, embrulhados em papel de seda ou fechados em caixas redondas de cartão.
No lado de fora da janela voa uma borboleta azul e o relógio canta que são horas de sair. Guardo as cartas na caixa de madeira com um coração vermelho, apago o cachimbo que envolve de fumo a mesa do chá e desapareço por entre a loucura dos dias.
Olho através do espelho redondo com uma pega trabalhada em prata e vejo-te aproximar de chapéu na cabeça.
Liliana
As minhas lutas jogam-se num tabuleiro de xadrez interno, onde as regras seguem as vontades voláteis duma rainha que, em mim, grita tão alto que quase deixo de ouvir o mundo fora do espelho.
Sento-me comigo, numa dimensão multi-temporal, e bebo chá com as loucuras passadas enquanto invento novos chapéus para as que estão por vir.
Sei há muito que o impossível é a desculpa que nos contamos, embrulhada num bolinho que nos faz diminuir, ao mesmo tempo que nos enroscamos num canto duma toca onde na verdade acabamos por cair.
O lado de lá(?) espelha o teu sorriso tranquilo, de quem nunca sentiu o cheiro da cola com que se faz um chapéu. Serás capaz de te sentar nesta mesa coberta de toda a loucura que, à hora do chá, se senta comigo?
Apareço e esfumo-me à força das verdades que, de sorriso esvoassante, atiro ao ar em forma de borboletas azuis. Será que me sentes, enrolada no teu pescoço, sussurrando que o caminho que escolhes é indiferente enquanto não souberes para onde queres ir? Conseguirás dar-me a mão e acompanhar-me nesta aventura de loucuras guardadas em castelos de cartas?
O lado de lá(?) espelha os chapéus que guardo em cima do roupeiro. Nunca saio com eles, mas teimo em coleccioná-los, embrulhados em papel de seda ou fechados em caixas redondas de cartão.
No lado de fora da janela voa uma borboleta azul e o relógio canta que são horas de sair. Guardo as cartas na caixa de madeira com um coração vermelho, apago o cachimbo que envolve de fumo a mesa do chá e desapareço por entre a loucura dos dias.
Olho através do espelho redondo com uma pega trabalhada em prata e vejo-te aproximar de chapéu na cabeça.
Liliana
sábado, abril 16, 2016
se me SEM TE
Se acordasse sem te trazer do sonho
Se me olhasse sem a tua sombra
Se corresse sem a tua força
Se amasse sem o ter ser
Se me aquecesse sem o teu suor
Se me vestisse sem a tua cor
Se me encantasse sem os teus olhos
Se sorrisse sem a tua voz
Se cantasse sem o teu assobio
Se lesse sem a tua mão
Se contasse sem os teus dedos
Se me deitasse sem o teu corpo
Se adormecesse sem o teu respirar
Se te sonhasse sem estar acordada
Liliana
domingo, março 06, 2016
tornEIRA
Não abras a torneira que estou a suster a água dentro do peito.
Não acendas a luz que o espelho olha fixamente para os olhos que não mostro a ninguém para esquecer que os tenho.
Não respondas que falo somente para me ouvir, pintando a verdade de aguarelas que escorrem pelo ralo e não tarda se juntam ao rio.
Não me dês a mão que ela só sabe amparar, e nunca foi amparada.
Que sabor amargo é este que se me cola à garganta e se recusa a ser diluído, pelos mil argumentos, que junto no guarda-joias para os dias de tempestade?
Que tremor é este que me impede até de falar, me embarga a voz e me aperta o peito?
Que tontura dança em mim, rodopiando os meus pensamentos, em volta da sala, do quarto, até mesmo da cama?
Que mágoa é esta que abre rachas mais antigas que o nascer dos tempos, e se confunde com as dores de ontem e multiplica as de hoje?
Que solidão é esta que se senta ao meu lado, por muito que me confortem em abraços ocos do calor de quem sabe ler as entrelinhas?
Que vazio é este que me consome, e devora cada nova alvorada?
Abre a torneira que me afogo na água que trago no peito...
Acende a luz que preciso encontrar no espelho os olhos que a ninguém mostro...
Responde-me que preciso ouvir a verdade para além da que pinto com aguarelas no rio...
Dá-me a mão, devagar, como quem é amparado, para que não perceba que é a tua que me ampara...
Liliana
sábado, dezembro 26, 2015
cinema
Sim, sei como o filme vai acabar. Não o soube imediatamente quando comprei o bilhete e entrei na sala, escura, já com o genérico no grande ecrã. Mas assim que encontrei o meu lugar e me sentei, vi o desfecho atrás do grande plano sobre o meu sentir.
Sim, é verdade que me encostei (encosto) no sofá projectando as cenas de cada capítulo, esperando que desse lado não me digas "corta" de cada vez que te levantas e me dizes adeus. Vou guardando as películas dos dias claros dentro duma lua sempre cheia, para nas noites escuras, iluminar os meus sonhos.
Sim, eu sei que os arco-íris que me transportam para lá da acção fazem parte duma realidade cinéfila pouco fiel à realidade. Reconheço os elementos cénicos no outro lado do espelho e até percebo o guarda-roupa que condiz com os sapatinhos vermelhos.
Mas é nesse filme que sinto o descompassar do palpitar do coração e o calor húmido das imagens sugeridas e até mesmo o amargo de boca que, às vezes, se prolonga até à próxima sessão.
É nele que sou e me dou em todas as sequências e sequelas. E é nele que escolho actuar. E, sei que, nele não se vive só de ilusão.
Mas, sim, sei como o filme vai acabar.
quinta-feira, dezembro 10, 2015
pRoMeSsA
Abro a janela, alta, sob o céu baço de Lisboa. Ao fundo uma promessa de Tejo fala-me de ti. Há dias em que o longe que estamos se torna tão mais longínquo do que a distância que nos divide.
Há uma gaivota pousada em cima da chaminé do telhado em frente. Há uma mágoa que se estende por cima da ponte e apaga o rio. E há um choro, ou um canto, de mar fora do mar. E há uma gaivota que canta o meu inquieto olhar.
Abro a janela, alta, e atiro ao vento as palavras que não quero ouvir. Procuro as marcas dos dias claros e pinto o mapa das nossas Primaveras. É sempre mais difícil encontrar o teu norte quando o céu se veste de cinza.
Há uma chaminé e muitos telhados à minha frente. Há ruas e pessoas e carros, que passam, alheios a mim. E há uma promessa dum Tejo, ao fundo, que se esconde de mim.
E há uma gaivota que canta o meu inquieto olhar.
Liliana
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domingo, novembro 29, 2015
siLÊNcio
Esfrego o tacho e a frigideira do jantar de ontem com a esperança de lavar os fantasmas duma noite que passou, mas que teima em arrastar-se pela manhã e sentar-se a meu lado na mesa do almoço.
Arrumo os pratos na máquina e encaixo os talheres no cesto, de acordo com os seus tamanhos e feitios. Tento com eles organizar as ideias que aperto nas mãos mas que me fogem, como a água do lava-loiças que escorre pelo armário e molha o tapete colorido.
Procuro a organização exterior no caos interno que me leva sempre aos mesmos locais, tão gastos como 'as palavras pela rua' e a ti, tão inalcansável como os 'peixes verdes' que os meus olhos nunca chegar(am)ão a ser.
Ponho a mesa num ritual cénico, que uso como guarda-chuva para me equilibrar nos movimentos caóticos escondidos em cada gesto dançado.
As horas exponenciam esta tentativa de fuga à onda que sinto formar-se dentro do meu peito e que tenta, a todo o custo, soltar-se no meu corpo.
Às vezes tenho a sensação que posso ruir a qualquer momento, como um castelo de cartas que desmorona com o simples movimento do passar dos minutos. E por isso me pesam tanto, os segundos que agarro e guardo no armário, junto aos copos, virados para baixo para não se encherem de pó, o pó do passar do tempo.
Tiro a carne e a farinha, as batatas e o açúcar, as cebolas e a canela. Poiso tudo na mesa onde junto a batedeira, o tabuleiro e a forma. E o tacho e a frigideira que esfrego mesmo antes de usar, com a esperança de lavar os medos que acordam aqui mesmo, ao meu lado na mesa do almoço.
Procuro na paz exterior uma canção de embalar que adormeça o caos e a inquietação que nunca deixar(am)ão de habitar o silêncio que, por muito que tente, nunca se gasta(rá).
Liliana
terça-feira, novembro 17, 2015
NaDaS
Levantas-te dos nadas que partilhamos lado a lado e chamas-me para nós
Levantas-te de nós e chamas-me para dentro
Algo se perde na passagem para o quarto
Algo fica por sentir no sofá que deixo a olhar para a televisão acesa
Algo se apaga no corredor que percorro, sozinha, até ti
Entro descalça no quarto onde a cama, há muito, me trata por tu
Os lençóis, contigo por baixo, conhecem de cor o meu cheiro
E o livro que lês por cima da almofada está gasto de tanto o folhearmos
Num remoinho de sentimentos dispo-me, sozinha, para ti
Deito-me ao teu lado e procuro por mim nas palavras que lês
Falta algo neste quarto para que seja nosso
Falta a magia dos olhos e a sensualidade das vontades
Procuras-me debaixo dos lençóis e puxas-me para ti
A tua mão encontra o meu corpo e pergunta-lhe por mim
Nunca consegui congelar o calor do teu corpo no meu
Sorris para mim num beijo quente
os passos perdidos a perder importância
Embalas-me numa dança de roda
as sensações que balançam em mim
Desenhas-me o corpo com a ponta dos dedos
o calor a inundar os corpos e a acender
as vontades
as vontades
A cama e a almofada macia, abafam os gemidos que cortam a noite
E a torneira ao fundo, marca o ritmo das ondas
ora rápido como uma cascata, ora calmo como a chuva de outono
Os braços e as pernas confundem-se por entre os lençóis
E eu esqueço-me para me reencontrar em ti dentro de mim
Os nadas que partilhamos e o livro que relemos esperam à porta
As roupas espalham-se no chão como as migalhas de Hänsel
E as palavras apagam-se por não serem necessárias
Enrosco-me no teu abraço e não deixo que nada interrompa o nada que partilhamos
Liliana
quinta-feira, julho 30, 2015
aguarela (in)acabada
Olho-te. Demorada e persistentemente procuro encontrar-te neste eu teu que pareço desconhecer.
Oiço-te com a maior atenção que consigo convocar, apesar das palavras que dizes arranharem os quadros pendurados nas paredes cansadas, cúmplices de tantos dias, anos, que se sucederam num caminho a par.
Procuro no meio dos teus cabelos, os caracóis morenos que me aconchegaram o desejo nas noites em que, navegando no meu corpo, me fizeram desaguar no teu.
Esforço-me por enquadrar esta cena numa qualquer série americana, onde nada é coerente e o tempo corre ao sabor das audiências com a certeza dum final feliz.
Quem és tu que, desse lado da casa, me falas como se comigo não vivesses a história que vivi contigo?
Olho para ti e não encontro nada que me aqueça. O calor que ainda agora, neste Pólo a desnorte, arrepiou os meus sentidos e rasgou as minhas memórias arrefeceu a cozinha e enregelou o chão.
Teremos vivido a mesma vida ou, lado a lado, criámos duas estradas em dimensões paralelas?
Esforço-me por manter intacto o teu eu que, me parece agora, criei ao correr dos ponteiros numa aguarela inacabada. É que, ao olhar para ti neste momento, não identifico o modelo com o retrato. Atiro ao chão as telas. E as aguarelas, por secar, escorrem da entrada até à sala onde as tuas fotografias ainda falam de nós.
Olho-te com muita atenção, projectando os dias que passam no tecto do quarto, deitado na vida que não deixo avançar.
Encontro-me e perco-te, desenho-te e apago-me.
Espelho-nos, por fim, numa história que não escolhi mas que, demorada e persistentemente, tento aceitar.
Liliana
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